segunda-feira, agosto 31, 2009

diz que é uma espécie de comunicação 3: online


Finalmente, uma presença pouco arrojada nos espaços de comunicação online que, hoje em dia, seguramente a ampla maioria dos associados das maiores ONGAs nacionais e boa parte da população, dispõe. A maioria das associações tem websites pouco atractivos, actualizando-os, de tempos em tempos, com um ou outro novo conteúdo.

Os fóruns, blogues e redes sociais parecem-lhes ser entidades estranhas ou mesmo indesejadas, tendo em conta muitas delas não terem blogues próprios, páginas nas redes sociais e participarem activamente noutros espaços (apesar de não os deixarem de visitar), mesmo quando questionado o seu funcionamento e papel que desempenham na sociedade.

Um bom exemplo de que aquele tipo de espaços pode ser um excelente meio de comunicação é o Fórum Aves, associado ao website avesdePortugal.info, que já comentei em post anterior. Apesar de ser o resultado do trabalho de uma equipa de entusiastas, não organizados no seio de qualquer ONGA, este fórum, dedicado à observação de aves e ornitologia, é muito visitado e tem uma participação bastante activa de um vasto leque de pessoas.

Nos dias que correm, não creio que a maioria de nós ponha em causa o potencial comunicativo que os espaços disponíveis na internet têm. Então pergunto, porque será que nada disto parece interessar à maioria das grandes ONGAs?

Gonçalo Rosa

sábado, agosto 29, 2009

Programa Eleitoral do Partido Social Democrata

Foi muito recentemente publicado o Programa Eleitoral do Partido Social Democrata. Como já havia feito com os programas eleitorais do Bloco de Esquerda, Partido Socialista e Partido Comunista Português, aqui está a minha análise ao do PSD, no que concerne à Conservação da Natureza.

Conforme referido no subcapítulo "Ambiente e Recursos Naturais", do capítulo "As Nossas Políticas" (página 32), propõe o PSD:

Valorizaremos a Rede Fundamental de Conservação da Natureza estabelecendo parcerias e envolvendo os municípios, agentes (associações, comunidades escolares, produtores florestais e agrícolas, associações de defesa do ambiente, empresas) e populações locais na gestão e divulgação dos valores a salvaguardar.

[De acordo com esta generalidade, mas (e começo a ficar algo cansado de salientar) era exigível que o PSD desse alguma substância a este princípio, de outra forma dá para tudo; em qualidade e em quantidade]

Potenciaremos a relação entre a preservação da biodiversidade e actividades económicas e produtivas que têm sido votadas ao abandono, como a agricultura, a floresta e a pesca (ou também, por exemplo, a caça e o turismo).

[De acordo, mas mais uma vez, um enorme cliché; e pergunto-me se o que o PSD pretende não é encaixar a preservação da biodiversidade nas actividades económicas e produtivas, subjugando a primeira às segundas, e não o contrário; um mero pormenor... dizer que a floresta tem sido votada ao abandono, tem muito que se lhe diga]

Promoveremos o alargamento das áreas marinhas protegidas, quer na costa, quer no alto mar, para criar uma rede de salvaguardada de biodiversidade marítima.

[De acordo. Mas faço notar que parecemos ter mais vocação para criar áreas protegidas, legislação, estratégias e planos, que para geri-las e executa-los; um bom exemplo disto mesmo é baixíssima execução a Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e da Biodiversidade; em tudo isto há um problema: as águias, golfinhos, linces, saramugos e orquídeas parecem ser muito pouco sensíveis a planos, ideias, estratégias, estatutos das áreas onde vivem, quando a sua substância não passa do papel para o "monte"]

Reforçaremos a eficácia da vigilância de zonas protegidas, como forma privilegiada de salvaguardar a biodiversidade terrestre e marítima.


[Realmente a escassez de vigilância é um dos graves problemas da Conservação da Natureza no nosso país, mas mais uma vez pergunto o que é quererá isto dizer? Aumento de efectivos? Revisão dos estatutos legais dos vigilantes da natureza e outros responsáveis desta área? Atribuição de novos recursos? Revisão de competências? Enfim, mais uma vez... cabe aqui muita coisa]

Se a minha ingenuidade o permitisse, ficaria a pensar que o PSD e outras forças políticas confundem objectivos gerais com programas eleitorais, não concretizando minimamente a maioria das generalidades que dizem defender. Infelizmente, não duvido que tal nebulosidade, que nada tem haver com um "Compromisso de Verdade", resulte, no mínimo, do vazio de ideias e da falta de prioridade dada à Conservação da Natureza, e, em boa medida, na tentativa de não assumir medidas e objectivos concretos, por forma a tornar igualmente vaga e subjectiva qualquer avaliação feita em final de mandato.

