segunda-feira, maio 31, 2010

Os heróis e os da vida banal (II)


Há já bastante tempo escrevi um post com o título acima, a propósito de um comentário sobre os heróis das ONGs.
Retomo o assunto de uma perspectiva diferente mas partindo de outro comentário neste post:
"Quais são as suas prioridades? Chatear os poucos que ainda vão tentando fazer algum bem.".
É curioso como a crítica é entendida como um mal e não como um contributo para que as coisas corram melhor.
E que seja considerado absurdo criticar "os poucos que vão tentando fazer algum bem".
Vale a pena perder algum tempo a corrigir esta frase demagógica e errada.
Mas antes, respondendo à primeira parte, as minhas prioridades estão claramente elencadas neste post. Aumentar a custódia de território por parte de organizações de conservação. A que posso acrescentar, a democratização do acesso à biodiversidade e à informação sobre ela e aumentar a sustentabilidade das organizações com base na adopção de modelos racionais de gestão e captação de recursos.
Quanto ao resto, em primeiro lugar não é "os" mas "uns". Isto é, "os poucos que vão tentando fazer algum bem" não podem ser confundidos com os ainda muito menos "que vão tentando fazer algum bem" com o projecto que eu critiquei. Há muitas maneiras de ir "tentando fazer algum bem" e algumas dessas maneiras estão erradas. Ou mais precisamente, parecem-me erradas. E devem por isso ser criticadas, independentemente das intenções de quem vai "tentando fazer algum bem". O facto de serem poucos os que "vão tentando fazer algum bem" apenas tornaria mais urgente essa crítica, para que não se gastem os poucos recursos existentes em coisas de que afinal pouco bem resulta, independentemente das intenções de quem vai "tentando fazer algum bem".
Em segundo lugar não é verdade que sejam poucos. E isso é importante tornar claro. Há muita gente que "vai tentando fazer algum bem". O facto de haver alguns poucos que se pretendem erigir como puros promotores do bem, em oposição à generalidade das pessoas, decorre mais do seu sectarismo que da atenção à realidade. Bastaria falar do "Limpar Portugal", do "Banco Alimentar", do "Biodiversity4all", ou das dezenas de pequenas associações que existem pelo país fora para se perceber que ao contrário do que muitas vezes se diz, há de facto muita gente a tentar "fazer o bem" pelo país fora. Numa pequena associação com que colaboro, desde que se adoptou um modelo racional de captação de sócios há pelos menos um sócio por semana a entrar, havendo outras em que há bastante mais.
Em terceiro lugar, seria importante definir melhor o que é "tentar fazer o bem". A generalidade das personalidades mais conhecidas e influentes do movimento ambientalista, ou que apoiam o movimento ambientalista, como Jorge Palmeirim, Francisco Ferreira, Luisa Schmidt e muitos, muitos outros, já foram convidados a "prestar serviço público" assumindo responsabilidades de decisão em organismos públicos que muitas vezes criticam. Pois bem, estes e muitos, muitos outros recusaram várias vezes assumir essas responsabilidades de serviço público. Note-se, é uma opção perfeitamente legítima, não tem nada, absolutamente nada, de criticável. Mas é evidentemente absurdo considerar que quem tenta fazer o bem neste domínio são os que se recusam a ser "civil servants", mesmo que temporariamente, e os que aceitam fazer tudo o que eles fazem (produzir conhecimento, transmitir conhecimento, participar no debate público, voluntariar-se para o serviço comunitário não remunerado e por aí fora) e para além disso ainda correm o risco de aceitar responsabilidades de serviço público, são os malandros sem autoridade moral para criticar actuações concretas, feitas provavelmente com as melhores intenções, mas eventualmente erradas.
Era o que mais faltava.
Heróis somos todos e vidas banais temos todos. Se se quer mobilizar mais gente para "tentar fazer o bem" seria útil não começar por fazer distinções entre os intocáveis e os outros.

Adenda: continuo à espera, mas por via das dúvidas estou sentado, dos esclarecimentos que permitam demonstrar que os projecto criticado tem alguma relevância para a conservação e que não decorre simplesmente da necessidade de financiar o centro de recuperação e reprodução de aves da LPN. E continuo à espera que me digam por que razão a cria em cativeiro não faz parte das acções elencadas nas conclusões dos workshops sobre a conservação da espécie e mesmo assim foi assumida com esta relevância, em detrimento de outras identificadas como prioritárias e mais relevantes.
henrique pereira dos santos

sábado, maio 29, 2010

Biodiversidade - DIY

Resultado de uma sementeira biodiversa em Alcácer do Sal

Tenho a sorte de trabalhar numa empresa onde confluem três elementos necessários para poder dar passos concretos na conservação da biodiversidade: gere património rural; reconhece a importância de investir em biodiversidade e cria riqueza suficiente para o fazer (e sem ter de recorrer a financiamento público, claro).

Nos últimos anos tenho liderado vários projetos de restauro de áreas de conservação, alguns mais bem conseguidos que outros. Mas todos me ensinaram coisas relevantes:

1 - Biodiversidade pode ser promovida em qualquer espaço, independente do seu estado de conservação. É preciso ler a paisagem, vegetação e habitats para compreender o caminho lógico de recuperação ou conservação.

2 - Não é preciso muito dinheiro para implementar, com sucesso, medidas que criem condições para o desenvolvimento de valores de conservação. Aliás, até aprendi que escassez de recursos obriga a encontrar soluções mais eficientes logo mais sustentáveis.

3 - A capacidade de recuperação da biodiversidade é espantosa, surpreendente e raramente se compreende em pleno o resultado das ações de restauro ou conservação. Isto torna tão satisfatório o esforço nela e fomenta a ideia que depende sobretudo de nós para termos uma diversidade biológica mais rica ainda.

Orquídea (estou em crer), encontrada no projeto de restauro após intervenção

Salgueiros a surgir em linha de água recuperada

Em textos recentes (post e comentários a posts) poderei ter deixado a ideia que menosprezo os grandes problemas ambientais que estão a acontecer por esse mundo fora, com base em sucessos importantes mas locais. Além de não corresponder à verdade, procurei sobretudo mostrar que há exemplos que mostram a inversão de algumas tendências (mas não todos, lá está) e, mais importante, que a iniciativa local seja o caminho mais construtivo e mais positivo para apoiar a conservação e recuperação da biodiversidade. É minha convicção profunda que são os pequenos projetos locais que, através da sua multiplicação, contribuam com maior eficiência (mais importante que eficácia) à conservação da biodiversidade que projetos megalómanos.

Por fim, oponho-me à corrente fatalista tão em vogue, cujo contributo para a conservação da biodiversidade é pelo menos duvidoso.


A biodiversidade precisa de ação positiva, concreta e simples. É altura de por as mãos na massa.

