sábado, agosto 28, 2010

arbustos, matos e ervas


ovelhas pastando
Imilchil, Alto Atlas
Agosto de 2010

floresta de cedros
Ifrane RN (Azrou), Mèknes, Médio Atlas
Agosto de 2010


oliveira
Tizi-n-Isli, Kasba Tadla, Médio Atlas
Agosto de 2010

 eucalíptal
Guermasse, Marrakech
Agosto de 2010

vale de Todra, Alto Atlas
Agosto de 2010


vale de Todra, Alto Atlas
Agosto de 2010
Há alguns dias atrás, publiquei aqui um pequeno post - agricultura de subsistência - amavelmente comentado por algumas pessoas. O primeiro comentário de Carlos Aguiar aquele texto trouxe-me à memória ideia que fui cimentando, ao longo dos dias da minha última viagem por Marrocos, da quase total ausência de sub-coberto florestal de muitas paisagens marroquinas. Registei-o com enorme estranheza, na minha santíssima ignorância. Talvez o sobrepastoreio e o uso do solo para o cultivo de cereais até a exaustão sejam fortemente responsáveis por estas paisagens. Talvez seja apenas obra da "natureza". Talvez estes e outros fenómenos. E talvez o Carlos possa ajudar a compreender estas imagens :)

Gonçalo Rosa

quinta-feira, agosto 26, 2010

170 milhões, uma petição (um post oportunista)

O jornal I tem hoje um artigo sobre o fundo florestal permanente.
Sobre este fundo já várias vezes fiz posts, aqui, ou aqui, ou aqui, por exemplo.
Por isso lancei há tempos uma petição quixotesca, reconheço, que pretendia uma coisa simples: que fosse interdita a utilização pelo Estado dos dinheiros deste fundo.
Resolvi aproveitar a boleia do I para lembrar esta petição, galhardamente assinada pelos 129 liberais que existem em Portugal e que simultaneamente se preocupam com a gestão da paisagem.
Para o caso de alguém ter ficado de fora por distracção e achar que os 170 milhões de euros eram mais bem aplicados pelos proprietários em projectos aprovados pela administração, com base em regras claras e escrutináveis por qualquer pessoa, assinar é aqui.
Para os que acham que assim está bem, que o melhor é o grosso dos 170 milhões retornar de forma opaca ao Estado, que quase não gere matas, pois é deixar-se estar.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, agosto 25, 2010

150 000 cabras, 48 milhões de euros

O projecto pelos seus promotores (ou pelo relato da sua apresentação que dele faz o jornal Cinco Quinas, porque no site dos promotores há dificuldade em ter acesso a informação mais detalhada, embora no primeiro jornal do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial, a páginas 8 e 9, se faça uma descrição genérica):
"O Director Geral do AECT Duero-Douro, José Luis Pascual Criado, pormenorizou as características do Projecto Self-Prevention. Segundo as suas palavras, além de actuar activamente para a prevenção de incêndios, o Projecto contribui para um modelo de desenvolvimento socioeconómico para todo o território do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial Duero-Douro.
Disse que o investimento em matéria de prevenção é necessário para terminar com o fogo, mas também é necessário o envolvimento dos habitantes. Defendeu o Self-Prevention como projecto social, territorial, para as pessoas que moram nele, gerando um plano de futuro a longo prazo.
...
Está-se a trabalhar no Projecto Self-Prevention a partir da base, ou seja, a prevenção de incêndios.
Este visa reintroduzir 150.000 cabeças de gado para que sejam os próprios animais os "limpadores naturais" dos campos agrícolas abandonados, matos e valetas, deixando livres de vegetação aquelas zonas de potencial perigo de incêndio.
O projecto irá implantar-se num território fronteiriço de Portugal e Espanha, num total de 9 mil Km2, com 125 mil habitantes, e envolverá 187 entidades públicas dos dois países.
Após o investimento inicial, calculado em perto de 49 milhões de euros, estima-se uma rentabilidade anual do projecto de 30 milhões de euros. Com este projecto estima-se a criação de 558 postos de trabalho especializado, até porque está prevista a criação de 12 queijarias, uma central de comercialização, dois matadouros, 15 lojas de venda de produtos, e uma plataforma logística de transporte e distribuição, para além de se acreditar em novas potencialidades turísticas da região.
Para a concretização do projecto espera-se agora a adesão dos agricultores, onde existe a influência deste projecto. Os agricultores que apostarem nesta iniciativa, por cada cabra que coloque no projecto, recebe uma acção, e os proprietários de terrenos recebem três acções por hectare. Os lucros obtidos serão repartidos, depois, pelos titulares de acções no projecto. Para já, do lado português, estão envolvidos os municípios de Vila Nova de Foz Côa, Figueira de Castelo Rodrigo, Almeida e Sabugal, tendo já sido demonstrada também a intenção do município de Manteigas em aderir ao projecto do AECT.
Este projecto estará articulado em torno duma empresa de participação pública e privada que optimizará a sua sustentabilidade económica na produção e comercialização de leite e derivados caprinos.
Por: Cinco Quinas"

Quem lê o que aqui e noutros lados escrevo sabe que eu não poderia deixar de subscrever as intenções deste projecto e ficar satisfeito de ver quase todos os jornais e sites de jornais de hoje a falar positivamente, e não como uma ideia impossível de operacionalizar, de um projecto que pretende ter 150 000 cabras para ajudar à gestão do fogo e à criação de riqueza e emprego no interior rural.
Mas ao mesmo tempo conheço demasiado bem esta lógica de captação de recursos, por entidades públicas que se juntam para fazer entidades privadas que apresentam projectos de candidaturas a ajudas públicas, que incluem muita infra-estruturação (lojas, queijarias, matadouros) e no fim se espera a adesão dos verdadeiros produtores.
Por mim preferia que fizessem um fundo de capital de risco para entrar no capital das empresas dos produtores até elas atingirem a velocidade de cruzeiro, vender a sua participação e partirem para outra.
48 milhões de euros em capital de risco já era relevante.
Assim, fico satisfeito com a difusão da ideia, espero e desejo que resulte, mas como contribuinte tremo só de olhar para a fotografia de topo deste post, que retrata os membros do Agrupamento Europeu de Cooperação Trans-fronteiriça, e pensar que é esta a base de gestão de um projecto de 48 milhões de euros entregues ao Estado por quem produz riqueza.
henrique pereira dos santos

terça-feira, agosto 24, 2010

Incendiários: muitos mas muito estúpidos

Quando por estes dias ruiu o conto de fadas sobre os fogos construído pelo Governo nestes últimos anos, de que o dispositivo tinha melhorado muito e por isso tinha descido a área ardida, como demonstravam não só os números globais como ainda a relação entre o número de fogos e a área ardida total, foi preciso rapidamente encontrar novas linhas de comunicação.
A tecla agora era que o dispositivo aguenta 250 ignições por dia (se não forem muito concentradas) mas Portugal tinha um enorme problema de ignições a que era impossível responder.
Esta linha de comunicação traduziu-se em variadíssimas notícias sobre incendiários, detenções e outras coisas que tal, culminando neste fim de semana com o Expresso a publicar uma entrevista com Gil Martins (de resto, interessante) titulada "A floresta não arde sozinha" e as quatro lamentáveis páginas do Público, totalmente governamentalizado nesta área, que incluem esta delicada subtileza de raciocínio de Manuel Carvalho "é certo que uma fatia importante dos fogos tem mão humana e criminosa, como atesta o facto de 38% das ignições acontecerem durante a noite" (aparentemente Manuel Carvalho nunca ouviu falar de ignições retardadas, mas isso é lógico para um jornalista que só acompanha o sector florestal há mais de dez anos).
Como corolário a Autoridade Nacional de Protecção Civil passou a incluir na informação diária não só o número de fogos, como também o número de fogos diurnos e o número de operações dos meios aéreos, para as pessos perceberem bem que está tudo bem do lado do dispositivo, mas não se pode governar este povo de pirómanos infrenes.
Ora foi com essa informação que construí o gráfico que se segue.