Talvez seja interessante rematar este texto com um dos parágrafos da minha análise ao programa do PS (alterações agora introduzidas a laranja):

Apesar do PSD apresentar propostas com as quais concordo, são, na sua grande maioria, demasiado genéricas. Tão genéricas que dificilmente permitirão, caso o PS
D vença as próximas eleições legislativas, avaliar do seu cumprimento. No concreto, ficamos sem perceber qual a linha de rumo do ICNB e das áreas protegidas que tutela, bem como o que fará relativamente à actual Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e da Biodiversidade (EBCNB), concretizá-la de finitivamente ou pô-la assumidamente "na gaveta".

Descubra as diferenças! :S

Gonçalo Rosa

quinta-feira, agosto 27, 2009

diz que é uma espécie de comunicação 2: o salto


Várias ONGAs utilizam o tradicional boletim para comunicar com os seus associados. Impresso em papel, muitas centenas ou mesmo alguns milhares de exemplares são distribuídos, periodicamente, pelo correio.

Representam custos económicos tremendos, nomeadamente quando comparados com os fundos não adjudicados a projectos e outras acções contratualizadas, e que na maioria dos casos são, em boa parte das quotas dos sócios. Representam também investimentos de tempo de recursos humanos, voluntários e/ou profissionais. Representam parte não desprezável da pegada ecológica, a tal, com que algumas ONGAs, e bem, andam preocupadas, sendo por isso um péssimo exemplo.

Estes boletins associativos (para não falar de outros de índole técnico/científico que, em meu entender, bem poderiam seguir o mesmo caminho) impressos em papel vão deixando de fazer sentido. Caros a todos os níveis e poluentes, pecam ainda por serem muito pouco interactivos e dinâmicos.

Verifico que esta minha opinião não é assim tão "esotérica", colhendo mesmo alguns adeptos dentro do main stream de algumas associações, diga-se que, nem sempre pelos melhores motivos. Mas uma certa inércia e principalmente o receio das consequências do "deixar de dar o pouco que ainda se dá" aos associados, vão deixando ficar tudo na mesma para nada mudar. E o salto óbvio entre o papel e os novos meios de comunicação vai ficando por dar...

Gonçalo Rosa

quarta-feira, agosto 26, 2009

diz que é uma espécie de comunicação 1: a derrota do papel


Entre as cartas do banco, as contas da água e da luz, o monte de publicidade que teimosamente contraria o pequeno e antipático autocolante "Publicidade não endereçada: aqui não, obrigado", lá estava o boletim da Associação. Amarrotado pelas voltas do correio e dobrado em dois pela teimosia do carteiro, abri-o com curiosidade renovada. Lá dentro, duas ou três dezenas de artigos e de pequenas caixas relatavam a actividade da Associação nos últimos tempos e contavam algumas pequenas histórias de interesse questionável. Mais fartos em palavras que em originalidade, talvez porque as pessoas de hoje parecerem ter muito para falar mas pouco para dizer, talvez porque a necessidade de dar volume à revista obrigue a um certo "encher chouriços", talvez apenas porque quem escreve não compreenda que para ser ouvido é necessário comunicar de outra forma, mais apelativa, muito mais parca em palavras. Percorro textos pelas imagens e pelas "gordas" e, chegado ao fim, volto a dois ou três artigos que me interessaram mais. Leio. Um, dois parágrafos, raramente tudo. Talvez esteja a ficar velho e entre a preguiça e a selecção cada vez mais apertada com que faço as minhas escolhas, me vá desinteressando do que não me parece trazer nada de novo, do que me vai parecendo acessório. Fecho o boletim e, com um certo sentimento de culpa, entrego-o à pilha do papel para reciclar. "aquilo dá trabalho, caramba!", "aquilo custa dinheiro!"... se deu, se custa! Ainda assim, com uma boa dose de ingenuidade aguardo por uma próxima volta do correio. Valerá a pena?