Henk Feith




Prioridades

A primeira questão é: prioridades a que escala? E prioridades para quem?
Vou esquecer as prioridades a escalas muito globais: não tenho informação suficiente para ter uma opinião muito clara. O para quem veremos ao longo do post.
Do ponto de vista de conservação é em primeiro lugar preciso clarificar que a mudança é inerente aos processos naturais. E que essa mudança está em permanente mudança.
Portanto antes de mais é preciso perceber que variações para melhor ou pior em espécies ou sistemas são o normal. Excepcional é a estabilidade.
O que significa que o fundamental é olhar para os processos em detrimento da realidade em cada momento.
Em Portugal (aqui incluindo o que está para lá das fronteiras e se reflecte cá dentro), do ponto de vista expresso acima, é preciso olhar para as principais forças de modelação da paisagem e, a partir daí, perceber o que se vê em cada momento.
O que temos é um processo de razoável estabilidade demográfica, com forte expansão urbana e infra-estrutural, com abandono agrícola acentuado e com alteração da exploração da terra de sistemas mais intensivos para sistemas mais extensivos. Isto para a generalidade do território, com importantes excepções.
Daqui resulta uma contracção das clareiras e espaços abertos e uma recuperação notável da vegetação e dos sistemas naturais. O que significa uma maior dificuldade para as espécies que dependem do campo aberto e uma menor dificuldade para as que dependem da mata e de sistemas mais fechados.
Acresce que a pedra base dos sistemas tróficos existentes, o coelho, um animal de clareira, foi devastada por duas doenças brutais.
Este é o quadro que temos e do qual resulta que a primeira prioridade de conservação no país é recuperar as populações de coelho. A segunda, é manter a relação espaço aberto/ espaço fechado em níveis que permitam o refúgio das espécies dependentes do espaço aberto.
Significa que devem ser estas as prioridades das ONGAs?
Não, as ONGAs são grupos de interesse e as suas prioridades devem ser definidas em função do interesse dos seus sócios e não das prioridades de conservação do país.
Naturalmente uma ONGAs que resolve conservar a libelinha das bolinhas amarelas terá o número de sócios, e os recursos correspondentes, ao das pessoas que se interessam pela libelinha das bolinhas amarelas.
O que é grave é quando as ONGAs dizem que defendem a conservação em termos genéricos mas depois não sabem explicar por que razão na sua agenda este assunto está acima ou abaixo de outro (por exemplo nas vinte cinco espécies que a QUERCUS considera prioritárias é impossível saber por que razão a Leuzea longifolia, que nem sequer está especialmente ameaçada, está acima de muitas outras espécies da flora). E mais grave se torna quando com argumentos falaciosos capturam recursos públicos para as suas indiossincrasias.
O que leva a uma prioridade constante dos programas de conservação a todos os níveis, sobretudo tendo em atenção a mudança permanente: a correcta avaliação de resultados que permita uma gestão adaptativa.
E, pessoalmente, me leva a interessar-me mais pelas ONGAs que colocam no topo das suas prioridades a custódia sobre o território, isto é, a capacidade de tomar decisões de gestão sobre o território que assentam em compromissos de longo prazo apenas dependentes da vontade e dos recursos da organização.
Estamos longe disso. E eu tenho pena de que assim seja.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, maio 27, 2010

A reprodução e a conservação

Leio hoje no Público uma reportagem sobre a reprodução em cativeiro de francelhos.
Leio mas não percebo.
Por que razão existe dinheiro público a pagar a reprodução em cativeiro do francelho? Por que razão se só há consistência se se mantiver a reprodução pelo menos quatro anos há aprovação e execução de projectos só durante dois anos (depois logo se vê nos dois anos seguintes, mas vai com certeza ser feita a chantagem de que é uma estupidez não paroveitar o investimento já feito)? O que se pretende é reestabelecer uma população na cidade de Évora, porque há outra, em forte expansão, mas está a oito quilómetros.
250 mil euros? 125 mil euros por ano para reproduzir uns quantos francelhos para refazer uma população irrelevante do ponto de vista de conservação da espécie (aliás em forte expansão)?
Não tenho nada contra quem quer fazer reproduções em cativeiro com os seus próprios recursos, mas com o meu dinheiro? Ou melhor dizendo, com o dinheiro que entreguei ao Estado para se fazer conservação?
Francamente as máquinas de captação de projectos e criação de emprego artificial em que se estão a tornar algumas ONGs, com as mais piedosas intenções e justificações, começa a tornar-se demasiado pesada para o contribuinte.
Se a LPN quer brincar aos centros de reprodução e recuperação de espécies que peça dinheiro aos seus sócios (como é o meu caso) e aos seus mecenas, justifique por que razão devem os seus sócios e mecenas dar prioridade a essa afectação de recursos e contrate as pessoas envolvidas por concurso público.
Desviar o dinheiro dos contribuintes (sejam eles portugueses ou alemães) para questões marginais de conservação apenas por deleite de meia dúzia de pessoas pode ser muito gratificante no curto prazo, mas vai implicar muito anos de recuperação para o movimento ambientalista quando a insustentabilidade de tudo isto se impuser.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, maio 26, 2010

Morte e extinção (II)

Imagem da necrópsia do macho de águia imperial abatido. O relatório da necrópsia pode ser lido aqui.
A propósito da águia imperial morta no ano passado e subsequentes discussões escrevi alguns posts há tempos, aqui e aqui, por exemplo.
O Secretário de Estado Ambiente terá dito este sábado:
A Ministra do Ambiente terá dito:
Vamos esquecer as justificações, que são meramente políticas e sem nada que as suporte, vamos admitir que há eventualmente algum exagero na contabilização (não sei se há) e mesmo assim o que vemos na evolução da águia imperial é exactamente o que tinha sido previsto neste blog (mas não pelas associações que usaram a dramatização do costume): a morte do macho de um casal de águia imperial é um caso de polícia, mas está longe de ser um problema importante de conservação.
Não tenhamos dúvidas: se as populações de coelho continuarem a recuperar como aparentemente estão, também recuperarão os predadores que lhe estão associados, incluindo o lince e o lobo ao Sul do Douro.
Esqueçam as estradas, as barragens, os fios eléctricos, a perturbação, a caça e essas coisas todas que pontualmente e em algumas circunstâncias podem de facto ter algum impacto porque o que estas espécies têm é fome.
henrique pereira dos santos

terça-feira, maio 25, 2010

Epifania

imagem: lenda do fogo, Paula Rego
Li ontem, no Público de sábado, que estavam a ser preparados uns indicadores de biodiversidade para Portugal. Há anos, aliás, que o assunto é tratado sempre da mesma maneira: o ICNB paga a uma equipa de investigadores para desenvolver indicadores, as equipas universitárias desenvolvem, recebem, o resultado desse desenvolvimento nunca é usado, entre outras coisas por ser manifestamente inaplicável e passados tempos vem outra vez alguém dizer que nos próximos meses teremos uma bateria de indicadores que está a ser desenvolvido por um centro de investigação xpto. Em todo o processo ninguém se lembra de perguntar se sistemas de indicadores são matérias de investigação científica ou simplesmente de concertação social, mas penso que isso é irrelevante.
O que me chamou a atenção foi a referência aos temas dos indicadores que já se saberia que fariam parte da futura lista de indicadores. Entre eles estavam os fogos florestais.
Claro que não liguei muito porque confesso que nestas matérias me interesso muito mais pelo que já foi feito em concreto que pelos anúncios de um mundo novo que está para vir, por isso encolhi os ombros, pensei com os meus botões que indicação dariam os fogos florestais em matéria de biodiversidade em Portugal (penso que nenhuma) e segui.
À tarde tive uma aula e finalmente fez-se luz no meu espírito.
Realmente com a minha quadrada cabeça cartesiana (e ter uma cabeça cartesiana não é um elogio, é o reconhecimento de uma limitação) pensei que iam analisar os fogos florestais como indicador de boa ou má evolução da biodiversidade.
Na aula todo um novo mundo se abriu para mim e finalmente vi a ligação entre os fogos e a biodiversidade, com as possibilidades de aplicação das chaves dicotómicas aos diferentes fogos.
A biodiversidade ficará sem dúvida muito mais rica rapidamente.
Um raio de luz fendeu a couraça de ignorância que me tinha impedido de ver o futuro no breve instante em que o professor classificou o fogo como um herbívoro não selectivo.
henrique pereira dos santos

Acho que estamos no fim. Não queria que fosse a minha geração que vai vê-lo...


As empresas portuguesas são tão amigas dos concidadãos, não são?

Onde está errado: a ditadura do automóvel, que não queremos largar ou a BRISA que despedirá mais trabalhadores para lucrar uns patacos [ver notícia] e a fazer o que bem lhe apetece?

Que força é essa amigo, que força é essa?

Estou a pensar porque é que os nossos governantes e deputados recebem o subsídio para comprar o Passe Social L123, no valor de 170€ e ainda têm carro e motorista?


Estou a pensar porque raio digo aos meus alunos e pais usem os transportes públicos, quando raios é sempre mais caro, atrasado e ainda por cima há menos autocarros e paragens?


Estou a pensar porque raio digo aos meus alunos há estudos em Portugal e eles têm que fazer uma busca tão detalhada e curvilínea na internet para chegar ao que interessa na matéria de Ambiente e seu estado??

