sexta-feira, dezembro 31, 2010

O abandono agrícola como uma oportunidade para a biodiversidade



Nos últimos anos muitos cientistas e ambientalistas têm-se preocupado com os potenciais impactes do abandono agrícola sobre a biodiversidade. Digamos que há uma verdadeira escola de pensamento sobre esta questão, com raízes não só na Arquitectura Paisagista (onde a perspectiva da paisagem como algo que deve ser gerido é fundamental) como na Biologia da Conservação (que como o próprio nome indica é aversa à mudança). Aliás temos aqui um verdadeiro paradoxo, nos países em vias de desenvolvimento temos vindo a preconizar a manutenção da floresta e a combater a sua conversão em zonas agrícolas. Já nos países ricos (e esta filosofia aplica-se essencialmente à Europa), defendemos a manutenção da agricultura e combatemos o regresso da floresta. O argumento utilizado até à exaustão é que as espécies na Europa co-evoluiram com a agricultura, portanto temos que manter os habitats para manter estas espécies. É fácil desmontar este argumento: a agricultura tem menos de 10 000 anos, e a grande maioria destas espécies já ocorriam na Europa antes dessa altura. E então quais são os factos científicos:
(1) Vários estudos demonstram que sistemas de agricultura extensiva têm mais diversidade de espécies que sistemas de agricultura intensiva
(2) Vários estudos demonstram que à escala local (i.e. do ha ou das dezenas de ha) há uma diminuição da diversidade de espécies após o abandono agrícola

Em relação a (1) a preocupação deve ser assegurar que nas zonas de agricultura mais intensiva (essenciais para uma produção agrícola economicamente competitiva) se mantêm elementos da paisagem que favoreçam a biodiversidade, como seja a manutenção de boas galerias ripícolas, sebes vivas, o correcto doseamento de pesticidas e adubos, entre outras. Em relaçao a (2), há que perceber que o que se passa à escala local não é necessariamente o mesmo que se passa à escala regional. Por exemplo, os estudos do meu grupo de investigação, sugerem que o desaparecimento de zonas agrícolas em áreas de montanha têm um impacto muito mais pequeno no número total de espécies do que seria de esperar se olhássemos só à escala local. Isto acontece porque as espécies têm afinidades diferentes para habitats diferentes: as espécies que se dão muito bem em zonas agrícolas também podem ser encontradas em zonas florestais, mas com menos frequência (por exemplo em pequenas zonas abertas no meio da floresta).

O que tenho defendido nos últimos anos é que devemos olhar para esta questão do abandono agrícola ao contrário, ou seja, como uma oportunidade para a biodiversidade. Muitas espécies que tinham quase desaparecido em meados do século XX com o pico populacional nas zonas de montanha em Portugal estão agora em grande expansão (faltam-nos estudos rigorosos sobre isto, mas os indícios são muitos): o corço, o javali, o veado, e em menor escala o lobo (muito polémico ainda). A nível Europeu, são várias as espécies que têm vindo a beneficiar deste abandono (ver texto do HPS sobre este tema ou este relatorio ).
A dimensão da oportunidade não deve ser sub-estimada: cenários para 2050 apontam para o potencial abandono agrícola de 20 milhões de ha na Europa Ocidental (ver este estudo de cenários globais e este para a Europa), que se somam aos vários milhões que têm vindo a ser abandonados nos últimos anos.

Até agora, muitos decisores e cientistas perante esta dinâmica imparável têm tido uma atitude de avestruz com a cabeça na areia: basta dar alguns subsídios que as actividades tradicionais se irão manter. Isto teve ainda o contexto político favorável da necessidade de "mascarar" parte dos subsídios da Política Agrícola Comum como subsídios ambientais, dada a pressão da Organização Mundial de Comércio para o fim dos subsídios agrícolas na Europa, que distorcem o mercado agrícola mundial. Esta atitude, para além de ser um desperdício de dinheiros públicos, não lida com o verdadeiro problema de frente: como aproveitar esta oportunidade para evoluir para florestas auto-sustentáveis (evitando os ciclo curtos de recorrência do fogo), que precisem de pouca gestão e que sejam biodiversas, ou como desenvolver novas formas de aproveitamento destes espaços, tanto a nível agrícola como florestal.

E assim, deixo o meu desejo para 2011: que haja mais cientistas, mais ambientalistas, e mais decisores que se apercebam da oportunidade gigantesca que o abandono agrícola nos traz para a renaturalização de espaços na Europa, a uma escala que não é vista há muitos séculos. Se isso não são boas notícias para fechar o Ano Internacional da Biodiversidade, então o que são boas notícias?

Café S. Lourenço

O café S. Lourenço permite aos seus clientes de repente serem transportados ao tempo do Estado Novo. É um café de beira de estrada numa pequena vila (ou grande aldeia) burguesa dessa época, com as suas madeiras, as suas mesas redondas e por aí fora.
Mas ao contrário de muitos outros cafés deste tipo que se encontram pelo país, não se sente decadência, mas antes uma atitude claramente indiferente a algumas modas, mas atenta aos clientes.
Foi aí que vi manteiga de ovelha à venda. 4 euros um pacote de 125 gramas, ou seja, 32 euros o quilo (no supermercado a manteiga de boa qualidade, industrial e de vaca, anda por pouco menos que 4 euros o quilo).
Perguntei se se vendia bem, numa região onde o leite de ovelha é altamente valorizado na produção de queijo.
Sim, sem qualquer dúvida foi a resposta.
É nessas alturas que tenho a sensação de que avaliar o futuro de alguns sectores pelo seu desempenho no passado pode ser um enorme equívoco.
E lembro-me então da música de campanha de Bill Clinton (mesmo que me custe pôr aqui esta musiquinha em detrimento do fabuloso Sara).

henrique pereira dos santos

quinta-feira, dezembro 30, 2010

O movimento ambientalista e o BB

A iniciativa Business and Biodiversity foi muito mal digerida pelo movimento ambientalista em Portugal, com o argumento de que não havia mecanismos de controlo e de sancionamento dos aldrabões.
Isso não impediu algumas ONGs de serem parceiras de projectos concretos de algumas empresas, com implicações nos fluxos financeiros, mas sempre que a iniciativa aparecia as ONGs desapareciam, atrás de umas vagas declarações sobre greenwashing.
Esta atitude é normal em Portugal onde o dinheiro das empresas é sempre objecto de suspeita (ao contrário do dinheiro das empresas que faça um estágio nos cofres do Estado, que é sempre virginal).
Por várias vezes, enquanto estive ligado à iniciativa, tentei fazer com que as ONGs criassem um observatório da iniciativa, sem qualquer sucesso. Teria de ser uma iniciativa voluntária das ONGs e sem dinheiro associado, portanto era de pouco interesse. Como de costume a resposta era de que esse papel cabia ao Estado e o Estado é que tinha de fiscalizar o cumprimento dos compromissos (voluntários) das empresas.
A posição habitual: as empresas fazem, nós entramos no assunto com a nossa capacidade técnica e conhecimento, que naturalmente tem custos, e o Estado é que deve fiscalizar para podermos ter as mãos livres para criticar a fiscalização se alguma coisa correr mal.
Agora envolvimento directo, risco de falhar, hipótese de ser acusado de estar com os interesses económicos, isso não nos peçam que nós estamos aqui para ser a consciência crítica do sistema e não para resolver problemas.
Ora um comentário sobre as audiência do terra alerta feito na caixa de comentários deste post veio lembrar-me de tudo isto.
É que a SIC comprometeu-se, no BB, a produzir conteúdos sobre biodiversidade. E comprometeu-se voluntária e publicamente como testemunho do seu compromisso para com a biodiversidade, e não como área de negócio a desenvolver (as audiências parecem demonstrar que as duas coisas até se podem conjugar).
Acabar com o único programa onde a biodiversidade era tratada de forma sistemática é na verdade uma ruptura dos compromissos assumidos.
Volto a frisar, a SIC é livre de rever os seus compromissos voluntários.
Mas se houvesse o tal observatório sobre a iniciativa BB, sempre teria alguma visibilidade uma posição clara de classificação desta atitude como demonstrativa do pouco empenho da SIC na conservação da biodiversidade.
Claro que pôr as ONGs a criticar um dos seus pilares de sobrevivência, uma televisão, não seria fácil. E claro que há casos mais escandalosos de compromissos BB que são promessas assinadas em papel molhado.
Mas eu gostava tanto que o movimento ambientalista português, deixasse de ser o pãozinho sem sal em que se transformou e de vez em quando desse um ar da sua graça, que teimo em fazer estes posts que só me trazem chatices.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Protecção a mais