Gonçalo Rosa

segunda-feira, agosto 24, 2009

Há dias assim



Esta é a belíssima fotografia com que o Público de hoje ilustra um extenso artigo sobre o sobreiro.
Azar, é de um montado de azinho.
Obrigado Henk pela chamada de atenção.
henrique pereira dos santos

O segundo teste

Este é o gráfico do número de fogos diários nos últimos dias.
O episódio de vento Leste marcado pelo pico secundário do gráfico coincidiu com períodos de vento muito fraco ou mesmo calmaria que permitiram que ao aumento do número de fogos não estivesse associada a dificuldade de os extinguir (num comentário a este post Paulo Fernandes confirma que as áreas ardidas foram de pequena dimensão e circulares, indiciadoras de ausência de vento).
Já em condições diferentes da típica lestada o vento aumentou e aumentou também a dificuldade de extinção dos fogos. Por outro lado os efeitos de secagem que as condições dos dias anteriores trouxeram facilitaram o aumento de fogos diários que agora se verifica cujo número começa a estar próximo do que é o limite da capacidade de resposta rápida a todos os fogos.
As previsões para os próximos dias vão no sentido de uma nova aproximação das características do vento Leste, em especial no Norte, felizmente mais agricultado e pastoreado que a região Centro do país, mas ainda assim com fragilidades significativas em relação ao fogo.
A confirmarem-se estas previsões o dispositivo de combate aos fogos terá um segundo teste este ano, mas em condições aparentemente mais duras, mesmo que hoje chova qualquer coisa no Minho: não só há um efeito cumulativo das condições de secura dos dois episódios de vento Leste como, sobretudo, a velocidade do vento aparentemente será um pouco maior (mesmo que não estejam previstas condições de vento forte, essas sim desastrosas).
Veremos como se comporta quer o dispositivo, quer a máquina de produção de informação sobre os fogos que, com todos os governos, tem dificultado enormemente a compreensão do problema e, consequentemente, a criação de condições de gestão de combustível sérias acabando por desembocar em disparates como as centrais de biomassa e anomalias como a gestão do Fundo Florestal Permanente.
henrique pereira dos santos

domingo, agosto 23, 2009

Emissões Zero, dizem eles

O carro da fotografia é o carro eléctrico de Thomas Edison (ele próprio o apresenta), que pode ser encontrado aqui
A propaganda acerca da decisão de fazer um acordo com a Nissan/ Renault que passe para o Estado parte do risco empresarial do investimento em carros elétricos tem sido justificada com razões ambientais (ver transcrição de um comunicado da Renault sobre o dito carro no fim do post).
Confesso que ao ler a parte superior da minha factura de electricidade fiquei confuso:
"a electricidade facturada foi produzida a partir das seguintes fontes de energia:
Hídrica 10,8%; Carvão 23,3%; Gas Natural 34,9%; Fuel 1,2%; Nuclear 9,1%; Hidrica em regime especial 0,6%; Eólica 8,5%; Cogeração e micro-produção em regime especial 9,7%; Outras 1,9%".
Fiquei esclarecido quanto à mais valia ambiental de ir estoirar o dinheiro dos meus impostos a subsidiar carros eléctricos para as classes com mais dinheiro em detrimento de o usar para melhorar os transportes públicos.
henrique pereira dos santos
PS:
"05.2007
Portugal e Aliança Renault Nissan Implementam Mobilidade de Emissões Zero em 2010
Veículos Eléctricos, rede de carregamento e incentivos irão proporcionar uma solução de mobilidade de emissões zero em Portugal
LISBOA (22 de Novembro de 2008) - O Governo Português e a Aliança Renault Nissan anunciaram hoje uma parceria abrangente com o intuito de proporcionar uma mobilidade de emissão zero em Portugal a partir de 2010. O acordo estabelece a utilização de veículos eléctricos fornecidos pela Aliança e a criação de uma extensa rede de carregamento que será construída por todo o país nos próximos três anos.
Em Julho, Portugal tornou-se no primeiro país europeu a estabelecer uma parceria directa com a Aliança Renault Nissan para estudar a possível implementação da mobilidade de emissões zero. O objectivo era responder a questões como o aquecimento global, a dependência do petróleo e as necessidades de mobilidade sustentável. Após quatro meses de estudos intensivos por parte das duas entidades, Portugal torna-se hoje o primeiro país europeu a assinar o acordo final com a Aliança para a implementação efectiva do seu programa de mobilidade de emissões zero.
"Apercebemo-nos, há muito tempo, que a mobilidade de emissões zero vai muito além do veículo em si", afirmou Carlos Tavares, vice-presidente executivo da Nissan Motor Co, Ltd. “Requer uma colaboração intensiva com o governo e outros parceiros para assegurar o sucesso”.
O plano de implementação estabelece que estejam operacionais 320 pontos de carregamento de veículos eléctricos por todo o país em 2010, crescendo para 1.300 pontos até ao final de 2011.
Portugal oferecerá também incentivos para os compradores de veículos eléctricos, incluindo uma dedução no imposto sobre o rendimento para particulares e reduções de impostos para empresas que adquiram frotas de veículos eléctricos. Os incentivos de impostos, a iniciar no final de 2010, terão um período de aplicação mínimo de cinco anos.
O Governo português estabelece também que 20% dos veículos a adquirir anualmente para a frota pública sejam de emissões zero, a partir de 2011.
Além disso, estão ainda a ser estudadas medidas adicionais, tais como reduções nos preços de estacionamento, acesso preferencial ao centro de algumas cidades e subsídios em financiamento. As actividades educacionais e de consciencialização do público, incluindo apresentações de veículos eléctricos, terão inicio em 2010.
As medidas foram anunciadas no Portugal Tecnológico 2008 em Lisboa, uma das exposições sobre tecnologia mais importantes do país, patrocinada pelo Ministério da Economia e da Inovação. O Denki (termo japonês para "eléctrico") Cube da Nissan está em exibição nesta exposição de seis dias. Este concept car utiliza a mesma tecnologia de bateria de iões de lítio que irá alimentar os novos veículos eléctricos da Nissan.
“Portugal é um líder global em energias renováveis. O próximo passo é tornar Portugal num país pioneiro em mobilidade de emissões zero. Os veículos eléctricos podem ter um forte impacto na nossa sociedade reduzindo a importação de combustível, aumentando a segurança energética, reduzindo as emissões de CO2 e oferecendo alternativas fiáveis e seguras a caminho da mobilidade sustentável”, afirmou o Primeiro-ministro Português, José Sócrates.
“Elogiamo-lo por estas iniciativas”, declarou Tavares. "O Sr. Primeiro-ministro está a fortalecer a posição de Portugal como um modelo ambiental para a Europa e para o mundo."
A Aliança Renault Nissan, que pretende ser o líder global na mobilidade de emissões zero, irá trazer veículos eléctricos para Portugal no início de 2011, tornando Portugal no primeiro país europeu com veículos eléctricos fornecidos pela Aliança. Em 2012, a Nissan e a Renault irão comercializar veículos eléctricos em massa, a nível global.
A Aliança já anunciou parcerias directas semelhantes na mobilidade de emissão zero, com o Município de Kanagawa e a cidade de Yokohama no Japão, com o Estado do Tennessee, com o Estado de Oregon, o Mónaco e com o gigante francês da electricidade, EDF."