Estou a pensar porque raio já há já alguns bancos, empresas a aderir a programas de sustentabilidade, mas o sinal que vemos é que podem estragar o resto, porque comprometeram-se a plantar x árvores num sítio qualquer, quando é aquele rio Sabor o da minha juventude, é aquela X quinta que me recordo do Porto, é aquele Parque Real que adorava, etc...




Não sei, mas querem mesmo acabar com o mundo humano.

Só não queria que fosse a minha geração a vê-lo!


segunda-feira, maio 24, 2010

Biodiversity4all (V)

Uma vez mais torno a este projecto. Sábado era o dia internacional da biodiversidade e o dia B, do programa BioEventos que assinala o ano internacional da biodiversidade.
O dia B pretendia que as pessoas fossem para o campo e assinalassem observações, regitando-as na base de dados Biodiversity4all.
É natural que ainda não estejam registados todas as observações recolhidas nesse dia, mas mesmo que não haja mais nenhuma gostava de assinalar que já estão registadas nesse dia quase 250 observações.
E que estão registadas na base mais de 640 observadores. Eu sei que é preciso não nos deixarmos enganar por este número, porque até eu estou lá registado e o meu contributo como observador será sempre muito próximo do zero (não quero ser responsável por aumentar a taxa de identificações erradas que necessariamente existem neste tipo de sistemas).
E a base já tem mais de onze mil observações.
Os portugueses já são preponderantes em quase todas listas de observadores mais activos (estão organizadas por grupos) e em termos absolutos de mais espécies registadas, Paulo Eduardo Cardoso já está em segundo.
Às vezes dizem-me que os portugueses não são mobilizáveis, não se associam, não partilham organizadamente interesses comuns e não são participativos.
Às vezes não acredito.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, maio 21, 2010

Ignições

Luis Lavoura diz na segunda ou terça feira, comentando este post:
"Agora não arde nada, Henrique. A terra ainda está totalmente húmida das últimas chuvas, como pude constatar ainda este sábado".
Penso que na quarta, terei respondido:
"Veremos se a previsão se mantém (para já mantém) e veremos os resultados no fim da semana. Estou convencido de que nada de muito relevante se passará, mas que o efeito (do episódio de vento Leste em curso até sexta ou sábado) se notará.".

Os valores não são muito relevantes, é certo, mas gostaria de fazer notar alguns aspectos (revisão da matéria dada tendo em vista a época de fogos que agora começa).
No dia 14 de Maio, há zero fogos registados em Portugal, o que só acontece em dias de chuva. No dia quinze Domingo há 10 fogos registados, normal, dadas as circunstâncias (chuva recente, ano húmido e por aí fora, como bem fez notar o Luís Lavoura). Ao fim do dia de Domingo (15 de Maio) começa a sentir-se o tempo característico das condições meteorológicas associadas ao vento Leste.
Mas só ao fim de segunda feira, se bem me lembro, se sente a verdadeira secura associada a estas condições meteorológicas. É nessa altura que escrevo o post acima citado (quase às onze da noite).
O número de fogos na segunda feira é pouco maior que o número de Domingo, mas terça e quarta há um aumento de 30% mais ou menos em cada dia e ontem, quinta, um aumento de quase 50%. E do momento em que escrevi o post até ontem o aumento acumulado do número de fogos é de 650% (partindo dos dez fogos de Domingo como 100%, os 65 de ontem representam 6,5 vezes a mais, em cinco dias). E, também relevante, um aumento muito mais acentuado do número de bombeiros envolvidos no combate.
Perguntaram-me um dia qual era o interesse de olhar para o número de bombeiros envolvidos no combate (ou para a relação número de bombeiros/ número de fogos). Acredito que esta é uma forma fácil, embora imperfeita e aproximativa, de medir a dificuldade de extinção dos fogos. Se eu tiver razão, então ontem a dificuldade de extinção subiu e muito: em relação ao dia anterior há mais que uma duplicação do número de bombeiros, embora o número de fogos apenas tenha aumentado 50%.
O que é relevante nestes números não são os valores absolutos, mas sim o efeito da entrada de condições meteorológicas como as que estamos a ter. Partindo de condições como as descritas pelos Luís Lavoura, o resultado absoluto é perfeitamente gerível. Mas partindo de condições como as que se encontram em Agosto e Setembro, episódios de cinco dias seguidos destas condições rebentarão facilmente com a estratégia oficial de extinção do fogo em fases iniciais baseada na rapidez da primeira intervenção porque o número de fogos diários passará facilmente dos 300 fogos, e em alguns deles a primeira intervenção falhará, levando à ruptura da doutrina de intervenção.
Tudo isto me leva à discussão da relevância do número de ignições (uma questão importantíssima para alguns que nos consideram um povo de pirómanos irresponsáveis) na estratégia de gestão do fogo em Portugal.
Confesso que não vejo onde esteja a evidência, ou pelo menos o indício, da relevância do número de ignições para a discussão.
Por um lado o mapa do número de ignições está desfasado do mapa da área ardida (há ignições no Noroeste povoado, mas há área ardida no interior centro despovoado). Por outro, como demonstro neste post, mas já o fiz muitas outras vezes, o número de ignições, com os mesmos pirómanos irresponsáveis, varia enormememente em função das condições meteorológicas de cada dia, pelo que esta correlação apontaria mais para causas meteorológicas (ou se preferirmos, edáfo-climáticas) que sociais como estando na origem da nossa elevada contabilidade de número de fogos (para os fanáticos das especificidades portuguesas que demonstram a nossa inferioridade como povo aconselho a olhar para as Espanhas e verificar que mais de 50% dos fogos em Espanha se localizam na Galiza).
O argumento seguinte é o de dizer que ainda que assim seja seria bom reduzir as ignições porque isso reduz a probabilidade de termos incêndios de grande dimensão.
Este argumento é errado.
É errado porque a probabilidade da existência de grandes incêndios não está relacionada com o número de ignições, mas sim com uma ignição concreta em determinada condições meteorológicas
Ou seja, é irrelevante a probabilidade de ocorrência da ignição porque basta uma (e haverá sempre ignições, pelas mais variadas razões) para que exista um forte impacto se as condições meteorológicas estiverem favoráveis ao desenvolvimento do fogo.
Estamos perante um fenómeno em que a estatística Gaussiana é inútil.
Não estamos perante Cisnes Negros porque as condições de ocorrência são perfeitamente previsiveis, mas estamos perante fenómenos que nada têm que os relacione com o tratamento estatístico de eventos com distribuições de ocorrência próxima de curvas de Gauss.
Para quem leu o livro, facilmente reconhecerá aqui a leitura recente do Cisne Negro, aconselhada por um dos meus orientadores.

Adenda
Como se pode ver no gráfico abaixo, a alteração das condições meteorológicas que se começaram sentir a partir de Sábado pararam a subida do número de fogos diário. Note-se no entanto que os efeitos destes cinco dias de vento Leste como que colocaram as coisas num patamar diferente, o que é natural pelo efeito de secagem que estas condições meteorológicas induzem. A partir daqui dependerá das condições que se forem encontrando, mais vento, menos vento e por aí fora. Mas nada de muito dramático até aparecerem novos episódios de vento Leste, cujo efeito dependerá da velocidade do vento e do número de dias seguidos nessas condições meteorológicas. Note-se a imediata descida do número de bombeiros envolvidos no combate, apesar da manutenção do número de fogos, indiciando uma muito maior facilidade na extinção dos fogos. Verdadeiramente o que está em causa é mais o problema da extinção dos fogos, que o das suas ignições, pouco relevantes para uma gestão de fogo socialmente útil.
henrique pereira dos santos

terça-feira, maio 18, 2010

lutos difíceis (tempo) 1


Babuíno, PN Kruger, África do Sul
(Maio de 2010)
Esta fêmea de babuíno que acompanhei ao longo de algumas manhãs, segurava o corpo do seu filhote, nado-morto ou com muito pouco tempo de vida. Enquanto o resto do grupo passava o tempo em brincadeiras e busca de comida, esta fêmea, com ar triste ou mesmo deprimido, isolava-se, não participando nas actividades com os seus companheiros. Não parecia gostar que outros macacos se aproximassem. Deixava-os observar, cheirar o corpo da sua cria, reagia agressivamente à tentativa curiosa, dos mais jovens, de tocarem no corpo.