Imagem retirada daqui, onde se defende exactamente o contrário do que se defende neste post
Lá vem a história do abate de sobreiros e das compensações associadas.
Esta história das compensações associadas a abates de sobreiros e azinheiras "é um vôo cego a nada".
Quer o sobreiro quer a azinheira estão em rápida expansão. Não estará o montado, que exige gestão e manutenção, mas está com certeza o azinhal e o sobreiral, com a regeneração aos molhos que por aí anda.
É por isso absurda a protecção às árvores em vez da protecção ao que corre alguns riscos: o montado.
O tempo e os recursos gastos nestas tretas, porque é de tretas que se trata, de contar sobreiros abatidos, fazer plantações noutro lado para compensar (sem que ninguém verifique o que lá está cinco anos depois), parar investimentos por causa de sobreiros e azinheiras é pura e simplesmente uma perda de recursos para o país, sem benefícios visiveis para o que se pretende proteger.
Fora o que isto implica de distorção de prioridades, como se pode ver neste parecer da QUERCUS sobre o novo aeroporto de Lisboa, em que se diz: "Ao ser deslocada a área de implantação do NAL para Noroeste, será afectada uma maior área de montado, que agora totaliza 1278 ha. A localização anterior do NAL permitia poupar uma área significativa de montado e de povoamento de sobreiros, uma vez que a zona Sul é constituída maioritariamente por eucaliptal e por áreas agrícolas." (sublinhado meu).
Há a possibilidade destas áreas agrícolas estarem implantadas em solos de pouca aptidão, mas há uma fortíssima probabilidade destas áreas agrícolas serem os melhores solos que por ali estão. O que este parágrafo quer dizer é que a QUERCUS está mais preocupada com destruição que o aeroporto causa em 1287 hectares de sobreiro (dos mais de 700 000 que o país tem, isto é, menos de 0,2% do total) que com a destruição de solo agrícola, muito mais estratégico para o País.
Confesso, estou um bocado farto da irracionalidade da legislação de protecção do sobreiro e da azinheira.
Proteger, de acordo, mas sensatamente e distinguindo bem o que é de proteger e como, do que pura e simplesmente é excesso de zelo.
henrique pereira dos santos

terça-feira, dezembro 28, 2010

O princípio do utilizador pagador e o dinheiro público

A propósito do efeito económico positivo das touradas na conservação de ecossistemas relevantes para a prestação de serviços ambientais, ou a propósito da recente discussão sobre o financiamento do ensino privado pelo Estado, encontro sempre a mesma questão: por que razão devem os impostos dos mais pobres financiar a prestação de serviços individuais aos mais ricos?
Na verdade a questão é um dos fundamentos teóricos mais esquecidos do movimento ambientalista: o pagamento pela utilização de bens (públicos ou privados) é sempre um forte estímulo ao seu uso racional.
Chama-se a isto o princípio do utilizador-pagador.
Nesta querela sobre o financiamento público de escolas privadas (nem vou discutir a querela religiosa que lhe resolveram acoplar, de tal maneira fico envergonhado por ser de um país que por duas vezes na sua história destruiu o melhor do ensino que tinha com base nessa mesma querela religiosa e que hoje parece não ter aprendido nada com as duas expulsões dos Jesuítas e a destruição das melhores escolas do país de então) há um conjunto de pessoas que pura e simplesmente acham que o ensino deve ser gratuito, como se existissem almoços grátis.
Na verdade não existe ensino gratuito, existe sim ensino pago pelos contribuintes e pagos pelos seus utentes, mas em qualquer caso é sempre um ensino pago. Ora o dinheiro público inclui o dinheiro dos impostos dos mais pobres e é por isso da maior exigência ética no seu uso (João César das Neves tem razão neste particular).
Argumentar que o ensino deve ser gratuito para todos os seus utentes é forçosamente admitir que o dinheiro que exigimos de todos, incluindo os mais pobres, deve ser usado num investimento com efeitos individuais muito concretos (a educação não é um bem abstracto ou difuso, é um benefício concreto para as pessoas concretas que o recebem), mesmo para aqueles que poderiam pagar esse serviço. O que deve ser discutido é a forma como o Estado garante um acesso universal à educação, mesmo para aqueles que não podem pagar esse serviço que lhe é prestado.
O projecto escola na natureza (Deus o tenha em sua companhia) é um bom exemplo da forma como a ideia de gratuidade de serviços públicos conduz a lógicas perversas ineficientes.
Quando na altura se resolveu desfazer o imbróglio em que tinha mergulhado a execução do projecto escola na natureza, optou-se por uma abordagem economicamente sustentável.
O que implicaria o pagamento dos serviços de alojamento, transporte e alimentação por parte das famílias dos miúdos participantes no programa.
Sabendo isso todo o esforço foi posto na redução desses custos, por várias vias, e o preço anual para a família era bastante moderado para uma participação de duas noites, quatro refeições e transporte.
O Ministério da Educação imediatamente se colocou fora do projecto porque não era gratuito. Não se dispôs a pagar as despesas mas recusava-se a participar num programa que violava o princípio da gratuididade do ensino.
Por mais que se explicasse que a opção não era entre o projecto ser pago pelas famílias ou pelo Estado, porque nenhum dos organismos do Estado tinha 10 milhões de euros por ano para o programa, mas sim entre haver o programa voluntariamente pago pelos seus beneficiários (com uma situação excepcional para os beneficiários do apoio escolar) ou não haver programa nenhum, nada fez demover o Ministério da Educação da sua posição de princípio, mesmo sabendo que muitos e muitos meninos com famílias que podiam pagar iriam criar rendimentos e trabalho para zonas economicamente deprimidas.
O programa jaz morto e arrefece, não tendo criado mercado para as estruturas de alojamento existentes no interior (e hoje sub-utilizadas), para os produtores de refeições, para os produtores de serviços e ainda para os fornecedores dos produtores de refeições, que se poderia ir dirigindo no sentido de serem produtores locais com mais valias de biodiversidade.
O exemplo serve para a factura energética (com o movimento ambientalista adormecido face aos preços administrativamente deprimidos da electricidade, nomeadamente para as empresas) ou qualquer outro bem ou serviço.
Hoje parece absurdo, mas quando em 1997 se determinou que todas as visitas às áreas protegidas teriam de ser pagas (incluindo as das escolas) foi um clamor enorme, com direito a notícias de jornal, sem que nenhum dos opositores a esse pagamento explicasse por que razão deveria estar o ICNB a desviar verbas dos programas de conservação para a visitação de pessoas que na sua maioria poderiam pagar esse serviço.
Substituir actividades económicas por pagamentos do Estado (isto é, também com o dinheiro dos mais pobres) é uma má solução, de maneira geral.
Seria bom que se percebesse em toda a sua extensão o princípio do utilizador-pagador, cuja aplicação razoável e sensata diminuiu em 50% o uso de sacos de plástico no Pingo Doce, só para dar um exemplo caro ao movimento ambientalista.
É que na área da gestão das áreas protegidas sempre que se pretende usar este princípio base parece que alguém está a cometer um sacrilégio, porque prevalece a ideia que área protegida quer dizer área necessariamente financiada pelo dinheiro público, em todas as suas actividades, mesmo naquelas em que é possível materializar o princípio do utilizador pagador, como a visitação, a fotografia de natureza, a prestação de serviços na emissão de licenças e por aí fora.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Ainda o IVA para uma alimentação sustentável (II)