sexta-feira, agosto 21, 2009

Brutos, disse ele

tira-olhos fotografado por Vítor Jesus Fonseca
"Com a aparição adventícia das ervas ruins, associa-se uma outra aparição adventícia, a dos brutos, ou antes dos brutinhos, atentas as pequenas proporções habituais dos visitantes.
O jardim é o chamariz de uma multidão de seres, que vêm imprimir vida ao cenário, em parte com prejuízo das plantas, em parte com vantagens, mas sempre recreando-nos.
Acode o bando de pardais - atrevidos cosmopolitas! - pisando, saltitando, devorando migalhas, de dia para dia mais afoitos; enquanto que os corvos berram nas alturas, espreitando o que se passa cá para baixo. Em mais próximo e interessante convívio, afluem os insectos, com uma sem-cerimónia campesina - borboletas, vespas, abelhas, cigarras, tira-olhos, grilos, ralos, louva-a-deus, variadíssimos coleópteros, a chusma inteira, enfim. Muitos desses serem voejando de arbusto para arbusto, de flor para flor, colaboram indiscutivelmente como elementos decorativos dos jardins; dos jardins e, de quando em quando, das casas igualmente, pois alguns deles, como as vespas, invadem-nos o casebre e vêm construir ninhos nas paredes. "Não moleste estes bichos", recomendo eu à criada, deliciado com semelhantes adornos imprevistos, com esta parceria de existência entre a minha humilde pessoa e um enxame de vespas, então de todo inofensivas, respeitando, por carinhoso instinto, quem partilha com elas pousada e agasalho.
Pelas noites do estio e do outono, vários destes entes alados, com manhas de trovadores, aos quais se juntam as rãs, povoam o jardim, regalando-me com serenatas gratuitas. Bem hajam!..."
Wenceslau de Morais outra vez.