E trouxe-me à memória um poema de Amalia Bautista… 


Ao Fim 

Ao fim são muito poucas as palavras
que nos doem a sério e muito poucas
as que conseguem alegrar a alma.
São também muito poucas as pessoas
que tocam o coração e menos
ainda as que o tocam muito tempo.
E ao fim são pouquíssimas as coisas
que em nossa vida a sério nos importam:
poder amar alguém, sermos amados
e não morrer depois dos nossos filhos.


E ali ficou dias, talvez semanas, como me referiram alguns guias do parque, no seu difícil luto. Porque o tempo, para estes seres, não urge como para nós humanos.

Gonçalo Rosa

segunda-feira, maio 17, 2010

Só para lembrar

Os próximos dias mantêm a previsão de vento Leste até quinta feira pelo menos, e hoje quase todos teremos sentido na pele o característico calor e secura que o acompanha.
Veremos o que para aí vem. O que arder agora será uma benção e um aviso para o que possa vir lá mais para a frente, se se verificarem condições meteorológicas que não têm existido nos últimos anos.
henrique pereira dos santos

Barão de S. João

Roubei a fotografia à Almargem
Leio no Público que terá sido ontem inaugurado o Parque Eólico de Barão de S. João.
Cruzei-me em várias ocasiões com este projecto, sempre na posição de quem tinha a responsabilidade de salvaguardar os interesses da conservação no processo de licenciamento. A primeira vez que tomei contacto com o processo já ele tinha uma longa história, com algumas asneiras evidentes por parte de conservacionistas que acham que as suas opiniões devem ser acatadas por direito divino e não por traduzirem, de forma fundamentada, o que está escrito na lei.
É um exemplo bastante bom dos projectos em que tive tantas discussões com os promotores, licenciadores e etc., que apoiavam o projecto, como com os meus colegas da conservação que entendiam que o projecto deveria ser liminarmente chumbado. Tem a particularidade desta situação ter sido ilustrada por um email tresmalhado de um dos consultores do promotor ter vindo parar inadvertidamente à minha caixa de correio pedindo a técnicos do ICNB que chumbassem o projecto, ao mesmo tempo que se assinavam estudos que diziam o contrário.
Mas não é sobre miséria moral que quero fazer um post, é mesmo sobre como foi construída a decisão.
O projecto foi inicialmente contestado liminarmente pelos conservacionistas pois localiza-se no principal corredor migratório conhecido em Portugal, o que certamente implicaria impactos muito grandes para a avifauna que usa aquele corredor.
Duas questões se levantaram contestando esta ideia base: 1) em concreto qual é a dimensão e configuração do dito corredor?; 2) outros parques eólicos já existentes no dito corredor estavam a ser monitorizados e os resultados não confirmavam a ideia de elevada mortalidade de espécies protegidas migradoras (nem de outras, diga-se em abono da verdade).
Como é costume em conservação, uma outra questão foi levantada: um casal de águia de bonnelli andaria por ali e aquele era potencial sítio de nidificação qualquer dia (é frequente quando aparece um projecto de que alguns conservacionistas não gostam para um sítio qualquer aparecer também informação de conservação que justificaria o chumbo imediato do projecto com base no princípio da precaução).
Com a pressão conhecida (e legítima) para a produção de energias renováveis, qualquer dificuldade no licenciamento deste tipo de projectos tinha como consequência eu ouvir o que Maomé não disse do toucinho (diga-se em abono da verdade, mais dos diferentes organismos do Estado e tutela política que propriamento dos promotores, de maneira geral muito mais razoáveis e racionais que os caniches de que a administração pública está cheia, sempre a abanar a cauda à voz do dono).
O resultado foi o chumbo do projecto tal como estava previsto e naquele momento, embora com reconhecimento de que a decisão poderia ser revista se a informação sobre a águia de bonelli fosse mais consistente (o princípio da decisão era de que na dúvida é preciso tratar o risco como um facto) e a informaçaõ sobre a migração fosse também mais consistente, permitindo assim discutir o risco de forma mais racional.
Como disse lá ouvi o costume (para alguns dos que me lêem neste blog pode parecer estranho, mas eu era considerado um perigoso radical conservacionista em alguns meios, ao mesmo tempo que noutros meios, o que se reconhecerá mais facilmente, um perigoso vendido aos interesses).
O projecto fica suspenso enquanto durante um ano se estuda a bonelli, mais a migração, mais se refina a informação sobre a mortalidade nos parques eólicos existentes.
Sobre a bonelli a coisa ficou mais ou menos resolvida (a espécie está em expansão na zona, não há grande notícia de afectação por infra-estruturas, os factores de ameaça são conhecidos e é, portanto, possível desenhar medidas compensatórias de modo a compensar o risco diminuindo os factores de ameaça da espécie).
Sobre a monitorização dos parques eólicos existentes confirma-se a informação de que não há grande mortalidade, a que há não é de espécies protegidas em migração e que grande parte do que se sabe indicia que um maior afastamento dos aerogeradores (deixando um sim, outro não, na proposta) resolve uma das causas de mortalidade identificada: ao detectar um aerogerador as aves desviam-se de forma brusca e vão morrer no aerogerador do lado. Mais, a monitorização, com um Estado sempre desconfiado, foi feita com duas metodologias sobrepostas, uma pelo promotor e outra pelo Estado, com a participação da SPEA, penso eu, sendo que os resultados mais favoráveis à conservação, e mais desfavoráveis para o promotor, são os do estudo do promotor.
Sobre a migração um acompanhamento aturado permite perceber que a grande maioria das aves voam a alturas que não interferem com os aerogeradores (ou dizendo melhor, os aerogeradores estão colocados a alturas que não interferem com o vôo), sendo muito reduzidas as probabilidades de interacção entre o parque eólico e a migração.
Ainda assim, o risco existe.
E chegamos ao ponto mais interessante deste projecto: a medida de minimização duríssima e complexa, que acabámos por impôr, procurando desenhá-la em todos os pormenores que permitissem a fiscalização pelo Estado do seu cumprimento. A medida não foi desenhada pela administração, foram sim definidos os seus parâmetros, de forma clara, racional e fundamentada em razões de conservação, de necessidade de transparência e capacidade de fiscalização. Foram ainda sugeridas as tecnologias com base em radar para a sua aplicação. O resto foi feito pelos consultores.
Definiu-se um perímetro na envolvente alargada do parque eólico, e impôs-se que se um número mínimo de aves de espécies definidas (foi aí que eu percebi as fragilidades do livro vermelho, ao notar que as espécies ameaçadas, que era o primeiro critério que nos pareceu lógico, incluíam espécies abundantes e vulgares, o que me levou a ir estudar por que razão eram consideradas ameaçadas, estudo esse que achei muito instrutivo, não tanto em matérias de conservação mas especialmente em matérias relacionadas com a psicologia de grupo) entrassem no perímetro os aerogeradores tivessem de ser imediatamente parados.
Caiu o Carmo e a Trindade, quer por parte do conservacionistas que desde o primeiro momento (e penso que ainda hoje) acham que o parque eólico não deveria ser autorizado naquele sítio, quer por parte dos promotores e seus "facilitadores" na administração, para quem a medida implicaria a inviabilidade do parque eólico.
Leio hoje no Público que o parque foi ontem inaugurado e inclui tecnologias portuguesas inspiradas na NASA para dar cumprimento a esta medida.
Dentro de dois anos, graças às fortes obrigações dos promotores em matéria de monitorização, teremos uma ideia se foi uma boa ou má decisão autorizar este parque eólico.
Eu não sei, sei apenas que aprendi muito em processos deste tipo, quando procurei levar a conciliação da conservação e da actividade económica ao limite do possível, especialmente quando os projectos tinham outros benefícios ambientais inquestionáveis.
E arranjei mais inimigos do que alguma vez pensei ser possível. De um lado e do outro das barricadas, como acontece a qualquer mestiço.
Mas também é verdade que para além de dormir hoje muito descansado, há uns quantos que concordando ou discordando do que digo, demonstram um respeito confortável para comigo.
Thanks a lot, para estes.
henrique pereira dos santos

domingo, maio 16, 2010

E lá vai outro

Parece uma rolha de cortiça, não parece? Bom, veja melhor e descubra que não é. Foi sacada desta garrafa:
E lá vai outra marca emblemática Portuguesa pelo caminho dos vedantes artificiais. Não é um screwcap esta vez, mas uma rolha plástica. Pior, porque pretende ser algo que não é. A Quinta do Côtto pelo menos assumiu a sua opção, a Quinta do Carmo (Bacalhôa Vinhos) nem essa coragem tem.