Descobri agora que o açucar e o chocolate têm 21% de IVA e o leite 5%. Mas o leite com chocolate tem apenas 5% de IVA, o que quer dizer que comprar leite achocolatado paga menos impostos que comprar leite simples, açucar e chocolate, e fazer o dito leite com chocolate em casa.
Neste post, em que me perguntava a mim próprio por que razão tremoços e azeitonas pagavam 13% de IVA, Luís Lavoura explicava que pareceria que era por serem alimentos transformados.
Ora verifiquei que um chá de tília em pacotinhos, a coisa mais processada que existe e com resíduos que nunca mais acabam (para já não falar de toda a espécie de iogurtes, do mais elaborado e processado que existe) paga apenas 5% de IVA.
Para além desta paranóia de protecção ao leite, seja sob que forma for, parece-me que há muito mais coisas consideradas essenciais, por razões que ninguém consegue explicar.
Enquanto tremoços e azeitonas são assim uma coisa entre o essencial e o luxo.
Gostava de um dia poder discutir a sustentabilidade destas ideias absurdas com quem decide sobre o assunto.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Bom Natal

É o que vos diz a banda de um dos presépios cá de casa.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Se não extinta, a mais rara…

trevo-de-quatro-folhas (Marsilea quadrifolia)
“Um taxon considera-se Extinto quando não restam quaisquer dúvidas de que o último indivíduo morreu. Um taxon está presumivelmente extinto quando falharam todas as tentativas exaustivas para encontrar um indivíduo em habitat conhecidos e potenciais, em períodos apropriados (do dia, estação e ano), realizadas em toda a sua área de distribuição histórica. As prospecções devem ser realizadas durante um período de tempo adequado ao ciclo de vida e forma biológica do taxon em questão.” (IUCN, Red List Categories).
 

quarta-feira, dezembro 22, 2010

O movimento ambientalista e as presidenciais


Neste post defendi que o movimento ambientalista deveria ter um candidato presidencial. Não para ganhar, mas para dar visibilidade às políticas ambientais.
Penso que a forma como a campanha está a decorrer me dá razão.
Para as próximas presidenciais será mais difícil ter visibilidade (nestas, como não há nada a acontecer e não há nenhuma dúvida sobre os resultados, a existência de um candidato que se dispusesse a discutir políticas teria facilmente visibilidade e as pessoas poderiam manifestar livremente, pelo seu voto, a sua simpatia por essas políticas) mas ainda assim penso que se deveria encarar seriamente a possibilidade de começar a pensar num candidato.
Por mim, pode ser o que já propuz.
Mas se quiserem outro, por mim também pode ser, desde que não seja destes ambientalistas profissionais dos lugares de nomeação.
henrique pereira dos santos

terça-feira, dezembro 21, 2010

O terra alerta acabou (outra vez)

Imagem roubada daqui
Há alguns, poucos, programas ambientais, com conteúdos fortes de biodiversidade, na televisão portuguesa, tanto quanto sei (habitualmente não vejo televisão).
Há o Biosfera (que vai dando também nos vídeos dos comboios Alfa, sequências de vídeo que aliás têm repetições frequentes em curtíssmos espaços de tempo, numa clara demonstração de falta de respeito da CP pelos seus clientes), com um carácter mais institucional (mesmo que seja o institucional das ONGs e por aí) e havia o Terra Alerta, mais aberto ao que não é o mainstream ambiental.
Esta última série teve treze programas, se não me engano, sempre com uma estrutura relativamente simples mas eficaz: uma reportagem de fundo sobre um tema (a maior parte, de biodiversidade), uma reportagem sobre acções concretas que estão a ocorrer no país e uma reportagem sobre heróis ambientais mais ou menos anónimos (nem sempre os mais evidentes, o que se saúda). O que fica na net é um excelente material de comunicação.
Se acabou é porque a televisão o acha um programa sem interesse suficiente (isso pode não ter nenhuma relação com o seu interesse intrínseco, pode ser simplesmente a relação de custo/ benefício que não é a desejada pela direcção de programas, suponho eu).
Ora um programa não ter interesse para uma televisão quer dizer que não atrai o suficiente a publicidade de que vive o canal de televisão.
Ou seja, nos casos dos programas de biodiversidade, que, ou são muito caros de realizar ou implicam mais entrevista que imagens de vida selvagem (pelo menos as imagens espectaculares de lobos a atirar-se à jugular de um corço, ou de uma cria de veado a nascer), a biodiversidade ainda não é um factor de mercado suficientemente poderoso para fazer diferença nas vendas, seja na publicidade da televisão, seja nos produtos e serviços que poderiam querer associar-se à biodiversidade.
Sempre tive curiosidade de saber se este tipo de programas são muito ou pouco vistos na televisão.
A resposta é nem muito, nem pouco, têm audiências razoáveis.
No caso do Terra Alerta, tem audiências um pouco acima da média do canal onde é exibido (não esqueçamos que é um canal por cabo).
O que não deixa de nos colocar uma questão: o que fizemos nós em mais de trinta anos de sensibilização ambiental que não criámos sequer um público sólido (e se quisermos, um grupo suficientemente alargado de consumidores que orientem as suas escolhas também em função da percepção do benefício para a biodiversidade) para sustentar a continuidade de programas de produção própria dos canais de televisão portugueses?
Temo que caminhemos como em relação à formação de públicos culturais: em vez de criarmos milhares de pequenos grupos de teatro e de ensinarmos sofriveis executantes de instrumentos musicais, que acabam em espectadores exigentes e conhecedores, distribuímos bilhetes de borla para os espectáculos, que chegam a ter lotação esgotada com a sala meia vazia.
Por isso eu gostava tanto do programa "Florestas em movimento", criado por Branco Vasco, assente na ideia base de que mudar a visão urbana que hoje existe sobre a floresta implica o contacto directo das pessoas com a floresta.
Assim diria eu que deveria ser toda a educação ambiental orientada para a biodiversidade: uma imersão em espaços naturais, que fosse mais que um passeio de autocarro.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Rutger Barendse et alii