Pergunto-me por que mistério tanta gente que escreve sobre biodiversidade, com esta matéria prima como motivo, escreve coisas chatas e sem graça.
Acho que nos levamos demasiado a sério e nos chocamos facilmente quando alguém trata a porcaria da bicharada por "brutos".
Fazemos mal.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, agosto 20, 2009

"Holes in my confidence, holes in the knees of my jeans"



Estava exactamente o ouvir o que está no título do post quando li este título de uma notícia:
"Primeiras demolições de casas na Ria Formosa avançam em 2010 20.08.2009Lusa, PÚBLICO"
É certo, eu já tinha lido outros títulos:
"21-12-2006 - 17:10h
Ambiente: demolições na Ria Formosa concluidas até 2009Ministro salientou, contudo, que a demolição de casas em situação irregular, cujo número exacto está ainda por apurar, «não é um objectivo em si»
"Polis da Ria Formosa: Demolições nos ilhotes é para arrancar nos primeiros meses de 2009
Nos primeiros meses de 2009 iniciam-se demolições nos ilhotes da Ria Formosa, nomeadamente na ilha de S. Lourenço, onde se localizam os núcleos das Ratas e Coco, revelou hoje a presidente da Sociedade Polis Litoral Ria Formosa. 27 de Novembro de 2008 09:00agência lusa"
"Governo avança com demolições “exemplares” na Ria Formosa 23-06-2005 14:18:00"
"Demolições na praia da Manta Rota arrancaram hoje2005-12-21
As demolições previstas no Plano de Ordenamento da Orla Costeira (POOC), entre Vilamoura e Vila Real de Santo António, começaram hoje, com a demolição de três apoios de praia na Manta Rota....Esta intervenção tem unicamente um carácter simbólico, uma vez que na área da Ria Formosa existem mais de 1500 casas ilegais. A concretização do Plano de Praia para a Manta Rota será faseada para não comprometer o uso balnear da zona. Assim, a primeira etapa será concluída antes do início da época balnear de 2006....As situações de ilegalidade implicam demolições que se prolongarão ao longo de 2006, tanto no Algarve, como «no resto do País», afirmou, ontem, o Ministro do Ambiente, Francisco Nunes Correia, ... O governante anunciou ainda que o projecto de requalificação do Parque Natural da Ria Formosa (PNRF) levará cerca de cinco anos e contará com a Parque Expo como uma das parceiras na intervenção ambiental. ... O ministro frisou, contudo, que as demolições na Ria Formosa são a «parte triste» do POOC para a requalificação do parque natural algarvio."
Poderia continuar até muitos anos atrás. Mas nessa altura a música já estava noutro verso que me pareceu que era um sinal:
"I was left without a penny in my pocket".
Esta é a única ideia que podemos dar como garantida.
Tudo o resto...
henrique pereira dos santos

nada que me surpreenda :(


Há cerca de duas semanas atrás, numa decisão inédita, os quatro elementos do Conselho Fiscal da SPEA demitiram-se em bloco. Não posso deixar de lamentar profundamente esta decisão e o que a motivou.

Gonçalo Rosa

quarta-feira, agosto 19, 2009

O fogo na Península

Miguel Araújo sugeriu que usasse nas análises sobre fogos os dados de toda a Península para se poder comparar Portugal e Espanha.
Para além de não ter ddos à mão, já em tempo procurei demonstrar com duas figuras que esse era um exercício votado ao fracasso, porque o padrão do fogo é regional como recordo com estas três figuras, duas das quais cópias do que então publiquei no contexto sobre a discussão dos fogos de 2006, que afectaram duramente as duas províncias litorais da Galiza e parte do nosso Minho.