Continuo a achar que a questão das rolhas de cortiça é uma questão do consumidor mais que do produtor. Se o consumidor discordar da utilização de vedantes diferentes dos feitos de cortiça, devia abdicar de os comprar. Simplesmente.

Henk Feith

Competição cerrada

imagem retirada do site do promotor, que vale a visita
A imagem do sítio da plataforma, tirada do site da QUERCUS, bem demonstrativa da adequação do sítio à construção de armazéns
Nas apresentações que faço dou com frequência o exemplo da plataforma logística de Castanheira do Ribatejo como a decisão mais estúpida que conheço do ponto de vista do ordenamento do território: aterrar 100 ha dos melhores solos agrícolas do país em pleno leito de cheia do Tejo para construir armazéns é uma coisa que nem o texto delirante da wikipedia sobre o assunto consegue fazer-me compreender:
"A Plataforma Logística de Lisboa Norte é uma plataforma multimodal, que está a ser criada com o intuito de dar apoio à Área Metropolitana de Lisboa e porto de Lisboa. Esta plataforma é servida por uma rede de transportes rodoviários, ferroviários e marítimos e o seu objectivo é uma dinamização da economia nacional/regional, visto que interliga os fluxos logísticos internacionais, nacionais e regionais com a região de Lisboa e Vale do Tejo. Além disso, esta plataforma logística alarga o hinterland portuário, através da oferta de actividades logísticas complementares das portuárias (Portugal, 2006, p. 22). O área de influência desta plataforma estende-se a 3,2 milhões de pessoas e 45 por cento do PIB industrial nacional. A empresa construtora desta plataforma é a Abertis Logística. Segundo esta empresa serão criados 17 500 postos de trabalho, sendo cinco mil postos de emprego directos. Esta plataforma com um investimento de cerca de 370 milhões de euros, ocupa uma área de 100 ha entre a central termoeléctrica do Carregado e a nova estação de caminho-de-ferro de Castanheira do Ribatejo. Em 2011 são comercializados os primeiros armazéns e está a laborar totalmente em 2018 (Lopes, 2008).
A plataforma possui áreas logísticas diversas, tais como: multifunções/multicliente, monocliente, especializadas e de transformação. A plataforma envolve também um terminal intermodal marítimo e ferroviário; serviços de apoio a empresas e veículos; e áreas de negócio e comércio. Com a função de auxiliar a plataforma, a estação de caminho-de-ferro de castanheira do Ribatejo possui uma dupla função de mercadorias e passageiros, com a possibilidade de ser efectuada uma quadruplicação da via, tudo isto num território próximo da plataforma (Venda, 2007)."
Mas por estes dias a posição confortável desta plataforma no campeonato da idiotia em matéria de ordenamento do território parece estar seriamente ameaçada:
parece que vem aí a linha de TGV entre o Caia e o Poceirão.
Da sim, dia não, vou confirmando que a maior ameaça ambiental em Portugal é o endividamento.
henrique pereira dos santos

sábado, maio 15, 2010

Paciência de santo

Tretas publica o gráfico acima que construiu a partir dos dados de produção de energia de origem eólica do primeiro trimestre deste ano porque na lista Ambio eu disse que tenho ouvido muitas vezes o argumento de que há mais vento à noite mas gostava de ver os números para ter uma noção do que isso significa (no eixo dos xx estão as horas, no dos yy a produção eólica).
Tretas consegue no post que faz a propósito de uma pergunta tão simples dizer meia dúzia de coisas que demonstram a necessidade de uma visita urgente ao psiquiatra para resolver os seus fantasmas:
"Na lista de correio electrónica ambio, de acesso restrito...Lá porque é restrita, não quer dizer que o Ecotretas não veja!"
A lista a que se refere o tretas é a que está referida na entrada deste blog (do qual é aliás a origem) e qualquer pessoa se pode inscrever nela. Mas o tretas quer dar a ideia de que há umas coisas que se discutem pela calada. Vindo de um pessoa que se esconde no anonimato e não permite comentários no seu blog parece apontar para a verdadeira identidade do tretas: a maluquinha de arroios.
"peguei nos dados publicamente disponíveis... e produzi o gráfico ao lado, em menos de 5 minutos"
Acontece que o tretas sabe que os dados estão disponiveis em formatos pouco fáceis de usar e que ir buscar esses dados demora muito mais que cinco minutos (o tretas faz o gráfico em cinco minutos proque noutra altura já foi buscar os dados e os tratou, calculo que bem, mas ele não explica o que fez com os dados). Pretende passar a ideia de que eu não faço o gráfico porque quero torcer a informação. Não, eu não faço o gráfico porque coligir esses dados me leva muito tempo e o seu significado é bastante restrito (uma vez mais, o tempo é muito variável e portanto seria bom ter normais climatológicas em vez de dados de períodos aleatórios e neste caso reconhecidamente anormais). Não quero dizer que o gráfico não tenha significado, quero apenas dizer que a sua produção tem para mim um custo demasiado elevado para o benefício que possa tirar dele.
"Ele mostra como no primeiro trimestre existiu sobretudo produção de energia eólica durante a madrugada, o que serviu sobretudo para exportá-la a custo zero, ou valores próximos. Quando ela era realmente necessária, o vento inconvenientemente eclipsou-se!"
É nesta frase final que o tretas mostra em todo o seu esplendor a forma como esta discussão está completamente transformada num benfica x sporting em que cada um diz o que lhe apetece, com base em meias verdades.
Note-se que o que o gráfico mostra é que há mais produção eólica num período bastante alargado, sensivelmente entre as oito da noite e as nove da manhã, com um período de produção intermédia das seis às oito da tarde e outro entre as nove e as onze da manhã. Mais ou menos do meio dia às seis há uma produção ainda apreciável mas bastante menor.
O diagrama de consumo mostra uma utilização maior entre as nove da manhã e as onze da noite. Ou seja, há um desencontro entre produção e necessidade que está longe de ser absoluto e que tem horas de sobreposição apreciáveis.
Só que o tretas aproveita para considerar todo o período de elevada produção como se fosse para exportar a custo zero, com base em três semanas de chuva anormal. Típica esperteza saloia de pegar em duas verdades e juntá-las de forma mentirosa (é verdade que o período de maior produção é de madrugada, é verdade que há alguns períodos de exportação a custo zero, é inegavelmente mentira que essa produção serviu sobretudo para exportação a custo zero ou perto disso).
Para além de ser um entusiamo pueril com a argumentação dizer que o vento se eclipsou quando era preciso, o que o gráfico desmente.
Em qualquer caso obrigado pelo gráfico que responde à minha pergunta parcialmente (preciso agora de ver se encontro normais climatológicas com intensidades horárias de vento) e fico assim com ideia da ordem de grandeza do tal problema da produção eólica nocturna.
Ideia essa que me deixa bem mais descansado. Pensei que a situação fosse mais acentuada. E não é o facto do tretas começar o gráfico cá em cima (em vez do zero no eixo dos yy) para graficamente parecer que se passa do simples para o dobro que me vai deixar preocupado. Parece-me que com uma produção de 85% do pior período horário face ao melhor período de produção é completamente ridículo o argumento que tem sido usado (que a produção é para exportar a preço zero e quando é preciso não há produção eólica).
Tretas, aqui procura-se informação e não impôr uma agenda, como no teu blog.
Adenda Aqui fica o gráfico começando no zero de produção e não nos 95000 como faz o excel automaticamente. Os meus valores são aproximados e por leitura do gráfico do tretas, pode haver pequenas discrepâncias.