Há algum tempo que não ia ver quem eram os observadores com mais espécies observadas no biodiversity4all.
Hoje fiquei surpreendido ao verificar que embora Francisco Barros continue a ser o observador com mais espécies observadas, havia, muito próximo, um segundo observador de que nunca me tinha apercebido: Rutger Barendse.
Curioso fui verificar que observações eram essas.
São cerca de três dias no Algarve, a meio de Março de 1999, e cerca de quinze dias na Madeira na segunda quinzena de Abril e princípio de Maio, onde são feitas a grande maioria das quase mil observações registadas por Rutger Barendse e com certeza nas últimas semanas vertidas para a base de dados holandesa a que está associado o Biodiversity4all.
Curiosamente dois factos completamente independentes chamaram-me a atenção para a produção de conhecimento em biodiversidade feito por estrangeiros em Portugal e que com frequência passam mais despercebidos do que eventualmente deveriam (vou tendo idade suficiente, e contactos transversais suficientes, para ir conhecendo o meio da conservação, embora não profundamente, e alguns destes nomes parecerem-me pouco frequentes nas discussões sobre fontes de informação de biodiversidade em Portugal).
O primeiro facto, no sábado dia 11, nas jornadas da ATN, em Figueira de Castelo Rodrigo. Uma das apresentações, sobre flora, com dezenas de observações de Horst Engels, da associação trilhos d'esplendor (curiosa associação cujos membros da direcção, da assembleia geral e do conselho fiscal são os mesmos, pelo que Horst Engels é simultaneamente o presidente da direcção, da assembleia geral e do conselho fiscal) cujo trabalho eu desconhecia por completo e sobre o qual não tenho a menor informação de solidez ou não. Mas o facto é que existe trabalho, não apenas de dois meses na Faia Brava, o que linkei acima, mas de muito mais tempo na zona de Quiaios (as observações não estão no biodiversity4all).
O segundo facto já este fim de semana: o acesso a mais um artigo de George Estabrook, para cujo trabalho Carlos Aguiar me chamou a atenção, e como os artigos que eu já conhecia, muito, muito interessante. George Estabrook está a preparar a publicação dos seus oito trabalhos sobre agricultura tradicional e vida rural portuguesa para a Arizona University Press e espero que o livro não demore muito a ser publicado. Curiosamente nos agradecimentos deste artigo, Estabrook agradece o apoio de Horst Engles (a grafia não é a mesma, mas suponho que seja a mesma pessoa).
Claro que tal como os portugueses haverá nestas observações, mais ou menos em férias, e nestes trabalhos, uns mais, outros menos estruturadamente científicos, coisas boas e coisas más, gente que presta e gente que não presta e por aí fora.
Mas o que eu queria era dizer que de repente, de dois pequenos períodos de férias de um holandês curioso e com cultura de registo de observações, saltam quase mil observações, a grande maioria para a Madeira. E que sem as plataformas sociais que hoje conhecemos seriam provalvemente observações que nunca veriam a luz do dia em Portugal.
Nada de relevante está nessas observações?
Talvez, mas quantas mais, de gente que por aí passa, em férias ou não, poderiam estar a ser integradas, nenhuma delas particularmente relevante, mas que no conjunto nos permitiriam conhecer melhor a nossa biodiversidade?
Espero que aos poucos, a resistência de académicos e especialistas a estes modelos caóticos de registo da informação, organizados em bases não caóticas, vá esmorecendo e seja dada a devida importância, nem mais (são sempre, e só, dados ad hoc), nem menos (muitos dados ad hoc formam padrões estatísticos provavelmente fiáveis), a este tipo de procedimentos novos (em Portugal) de produzir ciência em domínios para os quais a quantidade de informação é uma condição (não suficiente, é certo) da sua qualidade.
henrique pereira dos santos

sábado, dezembro 18, 2010

Resistindo

Fotografia de um pormenor do presépio cá de casa, com parte do nutrido rebanho em destaque. O anjo da esquerda, não renegando as suas origens, segura uma faixa com um orgulhoso "Abé"
Por aqui vai-se resistindo ao rolo compressor da cultura florestal dominante: em minha casa não há árvores de Natal.
Por enquanto mantém-se o predomínio da cultura pastoril mediterrânica.
Bom Natal.
henrique pereira dos santos

25 000 observações

O biodiversity4all atingiu hoje as 25 000 observações.
Quando decidi apoiar o projecto fiz alguns posts, como este, por exemplo, em que dizia que ficaria satisfeito se se conseguissem 10 000 observações em cinco anos. No fundo falava de cinco observações diárias.
No último mês a média de observações diárias passou as 40 (em grande parte devido à utilização da plataforma como caderno de campo do Francisco Barros, mas está longe de ter sido apenas isso), em Maio, o tal que incluía do dia B, a média foi de mais de 70 observações diárias, claramente inflacionadas pelo dia 22, com 771 observações num dia só e algum do crescimento do número de observações resultou da integração de listas e bases de dados já existentes (onde reside um potencial de crescimento brutal, assim os investigadores e naturalistas abandonem o "amor táctil, que votamos aos maços de cigarro" para usar uma expressão com que Caetano Veloso caracterizou o amor aos livros e que neste caso se aplica às suas listas de observações).
A integração com outros projectos vai crescendo, por exemplo, estou muito esperançado na articulação com o projecto Naturdata, uma enciclopédia de biodiversidade muito sólida.
Mais uma vez, parece que os portugueses (e alguns estrangeiros que observam e registam biodiversidade em Portugal) são mobilizáveis.
O que me incomoda é ver alguns dos que mais se queixam da incapacidade dos portugueses se mobilizarem em matérias ambientais, e de conservação em particular, não fazerem o esforço mínimo de ceder uma folha excel onde "jaz morto, e arrefece" o seu imenso conhecimento traduzido em observações concretas.
Partilhar dados é apenas uma forma de enriquecer acedendo a mais conhecimento, não é empobrecer cedendo conhecimento.
Com o ritmo deste ano, os 10 000 dados em cinco anos que já me faziam contente em Março, poderiam ser para cima de 125 000 que seria fantástico.
Desvalorizar essa possibilidade num país tão pobre em conhecimento da sua biodiversidade é uma tolice que não entendo.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Pai, há vulcões no jardim!

Foi com gritos de exitação que os meus filhos me fizeram sair da casa logo pela manhã. Com as chuvas, as formigas reiniciaram a sua atividade e surpreenderam-nos com mini-vulcões de uns 10 cm de altura construídos em tempo recorde. São às dezenas e só nos deixa fantasiar sobre o intrigante mundo subterrâneo que deve existir por baixo destas chaminézinhas. E será que somos nós os engenheiros?

Henk Feith

Não são mobilizáveis? Não participam?

Imagem retirada daqui
Um dos grandes equívocos do movimento ambientalista em Portugal é a mentira mil vezes repetida de que os portugueses não são mobilizáveis e participam pouco.
Nunca aceitei essa mentira e tenho feito bastantes posts contestando essa ideia que me parece errada.
Vem esta introdução a propósito desta petição, que comentei aqui, dando origem a uma discussão que foi muito proveitosa para mim.
Esta petição (não sei se com outras), ao contrário do que seria de esperar por quem acha os portugueses não são mobilizáveis, deu origem a uma (ou várias, não percebi) iniciativas para dar resposta a um problema considerado chocante.
Claro que há sempre quem, por razões de campanha eleitoral, ou por necessidade de afirmação da sua posição esquerda caviar, desvalorize estas iniciativas (é tão bom poder descartar-se da responsabilidade individual escondendo as pessoas concretas atrás da responsabilidade do Estado face à pobreza e troçar da caridadezinha). E há também quem use o seu critério para conscientemente cumprir os objectivos da lei, não cumprindo a sua letra.
Mas o facto incontornável é que uma pessoa concreta, chocada com factos concretos que afectam outras pessoas concretas, tomou uma iniciativa individual da qual resultou uma rápida e forte mobilização e a descoberta de que afinal não era ilegal usar as sobras dos restaurantes e cantinas.
Fica por apurar a responsabilidade da leitura maximalista dos regulamentos feita pela ASAE, mas disso um dia se falará.
Para já, ganham as pessoas, ganha a sustentabilidade (mesmo com a perfeita consciência de que não será fácil pôr a coisa a funcionar).
Porque afinal os portugueses são mobilizáveis.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, dezembro 16, 2010

"Global boom in resource spending"