Principal conclusão?
Não só há muitos incendiários como são estúpidos como uma porta, porque a percentagem de ignições nocturnas dispara quando não há condições para grandes fogos (havendo inclusivamente previsão de chuva).
henrique pereira dos santos

Escola na natureza

Com frequência falo deste projecto.
Comecei aqui, continuei a discutir aqui as objecções de uma das poucas pessoas que não acha boa a iniciativa, e mais tarde fui dando conta do meu desencanto, por exemplo, aqui e aqui.
Falei da escola na natureza a propósito do encerramento do país aos poucos, para explicar como a opção de fechar escolas da forma como se está a fazer não é um fatalismo a que o realismo político se verga, mas o corolário de uma visão do mundo rural como espaço produtivo inviável.
Ora este post resulta dos comentários do Nuno a esta última referência à escola na natureza.
Tentei fazer o projecto dentro do ICNB e falhei. Tentei interessar alguns promotores de projectos de conservação da natureza no projecto para o desenvolverem numa lógica de rede criando desta forma uma fonte de financiamento à sua actividade e falhei. Tentei interessar uma empresa de consultoria a partir de candidaturas a um dos vários programas de financiamento existentes, de forma a criar o primeiro embrião da rede autónoma de produtores de biodiversidade de que falei antes e falhei.
Para mim falhar é sempre uma coisa mais ou menos temporária, já vi renascer das cinzas muitas ideias minhas consideradas inviáveis (algumas até pela mão de pessoas que tinham o poder para as considerar inviáveis e depois, felizmente e por acaso, tinham as mesmas ideias mais tarde. Mais chato é quando aparecem tão deturpadas que se tornam mesmo inviáveis ou desviadas dos objectivos iniciais, como também aconteceu de quando em vez).
Neste caso nem é uma ideia minha, é apenas uma ideia copiada com a qual perdi muitas horas a estruturar a forma de a levar à prática.
Portanto não me importo de arriscar outro falhanço apoiando a ideia do Nuno: levar à prática a escola na natureza a partir das comunidades escolares, ligando-as aos empreendedores que no mundo rural queiram entrar para o barco.
É possível, é sustentável e, infelizmente, é possível que a sua execução fora do mundo da conservação permita melhores condições de execução, usando todo o mundo rural em que haja alguém que queira.
Nuno, apesar do video com o que vou ilustrar o enésimo post sobre a escola na natureza, podemos começar hoje a fazer a associação escola na natureza e a montar o projecto.
Sem dinheiro, é certo, mas isso também não é o essencial.
Seja bem vindo quem vier por bem.

henrique pereira dos santos

incúria sem limites

Garganta de Todra, Alto Atlas marroquino
Julho de 2006
(foto sacada daqui)

Esta é a fabulosa garganta de Todra, já perto de Tinerhir, na vertente sul do Alto Atlas marroquino, há cerca de quatro anos atrás. Por este canhão, com paredes verticais de mais de 160 metros de altura separadas por escassas dezenas de metros, corre um rio. Nestes tempos, ora montados nos seus burros e dromedários, ora acompanhando ovelhas e cabras, locais percorriam um discreto caminho desenhado no fundo da garganta enfeitada por palmeiras e pequenos cactos. Esta longa picada com muitas dezenas de quilómetros permitia o acesso às pequenas aldeias na montanha, a Norte, à cidade de Tinerhir.

 Garganta de Todra, Alto Atlas marroquino
Agosto de 2010

Apenas quatro anos depois, o cenário mudou drasticamente. Vieram máquinas que rasgaram uma estrada no fundo do vale. Prolongou-se o alcatrão até Imilchil, mais de uma centena de quilómetros a Norte. Ainda que a maioria continue a utilizar asnos e dromedários para se deslocarem, os mais abastados compraram carros. Uma ou outra aldeia ganhou vida com um pouco de turismo, outras, por enquanto, nem por isso. Ainda assim, o melhor acesso a automóveis e camiões, facilitou a vida destas gentes, possibilitando um mais fácil, rápido e seguro trânsito de gentes e bens.

A Sul, muitos são os turistas que agora visitam o canhão. Nasceram dezenas de pequenos albergues e restaurantes nas proximidades. Alguns ergueram-se encostados às arribas mais inclinadas e entalados pelo ribeiro que, em invernos rigorosos ou depois do degelo ganhará caudal surpreendente. É assustadoramente óbvia a iminência de desastre. A incúria do humanos não parece ter limites.

Gonçalo Rosa

domingo, agosto 22, 2010

Programa Nacional para a Valorização dos Territórios Comunitários (cont.)

Terreno baldio na Serra de Stª Bárbara, Ilha Terceira

A Lei dos Baldios atribui aos compartes um domínio quase absoluto sobre os seus baldios. De tal modo que nem sequer o vínculo jurídico contratual está previsto na lei (vd. comentários dos produtores de celulose ao PNVTC, aqui). A filosofia jurídica da actual Lei dos Baldios fazia todo o sentido quando: 1) as redes de laços sociais das comunidades de aldeia eram intensas e todos comungavam a sensação de partilha de uma terra e de um destino comum; 2) as fronteiras do baldio e os seus utilizadores (compartes) estavam identificados e existia um conjunto de regras de uso aceite, respeitado e fiscalizado por todos; 3) o baldio gerava sobretudo bens em espécie – e.g. lenhas e pasto – essenciais para o funcionamento dos sistemas de agricultura (o parecer da CCDRN é muito claro a este respeito aqui); 4) serviços ecossistémicos não tangíveis, como sejam a regulação do ciclo da água e o refúgio da biodiversidade, eram socialmente pouco valorizados.

Estas condições – há mais, vd. papers de E. Ostrom, como refere o parecer da Quercus aqui – explicam que muitos baldios tenham escapado à conhecida "tragédia dos comuns" de Garret Hardy (não é seguro que no longo prazo assim fosse, mas para o efeito tanto dá). A tragédia dos comuns é fácil de entender: num ambiente social desregulado as pessoas estão-se nas tintas para a sustentabilidade dos recursos naturais nos espaços de propriedade colectiva. Esta atitude é perfeitamente racional nos dias de hoje: afinal não é na cidade e na construção civil que a maioria ganha ou quer ganhar a vida?


Actualmente, não só as comunidades de aldeia são incapazes de controlar o acesso aos recursos dos baldios, como a identidade dos compartes, a democraticidade das eleições dos conselhos directivos e a distribuição dos seus proveitos são cada vez mais opacas.

Quem são afinal os compartes? Diz-nos o artigo 1 da lei dos baldios que são os moradores. Porém, olhando para os concelhos directivos daqui do norte vemos que são os moradores nas sedes de concelho, na grande capital ou na cidade estrangeira que gerem os baldios. Baldios há que são governados a partir de Paris!!! Depois usam-se todo o tipo de truques – e.g. datas das assembleias de compartes – para controlar as eleições dos conselhos directivos. Como os conselhos directivos não são obrigados a manter uma contabilidade organizada os proveitos monetários esvaem-se sem controlo. Conheço baldios geridos por juntas de freguesia que mal se aventou a hipótese de serem construídas eólicas se formaram conselhos directivos para controlar o acesso aos seus proveitos.

Há que aceitar uma nova realidade no mundo rural. Os decisores políticos na grande cidade têm que perceber que as gentes do campo têm, genericamente, os mesmos anseios, as mesmas práticas sociais e os mesmos gostos das da cidade. O comunalismo acabou; grande parte das decisões tomadas na comunidade aldeia foram tomadas pelo Estado (e.g. justiça e segurança) ou pelas autarquias (e.g. planeamento urbano e recolha de lixos). A regulação social tradicional colapsou e, dado o afastamento dos centros de poder e a pequena dimensão das aldeias, estas estão muitas vezes sujeitas a grupos organizados que não se coíbem de coagir as gentes para capturar, sem mossa, os proveitos pecuniários gerados nos baldios. Finalmente, é fundamental que o Estado assuma que os baldios ocupam quase 5% da superfície de Portugal e produzem bens e serviços, tangíveis ou não, de enorme importância económica e social. Para evitar dissabores os decisores não podem fingir que os baldios não existem ou que são dispensáveis.