henrique pereira dos santos

sexta-feira, maio 14, 2010

Nyctalus leisleri

Lowlander, nos seus comentários sobre este post, insurge-se com a minha reacção ao que me pareceu uma dramatização não fundamentada da detecção de mortalidade na espécie Nyctalus leisleri, provocada por parques eólicos.
Façamos um resumo:
Francisco Amorim, na sua tese de mestrado, faz um comentário lateral sobre o facto da espécie em causa ser uma das que mostram maior mortalidade em parques eólicos, concluindo que esta mortalidade "pode implicar impactes negativos preocupantes em espécies que podem vir a ter um estatuto desfavorável".
Eu faço um post dizendo que se trata de uma dramatização artificial dessa mortalidade com base em possibilidades não fundamentadas (a de que a mortalidade pode implicar impactes negativos preocupantes e a de que a espécie pode vir a ter um estatuto desfavorável). A crítica nasce do facto de eu achar que escolher estas hipóteses e não as suas inversas (a de que a mortalidade pode não implicar impactos negativos preocupantes e a de que a espécie pode não vir a ter um estatuto desfavorável, pelo menos tão legítimas como as outras face ao que se sabe da espécie e na minha opinião até mais prováveis) não é uma opção inocente, é uma tendência de dramatização na área da conservação que deve ser combatida porque afecta a credibilidade da informação que se produz e conduz a afectações erradas de recursos nas políticas de conservação.
Francisco Amorim, num comentário vem esclarecer que apenas quiz dizer que está a ocorrer mortalidade numa espécie que não sabemos se caminha ou não para a extinção e que daí decorre a conclusão óbvia de que é urgente estudar a espécie.
Eu contesto a ideia de que essa conclusão seja óbvia porque afectar recursos ao estudo de uma espécie é sempre retirar recursos a outro lado qualquer, portanto é preciso cautela na definição do que é realmente importante.
É aqui que entra o Lowlander dizendo que é normal que os cientistas digam que é preciso estudar uma espécie se faltam dados para saber o seu estatuto de ameaça.
Eu faço notar que o que o Francisco diz é que se o livro vermelho dos vertebrados classifica a espécie como informação insuficiente isso conduz imediatamente à urgência de estudo, o que não é verdade porque há mais informação que a usada pelo livro vermelho que permite dizer que não é provável (é possível, mas não é provável) que a espécie esteja ameaçada.
Lowlander diz então que se eu quero contestar o que diz o livro vermelho é melhor escrever um artigo com peer review a apontar as falhas, em vez de fazer comentários em blogs.
Não percebo porquê.
O Livro Vermelho não é um documento científico nem é escrutinado cientificamente pelos métodos normais de escrutínio da ciência. O Livro Vermelho é um documento administrativo e um instrumento de gestão das políticas de conservação. No caso de Portugal até é um bom livro vermelho, com muita informação e bastante estruturado. Mas que tem o problema de sofrer do mesmo que o tal parágrafo do Francisco Amorim: tem muitas afirmações cruciais não fundamentadas e tem muitas opções sempre no sentido da dramatização.
Já falei sobre isso neste post.
Mas faço de novo uma análise sobre o Nyctalus leisleri para se perceber melhor o que quero dizer.
O que diz o livro vermelho sobre esta espécie?
Que tem uma larga distribuição desde Portugal ao Norte da Índia e do Norte de África à Holanda, e que não há informação sobre a dimensão da população e sobre a sua tendência.
Para fundamentar estas afirmações aparecem referidas publicações de 1999 e nada mais recente. Ora acontece que na altura da elaboração do livro vermelho, e mais ainda hoje, existia muita informação proveniente dos estudos dos parques eólicos (e outras) que se não permitem estimar a população e as suas tendências, permitem pelo menos dizer que sempre (ou quase) que se fizeram prospecções com ultra-sons foi detectada a espécie. Sendo certo que isso não permite dizer se a espécie tem algum estatuto de ameaça, já permite dizer que parece ser suficientemente abundante e de larga distribuição para ter uma presença tão ubíqua, pelo que dificilmente a espécie estará ameaçada.
Ora o livro vermelho ignora toda essa informação (tal como o Francisco Amorim no seu comentário).
Porquê?
Não sei, nem o livro vermelho explica.
Mas suspeito que seja porque as pessoas acham mais seguro dramatizar.
Acham mal.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, maio 13, 2010

Os políticos portugueses subestimam a biodiversidade ao arrepio dos seus eleitores

Recentemente foi publicado um relatório do Eurostat que sugere que os Portugueses são o povo europeu mais preocupado com a perda de biodiversidade. No entanto, a questão da perda da biodiversidade continua a estar no fundo das preocupações dos nossos políticos. Outra explicação não haverá para o contínuo agravamento do sub-financiamento do ICNB claramente demonstrado pelo Gonçalo Rosa num texto recente da ambio. Este sub-financiamento limita de forma muito preocupante a capacidade operacional dos funcionários e vigilantes das nossas áreas protegidas.

Mas o que me leva a falar disto hoje é algo diferente. Estou neste momento em Nairobi no encontro da "Subsidiary Body on Scientific, Technical and Technological Advice" da Convençao da Diversidade Biológica. Vim apresentar os resultados do Global Biodiversity Outlook 3 (GBO3) e do relatório associado sobre cenários para a biodiversidade, do qual eu e o Miguel Araújo somos co-autores com outros cientistas. Ao olhar para a lista (disponibilizada no CD do GBO3) dos países que ainda não submeteram o 4º Relatório Nacional da Convenção da Diversidade Biológica, utilizados para fazer a aferição do objectivo de reduzir a perda de biodiversidade até 2010, encontro Portugal. É verdade que apenas 60% dos estados membros da UE entregaram já os seus relatórios, mas não deixa de ser surpreendente que no país onde 72% dos cidadãos considera a perda de biodiversidade um assunto muito sério, o nosso governo ainda não tenha submetido o seu relatório.

E já agora na sequência do texto do Henk Feith, a imagem abaixo retirada do Global Biodiversity Outlook 3 mostra vários indicadores globais de biodiversidade que sugerem que o declínio da biodiversidade continua.

Quinta-feira da espiga


Esta fotografia veio daqui
Mais um ano sem que o movimento ambientalista (maioritariamente urbano) acorde para a importância de explorar as ligações ancestrais das pessoas comuns com o campo.
Dentro de dias, no dia 22, dia internacional da biodiversidade, há uma excelente e meritória iniciativa em que se pede que as pessoas vão ao campo e registem das suas observações de biodiversidade.
Não poderíamos ter aproveitado esta quinta feira da espiga como ensaio geral? É que hoje haverá milhares de pessoas, sobretudo no Ribatejo, Estremadura e Alentejo, a ir ao campo apanhar uma espiga e meia dúzia de flores.
Talvez para o ano que vem nos lembremos a tempo da quinta feira de Ascenção como um bom dia para observações de biodiversidade.
Talvez para o ano consigamos fazer uma lista de voluntários que se disponibilizem para nesse dia acompanhar um qualquer dos milhares de grupos, muitos escolares, juntando o pic-nic tradicional e o registo de observações.
E esta veio daqui e é de 1963
henrique pereira dos santos

quarta-feira, maio 12, 2010

Biodiversity4all (IV)