O título deste post é a manchete do Financial Times de ontem.
Hoje o Público resolve publicar duas páginas sobre o preço da electricidade em Portugal, essencialmente batendo nos aumentos propostos pela ERSE e na tecla dos custos de interesse geral.
Estranhamente para mim, não aparece uma linha sobre o déficit tarifário, as suas origens e as suas consequências.
O mais interessante do artigo (confuso e em alguns aspectos bastante ínvio) é para mim o boneco com que ilustro este post. Se se reparar bem não há nenhuma relação directa entre o preço da electricidade e o desempenho económico de um país.
Não só a electricidade é uma pequena parte da factura energética, como é ainda uma parte menor dos custos de produção da enorme maioria das empresas.
Como ainda, o custo elevado de um factor de produção tende a produzir mais eficiência no seu uso, pelo que a incorporação global do custo energético por unidade de valor do produto tende a ser menor nos países onde o custo desse factor de produção é mais elevado.
Há no artigo do Público um comentário da ERSE as estes aumentos que de certa forma ilustra o que estou a dizer: a ERSE estima que os aumentos de agora possam pesar cerca de um euro e meio, em média, na factura eléctrica de cada família. Mas, em média, cada família pode diminuir a sua factura eléctrica em seis euros se usar mecanismos disponíveis, como as tarifas bi-horárias. Acrescento eu: não o faz porque não quer e não quer porque a factura eléctrica pesa pouco no seu orçamento familiar.
O que me traz à verdadeira questão ambiental em Portugal, no que diz respeito à energia: é bom lutar por preços transparentes e justos, claro, mas o fundamental é lutar por preços altos da energia (já agora, eléctrica ou não).
O movimento ambiental não deve ter medo de dizer alto e bom som que os preços elevados da energia (dentro de limites, mas podemos usar como padrão, o preço da Alemanha ou da Dinamarca), num país francamente ineficiente no uso da energia, é não só um poderoso instrumento de sustentabilidade ambiental, como de eficiência económica.
É aqui que entra o título deste post.
Quem ler o artigo do Financial Times que tem o título deste post não pode deixar de se espantar por andar tante gente em Portugal a fazer campanha contra aumentos de preços na energia exactamente quando as comodities (energia, açucar, trigo, minerais, incluindo petróleo) estão sob forte pressão de subida dos preços pelo aumento do consumo dos países emergentes e porque anos a fio de baixo investimento conduziram a um desfasamento entre procura e oferta.
Sendo expectável que o aumento de investimento nestes sectores, que motiva o artigo do Financial Times, tenderá a ajustar a oferta à procura, estabilizando e baixando os preços a médio prazo, a verdade é que é bom que nos habituemos a exigir eficiência na criação de riqueza em vez de exigir dos governos preços artificialmente baixos nos factores de produção.
Claro que é uma questão de economia, mas como se diz frequentemente no discurso ambientalista (mas incomparavelmente menos na sua prática) as questões ambientais são essencialmente questões de economia (ou é vice-versa, o discurso ambiental?).
henrique pereira dos santos

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Primeira área protegida privada em Portugal II

A coisa já tinha sido de facto decidida.
Mas em Portugal há sempre mais uma formalidade.
Agora já está.
henrique pereira dos santos

Utilização dos dinheiros públicos



Um dos problemas maiores da utilização dos dinheiros públicos em Portugal é a falta de responsabilização dos gastos indevidos desses dinheiros. À boleia dos fundos da UE muita obra foi feita por esse país fora que não tem a mínima sustentabilidade financeira, que fica às moscas a partir do dia da inauguração, e com custos de manutenção e operação incomportáveis para as entidades que os gerem (muitas vezes as mesmas entidades que desenvolveram o projecto). A fotografia em anexo, da ponte de S. Miguel no Rio Homem ilustra bem o problema. Um projecto financiado pela UE, liderado pelo município de Terras de Bouro e com a participação de várias entidades, incluindo o ICNB, tinha o objectivo de interpretar e melhorar a acessibilidade da Geira Romana. Inicialmente era para ser construída uma ponte de betão ao lado da antiga ponte romana, o que se tornou inviável por razões de ordem técnica. Enquanto estive como Director do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), a Câmara Municipal propôs a colocação de uma ponte em madeira pré-construída, a que os serviços técnicos do PNPG emitiram um parecer favorável do ponto de vista do Plano de Ordenamento do PNPG. Pouco depois deixei as minhas funções no PNPG, pelo que deixei de acompanhar o projecto. Qual a minha surpresa quando este Verão, ao visitar o local me apercebo que a ponte foi colocada no local, recorrendo a alicerces de betão (que não me lembro estarem originalmente previstos, mas a memória pode falhar-me), mas que a forma como foi colocada leva a um desnível de cerca de 1 metro entre o tabuleiro e o solo, que é compensado com uma escada improvisada de madeira. Não sei qual foi o custo da ponte, mas imagino que será da ordem das muitas dezenas de milhares de Euros. Como é que se pode justificar que passado mais de um ano o acesso não estar regularizado? É realmente extraordinário, mas infelizmente não é único.

terça-feira, dezembro 14, 2010

O fetiche da reestruturação do ICNB

Esta imagem está desactualizada. Porque lhe faltam algumas áreas protegidas, como o monumento do cabo Mondego, ou várias áreas protegidas locais (esquecidas na resposta que comento), como porque algumas destas áreas estão legalmente extintas, pese embora o facto de provavelmente algumas ressuscitarem com certeza (ilegalmente) daqui a algum tempo
Ontem com o Público vinha uma revista chamada Recicla, da sociedade Ponto Verde (será que faz sentido a sociedade Ponto Verde ter uma revista institucional a distribuir com o Público? É isso uma adequado uso da taxa que todos pagamos para a reciclagem e o tratamento de resíduos?).
Nela há uma entrevista da Luísa Schmidt que se recomenda.
E há uma resposta notável a uma pergunta banal (o facto de ser banal não invalida a razoabilidade da pergunta na entrevista): "Que balanço faz do Ano Internacional da Biodiversidade em Portugal?"
A primeira frase é o que seria expectável de Luísa Scmidt "O balanço é negativo". A fundamentação está ao nível do que é hábito nestas opiniões muito assertivas de Luísa Schmidt: "As efemérides são sempre importantes, blá blá, fizeram-se alguns estudos, blá ,blá.". E depois começa o que realmente me interessa: "No entanto, e na prática, o que aconteceu às áreas protegidas é deprimente (o uso de adjectivos é especialmente interessante, sendo parte integrante da atracção pelo que escreve Luísa Schmidt. A par dos trocadilhos fazem parte do engraçadismo que nas suas opiniões substitui o trabalho e análise ponderada, tornando-os uns textos muito agradáveis de ler e bastante irrelevantes). A última reforma foi absolutamente nefasta. A verdade é que estão mais desprotegidas do que há dois anos: têm menos técnicos no terreno, menos capacidade económica, menos visibilidade e estão mais degradadas".
Deixem-me ser bruto com Luísa Schmidt como ela é com quem lhe apetece: isto é um chorrilho de disparates e uma resposta completamente idiota à pergunta que é feita.
Ao contrário de Luísa Schmidt, que diz de terceiros coisas semelhantes ao que eu agora disse de uma resposta dada por si, mas com mais elegância e piada, é certo, o que disfarça com frequência a violência do que diz, vou tentar fundamentar esta minha opinião em questões objectivas e verificáveis.
Em primeiro lugar, reduzir a prática da conservação da biodiversidade às áreas protegidas não faz o menor sentido. Em segundo lugar, comparar a gestão das áreas protegidas em dois momentos separados por dois anos, atribuindo tudo o que se passa a um facto ocorrido há quatro anos não tem ponta por onde se lhe pegue. Mas estas duas questões, não sendo marginais, têm ainda em si um grau de incerteza que permite interpretações criativas como as de Luísa Schmidt.
O resto é que é de cabo de esquadra.
Vejamos as razões objectivas invocadas por Luísa Schmidt para tirar a conclusão de que a última reforma do ICNB "foi absolutamente nefasta".
"têm menos técnicos no terreno"
O que tem este aspecto com a reforma levada a cabo? Nada, rigorosamente nada. Aliás, se tivesse alguma coisa, seria exactamente no sentido de que haveria mais técnicos no terreno porque alguns anteriores dirigentes passaram a técnicos, melhorando substancialmente o rácio de dirigentes por técnico. Ora isso pode implicar uma gestão pior por sobrecarga dos dirigentes, mas em caso algum tem como consequência a existência de menos técnicos no terreno. Na verdade até podem existir menos técnicos no terreno, mas isso deve-se à política de José Sócrates para a funçao pública em geral (eu sou um exemplo disso, mas há mais, muitos mais técnicos que se cansaram de aturar as tolices nesta matéria e ou se reformaram, ou usaram outros mecanismos de saída da função pública,sem que fossem substituídos). No máximo, e mesmo assim marginalmente, deve-se também à sensação de irrelevância da política de conservação neste governo, mas isso não decorre da reforma do ICNB mas das opções políticas deste Governo.
"menos capacidade económica"
O que tem isto com a reforma do ICNB? Zero. A capacidade económica das áreas protegidas resulta das decisões que todos os anos são tomadas no orçamento do Estado (que como se sabe são influenciadas pela conjuntura económica). Portanto atribuir isto à reforma do ICNB é simplesmente uma tontice.
"menos visibilidade"
Não vou discutir este argumento. Não tenho, nem eu, nem Luísa Schmidt, a menor informação objectiva sobre o assunto, quer de alterações nos últimos dois anos, ou quatro, ou seis ou sessenta. É o único destes argumentos cuja lógica de ligação à reforma do ICNB se pode admitir, argumentando-se que um director em cada área pode ter maior capacidade de comunicação. Claro que avaliar as autonomias que em Espanha têm, com bons resultados, o modelo de gestão de áeas protegidas adoptado para o ICNB está fora de causa, que ainda estragaria o argumento.
"estão mais degradadas"
Estão mais degradadas sob que ponto de vista? E avaliadas com base em que critérios? Claro que ninguém sabe responder. Mas se avaliadas do ponto de vista da recuperação dos sistemas naturais, o mais provável é que as áreas protegidas, não por causa das políticas de conservação, mas porque essas são as tendências sócio-económicas, estejam melhores. Essa é pelo menos a tendência geral do território. Avaliadas sob critérios de gestão da organização, o mais natural é que estejam como estão há muitos e muitos anos: mal, muito mal.
Sem registo, sem monitorização, sem formalização de instrumentos formais de gestão (planeamento e reporte), sem vigilância, sem visitação de qualidade e por aí fora.
Pretender que isso se deve à reforma do ICNB e não que a reforma decorre do reconhecimento dessa situação "é ideia que não cabe cá nas minhas".
henrique pereira dos santos