No meu entender é consensual que ninguém deseja o desmantelamento da instituição “propriedade comunitária”. O Estado assusta-se com a possibilidade de ter de gerir 450.000 ha; as populações locais têm um direito (consuetudinário) aos seus proveitos; a esquerda agarra-se à ideia; os citadinos não sabem o que é um baldio. Assim se explica que o PCP controle os secretariados de baldios num território tradicionalmente de direita (norte de Portugal), sem que ninguém se incomode.

Uma nova realidade exige novas regras, novo direito, é apenas isso que os interesses dos “povos dos baldios” e do colectivo português exigem. É necessário, por isso, a identificação das fronteiras do espaço baldio (i.e. cadastro), transparência no censo dos compartes e na eleição dos conselhos directivos (legitimidade democrática), controlo das contas, e planos de gestão aprovados por agências estatais competentes (representantes do interesse colectivo do todo português). Simples. Como consegui-lo? O cadastro é uma responsabilidade do IGP. Só devem ser compartes (assim como votantes na eleições para a junta de freguesia) e ter acesso aos proveitos dos baldios habitantes da aldeia; aliás, esta é uma forma objectiva de promover a retenção de população no espaço rural. A gestão dos baldios deve ser incorporada nas juntas de freguesia (com a definição de cargos para o efeito à escala da comunidade de aldeia), porque a sua eleição é fiscalizada pela CNE e as suas contas são controladas pela IGAI. A Autoridade Florestal Nacional aprova os planos de gestão, conforme já o faz a pedido dos conselhos directivos. Quando uma comunidade aldeia é incapaz de gerir um baldio, esse papel deve reverter para as autarquias.

Os baldios são inalienáveis, mas por que não poderão ser total ou parcialmente ser arrendados ou construções previamente existentes ser recuperadas por privados sem uma apropriação privada do solo como, aliás, acontece em Espanha?

[transcrição de um post colocado na lista AMBIO]

Carlos Aguiar

Abandono, fogos e propriedade da terra

Macedo de Cavaleiros nos anos 20 (sec. XX). N.b. Serra de Bornes ao fundo, à direita, totalmente cultivada com cereais. A floresta entretanto reocupou o que era seu (imagem cedida por Manuel Cardoso).

Ao contrário do que muita gente pensará, a propriedade rústica teve, e tem, uma distribuição muito desigual no interior norte e centro de Portugal. O facto de senhores e criados e beberem o vinho da mesma malga e da comunidade de aldeia partilhar o forno de cozer o pão e o semental, não disfarça a subjugação das relações sociais no interior destas comunidades às estratégias de reprodução da desigualdade e do poder dos terratenentes. Conta-me quem o viveu de perto que as searas dos lavradores ricos eram sempre as primeiras a serem ceifadas e debulhadas. Como se um sino tocasse a rebate, rendeiros e pequenos agricultores abandonavam o que era seu para oferecer trabalho em troca de meia dúzia de tostões ou da protecção de quem detinha verdadeiramente o poder. Quando as colheitas eram fracas, as senhoras da casa grande, pelo Natal, num acto que de caridade tinha muito pouco, distribuíam presunto, azeite, farinha e batatas pelos mais precisados. O senhor sempre conseguia um emprego na câmara ou na guarda, em último caso de criado de lavoura, ou poupava do imposto de sangue as famílias mais depauperadas. Foram estes senhores quem no final da ditadura tentou a todo o custo estancar a fuga da mole de miseráveis sem terra que povoavam as nossas aldeias, com receio da escassez e do aumento do custo da mão-de-obra. Quando a fuga da miséria rebentou as fronteiras, o discurso do poder absorveu o fenómeno imigração, e era então o universalismo e desejo de aventura da “raça” portuguesa que nos impelia a sair.

Antes da entrada na CE os cereais pagavam bem (hoje o quilo do centeio, sem actualização monetária, vale metade do que valia há 25 anos atrás) e os lavradores ricos tiveram oportunidade de acumular capital e educar os filhos. Estes, por sua vez, aproveitaram a industrialização do país para se libertarem da terra e assumir profissões liberais ou integrar a administração pública e o sistema de ensino. A terra entretanto perdeu utilidade e passou a funcionar como um buffer financeiro. A memória dos dias de abundância, em que um sistema de preços garantido pelo Estado (que não incluia o centeio, diga-se) cobrava a ineficiência tecnológica da agricultura aos consumidores, marcou a primeira geração urbana de origem rural. Como o futuro a "Deus pertence" nunca se sabe se a terra virá a ser novamente necessária. Por outro lado, a terra abandonada não perde valor, ou pelo menos subsiste essa expectativa. Ao contrário do que acontece, por exemplo, na industria manufactureira, desinvestir nos meios de produção, neste caso na terra, não diminui a sua aptidão para produzir: o descanso é prática ancestral de reposição da fertilidade. O fogo também não é um problema: a censura social à escala da comunidade rural já não condiciona os usos da terra que põem em risco os haveres dos outros e o Estado, ou seja os contribuintes, encarrega-se de pagar a conta do combate aos incêndios. Não surpreende, portanto, que a esta geração, bem instalada na vida, não interesse ouvir falar em cadastro ou na fiscalidade da terra. Porém, sistematicamente ouço-os nos cafés da terra onde vivo a queixarem-se de que já não se produz riqueza em Portugal, que ninguém quer trabalhar - "pagam-se as jeiras a 30 euros/dia e ninguém apanha a azeitona" - e que o Estado só investe no litoral.

A "estrutura da propriedade" e a "tributação da propriedade agrícola" são duas forças motrizes fundamentais no abandono (e no fogo), muito mais importantes do que o fecho das escolas e a estrutura de subsídios. As coisas parecem estar a mudar. O BE prepara-se para avançar com um projecto de lei sobre bancos de terras (vd. aqui e aqui). Mas não chega. Além de um agravamento do IMI para castigar os proprietários de terra agrícola devoluta (suponho que seja esta a proposta do BE) é necessário avançar com um cadastro único, investir numa classificação de terras e rever a tabela de emolumentos do registo predial e de notariado. Não vejo outra forma de operacionalizar os bancos de terras e de estimular o desenvolvimento de um mercado da terra, de impulsionar a produção de riqueza no meio rural e, já agora, de acabar com privilégios de classe.

A título de curiosidade. O registo de um prédio rústico custa agora 250 euros, qualquer que seja a sua área. No minifúndio o registo pode custar mais do que a terra; juntar 20 pedaços de terra para construir um exploração agrícola não é raro e atinge a extraordinária quantia de 5000 euros. Mais uma vez o estado, para se financiar, pune um importante sector produtor de riqueza: a agricultura.

Carlos Aguiar

sábado, agosto 21, 2010

Fogos e conservação de Quirópteros II


Foto de Luís Braz.

Os incêndios florestais (e não só) são uma das ameaças para os morcegos, provocando a destruição directa do seu habitat em especial mas zonas de criação e alimentação. Contudo, a morte directa (ou indirecta) de indivíduos também acontecesse, é o caso deste Pipistrellus pipistrellus encontrado encima de uma pedra ao sol e desprotegido na Ribeira da Caniça (Seia) no dia seguinte a um grande incêndio. Como se pode observar na foto as partes de um morcego mais susceptíveis de sofrerem queimaduras são as asas, impedindo que o animal voe, e por conseguinte que se alimente, provocando a sua morte por desidratação ou desnutrição.

P.S. Infelizmente este morcego morreu a caminho do CERVAS.