2009

vários anos

2006
henrique pereira dos santos

A modernidade útil



Farto da barragem de propaganda acerca do papel liderante de Portugal nalguns fetiches politicamente correctos (magalhães, pilhas de hidrogénio, carros eléctricos, energias renováveis e coisas que tal) achei por bem explicar que o que é novo não é necessariamente moderno, e o que é velho não tem necessariamente pouca modernidade.
A razão base para dedicar meia dúzia de minutos ao assunto, para além de estar farto desta barragem de propaganda, é que um dos campos onde é mais útil tornar o velho moderno é na gestão do mundo rural, matéria que me interessa particularmente.
O main stream da nossa investigação agronómica pretende substituir coisas velhas consideradas obsoletas por coisas novas. Isso tem alguma utilidade.
Mas útil, mesmo útil, era mesmo dedicar algum tempo a olhar para sistemas longamente provados ao longo dos tempos e resolver-lhes os estrangulamentos que os tornam menos competitivos.
Ou seja, olhar para os problemas concretos das pessoas e não para os problemas abstractos dos investigadores.
Nada me move contra a abstracção e a investigação pura, mas convenhamos que convém ter algum equilíbrio entre o que seria útil hoje e o que abre caminhos que amanhã serão úteis.
Um dos problemas centrais do mundo rural é a ausência de gestão de largas áreas.
É um problema com potencialidades: Miguel Araújo não se cansa de defender a ausência de gestão de largas partes do território como condição para a reconstituição de sistemas naturais complexos.
Esta não gestão, embora contendo a potencialidade a que se refere o Miguel, tem problemas sociais complicados de transição entre o que hoje existe e o que amanhã se poderá obter com a não gestão.
O que é mais complicado é gerir a acumulação de combustível associada a esta não gestão.
Existem várias opções possíveis para lidar com isto.
A opção dos diferentes governos tem sido a de reforçar o sistema de combate a incêndios de forma. É uma opção cara e razoavelmente insensata no médio longo prazo, se não estiver associada a uma política de gestão de combustível, já que quanto mais eficaz for a sua aplicação, maior é o risco estrutural de incêndio associado a cada ano seguinte.
Dir-se-á que a recomposição das matas autócotones criará condições para conter os fogos ou, pelo menos, suavizá-los. Este argumento é razoavelmente verdadeiro (é o que fundamenta a não gestão) simplesmente até que essa recomposição se tenha dado o risco de incêndio severo é muito elevado. E como essa recomposição é relativamente lenta, teremos de conviver muito tempo com os riscos da transição.
A evidência destes riscos levou a que Portugal, onde sempre foi usado o fogo pelos pastores, tivesse optado por reforçar a componente de fogo controlado. O mais curioso é que não partimos do conhecimento empírico que tinham os nossos pastores mas importámos (e ainda bem) Komarec para nos vir ensinar a fazer fogo controlado. Pela mão de Moreira da Silva, Komarec veio ajudar-nos a dar os primeiros passos, as pessoas que trabalharam com alguma proximidade de Moreira da Silva (Francisco Rego, João Bento, por exemplo) foram-se instalando na academia e quer no ISA (com Francisco Rego), quer na UTAD (com João Bento mas sobretudo com o grupo de Hermínio Botelho e Paulo Fernandes) criou-se um corpo de informação que estava maduro quando os desastres de 2003 e 2005 vieram demonstrar a falência da cegueira da gestão florestal do Estado e de combate puro e duro aos fogos florestais.
Adoptámos por isso mais uma técnica de gestão de combustível com base no fogo.
Entretanto persiste a ideia peregrina de que o problema se resolve cortando matos, primeiro vieram com as obrigações dos proprietários (como se fosse possível obrigar alguém a falir voluntariamente), depois vieram com a fantasia das centrais de biomassa e agora andam com a infantilidade dos sapadores como cortadores de matos. Uma ideia cara e pueril que não se percebe como se transforma em política do Estado porque basta fazer meia dúzia de contas de mercearia para se demonstrar idiota (é ver quantos hectares era preciso limpar anualmente e ver quanto custa o hectare para perceber. Algures já fiz umas contas dessas mas falta-me agora o tempo para as procurar ou refazer).
A única forma de garantir cortes de matos de dimensão apreciável é apoiando a agricultura que os usa para garantir a fertilidade dos solos (o que tradicionalmente implica uma agricultura de complementaridade com o gado), mas que eu saiba não existe uma única medida desenhada, nem uma única linha de investigação que tenha como objectivo tornar isso atraente para os agricultores.
Sobra pois o atávico pastoreio para gerir combustível em largas áreas. Ou seja uma área que os propangandistas do país moderno consideram uma reminiscência medieval ou, pior, um símbolo do país pobrezinho mas honrado de Salazar. Consequentemente, uma actividade a abater e substituir por amanhãs que cantam.
A menos que alguém se lembre de como o atávico fogo teve de estagiar nos Estados Unidos para vir de lá uma técnica moderna e sofisticada.
Por mim, aqui fica o meu contributo para alguém pensar nessa hipótese: o resumo de um artigo na revista Computers and Electronics in Agriculture:
"Virtual fencing is a method of controlling animals without ground-based fencing. Control occurs by altering an animal’s behaviour through one or more sensory cues administered to the animal after it has attempted to penetrate an electronically-generated boundary. This boundary can be of any geometrical shape, and though unseen by the eye, is detected by a computer system worn by the animal. The most recent autonomous programmable systems use radio frequency (RF) signals, emanating from global positioning system (GPS) satellites to generate boundaries. Algorithms within a geographic information system (GIS) within the device’s computer use the GPS and other data to determine where on the animal a cue, or cues, should be applied and for how long. The first commercial virtual fencing system was patented in 1973 for controlling domestic dogs. Virtual fencing was used for the first time to control livestock in 1987. Since then proof-of-concept research using commercial, as well as custom designed systems have demonstrated that virtual fencing can successfully hold as well as move livestock over the landscape. Commercial virtual livestock control systems do not yet exist but research continues towards this goal. Pending research needs relating to this method of animal control are discussed in light of currently available technologies."
Ou a referência mais antiga, onde o Fundo Florestal poderia gastar uns cobres. Em vez de kits de primeira intervenção no combate, para juntas de freguesia, que ficam a apodrecer nos armazéns, que tal uns kits para os rebanhos poderem ser contidos em espaços definidos com infinitamente menos trabalho e risco, fazendo dez vezes mais que o trabalho de uma equipa de sapadores a um décimo do custo?
E sempre dava para falar de modernidade e de vanguarda a propósito de coisas realmente úteis.
henrique pereira dos santos