Pois, realmente...

... até é bem lembrado.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Caderno de campo

Umas plantas de uma observação do Francisco, que não faz a mínima ideia do que seja. Alguém, cedo ou tarde, identificará e dir-lhe-á o que isto é. Noutras circunstâncias corrigem-se obervações com identificações erradas.
Sou um péssimo naturalista. Mas de vez em quando vejo alguma coisa que gostaria de saber o que é. De maneira geral telefono para quem eu ache que sabe do assunto e tento descrever o que vejo na esperança de que me expliquem o que é.
Foi o que fiz um dia destes com duas rapinas que vi. E liguei para o Francisco Barros.
A conversa foi parar ao biodiversity4all, em que o Francisco é um observador muito activo.
A verdade é que o que o Francisco me disse sobre a sua utilização do projecto me pareceu interessante.
Citando de memória e esperando não trair muito a ideia transmitida, o Francisco no essencial disse-me que tem aprendido muito com o uso do site.
Começou a usá-lo por ser um caderno da campo prático, sempre acessível em qualquer ponto onde haja internet e que vai usando aos poucos, à medida da disponibilidade, em qualquer parte.
Mas mais importante, o Francisco, porque estava doente e não estava a registar os grupos que conhecia melhor, começou a registar grupos que conhecia pior, em que tinha muitas dúvidas ou mesmo que não conhecia, fotografando e enviando fotografias.
Mas como o Francisco é um bom naturalista, mesmo que não saiba identificar o que vê, distingue o que é comum do que não é comum, ou simplesmente regista o que por qualquer razão lhe chama a atenção.
E de repente começou a receber feedback dos especialistas, entusiasmados com algumas observações, alguns invertebrados que não eram dados para a Península há uns anos, algumas plantas com localizações pouco expectáveis e por aí fora. E mais que tudo, como qualquer outro observador que entre no sistema, começou ver outros identificarem o que via e a aprender o que não sabia.
Hoje é essa possibilidade de ir à procura do que não conhece e receber em troca informação de quem sabe mais que o motiva na sua intensa participação.
Como utilizador de observações de terceiros e como não obervador, a mim interessa-me mais o resultado, a manipulação de mapas e coisas que tal.
Nunca tinha percebido como uma base de dados destas, apoiada numa rede de observadores não especialistas (mas que pode integrar, e integra, especialistas entre os mais de 1000 utilizadores registados), mas com o apoio de uma rede de especialistas (aliás internacional) constitui de facto um poderoso intrumento de formação e difusão de conhecimento.
Que cedo ou tarde se reflectirá na capacidade do país gerir melhor o seu património natural, porque o conhece melhor, mas sobretudo porque ajudou a criar um público mais informado e exigente.
henrique pereira dos santos

domingo, dezembro 12, 2010

A acompanhar

Não conheço este projecto, para a além do que vou vendo aqui e ali. Nunca lá fui, não conheço as pessoas envolvidas.
Mas o que me é dado ver no blog agrada-me.
Um objectivo tamanho e quem não tem medo de arriscar.
Na sessão anterior eram duas voluntárias, desta vez eram doze. Em Janeiro poderiam ser mais. A QUERCUS tem 4000 sócios pagantes (ao que me dizem, não sei se bem) e o país tem muito mais gente.
Será que será assim tão difícil mobilizar trinta pessoas para Janeiro, para um trabalho duro e cansativo, é certo, mas cujos resultados são visiveis no momento e, mantendo a persistência, poderão constituir uma das poucas experiências do país de erradicação de invasoras agresssivas em média escala?
henrique pereira dos santos

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Commodities e indústria automóvel

Gráfico com quatro diferentes índices de preços de futuros de commodities, tirado daqui.
Em vários jornais aparecem notícias de aumento de preço de commodities, desde o algodão, passando pelo trigo e o petróleo acima dos 90 dólares.
Parte disto são dificuldade conjunturais, como as más colheitas de cereais da Rússia, Ucrânia e países envolventes.
Mas convém não esquecer que ao mesmo tempo o Financial Times tinha ontem uma notícia muito interessante, sobre os construtores de carros alemães, que estão a planear paragens mais curtas no Natal para garantir a satisfação da procura, em especial chinesa.
De tanto ouvirmos falar na nossa crise, temos tendência para esquecer que a China, a Índia e o Brasil (para citar alguns mais notórios) estão apesar de tudo com crescimentos anuais importantes, grande parte em função das suas procuras internas e não apenas como exportadores (a China é hoje a fábrica do mundo, mas fabrica cada vez mais para chineses também).
Este crescimento traduz-se em mais riqueza e, consequentemente alteração dos padrões de consumo, nomeadamente na alteração da alimentaçãoo, onde a carne e os lacticínios tendem a aumentar (por pouco que aumentem para cada pessoa, o resultado é uma imensa pressão sobre os cereais, de tanta gente que há na China, Índia e Brasil).
Para os neo-malthusianos é agora que se vão conhecer os limites do crescimento (o Carlos Aguiar aconselhará uma atenção especial ao consumo de fósforo).
Para os outros as pressões sobre a economia vão obrigá-la a reformular-se, alterando os perdedores e ganhadores actuais.
Entretanto Xangai é a região do mundo com menor taxa de fertilidade e menor crescimento natural da população.
O futuro ainda será por muitos anos a mais desconhecida das realidades.
Pelo menos para mim, que não sei de economia nem consta que tenha biblioteca.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Gosto de poder dizer bem do movimento ambientalista

Gostei de ler esta notícia, depois de tanto tempo a criticar as opções do movimento ambientalista nesta matéria.
A contestação é dirigida a quem deve ser, o Governo e não nenhuma as empresas produtoras de electricidade que operam em Portugal e a base da crítica é a opção económica (se preferirmos, a sustentabilidade global do plano de barragens), em vez de inventarem pretextos como a biodiversidade (relevante aqui e ali, mas não determinante) e a linha do Tua.
Gostei de ver esta reorientação estratégica.
Até pode perder-se esta guerra (que é difícil) mas ao menos que se perca sem cedências à demagogia e mantendo os argumentos sérios que devem ser mantidos.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Sobre paus, cenouras e o peso da ética


Quem tiver dificuldade em seguir a versão Inglesa pode visualizar este vídeo, com possibilidade de seleccionar legendas em Português, aqui.