Encerrar o país aos poucos

Ferreira de Almeida publica no quarta república um post com o título que copiei, a propósito do encerramento das escolas do ensino primário.
Penso ter deixado já clara a minha posição nesta matéria: a gravidade do encerramento destas escolas, desta maneira, é o facto de criar dificuldades à instalação de novos empreendedores em territórios de povoamento necessariamente esparso.
Nos comentários, interessantes, que o post motiva aparece o clássico argumento da inviabilidade do mundo rural em Portugal (não, as pessoas não defendem a inviabilidade do mundo rural, apenas raciocinam nessa base), ou se quisermos, do povoamento esparso, assumindo-se como uma fatalidade este despovoamento.
O despovoamento tem vantagens ambientais, é certo, mas tem também riscos, quer ambientais, quer sociais. O abandono assumido e com objectivos como os que o Miguel Araújo questiona aqui parece-me defensável em algumas circunstâncias.
A pura ruína, cansaço e desesperança que se vive no mundo rural parece-me indefensável.
Para quem, como eu, não defende a criação artificial de emprego e ao mesmo tempo reconhece que o desemprego (que é muitas vezes o mesmo que dizer, actividade económica não competitiva) é o problema central do mundo rural em Portugal, subsiste uma pergunta: o que se pode fazer?
Há uma parte do Estado.
Cinco exemplos de intervenção do Estado.
1) O Estado é responsável pela gestão das áreas protegidas, porque a conservação da biodiversidade é intrinsecamente deficitária mas produz bens difusos que são essenciais. Pois bem, o Estado em vez de criar condições de emprego digno e útil dotando as áreas protegidas dos meios necessários à sua missão, desinveste em vigilantes e em técnicos de forma escandalosa. O recentre reestruturaçã do ICNB que pretendia reforçar as equipas locais ao mesmo tempo que criava condições para um exercício profissional mais gratificante, aberto ao mundo e de relação com os outros, tem sido gerida de forma mesquinha e sem o investimento pressuposto em novas tecnologias de modo a optimizar o trabalho não centralizado assente em regras e procedimentos gerais que garantam os objectivos nacionais e internacionais que a política de conservação prossegue.
2) O Estado, na sua política de educação, resolve distribuir Magalhães a esmo, ao mesmo tempo que boicota e não executa dois programas potencialmente positivos para o mundo rural: a escola na natureza, que além de criar melhores condições de ensino para todos por facilitar o contacto directo com a realidade das áreas protegidas, geraria meio milhão de refeições ano e cerca de 250 mil dormidas, com um custo anual (que poderia facilmente nem ser todo do Estado) de 10 milhões de euros; a escola móvel, que permite juntar o ensino à distância com períodos de socialização dos alunos, uma das alternativas evidentes para territórios de povoamento esparso.
3) O Estado desenvolve um estudo para a comunicação e visitação das áreas protegidas que, se bem executado, poderia criar muitas pequenas iniciativas empresariais, com o consequente emprego. Por curteza de vistas e porque o Estado está capturado por grupos de interesse, o estudo é engavetado, não há um tostão para o assunto, a não ser uma recente iniciativa piloto. Onde? Nas áreas protegidas encravadas nas zonas de maior despovoamento rural? Não, no estuário do Tejo , em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa.
4) O Estado tem a oportunidade de desenhar programas de financiamento do mundo rural ao abrigo da política agrícola comum, tendo uma larga margem de opção política. Faz opções no sentido de remunerar os serviços ambientais prestados pelas comunidades rurais que não são valorizáveis no mercado? Não. Enterra mais de 11% das verbas em Alqueva, financia o preço da água (naturalmente à custa de recursos que poderiam ser usados noutro lado) que é usada em actividades perfeitamente lucrativas como o golfe e o olival super intensivo, usa grande parte das verbas para apoiar actividades que são valorizáveis no mercado, por imposição comunitária programa verbas para agro-ambientais (ITIs, como lhe queiram chamar) que poderiam pagar serviços ambientais e depois boicota a sua utilização para ter argumentos para as reafectar posteriormente por baixa taxa de execução.
5) Alguns, poucos a meu ver, estão dispostos a investir em biodiversidade, trabalhando no mercado de doações que sustenta a gestão privada de áreas de conservação. O Estado apoia, nem que seja com uma política fiscal agressiva que reconheça a utilidade social quer deste trabalho, quer das doações? Não, tem uma lei de mecenato mais que duvidosa em alguns aspectos, não aplicável a sérias opções possiveis de investimento privado em conservação, e trata os proprietários que se disponham a usar a sua propriedades publicamente para a conservação e o usufruto público como se, à partida, fossem todos aldrabões.
Longo vai o post, por isso a intervenção dos privados e da adminsitração local ficam para um dia.
Encerrar escolas primárias não é uma opção para que o Estado foi conduzido pela debilidade económica destas regiões, é uma opção coerente do Estado face à sua opção ideológica de que o mundo rural é caro demais para o que produz.
Ao Estado português parece razoável gastar 3 milhões de euros para que a zona mais rica do país fique isento de portagens para ir para a praia em Agosto. Mas é um absurdo gastar os mesmos três milhões a alavancar o programa escola na natureza, gerador de economias fulcrais para dar sustentabilidade económica a muitas iniciativas no mundo rural.
Concentrar escolas reforçando as dificuldades de criação de emprego em territórios de povoamento esparso é apenas o corolário lógico desta política.
Eu não estou de acordo e acho a educação é demasiado importante para ser deixada aos educadores.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, agosto 20, 2010

Refere o NY Times: Portugal dá a si próprio uma reforma de energia limpa

Fonte: NY Times



Na série de longos artigos do NY Times "Beyond Fossil Fuels- Lessons From Europe" a 9 de Agosto, de 2010, a cronista Elisabeth Rosenthal dirigiu a sua atenção para Portugal. 
Embora com alguma agenda política no meio, creio que não ficamos mal no figurino, pois em boa verdade Portugal tem crescido imenso em energias renováveis. 
O artigo tem despertado imenso debate (mais de 230 comentários!!) e entendo que devemos aproveitar esta onda e bons ventos para um lugar ainda mais ao Sol!




Portugal Gives Itself a Clean-Energy Makeover

LISBON — Five years ago, the leaders of this sun-scorched, wind-swept nation made a bet: To reduce Portugal’s  dependence on imported fossil fuels, they embarked on an array of  ambitious renewable energy projects — primarily harnessing the country’s  wind and hydropower, but also its sunlight and ocean waves.

Today, Lisbon’s trendy bars, Porto’s factories and the Algarve’s  glamorous resorts are powered substantially by clean energy. Nearly 45  percent of the electricity in Portugal’s grid will come from renewable  sources this year, up from 17 percent just five years ago.

Land-based wind power — this year deemed “potentially competitive” with fossil fuels  by the International Energy Agency in Paris — has expanded sevenfold in  that time. And Portugal expects in 2011 to become the first country to  inaugurate a national network of charging stations for electric cars.