terça-feira, agosto 18, 2009

um bom exemplo


A notícia é de Maio, mas apenas agora, quando fazia uma busca na internet, a encontrei (ver aqui).

Ao que parece, as herbáceas e matos que crescem nos terrenos que circundam a sede do Google na Califórnia, são periodicamente desbastados no sentido de prevenir incêndios. Até há pouco, este trabalho era efectuado com recurso a engenhos mecânicos próprios. Este ano, o Google procurou dar um contributo na redução de emissões de carbono, evitando os barulhentos e poluentes cortadores/desbastadores, movidos a gasolina. Alugaram 200 cabras à California Grazing que em cerca de uma semana fizeram o trabalho por aproximadamente o mesmo preço. Como extra, os simpáticos caprinos aproveitaram para fertilizar os terrenos.

Mais do que a redução de emissões de carbono em causa, vale o bom exemplo do Google!

Gonçalo Rosa

abandono


Durante os últimos seis anos visitei dezenas de vezes o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e da Costa Vicentina, tendo por objectivo recolher informação sobre o núcleo populacional de Cegonha-branca que ali nidifica em condições muito peculiares, construindo os seus ninhos em escarpas marítimas, palheirões e pequenas ilhotas. Anualmente, passo cerca de 15-20 dias, entre Março e Julho, percorrendo a costa, muitas vezes a pé. Subi algumas centenas de vezes a várias dezenas de ninhos, anilhei crias, recolhi amostras de penas e de sangue. Tudo legal, pois estou devidamente credenciado. Em todo este tempo, jamais me cruzei com vigilantes do PNSACV. Jamais avistei um dos seus veículos na estrada.

Recentemente, veio a público que, por exemplo, no Parque Natural do Tejo Internacional, existe apenas 1 vigilante da natureza e, no Parque Natural do Douro Internacional, a espécie, com todo o respeito que a classe merece, foi recentemente extinta (ver aqui, aqui ou aqui).

Na minha opinião, a falta de fiscalização e, talvez pior, o sentimento generalizado da falta de fiscalização que existe nas populações que residem nas áreas protegidas, são um dos vários graves problemas com que estas áreas classificadas se debatem. O problema não é recente, mas tem-se agravado ao longo dos últimos anos. E é apenas uma das faces do enorme desinvestimento do Estado nas áreas protegidas. Assim não vamos lá.

Gonçalo Rosa

segunda-feira, agosto 17, 2009

Nós, a natureza e os outros


Sim, eu sei que é um texto dos princípios do século XX, ideologicamente datado, mas ainda assim ajuda a explicar a quem proclama permanentemente querer um país moderno (cheio de banda larga, magalhães, energias renováveis, carros eléctricos e toda essa simbologia em moda) que para ter um país moderno convém ter um país.
E que uma escola de magalhães e quadros interactivos só serve se for também uma escola de reconhecimento do património (ou seja, do que recebemos em herança) que nos define.
"O povo, por índole afectiva, fez da contemplação da paisagem um mister. O caminhar, durante longas horas e por íngremes ladeiras, até defrontar com um agradável panorama, entra nos deveres da existência, como para nós, ocidentais, o fazer periódicas visitas às pessoas das nossas relações. Deixar passar um ano sem ir ver as flores de cerejeira e as folhas de momjii, é quase um crime, pelo menos uma irreverência indesculpável. Deve admitir-se que, deste hábito de convívio com a Natureza em galas, passou o japonês para o naturalismo em arte, em que é, como se sabe, primoroso e inigualável. Mas a arte sublimou-lhe os dotes emotivos, levando-o por seu turno a melhor compeender a Natureza. Disto se originou um vaivém de emotividade estética, como que um movimento pendular do sentimento, entre a Natureza e a arte; dando, como resultado último, a fixação do carácter nacional, tal como hoje o conhecemos. A alegria perene das massas, o carinhoso amor pelo solo pátrio, o consequente patriotismo, o aprazimento nas coisas simples, a sobriedade, um fundo artístico comum a toda a gente, têm, como explicação primordial, a sugestão da paisagem japonesa."
Wenscelau de Morais o que está entre "" e henrique pereira dos santos, o resto