Há heróis assim



Quase aos 16 minutos deste video, começa a reportagem que me faz trazê-lo aqui.
Cinco minutos sobre António Frazão (em companhia de Francisco Barrros, o campeão do número de espécies registadas aqui).
Trabalhei com eles (e com vários outros, na melhor equipa de vigilantes do ICNB que conheci) e António Frazão foi em grande parte responsável por desenhar a estratégia de gestão de pedreiras que executei, com o seu apoio e de outros vigilantes.
Tiro o chapéu à Carla Castelo e, eu que quase não vejo televisão, recomendo vivamente o conjunto impressionante de reportagens que tem vindo a criar no seu programa semanal, incluindo os heróis da vida normal que retrata no fim de cada programa.
henrique pereira dos santos

terça-feira, dezembro 07, 2010

"Será a crise suficiente para voltarmos a dar valor ao recurso solo?"

Vale a pena ver ampliada esta imagem tirada deste curto post
Num comentário ao post anterior um anónimo faz a pergunta que dá título a este post.
É uma pergunta interessante.
A resposta que eu tenderei a dar é não.
O recurso solo tem valor hoje. Tem até muito valor em alguns sítios. O que tem pouco valor relativo é a sua fertilidade, condição que durante séculos foi determinante no seu valor de mercado. Hoje é sobretudo o espaço que condiciona o preço, ou seja, a localização.
A razão para isto é o facto do rápido crescimento populacional, em simultâneo com a crescente urbanização, ter coincidido com os êxitos da revolução verde, que trouxe os preços dos alimentos para valores muito baixos, a que se junta o desenvolvimento do comércio mundial que nos permite tirar partido da maior eficiência de produção de um bem, independentemente da sua localização.
Tudo isto é inegavelmente potenciado pelo baixo preço da energia.
Ora a crise de que falamos parece ser uma crise conjuntural, razoavelmente regionalizada (a China, a Índia ou o Brasil continuam a crescer a ritmos impressionantes), e não afecta nenhum destes factores de forma muito marcada (eventualmente com a excepção do preço do petróleo que tem estado a subir nos últimos tempos e que no fim da semana passada passou os noventa dólares, tendo hoje descido qualquer coisa).
No longo prazo, se se confirmarem as tendências para a diminuição do crescimento populacional (ou mesmo algum decrescimento), o valor do solo para urbanização tenderá a baixar.
Por outro lado, se os neo malthusianos tiverem razão (neste blog o representante mais assumido é o Carlos Aguiar) e o fósforo e outros nutrientes começarem a escassear, a fertilidade natural do solo tenderá a ser valorizada.
Mas a diferença de valor entre o carácter urbano do solo e a sua fertilidade é de tal maneira grande, e as tendências de inversão são tão incertas, que eu direi que a crise poderá ajudar a aumentar a consciência sobre a importância do solo, mas dificilmente afectará o valor do solo tal como hoje existe.
O resultado será uma maior abertura das Câmaras para ceder parte do espaço urbano para hortas geridas de formas novas, algumas legislação de protecção dos solos férteis pode ser reforçada (ou tornada menos necessária pela diminuição da pressão para urbanizar tudo em toda a parte) e outros aspectos pontuais deste tipo.
E talvez sirva para os nutricionistas começarem a pensar também na sustentabilidade em vez de assumirem a saúde como o único valor que justifica a sua profissão.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Alimentação, sustentabilidade e crise

Esta notícia é muito curiosa.
O abaixamento da qualidade das refeições é caracterizado referindo-se que as refeições têm muita gordura, feijão e grão.
Deixemos de lado a gordura e vale a pena perguntar: desde quando refeições de feijão e grão é sinónimo de falta de qualidade?
Desde que a carne e o peixe à posta com arroz e batatas se tornou norma.
Mas a norma é que está errada.
Viva o feijão e o grão (e as favas e ervilhas). Se possível com criatividade (convém não esquecer que quer o feijão e o grão são suficientemente versáteis para ir desde as sopas às sobremesas).
A crise está a ter alguns efeitos muito interessantes do ponto de vista da sustentabilidade.
henrique pereira dos santos

domingo, dezembro 05, 2010

A resistência dos conservacionistas às boas notícias

A série de posts sobre o lobo resultam em grande medida do facto de eu ter dito que o lobo era uma espécie em expansão no Norte de Portugal e alguém imediatamente ter dito: "e a perda de alcateias no Alvão?".
Independentemente da discussão técnica sobre o assunto, a verdade é que esta é uma atitude muito frequente nos meios da conservação: a valorização do aspecto pontual que assinala a visão negativa da realidade e a desvalorização de tudo que sejam boas notícias.
Os conservacionistas gostam de dramas.
Na primeira metade dos anos oitenta trabalhei em Montezinho (não fui lá fazer uns trabalhos, vivi e trabalhei lá) e o lobo era então uma novidade nas conversas, ali no meio termo entre as velhas histórias com lobos, e as novas ideias de que parece que afinal havia mais do que se pensava.
Logo depois trabalhei na envolvente do Azibo. Aí não vivi lá, trabalhava no Porto, mas como era meu hábito na altura, quando trabalhava para uma área percorria-a a pé durante uns dias, com itinerários mais ou menos definidos mas comendo e dormindo onde calhava, vendo o que calhava e conversando com quem calhava. Estive uma semana inteira por ali, de mochila às costas. De lobos nem sinal nas conversas.
Trabalhei na segunda metade dos anos oitenta no PNPG, que percorri de lés a lés. Lobos? Eram quase só histórias do passado, e muito menos se falava de lobos na serra de Arga (não estou a falar de estudos académicos, que os havia muito pouco, mas do dia a dia das pessoas).
Na primeira metade dos anos noventa trabalhei para o Alvão (dessa vez não vivi lá, fiz algum trabalho para lá) e já se começava a ouvir falar de lobos com maior proximidade geográfica e temporal.
E de lá para cá foi sempre a aumentar. Por isso quando me perguntam por que razão eu digo, sem a menor reserva ou dúvida, que o lobo é uma espécie em expansão em Portugal, eu respondo que porque a razão me diz que o que ouvi nas serras do Norte de Portugal nos últimos vinte a trinta anos não me deixa qualquer dúvida.
Mas há outra razão para eu o dizer. É que esta dinâmica descrita é perfeitamente coerente com as dinâmicas da paisagem e das espécies presa do lobo.
Por volta dos anos 50 dá-se o pico da pressão sobre o território rural em Portugal. Daí para cá o abandono tem sido imenso. Ora o fim dos anos 70 e início dos oitenta coincide provavelmente com o período de maior escassez trófica para os lobos: por um lado a diminuição de rebanhos diminui as presas domésticas (incluindo o que daí resultava de necrofagia), a população de coelho atinge o seu pico mínimo (sim, o coelho, os especialistas que quiserem discutir a provável importância do coelho da dieta do lobo ibérico façam o favor de se chegar à frente) e a recuperação dos sistemas ainda não está suficientemente madura para que o aumento dos ungulados compensem essas duas perdas.
A partir dos anos 80 dá-se a inversão da disponibilidade alimentar, quando o desfasamento entre o abandono e a recuperação dos sistemas fica coberto e as populações de ungulados começam a cobrir as perdas das outras presas do lobo.
Estradas, eólicos, pedreiras, caça?
Quando uma raposa ronda um galinheiro e desaparecem galinhas, para quê procurar outras explicações para o seu desaparecimento?
Dramas de conservação há sim senhor, mas é com os perdedores deste processo, não é com o lobo.
henrique pereira dos santos