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Boa propaganda anti-touradas, de 1938



Na discussão da lista ambio sobre touradas, ao ver a agressividade e falta de nível da argumentação anti-touradas lembrei-me de resgatar este filme e fazer um pedido: não podem voltar a este nível de argumentação? Era bem melhor para todos.
henrique pereira dos santos

A presunção da inocência

Mal apertam um bocado os fogos, quase todos os governos, em Portugal ou noutro lado, tendem a sacar da conversa dos incendiários.
O Público pega hoje no assunto, titulando: "Fogo posto foi a causa de 22 por cento dos incêndios florestais".
Mas vejamos.
O SEPNA fez 3943 inquéritos de causas de incêndios este ano. Não é mau. Ficam mais de dez mil por investigar, mas partamos do princípio que é uma boa amostra.
De um terço dos fogos analisados não se consegue determinar a causa e fogos intencionais são os tais 22%.
E fala-se de detenções, suspeitos, alegados e presumiveis incendiários (que são pouco mais de vinte, este ano).
E condenações? O artigo nada diz, apenas diz que uns suspeitos apenas ficaram com termo de identidade e residência.
Apenas? Porquê apenas, se é apenas um suspeito, ou seja um presumível inocente?
É muito confuso.
É que só com o trabalho dos tribunais seria possível perceber se o que o SEPNA investiga é ou não fiável (ou será que na investigação destes crimes não há falhas).
A mim parece-me que o SEPNA está a chamar causa determinada a uma coisa que em outros países se chama causa provável (ou mesmo causa plausível, diria eu).
Que há incendiários não há menor dúvida. Mas quase todos os que são condenados são pessoas perturbadas ou agindo sob motivações fúteis ou no quadro da conflitualidade local, portanto mais ou menos facilmente identificáveis localmente.
Isso é suficiente para que mais de três mil fogos comecem com fogo posto e isso apenas resulte em pouco mais de 20 suspeitos?
Tenho dito várias vezes que me interessa pouco a maneira como os fogos começam porque o que me preocupa é saber por que razão não param.
Mas se querem desviar recursos para resolver um problema mal equacionado, eu acho bem discutir primeiro a equação.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, agosto 19, 2010

Finalmente medidas concretas com incidências nos fogos

Na sequência do que aqui escrevi:
"Francisco Lopes, presidente da Câmara de Lamego, criticou hoje o Estado por não se responsabilizar pelos “elevados custos” com o transporte escolar que o município terá na sequência da concentração da rede escolar.
O autarca diz que os custos a suportar pela autarquia são “o principal problema” do encerramento de 21 escolas do ensino básico no concelho. “A Câmara não assegurou, como as câmaras não asseguraram, junto do Ministério da Educação as condições em que os custos do transporte escolar seriam assegurados e estamos agora confrontados com uma proposta do Ministério da Educação (ME) que não cobre nem sequer 20 por cento dos encargos que vamos ter”, afirmou o autarca, à Lusa. Para o presidente da Câmara, “é uma obrigação do Estado assegurar a deslocação das crianças, já que foi o Estado que promoveu este processo de construção de centros escolares e a concentração da rede escolar”, comenta.Francisco Lopes adianta ainda que, no seu caso, a autarquia terá que despender cerca de 600 mil euros/ano por criança com o transporte escolar, o que penalizará “profundamente o equilíbrio financeiro” do município. Segundo referiu, o Estado propõe, por outro lado, um valor fixo de 300 euros, o que “é desde logo uma injustiça”, defende.Escolas de Vinhais, em Bragança, com anúncio de encerramento vão abrirDuas escolas do concelho de Vinhais, no Nordeste Transmontano, constam da lista das 700 encerradas pelo Ministério da Educação mas vão abrir em Setembro, como outras no país, por condicionalismos locais à concentração de alunos. O presidente da Câmara, o socialista Américo Pereira, que considera a concentração de alunos “um princípio correcto”, defende que existem contudo condicionalismos impossíveis de ultrapassar como é o caso das distâncias geográficas neste concelho. “Fica muito caro e pondo no prato da balança o benefício de integrar em escolas grandes e o custo da deslocação e o sacrifício que implica para as crianças, é melhor que algumas se mantenham abertas”, disse."

henrique pereira dos santos

Biodiversity4all (VII)

Aqui, no segundo post que fiz sobre este projecto, dizia que não sendo muito, era bom que em cinco anos o projecto juntasse 10000 mil observações.
O projecto tem cerca de meio ano e já passou as 15000 observações.
Pese embora alguma desaceleração natural, todos os dias vai havendo novas observações.
Não é natural que anos seguintes tenham 15000 observações cada, porque algum crescimento rápido se deveu à integração de bases já existentes.
Mas também é verdade que alguns passos já previsiveis podem ajudar.
50 000 mil registos ao fim de cinco anos não é um horizonte absurdo para um projecto em que qualquer pessoa pode contribuir fazendo registos.
A fotografia acima é tirada do site, há observações de tudo, desde águias imperiais a eucaliptos, passando por borboletas, búzios e bezouros.
Continua a parecer-me um bom projecto de participação pública divertida e útil.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, agosto 18, 2010

agricultura de subsistência

Imilchil, Alto Atlas marroquino
Agosto de 2010

A mais de 2000 metros de altitude, no Alto Atlas marroquino, aqui e ali, existem pequenas aldeias de camponeses e pastores. Aproveitam para o cultivo a fertilidade das várzeas dos rios e ribeiras que escavam a montanha. E dependem dessa agricultura de subsistência para sobreviverem. Aqui, figura semelhante à nossa Reserva Agrícola Nacional perderia importância. Cada milimetro de terra fértil serve o presente.

Gonçalo Rosa

Como podem as grandes empresas ajudar a conservar a biodiversidade?

Excelente discussão de Jason Clay, vice-Presidente do WWF, evidenciando a necessidade e as formas de envolver as grandes empresas na conservação da biodiversidade. Aconselho os cépticos do conceito de "business & biodiversidade", em particular, a prestar atençao a este vídeo.
Jason Clay: How big brands can help save biodiversity Video on TED.com

Evolução do touro de lide


Aprendi alguma coisa lendo este artigo enviado para a lista ambio por António Eloy. Vale a pena ler.

A comunicação é perfeita...

... o problema está no produto.
Depois de um primeiro tiro de pólvora seca ("estamos a controlar tudo, com uma excepção") o Governo e a tecno-estrutura da Defesa da Floresta contra Incêndios encontraram neste gráfico a base perfeita para a sua comunicação sobre os fogos.
E usou esta base com maestria, introduzindo-lhe uma meia verdade, que é a forma mais perfeita de dizer mentiras.
O que fez o Governo?
Olhou para estes risquinhos às cores, cada um representando num ano o Índice de Severidade Meteorológica que pode ser visto com mais nitidez e detalhe neste relatório.
E ao olhar descobriu que de acordo com este índice o ano de 2010 estava mais ou menos no meio (no desenhinho é o risco azul escuro ligeiramente mais grosso). E descobriu também que não estava muito longe graficamente dos risquinhos de 2003 e 2005, que na memória colectiva representam as grandes catástrofes dos fogos (com razão).
Elaborou então uma história, errada nos pormenores, enganadora na essência mas tremendamente convincente e, acima de tudo, permitindo uma leitura favorável da eficiência do dispositivo de combate, desde que se repetisse a mesma história sem falhas muitas vezes.
O Governo ganhou assim a batalha da comunicação, tendo convencido os jornalistas que escrevem sobre o assunto e a generalidade do público de que as condições para o desenvolvimento dos fogos são basicamente as mesmas de 2003 e 2005 mas os resultados são francamente melhores (Mariana Oliveira, no Público, volta a insistir nesta tese na sua peça de hoje sobre os fogos, naturalmente por coincidência).
Mas para quem queira olhar para os factos e ver para além das histórias da carochinha fica aqui o meu contributo.
Em primeiro lugar convém ter a noção clara de que neste índice 2003, e já passados os primeiros quinze dias terriveis de Agosto, é o quarto ano em severidade meteorológica. Ficamos pois bastante seguros quanto à capacidade do índice traduzir o risco real de incêndio.
Se alguém ainda tiver dúvidas, será bom notar ainda que a distância que no gráfico vai de 2010 a 2005 é praticamente a mesma que vai de 2010 a 2007, um ano mais que benigno, que no total do ano apresenta uma área ardida de pouco mais de 30 000 hectares, e que em período homólogo até 15 de agosto apresenta pouco menos que seis mil hectares (grande parte da área ardida desse ano foi no Outono, num episódio de vento Leste que pôs muito nervoso o então Secretário de Estado por lhe estar a estragar as médias).
Portanto, repetindo, estamos esclarecidos quanto à capacidade do índice medir o verdadeiro risco meteorológico associado aos grandes fogos.
Se este índice servisse para mostrar a real severidade meteorológica (que não serve), então seria com 2009 (cerca de 26000 hectares ardidos até 15 de Agosto) que 2010 (cerca de 70000 hectares ardidos) deveria ser comparado, porque são os dois anos que têm valores semelhantes do índice (reafirmo, a área ardida é um péssimo indicador).
Mas o verdadeiro golpe de génio comunicacional do Governo consistiu exactamente em conseguir chamar sistematicamente a atenção para 2003 e 2005, com uma pequena mentira que é a de dizer que o índice é semelhante, o que nem de perto nem de longe é verdade, sabendo perfeitamente que ao olhar para linhas de um gráfico tão próximas ninguém com importância em matéria de comunicação iria perguntar o que significam as diferenças de valor do índice.
Uma vez inventada uma história com base num gráfico que não diz nada mas é convincente, é possível então fazer o seu desenvolvimento comparando os dados de área ardida com os piores anos, sem que ninguém pergunte por que razão se comparam os resultados com os piores anos e não com os objectivos definidos em Conselho de Ministros (menos de 100 000 hectares ano).
De uma penada o Governo muda o referencial para a avaliação de desempenho de 100 000 hectares/ ano para mais de 300 000 mil e eu é que sou acusado de ser desonesto, maldizente, ignorante, inculto, profeta do apocalipse, nojento e, pior que tudo, Miguel Sousa Tavares, por um adjunto do Governo simplesmente por dizer o que vou dizer agora e fundamentei antes:
o Governo e a tecno-estrutura da Defesa da Floresta contra Incêndios mentem despudoradamente por razões de pura propaganda.
O que me preocupa não é que mintam, o que me preocupa é que estas mentiras pretendem mascarar a necessidade de rever o modelo de gestão do fogo, reforçando o pilar da sustentabilidade económica do mundo rural, criando uma falsa ideia de sucesso que aponta para mais investimento no sistema de combate, para colmatar as pequenas imperfeições que ainda tem.
O post anterior do Henk (e o comentário do Carlos Aguiar) é claríssimo: o Governo que considera dispensável a defesa da infra-estrutura produtiva do mundo rural, nomeadamente os solos férteis (convém lembrar o inacreditável assassinato da Reserva Agrícola às mãos deste Governo, com o argumento de que a agricultura em Portugal é inviável), é o mesmo que se queixa das condições de combate aos fogos serem muito duras.
Como disse, a comunicação do Governo em matéria de fogos é perfeita e muito afinada, o problema é mesmo que o bom marketing não substitui a qualidade mínima do produto.
henrique pereira dos santos

