Nos últimos anos muitos cientistas e ambientalistas têm-se preocupado com os potenciais impactes do abandono agrícola sobre a biodiversidade. Digamos que há uma verdadeira escola de pensamento sobre esta questão, com raízes não só na Arquitectura Paisagista (onde a perspectiva da paisagem como algo que deve ser gerido é fundamental) como na Biologia da Conservação (que como o próprio nome indica é aversa à mudança). Aliás temos aqui um verdadeiro paradoxo, nos países em vias de desenvolvimento temos vindo a preconizar a manutenção da floresta e a combater a sua conversão em zonas agrícolas. Já nos países ricos (e esta filosofia aplica-se essencialmente à Europa), defendemos a manutenção da agricultura e combatemos o regresso da floresta. O argumento utilizado até à exaustão é que as espécies na Europa co-evoluiram com a agricultura, portanto temos que manter os habitats para manter estas espécies. É fácil desmontar este argumento: a agricultura tem menos de 10 000 anos, e a grande maioria destas espécies já ocorriam na Europa antes dessa altura. E então quais são os factos científicos:
(1) Vários estudos demonstram que sistemas de agricultura extensiva têm mais diversidade de espécies que sistemas de agricultura intensiva
(2) Vários estudos demonstram que à escala local (i.e. do ha ou das dezenas de ha) há uma diminuição da diversidade de espécies após o abandono agrícola
Em relação a (1) a preocupação deve ser assegurar que nas zonas de agricultura mais intensiva (essenciais para uma produção agrícola economicamente competitiva) se mantêm elementos da paisagem que favoreçam a biodiversidade, como seja a manutenção de boas galerias ripícolas, sebes vivas, o correcto doseamento de pesticidas e adubos, entre outras. Em relaçao a (2), há que perceber que o que se passa à escala local não é necessariamente o mesmo que se passa à escala regional. Por exemplo, os estudos do meu grupo de investigação, sugerem que o desaparecimento de zonas agrícolas em áreas de montanha têm um impacto muito mais pequeno no número total de espécies do que seria de esperar se olhássemos só à escala local. Isto acontece porque as espécies têm afinidades diferentes para habitats diferentes: as espécies que se dão muito bem em zonas agrícolas também podem ser encontradas em zonas florestais, mas com menos frequência (por exemplo em pequenas zonas abertas no meio da floresta).
O que tenho defendido nos últimos anos é que devemos olhar para esta questão do abandono agrícola ao contrário, ou seja, como uma oportunidade para a biodiversidade. Muitas espécies que tinham quase desaparecido em meados do século XX com o pico populacional nas zonas de montanha em Portugal estão agora em grande expansão (faltam-nos estudos rigorosos sobre isto, mas os indícios são muitos): o corço, o javali, o veado, e em menor escala o lobo (muito polémico ainda). A nível Europeu, são várias as espécies que têm vindo a beneficiar deste abandono (ver texto do HPS sobre este tema ou este relatorio ).
A dimensão da oportunidade não deve ser sub-estimada: cenários para 2050 apontam para o potencial abandono agrícola de 20 milhões de ha na Europa Ocidental (ver este estudo de cenários globais e este para a Europa), que se somam aos vários milhões que têm vindo a ser abandonados nos últimos anos.
Até agora, muitos decisores e cientistas perante esta dinâmica imparável têm tido uma atitude de avestruz com a cabeça na areia: basta dar alguns subsídios que as actividades tradicionais se irão manter. Isto teve ainda o contexto político favorável da necessidade de "mascarar" parte dos subsídios da Política Agrícola Comum como subsídios ambientais, dada a pressão da Organização Mundial de Comércio para o fim dos subsídios agrícolas na Europa, que distorcem o mercado agrícola mundial. Esta atitude, para além de ser um desperdício de dinheiros públicos, não lida com o verdadeiro problema de frente: como aproveitar esta oportunidade para evoluir para florestas auto-sustentáveis (evitando os ciclo curtos de recorrência do fogo), que precisem de pouca gestão e que sejam biodiversas, ou como desenvolver novas formas de aproveitamento destes espaços, tanto a nível agrícola como florestal.
E assim, deixo o meu desejo para 2011: que haja mais cientistas, mais ambientalistas, e mais decisores que se apercebam da oportunidade gigantesca que o abandono agrícola nos traz para a renaturalização de espaços na Europa, a uma escala que não é vista há muitos séculos. Se isso não são boas notícias para fechar o Ano Internacional da Biodiversidade, então o que são boas notícias?

