sábado, dezembro 04, 2010

Excesso de computador e avião e falta de pés no chão


A discussão sobre este post (que continua nos comentários), pode fazer pensar que em matéria de conservação sou um louco tocador de concertina na banda do Titanic.
Pode ser que sim, mas repare-se nesta coisa extraordinária:
"A população portuguesa de lobos representa apenas cerca de 15% da ibérica e, ao contrário do referenciado para certas regiões da Península Ibérica (Blanco & Cortés, 2002) e para o resto da Europa (Boitani 2000), não existem evidências de expansão recente da mesma."
Este parágrafo é retirado da ficha do lobo que consta do livro vermelho.
Apesar dos imensos cuidados na escolha de cada palavra ("certas regiões da Península" pretendendo dizer-se que há evidência de aumento populacional em Espanha, mas o melhor é acentuar que não é assim em toda a Espanha, ou "não existem evidências de expansão recente" em Portugal, que é como quem diz, eu não digo que não haja expansão, mas não me comprometam a mim) o facto essencial é que o parágrafo diz que há expansão em Espanha e no resto da Europa.
E o que há de extraordinário nisso? O que há de extraordinário é que ninguém se dá ao trabalho de explicar que especificidade existe em Portugal que justifique uma tendência populacional diferente da de Espanha e da Europa, tanto mais que não existe uma população portuguesa de lobo, existe sim uma população ibérica que se distribui entre Espanha e Portugal.
Mas se eu sou um louco tocador de concertina na banda do Titanic, o melhor mesmo é ir ouvir o resto da banda, por exemplo, lendo o que dizem outros sobre o wildlife comeback in Europe.
O movimento conservacionista reaccionário pretende desesperadamente manter o discurso da desgraça anunciada ao virar da esquina.
O movimento conservacionista que se preocupar com a realidade sabe que a discussão a fazer se prende com o preço que boa parte do resto do mundo está a pagar por este wildlife comeback europeu que resulta sobretudo da diminuição da pressão produtiva alimentar em território europeu.
Daí o meu conselho aos académicos e ambientalistas que escrevem sobre o assunto: menos modelação computacional, menos inferência estatística, menos horas de avião em reuniões internacionais onde se aferem todos esses modelos e inferências e mais horas com os pés no chão seriam muito, mas mesmo muito úteis à conservação em Portugal.
E mais, muito mais atenção ao tempo e à paisagem.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Buraco na camada de ozono sobre a Antárctida atinge os níveis mais baixos desde 2005


Publicava ontem o Público:

Há já cinco anos que o buraco na camada de ozono sobre a Antárctida não era tão reduzido, informam hoje investigadores neozelandeses, com base em dados de satélite e medições a partir do solo.
O buraco na camada de ozono, uma “porta de entrada” para os raios ultravioletas que podem ser nocivos para a saúde e Ambiente, atingiu uma área máxima de 22 milhões de quilómetros quadrados este ano, comparada com os 24 milhões registados no ano passado, segundo os investigadores do Niwa, Instituto nacional neozelandês para a Investigação Atmosférica e da Água, sediado em Auckland.

O cientista do Niwa Stephen Wood disse ao jornal “New Zealand Herald” que se tem registado nos últimos anos uma tendência para a diminuição do buraco na camada de ozono. “Todos os anos assistimos a variações na dimensão do buraco de ozono, causadas por diferenças na temperatura e circulação atmosférica. Por isso, não podemos dizer com certeza que o buraco na camada de ozono está a melhorar, com base nas observações que fazemos por ano”, comentou. “Ainda assim, temos agora uma série de anos com buracos de ozono menos severos. Isso indica que podemos começar a ver uma recuperação”, disse Stephen Wood, citado por aquele jornal.

O buraco na camada de ozono sobre a Antárctida forma-se todos os anos em Agosto e Setembro e normalmente desaparece em Novembro ou Dezembro. A maior área alguma vez registada foi 29 milhões de quilómetros quadrados, no ano de 2000.

Há qualquer coisa de estranho em tudo isto e que a mim me escapa... mas a notícia é mais do que relevante para que o movimento ambientalista, assobiando, lhe passe ao lado.

Gonçalo Rosa

O fado da desgraçadinha

Nos comentários a este post lá aparece alguém a chamar a atenção para o facto de ter havido uma diminuição de 18 alcateias para 12/ 13 no Alvão, sugerindo que isso invalida a minha afirmação de que o lobo é uma espécie em expansão no Norte de Portugal.
Em matéria se conservação há sempre este fado da desgraçadinha: nunca há boas notícias, só desastres anunciados.
E depois fala-se nos parques eólicos, nas estradas e nos fogos como explicando esta diminuição, que se considera uma desgraça.
Independentemente do desaparecimento destas alcateias ter uma importância menor na dinâmica de recuperação da espécie, estas explicações são, para mim, muito extravagantes.
A ideia de que os incêndios são um factor de ameaça para o lobo não tem a menor sustentação empírica: parte de uma associação de ideias lógica, mas falsa. Os incêndios degradam os habitats de reprodução, portanto são um factor de ameaça para o lobo. O erro está em considerar que os incêndios degradam o habitat, o que está por provar. Aliás o normal é considerar-se que o fogo é um motor de alterações da paisagem mas os fogos que hoje temos não são nenhum motor, são antes uma consequência das alterações da paisagem.
Dos eólicos ainda falta algum tempo para termos informação fiável, mas o estranho é considerar-se como um importante factor de ameaça um factor que actua há muito poucos anos, quando a dinâmica populacional lhe é muito anterior.
Das estradas diz-se sempre uma data de coisas, mas fica por explicar como havendo um aumento generalizado de estradas em Portugal e no resto da Europa, só ali no Alvão é que são um problema sério.
O meu ponto de vista é simples de enunciar e difícil de demonstrar: eólicos, estradas, barragens não passam de uns arranhões na paisagem e na dinâmica populacionais dos grandes mamíferos oportunistas e flexiveis como o lobo.
Os factores condicionantes da dinâmica do lobo estão em coisas mais triviais: no almoço (o nosso e o dele).
henrique pereira dos santos

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Uma boa iniciativa

Imagem da última acção de voluntariado do projecto
Pela lista de discussão Ambio chegou de novo informação sobre este projecto da QUERCUS.
No caso é uma acção de voluntariado no dia 11 de Dezembro, para a qual convido quem esteja por ali que tenha disponibilidade e vontade.
Se me perguntassem eu teria vários comentários técnicos a fazer, estranharia o enfoque da comunicação no eucaliptal em detrimento do problema muito mais grave (embora mais restrito geograficamente) das plantas invasoras (que é o que realmente está a ser atacado com acções de voluntariado), teria sugestões organizacionais, de comunicação do projecto e de fund raising.
Mas por mais questões pontuais que me pareça que possam ser mais bem trabalhadas, o que eu gostaria mesmo era de tirar o chapéu à QUERCUS por este projecto, pelo menos tanto quanto o conheço (reconhecidamente pouco).
Aconselho a consulta às apresentações sobre o antes do fogo, o imediatamente após e o que se encontra depois da primeira Primavera, mas que não se ligue muito, muito às legendas porque reflectem mais os preconceitos sobre o fogo e os eucaliptos que a realidade observável.
É um projecto gigantesco mas que pelos vistos não amedronta o núcleo de Aveiro da QUERCUS.
E merecem pelo menos esse crédito.
Este é dos casos em que mais um ou menos um voluntário faz diferença. Pensem nisso.


Declaração de interesses: colaboro com a Silvicaima, nesse contexto já ouvi falar deste projecto em termos muito genéricos, mas nunca tive qualquer contacto directo com ele até hoje.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Propaganda II

Amanhã, 2 de Dezembro, estarei pelas seis horas no Colégio Verney, da Universidade de Évora, a falar deste livro com base numa apresentação sobre fogos e biodiversidade (dois dos seus capítulos).
Seja bem vindo quem vier por bem.
henrique pereira dos santos