terça-feira, agosto 17, 2010

Foto da várzea de Aljezur para memória futura

Foto do local onde vai passar a variante à EN120

No verão, Aljezur testamunha o problema do aumento de trânsito, consequência da afluência de milhares de turistas que suportam grande parte da vida económica do concelho. A EN 120 passa pelo centro da vila e diariamente há dificuldades de digerir as viaturas que procuram passar pela ponte sobre a ribeira e a zona das lojas onde os lugares de estacionamento são evidentemente insuficientes para o número de utentes, resultando em estacionamento em segunda fila.
Com o objetivo de o resolver, foi lançado pela Estradas de Portugal, o EIA para a construção de uma variante, que passa por um viaduto sobre a várzea de Aljezur e a Ribeira de Alfambras.
A Associação de Defesa do Património Histórico e Arqueológico de Aljezur (ADPHA), tem manifestado sua posição contrária ao traçado escolhido para a variante, como se pode ler no seu blog. Vale a pena ler.
Este caso é emblemático para o valor do solo agrícola, não só em processos de construção de infraestruturas de transporte, mas em geral. É um facto que a várzea ainda é cultivada em partes significativas (a foto acima comprova-o), mas também assiste-se a um abandono continuado de terras semelhantes, mas mais afastadas da vila. Essas terras estão a ser invadidas aos poucos por arbustos e, se seguida, por sobreiros, cuja expansão é notória na região. Esta situação torna a defesa dos solos agrícolas mais difícil, porque baixa o seu valor intrínsico e imediato para a sociedade (baixa escassez faz baixar o seu valor). A perda de alguns hectares de solo agrícola (até classificada como RAN) não pesa muito no processo burocrático de decisão quando existem outros tantos mais abandonados nas proximidades.
Desconheço o processo de EIA deste tipo de iniciativas e quais os processos de consulta pública associados a ele. Mas certo é que a ADPHA já emitiu o seu parecer. Espero que haja mais organizações, desde políticas a ONGA a juntar-se à iniciativa da ADPHA, obrigando o Estado a olhar para outros traçados para essa variante, deixando a terra agrícola ser cultivada pelos agricultores locais.
Henk Feith



Uma petição pela rola

Imagem retirada daqui
É aqui, para quem estiver de acordo e não tiver problemas em assinar uma petição que se apresenta como sendo de caçadores. Eu, que não sou caçador, assinei.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, agosto 16, 2010

Por que razão não tem ardido o pinhal interior?

Esta pergunta já motivou algumas trocas de argumentos nas caixas de comentários deste blog.
Para mim é a pergunta chave para testar os modelos de interpretação do fenómeno dos fogos em Portugal e, consequentemente, definir linhas de política de gestão de fogos consistentes.
Mariana Oliveira, na sua peça de Domingo que ecoa a perfeita estratégia de comunicação do Governo sobre esta época de fogos (e quando digo que ecoa não estou a dizer que Mariana Oliveira está a fazer um frete ao Governo, estou só a constatar um facto cujos fundamentos não discuto) diz no sub-título de um destaque:
"Valor económico poupa Pinhal Interior"
Para afirmar isto Mariana Oliveira (corrijo, embora peça principal seja de Mariana Oliveira, esta caixa sobre o pinhal é de Helena Geraldes) serve-se de alguns factos (nenhum deles directamente relacionado com o valor económico do Pinhal Interior) e de declarações de dois especialistas: Paulo Fernandes seguramente um especialista de fogo, e Helena Freitas, uma especialista de botânica (desconheço os seus trabalhos sobre fogo mas admito que existam. Este comentário não contém nenhuma crítica ao facto de se ouvirem outras pessoas que não os especialistas, é simplesmente o reflexo da minha perplexidade pela facilidade com que muitos jornalistas recorrem à autoridade de especialistas ao falar de um assunto, convidando especialistas que o são, sem dúvida, mas noutros assuntos).
Paulo Fernandes reafirma o que aqui tem dito e de que eu tenho discordado: a meteorologia não está a ajudar o Pinhal Interior. O Paulo tem a seu favor o facto de saber muito mais que eu do assunto e ter muito mais informação. Eu tenho a meu favor o atrevimento da ignorância e o facto de ter previsto que com as condições de vento que via nas previsões meteorológicas o Pinhal Interior não me parecia que fosse arder.
Quanto ao meu argumento há factos que o prejudicam: essas condições de vento só são relevantes na medida em que traduzem condições meteorológicas específicas, o que se deveria reflectir nos dados das observações meteorológicas, o que não me parece que esteja a acontecer.
Sigamos portanto a argumentação do Paulo Fernandes que parece ter mais razão que eu nesta discussão.
O Paulo fala sobretudo dos índices, não tanto dos elementos meteorológicos elementares (passe o pleonasmo). Ora os índices contêm em si uam interpretação dos fenómenos que valoriza uns elementos e desvaloriza outros. No caso em concreto vamos então admitir que os índices traduzem o risco de fogo e tentemos então explicar por que razão sendo eles mais altos não ardeu o Pinhal Interior.
Diz o Paulo, por interposta jornalista Mariana Oliveira (corrijo, Helena Geraldes):
"O investigador tirou as conclusões depois de analisar o número de ignições por cada 10 km quadrados a partir de Julho. Os distritos do Pinhal Interior, Castelo Branco e Santarém, tiveram apenas duas ignições cada. "Uma diferença enorme em relação a Aveiro, com 16 ignições", por exemplo. O Porto registou 79 ignições."
Confesso que fiquei surpreendido com esta argumentação do Paulo que repetidamente tem dito que não há qualquer relação entre área ardida e número de ignições.
E acho que esta argumentação não cola. Vejamos este gráfico que fiz:

Este gráfico contraria frontalmente a argumentação de Helena Freitas ao não identificar uma grande diferença de fogos por habitante do pinhal interior para o Norte:
"Ao contrário do que acontece no Norte, os concelhos do Pinhal Interior têm hoje a percepção do valor económico da floresta e criaram mecanismos de prevenção". A Região Centro tornou-se "a mais apetecível" para novos valores florestais, como por exemplo a biomassa, ao passo que o Norte enfrenta uma situação de "abandono [da floresta] gravíssima".
Independentemente de eu não perceber onde foi a Helena Freitas buscar a ideia de que em cinco anos a floresta do Pinhal Interior ficou muito mais bem gerida que a do Norte, com base aliás em dois não factos (não existe nenhuma utilização de biomassa séria na região e a floresta do Noroeste é muito mais lucrativa que a da generalidade do Pinhal Interior) e na impossibilidade de mudar estruturalmente uma floresta em cinco anos (para cuja verificação basta um passeio na região, pelas áreas ardidas em 2003), a verdade é que a relação das populações com as ignições não se mede no número de fogos por hectare, mas sim no número de fogos por habitante.
É essa a linha verde mais grossa do gráfico, que identifica uma clara anomalia em Viana do Castelo (o distrito que melhor traduz a zona que está a arder), um pico secundário em Vila Real mas com um nível semelhante de ignições por habitante em Braga, Porto e Viseu e um nível um pouco mais baixo no limite Sul da região que está a arder (Aveiro, Guarda e Castelo Branco) e depois níveis mais baixos.
Se alguém me conseguir explicar as diferenças entre os Minhotos do Norte e os do Sul que justifiquem a anomalia do número de fogos por habitante, eu dar-me-ei por vencido.
Até lá eu tenho de concluir, que tal como resulta da análise das variações diárias e etc., é na meteorologia que estão as diferenças.
Ontem, numa conversa telefónica com outro dos especialiastas do fogo em que eu tentava perceber melhor o que se está a passar, ouvi contar que um meteorologista tinha feito uma pergunta inteligente: se 97% dos fogos resultam de causas humanas, como se explica que se verifique uma tão grande associação aos factores meteorológicos? A resposta parece ser que o território está saturado de ignições, como diz o Paulo Fernandes no artigo que aqui comento, apenas para o Noroeste, mas penso que é válido para todo o território, pelo que nunca são factor limitante para os fogos. Os factores limitantes são de facto as condições meteorológicas.
O que nos conduz a uma questão: ou os índices não reflectem o verdadeiro risco meteorológico de incêndio (que é o meu ponto de vista, ainda que não tenha nada de mais consistente a apresentar em alternativa que não seja a direcção do vento), ou o número de ignições por habitante pode ser explicado por diferenças culturais e, consequentemente, se verifica mesmo noutras condições meteorológicas, hipótese que me parece absurda face aos dados existentes.
Resumindo: o Pinhal Interior não ardeu por estes dias porque condições de meteorológicas que não sei definir não se verificaram.
Corolário: quando entrar vento Leste a sério no Pinhal vai arder, se entretanto não ouver programas de gestão de combustiveis sérios, consistentes e alargados.
henrique pereira dos santos

domingo, agosto 15, 2010

Programa Nacional para a Valorização dos Territórios Comunitários

Baldios da Serra de Montesinho [Concelho de Bragança]

A Autoridade Florestal Nacional disponibiliza no endereço http://www.afn.min-agricultura.pt/portal/cnvtc/contributos/comentarios-a-discussao-publica-do-pnvtc um rol de comentários ao "Programa Nacional para a Valorização dos Territórios Comunitários (PNVTC)" (vd. aqui: http://www.afn.min-agricultura.pt/portal/cnvtc/pnvtc).

O comentário mais importante - digo-o sem qualquer cinismo - talvez seja o da BALFLORA-Secretariado dos Baldios do Distrito de Viseu. Diz-nos a BALFLORA que importante, importante, é não mexer na lei dos baldios. Em vez de defenderem os comuns e os "povos dos baldios", os Secretariados dos Baldios, escravos de um voluntarismo ideológico conservador, estão, na realidade, a promover a apropriação privada das terras baldias ou dos seus benefícios, e a desigualdade e a opacidade na distribuição dos proveitos monetários gerados pelos baldios. O assunto é muito sério: estão em causa quase 5% do território nacional, onde se produzem bens e serviços da maior relevância, quer para a comunidades rurais, quer para o todo nacional.

Carlos Aguiar

[reprodução de um post distribuído na AMBIO]

O sumo de laranja (outra vez)

vendendo sumo de laranja
Djemaa El Fna, Marraquexe, Marrocos
Agosto de 2010

Neste fim de tarde de um dia de Agosto, em mais de uma vintena de pequenas tendas vendia-se sumo de laranja na principal praça de Marraquexe. Turistas, nacionais e estrangeiros, não davam descanso aos vendedores. O calor e o preço acessível - 30 a 40 cêntimos o copo - ajudam a converter laranjas e toranjas de produções locais em saborosos e refrescantes sumos.

Gonçalo Rosa
ps - bem a propósito, vale a pena revisitar O sumo de laranja, publicado pelo Henrique Pereira dos Santos

Crónica politicamente correta


Na última crónica da Clara Ferreira Alves, "Selvagens nas dunas", a cronista chama atenção para um problema conhecido, que é o caravanismo na costa Vicentina. Como compete a um cronista, a Clara exagere qb (não dou cinco anos ao 'paraiso' da Costa Vicentina: esta ideia oiço desde o início dos anos 90, quando era a primeira vez que fui de férias à CV), tem alguma razão no que diz, mas deita tudo por terra quando resolve introduzir duas coisas: a nacionalidade dos caravanistas e o seu padrão de consumo. A Clara não gosta de caravanistas, sobretudo aqueles que partilham o local de férias da Clara, e não gosta de serem estrangeiros_ "muitos são alemães, muitos são espanhois, alguns ingleses e holandeses" que "percorrem as estradas da Europa naquelas casas de portento e chegam (...) entre a ponta de Sagres e Aljezur." e por terem formas de passar as suas férias diferentes da Clara. Segue uma lista de comportamentos reprovados (pasma-se: "bebericando cerveja e vinho ao por do sol"). Mas o melhor vem depois: "comendo latas de conserva e pão de plástico em fatias, trazido dos sueprmercados dos países onde habitam. (...) Nem frequentam restaurantes nem compram em lojas.".
Por acaso estou a passar umas férias em Aljezur. Vejo as caravanas por todo o lado, não o nego. Não acho que são mais que em anos anteriores, mas aí a minha subjetividade por estar a trocar-me as voltas e, presumo eu, a cronista terá feita o seu trabalho de casa antes de afirmar o seu aumento. Não acho provável que a Clara não tenha reparado nas inúmeras caravanas Portuguesas que vejo plantadas por aí fora, por isso sou levado a crer que a Clara acha o comportamento dos caravanistas Portugueses muito mais civilizado que as bestas estrangeiras que invadem Portugal. Quando vou ao supermercado em Aljezur, vejo que a maioria da clientela são (que horror) alemães, espanhõis, alguns ingleses e holandeses. Deixam lá bastantes euros para comprar latas de conservas Portuguesas, vinho e cerveja Portugueses, para não falar do pão de Rogil (em fatias, como é possível?), bolos de alfarroba e figo, fruta e legumes frescos. Volto a encontrar esses estrangeiros nas esplanadas e restaurantes da zona, e, pelo que me parece, consomem o que é habitual nesses lugares. São tipicamente pacíficos e pouco dados a confusões.
Para a Clara, um comportamento reprovável (na sua perspectiva, não a dos caravanistas, claro) exercido por um estrangeiro é bem pior que o mesmo comportamento exercido por um cidadão Portugues. Um estrangeiro a usefruir do paraíso da Clara já é difícil de suportar para ela, mas um que não gasta cá as suas notas, então isso é um escândalo que merece uma crónica.
Sendo a Clara uma pessoa culta, instruída e contratada para partilhar os seus pensamentos sobre a sociedade com uma centena de milhares de leitores do Expresso, esperava-se um pouco mais de reflexão e ponderação nas suas palavras. Se calhar ela devia mas é tirar umas férias, para descansar um pouco a cabeça e voltar a escrever crónicas quando tem algo para dizer, em vez de catalogar pessoas com base na sua nacionalidade ou hábitos de consumo.
Henk Feith