Fotografia de Nuno Barreto
Filipe Ribeiro num comentário ao post anterior sobre o biodiversity4all informa-nos que a base de dados em que assenta o site Biodiversity4all já tem mais de 10000 observações. Acrescento eu que se é certo que há observações de pardais de telhados, eucaliptos, sobreiros ou dos patos reais que se vêem da esplanada que é a minha sala de reuniões desde que trabalho em casa, também há observações de abutres negros e águias imperiais.
Diz ainda o Filipe que se registam neste momento 10 pessoas por dia e que há 350 pessoas registadas.
Digo eu que a situação inicial de serem todos holandeses os observadores mais activos (fruto da ligação com um site holandês deste tipo e da importação inicial dos seus dados) está em vias de ser ultrapassada, com vários portugueses na lista de mais activos (e dominando em alguns grupos), com o Paulo Eduardo Cardoso em grande destaque, já sendo o terceiro observador mais activo.
Espero que a minha sensação de que estamos na presença de um grande passo na democratização da biodiversidade em Portugal, que permite uma relação menos sacralizada das pessoas comuns com a observação e registo da natureza que a que tem prevalecido, cheia de metodologias e regras imprescindiveis, se confirme.
Se isso acontecer é um passo enorme na gestão da biodiversidade em Portugal.
henrique pereira dos santos

terça-feira, maio 11, 2010

Crise Financeira Oportunidade para a Economia Ecológica

Pôr em causa o papel do sistema bancário, apontar as suas falhas, problematizar a forma como se tornam «mecenas» ou apoiantes aparentes de causas ambientais, é tomado por alguns defensores do ambiente como uma perseguição injustificada ao grande capital. Ou, segundo outros, um subjetivo desgosto pelos bancos, igualmente sem fundamento.

A questão não parece ser gostar ou não gostar de bancos, mas sim o papel que eles têm na atual configuração económica, financeira, política, social e até cultural.

Esse papel possivelmente terá que mudar, ou melhor essa é a discussão mundial hoje mais importante em termos de sistema económico, e bem acesa, de que a imprensa portuguesa não se dá conta de modo satisfatório. Que tem que mudar, é o que se vê expresso na pena de muitos que nada têm de revolucionário ou de inconformista. Analistas consagrados de jornais como o The Economist, representante insuspeito do pensamento económico dominante antes da crise financeira, não dizem outra coisa. Chegam a exigir mudanças «radicais» e uma intervenção das autoridades ditas «reguladores» impensável nos tempos, ainda tão próximos e não de facto desaparecidos, do thatcherismo omnipresente. Não é mudar o que se discute, mas o grau, a profundidade, o sentido e o alcance da mudança.

As críticas rejeitadas por alguns como decorrentes de uma mania ideológica anti-grande capital ou anti-bancos passariam por moderadas perante o que dizem e escrevem grandes mestres práticos da finança, inclusive um George Soros, que foi o inventor de um dos esquemas hoje mais criticados, os hedge funds, e que fez fortuna num ataque especulativo em forma contra a libra. Mas, a lê-lo, os financeiros dessa sua época aliás recentíssima são anjinhos com asinhas ao lado dos jogadores de póquer atuais.

Que há que mudar, raros são os que o negam. Mas mudar para onde?

A oportunidade que pode agora haver, mediante a desorientação e abanão que grassa nos meios dos economistas teóricos e práticos, é que possam emergir finalmente o pensamento e as obras de economistas e cientistas sociais até agora marginais ou desprezados, nalguns dos quais se encontra o fundamento para uma economia que tenha em verdadeira conta a base real da economia «real», base essa que é ecológica-energética.

Georgescu-Roegen e Jeremy Rifkin, por exemplo, e ainda a economia de base cultural como a que segue as pisadas de Karl Polanyi, e toda a chamada economia ecológica (Herman Daly, Joan Martinez Allier, Serge Latouche e o «decrescimento económico»), já largamente presente nalgumas universidades e publicações académicas sem ter no entanto ainda sido escutada por quem tem os cordões da bolsa, metafórica e literal. Também a economia solidária, entre nós representada, entre outros, pela rede de associações de desenvolvimento de base local Animar, pelos Professores Roque Amaro e Luís Moreno, por exemplo, deveria ganhar uma nova visibilidade e importância, se os desatentos políticos e comentadores vierem a aprender com as turbulências atuais.

Richard Douthwaite, James Robertson e outros autores da corrente inspirada em E. F. Schumacher completam e aprofundam esse quadro. A banca é uma instituição humana, e como tal passível de mudança. O papel que vier a desempenhar para uma sociedade que queira resolver os problemas da destruição ecológica, da guerra, da fome e da injustiça social terá forçosamente que ser muito diferente do que hoje predomina.

Existem já numerosas instituições financeiras que apontam o caminho nesse sentido, embora a sua dimensão não seja comparável ao mainstream ou sistema dominante. Mas é bem possível, e já desde 1977 se poderia sabê-lo pelo êxito que teve a famosa obra de E. F. Schumacher, Small is Beautiful mesmo quando rejeitada (por exemplo, pelos que escreviam e escrevem no The Economist!!!), é pois bem possível que o gigantismo do mainstream, inclusive bancário como mostra a atual crise e como já se discute, não seja a solução mas o problema.

José Carlos Marques

segunda-feira, maio 10, 2010

Evidência empírica e ideologia na conservação da biodiversidade

Tenho batido vezes sem conta na necessidade de reforçar a evidência empírica e fugir da ideologia em matéria de conservação.
Uma vez por outra caem-me nos olhos boas razões para continuar a bater nessa tecla.
Da tese de mestrado de Francisco Amorim (bastante interessante, aliás), sobre eólicos e morcegos:

"Apesar de não ter sido detectada mortalidade de espécies com estatuto de ameaça, a espécie N. leisleri, que foi uma das mais identificadas quer ao nível da actividade quer ao nível da mortalidade, apresenta o estatuto DD (informação insuficiente), o que pode implicar impactes negativos preocupantes em espécies que podem vir a ter um estatuto desfavorável. A reduzida mortalidade de espécies ameaçadas e a elevada mortalidade de espécies com estatuto DD tem vindo a ser confirmada por outros trabalhos (Arnett et al., 2008; Rodrigues, com. pess.)."

Evidência de afectação de espécies ameaçadas (e já nem estou a retomar a discussão sobre o uso da mortalidade como evidência de afectação): zero. Conclusão: "pode implicar impactes negativos preocupantes em espécies que podem vir a ter um estatuto desfavorável".
Prefiro a fórmula de Raúl Solnado: "quer queiras quer não queiras hás-de ser bombeiro voluntário". A estrutura lógica é mais ou menos semelhante.
Conselho: fazer uma visita a este site.
henrique pereira dos santos