Curiosidades IX


Daqui, via Gonçalo Elias.
A humidade atmosférica na Europa hoje às nove da manhã. Advinhem onde estão os teores mais baixos.
Acertou! Minho e Moscovo.
henrique pereira dos santos

Conversa de café em salão de chá

Raramente compro o Expresso. Mas ontem fi-lo e percebi, pela enésima vez, por que razão raramente o compro.
Um dos temas de fundo eram os fogos: uma reportagem, um editorial e um comentário de Fernando Madrinha. Os criminosos dos incendiários, a mais inútil maneira de discutir o assunto, era a trave mestra de todos os textos.
Comento aqui partes do texto de Fernando Madrinha porque é exemplar de como a conversa de café sobre fogos ganha facilmente carta de alforria para se passear em salões que a caucionam como coisa intelectualmente aceitável.
O texto chama-se "O fogo e o crime".
Tem por isso a vantagem de não enganar ninguém ao dizer logo ao que vem.
"Não se sabe quantos são ateados com intenção criminosa, embora suceda, como sempre, que muitos deflagram em vários pontos simultaneamente o que, só por si, indicia crime organizado".
O esplendor da conversa de café reflecte-se nesta frase. Fernando Madrinha esquece-se que a sua ideia de que muitos fogos deflagram em pontos simultâneos é de fontes de maneira geral muito pouco fiáveis (por exemplo, bombeiros em stress de combate ao fogo), esquece-se que as condições de propagação do fogo tem padrões locais muito marcados, o que facilita a ocorrência de fogos na mesma altura em locais muito próximos e esquece-se, finalmente, que um fogo que deflagra, mesmo em fase iniciais, pode provocar projecções de material incandescente que criam novos focos na proximidade. E esquecendo tudo isso tira uma conclusão definitiva cuja fundamentação é, na realidade, nenhuma. Mas vai mais longe e fala em criminalidade organizada, coisa que nenhuma investigação sobre fogos até hoje detectou. E nem se percebe para que é preciso organização para um indivíduo que queira deitar fogo num lado qualquer o faça em vários pontos com intervalos de poucos minutos. Ou seja, a ideia de crime organizado não está suportada em lado nenhum e a fundamentação apresentada é pueril.
"Metade que sejam os fogos postos - e basta ouvir os bombeiros para se perceber que esta é uma avaliação por defeito -". Um jornalista experimentado acha que bombeiros em stress de combate ao fogo são uma fonte mais fiável que a investigação específica e racional do fenómeno? Pelos vistos acha, o que é extraordinário. Provavelmente também acha que os taxistas são uma fonte muito mais fiável para discutir a criminalidade urbana que a investigação especializada.
Depois faz umas contas verdadeiramente delirantes: "teremos 3320 [fogos criminosos] em 20 dias. Agora repare-se: as autoridades detiveram 10 suspeitos, alguns deles já seus conhecidos. Cinco foram mandados em paz. Serão os outros cinco os autores dos 3320 fogos espalhados por dois terços do território nacional? Claro que não. Falta prender muito criminoso. E falta, sobretudo, descobrir os seus mandantes."
Insisto, isto que transcrevi não vem de um anónimo da caixa de comentários de um blog ou jornal, é mesmo escrito por um jornalista experiente e supostamente informado.
É só por isso que vou perder tempo a desmontar este parágrafo sem a menor aderência à realidade.
A teoria da conspiração mais básica começa na existência de uns mandantes que não se identificam, cujo móbil credível ninguém percebe qual seja e de cuja existência nunca nenhuma investigação séria identificou o mínimo traço. É exactamente assim que se discute futebol em qualquer tasco do país, mas com a vantagem de que todos sabem que ninguém está verdadeiramente a falar a sério. Depois fala-se em dois terços do país a arder quando o que está a arder é apenas uma faixa oblíqua entre Guarda e Coimbra e que exclui grande parte de trás-os-montes. Depois ignora-se esta diferenciação regional que deita por terra a teoria dos incendiários (ou será que se deslocam em grupo de uns anos para os outros, onde vai ardendo em diferentes regiões de acordo com diferentes condições meteorológicas?). E perante o absurdo de ter 3220 fogos para cinco incendiários em vez de concluir o óbvio, que é preciso procurar a explicação das ignições noutro lado, Fernando Madrinha força uma teoria conspirativa, que implica que há centenas de incendiàrios à solta associados numa ou várias organizações, teoria essa sempre desmentida pelas investigações e bem caracterizada neste post de Helena Matos, que se esqueceu das famosas teorias de Armando Vara, quando responsável pela área, que teimava em dizer que ardia sempre que havia eleições.
Por fim, o pormenor do costume: "velhíssimos fatores de desleixo - matas por limpar...".
É curioso como alguém que tem obrigação de ter um mínimo de informação engole a ideia de que os proprietários são desleixados com as matas e deixam-nas por limpar só porque sim.
Mas quem vê os fogos como um caso de polícia é natural que nunca tenha pensado na economia associada à gestão de combustíveis.
Por isso é natural que adopte uma conversa de café sem qualquer consistência e nenhuma aderência à realidade.
O grave disto é que este modelo mental está por todo o lado (é tão apelativo, tão fácil e tão desresponsabilizante), e já hoje é o Público a ceder à central de comunicação do Governo e a repetir que as condições são semelhantes às de 2003, concluindo que foi feito um grande trabalho que pode não ser perfeito mas que agora o que é preciso é aprofundá-lo (note-se bem como o conteúdo geral, incluindo do editorial do Público, é semelhante ao que um adjunto do Governo aqui disse nos comentários a este post há alguns dias. Quer isto dizer que foi o Governo que escreveu a peça do Público? Não, evidentemente, quer simplesmente dizer que o Governo definiu muito bem a linha de comunicação, todos os ministros a seguiram à risca, e que por muitas vezes repetida ganhou uma credibilidade insuspeitada. Apesar dos índices usados dizerem que 2003 foi um ano mau, mas nem foi o pior, o que diz bastante da sua aderência à realidade, para efeitos de identificação da dificuldade de extinção dos fogos, não nego a sua utilidade para outras utilizações).
Ou seja, para sairmos de onde estamos em matéria de fogos, a receita é melhorar a eficácia do combate e convencer as pessoas a fazer menos ignições, que é, de acordo com o que o Público diz que o Paulo Fernandes diz, o que está a resultar no Pinhal Interior.
Claro que quando vier um vento de Leste e o Pinhal Interior arder que nem um fósforo já ninguém se lembrará da lamentável peça feita hoje pelo Público e por Mariana Oliveira.
É que mesmo que tudo o que dizem fosse verdade, a supressão do fogo é a receita para o desastre.
É bom que quando ele vier, e um dia virá, volto a dizer, este ano é uma brincadeira de crianças comparado com o que acontecerá com uma semana de vento Leste típico (esta madrugada havia humidades atmosféricas acima dos 90% na área que tem estado a arder, mais que suficiente para que os combustiveis finos adquiram baixa combustibilidade por algumas horas, permitindo controlar os fogos quase todos com relativa facilidade), os senhores jornalistas responsabilizem quem quiserem entre os políticos, mas não se esqueçam das suas responsabilidades na criação de um ambiente favorável à adopção de políticas erradas.
henrique pereira dos santos