domingo, maio 09, 2010

Cabras, baldios e esterco

Falei pela primeira vez do meu amigo Thomas aqui.
Na sequência dos comentários desse post, voltei a falar do Thomas aqui, já não tanto do Thomas em si, mas do que distingue o Thomas do Tomás no nosso mundo rural (acho que é dos melhores posts que escrevi).
Na sequência, fiz um post em que enfatizava a necessidade de olhar para o território numa lógica de criação de valor por oposição à lógica produtivista com as nossas elites olham para as políticas para o mundo rural que não seja a das grandes propriedades e da agro-indústria (incluo na agro-indústria a horto fruticultura intensiva, mesmo sabendo que é uma incorrecção técnica).
O Miguel Araújo fez um interessante comentário sobre dinâmica de vegetação, com uma pequena discussão nos comentários muito consistente.
Por último fiz uma grande asneira.
Este post que agora escrevo é um pedido de desculpas ao meu amigo Thomas.
Vejamos os factos.
Em 2008 o Thomas e a sua exploração foram controlados no âmbito da normal verificação do cumprimento das regras para a tribuição de subsídios.
Algures em 2009, o Thomas voltou a ser controlado e dessa vez perdeu 80% dos subsídios que recebia.
Ao que me dizem é muito pouco comum uma exploração ser controlada dois anos seguidos (não sei se assim é, alguém confirma?).
Entre uma e outra fiscalização eu escrevi os posts que referi antes.
A pessoa envolvida no último post é um quadro do Ministério da Agricultura (e autarca, quando eleito).
A razão para esta retirada de subsídios é o facto de haver umas áreas que eram consideradas terrenos mistos (e elegíveis como área de pastagem) que passaram a terrenos florestais (não elegíveis). É verdade que estas áreas não são o essencial da área de pastagem das cabras do Thomas, mas sempre se foi aceitando a situação face ao facto dos baldios, onde efectivamente pastam as cabras do Thomas, não poderem ser consideradas como áreas elegiveis naquele concelho (alguém confirma?).
A realidade também é que as cabras do Thomas prestam um serviço geral (o controlo de combustiveis) e se deixarem de existir esse controlo de combustiveis será feito a braço com sapadores florestais (ou fogo controlado ou outra actividade específica mais cara que o pastoreio). Óptimo, dir-se-á, porque é mais área a recuperar. Não é bem assim, porque o serviço prestado é apenas numa pequena parcela da serra e permite a compartimentação de áreas para efeitos de gestão do fogo.
Eu quero crer que este blog não tem efeitos deste tipo. Eu quero crer que em Portugal não haja responsáveis que usem o longo braço do Estado para se vingarem de quem não gostam. Eu quero crer que não se pretende condicionar o que os outros dizem. Eu quero crer que tudo isto é normal e o que há são apenas coincidências.
Mas o facto é que não consigo deixar de olhar para o calendário e me sentir, pelo menos em parte, responsável pelo corte de subsídios ao Thomas.
Sorry, old fellow, não me convenço de que o poder no meu país é muitas vezes pequenino e tacanho e os direitos dos cidadãos, e mais ainda dos cidadãos estrangeiros, são uma coisa mais ou menos imaginária. Tenho sempre a esperança de que as pessoas tenham a grandeza de saber ouvir críticas.
Tenho de reconhecer que é uma imensa demonstração de estupidez minha face à contínua verificação da proximidade de tantos poderes a tanto esterco.
Adenda: João Carlos Claro descarta no seu fundamentado comentário a teoria da conspiração. Ainda bem, a administração parece ainda ter remédio. E ainda bem porque detesto teorias de conspiração (embora me preocupe que a interpretação imediata de quem ouve a história considere a hipótese de haver uma actuação do Estado iníqua, coisa que nenhum de nós descarta à partida).
Subsiste a questão de fundo. E essa não tem nada que ver com regulamentos comunitários, é o reflexo das ideias desde sempre perfilhadas pela tecno-estrutura do Ministério da Agricultura e grande parte da academia ligada ao mundo rural, que se reflecte na consistência das opções de todos os ministros e governos.
Todos eles têm desvalorizado os dinheiros do mundo rural enquanto instrumento de cobertura de falhas de mercado (nomeadamente quanto à remuneração dos serviços ambientais prestados) e têm sobrevalorizado o seu papel de instrumento de desenvolvimento económico. Só que não só o desenvolvimento económico é uma função dos agentes económicos e não do Estado, como as ideias de desenvolvimento económico do nosso mundo rural, perfilhadas pelo Ministério e por grande parte da academia, estão, em geral, desfasadas da realidade. A forma como sistematicamente o pastoreio com base em pastagens naturais pobres é tratado pelos instrumentos de apoio ao mundo rural é bem o exemplo do que digo.
henrique pereira dos santos

sábado, maio 08, 2010

Prados, vacas e estrumes

Lameiro de regadio (Rio de Onor, Bragança)

Catão o Censor [234-149 a.C.], diz-nos Columella [Res Rusticae II, 16, 2], enumerava numa passagem hoje perdida dos seus escritos, as seguintes vantagens para os prados: 1) o mau tempo afecta-os menos do que a outras partes do campo, 2) necessitam de um investimento [de manutenção] mínimo, 3) produzem ganhos todos os anos. Columella refere ainda que a palavra prado significa sempre pronto, e que os prados eram mais considerados do que a terra arável no modelo de exploração agrícola pugnado por Catão, há mais de 2000 anos!

Os Scriptores Rei Rusticae desconheciam a lei da conservação das massas de Lavoisier ou os princípios de nutrição de plantas formulados nos meados séc. XIX por von Liebig. Catão valorizava os prados porque estes, além de serem uma fonte fiável da energia que põe em marcha o carro e o arado, eram uma peça determinante nos sistemas de restituição da fertilidade dos solos agrícolas. O mecanismo da restituição da fertilidade dos solos agrícolas é conceptualmente muito simples. A manutenção da produtividade dos sistemas agrícolas depende da reposição dos nutrientes – por exemplo o azoto e o fósforo – consumidos pelas plantas cultivadas, e exportados dos solos agrícolas no interior dos grãos de cereal ou na carne animal. Sem nutrientes as plantas não crescem, e não produzem; se as perdas de nutrientes são maiores do que os ganhos o solo esgota-se e a produção de alimentos desaba. Os nutrientes eram um recurso escassíssimo nas sociedades orgânicas (muitos serviços pagavam-se com carros de estrume ou com direitos de pasto). Consequentemente, a restituição da fertilidade do solo era (e será sempre) a chave da produtividade dos sistemas orgânicos de agricultura.

Antes da generalização do uso de adubos químicos, a reposição dos nutrientes fazia-se recorrendo aos resíduos das culturas (quanto mais resíduos permanecessem no solo melhor), a estrumes (mais ou menos enriquecidos com resíduos de origem diversa) e ao enterramento em verde (sideração) de leguminosas. Os estrumes eram um produto animal tão importante como a carne, o leite, a lã, o couro ou a tracção. A produção de estrumes depende do consumo de erva. Quanto mais erva, maior o número de herbívoros domésticos e maior a produção de estrumes. Nos sistemas tradicionais de agricultura da montanha nordestina uma vaca produzia ca. de 15 t estrume/ano e 1 ha de centeio consumia ca. 15 t de estrume, que por sua vez sustentava ca. de 1,5 pessoas. Por conseguinte, quanto maior a área de pasto, e a sua produtividade, maior era a produção de alimentos vegetais, e maior densidade populacional de humanos. A criação de animais, e o consumo de carne, não são uma invenção moderna. A componente animal (e implicitamente o consumo de carne) é indispensável no desenho de sistemas sustentáveis de agricultura.

As leguminosas pratenses e forrageiras foram tão importantes como o carvão na génese da revolução industrial em Inglaterra, no séc. XVIII. A incorporação de trevos nas rotações trienais herdadas da Idade Média aumentou os imputs de azoto no solo, a produção de pasto e fenos e a produção de estrumes. Por esta via (mas não só) os trevos incrementaram a produtividade do trabalho agrícola e a disponibilidade de trabalho para a industria. "Carvão, trevos e proletários", poderia ser este o título de um livro sobre a revolução industrial.

Os serviço de regulação do ciclo de nutrientes prestado pelo tandem pastagem-animal é pouco valorizado nas sociedades industrializadas. Para além de sustentarem a produção animal, e de servirem de refúgio a plantas e animais de elevado valor conservacionista, a restauração da fertilidade química e física dos solos degradados pela cerealicultura, e a sequestração de carbono são os serviços ecossistémicos prestados pelos prados de maior valor social na actualidade. No entanto, estou seguro que a função de colector de nutrientes no passado desempenhada pelas pastagens será, mais tarde ou mais cedo, recuperada. A escassez energética, e a depleção das reservas globais de fósforo a isso obrigarão.

Esta semana decorreu entre Miranda do Douro e Zamora, o IV Reunião Ibérica de Pastagens e Forragens. Para quem gosta, pratica e/ou estuda a agricultura foi um momento fantástico de convívio e aprendizagem, fundamental num tema tão complexo, tão interessante, tão importante como são as comunidades herbáceas, indígenas ou semeadas, sujeitas a pastoreio, ou as culturas forrageiras.

Senti uma angústia crescente nos quatro dias que durou o encontro. Um tema crucial como este reuniu muito menos interessados do que um qualquer encontro nacional dedicado à conservação da natureza, ou a um pequeno grupo de vertebrados. Já nem falo na correria que são os congressos de energias renováveis, de planeamento e gestão do território, de economia regional ou de segurança alimentar, quatro temas de discussão recorrentes na lista AMBIO.

Alguma coisa não está bem!