domingo, agosto 16, 2009

O Magalhães e a Escola na Natureza



O projecto escola na natureza é um projecto pelo qual tenho carinho. Não exactamente por ter trabalhado nele mas por me parecer um projecto consistente para conciliar a nação com as suas áreas protegidas e por ter um potencial de investimento multiplicativo no interior.
Pelas contas que fiz na altura 10 milhões anuais eram suficientes para o pôr a funcionar.
Destes 5 milhões seriam facilmente mobilizáveis pelas famílias, e não sei quanto mais mobilizáveis com mecenato porque o projecto tem muito good will.
Tentei perceber quanto custou esta história dos magalhães.
Não consegui saber com exactidão, mas vi números por volta dos 80 milhões.
Vamos então admitir que custou 50 milhões e que os computadores duram cinco anos (a coisa não é bem assim, mas enfim...).
Ou seja, custa os mesmos 10 milhões anuais que a escola na natureza.
A opção por um ou outro projecto é pois de natureza eminentemente política (estou a considerar uma hipótese em que não acredito, a de que é preciso optar entre uma ou outra opção).
Quer do ponto de vista educativo, quer do ponto de vista da equidade territorial, quer do ponto de vista do uso do papel do Estado na correcção das assimetrias e falhas de mercado as duas apostas têm consequências bem diferentes.
Não falo sequer da capacidade de uma e outra serem mal usadas, com muito maior risco para o Magalhães, da capacidade de um e outra mobilizarem socialmente o país, com muitas vantagens para a Escola na Natureza.
Haverá vantagens de desenvolvimento tecnológico global do país que por outro lado são facilmente identificadas como melhores e maiores para o lado dos magalhães.
Mas o que me interessa sublinhar que dar um computador (ou ensinar inglês) a todas as crianças é considerado uma prioridade nacional de qualificação dos recursos humanos do país, mas usar as áreas protegidas como recurso educacional e levar todas as crianças do país a ter pelo menos uma vez a oportunidade de ter uma experiência positiva de relação com o património natural do país não é considerado relevante.
Isto demonstra facilmente a posição que a gestão do património natural tem nas prioridades políticas do país.
Não porque os políticos sejam uns malandros mas porque todos nós (ou melhor, nós todos, em conjunto) atribuímos, nas nossas decisões práticas quotidianas, quase zero ao valor desse património.
henrique pereira dos santos

sábado, agosto 15, 2009

ganhar batalhas sem tropas (uma dica para o movimento ambientalista)

visitação ao blogue 31 da Armada
(de 16 de Julho a 15 de Agosto)

Declaração de interesses: não sou nem adepto da causa monárquica nem do tipo de acções como a que o 31 da Armada realizou

O facto é bem conhecido. Na madrugada de 10 de Agosto passado, alguns bloggers do 31 da Armada visitaram a Praça do Município em Lisboa e trocaram a bandeira municipal, substituindo-a por uma bem mais querida à causa monárquica. No dia seguinte, entregaram a bandeira do município lavadinha no "5àsec" na Câmara Municipal.

Muito mais eriçados pela visibilidade dada à falta de segurança na cidade que pelo crime alegadamente cometido propriamente dito, CML, Polícia Municipal, Polícia de Segurança Pública e Polícia Judiciária deram exemplo de boa colaboração e, poucos dias depois, o Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DIAP) constituía arguido por suspeita de prática de furto um dos bloggers criminosos, apreendendo a bandeira monárquica e a máscara de Darth Vader utilizada no criminoso acto, cumprindo rigorosamente o resto do programa do 31 da Armada.

Bem antes da Implantação da República, já o povo aplaudia este pôr em causa os poderes instituídos com irreverência, sem violência e boa educação. Os resultados estão à vista no gráfico que ilustra este post, que bem poderia intitular-se "Muito bom dia, somos o 31 da Armada!".

Lá para as calendas gregas, se a Justiça fizer o favor de julgar tudo isto, lembrando à malta o que já havemos de ter esquecido, e absolvendo eventuais réus ou condenando-os a uma pena ligeirota, dará o derradeiro sinal de que... valeu a pena. Completamente contrário ao desejado pelos que, cegos pela letra da lei, não vêem a patetice disto tudo.

Uma bela dica para o movimento ambientalista!

Gonçalo Rosa

Balanço do primeiro teste


Previ aqui que se se confirmasse o episódio de vento Leste que se iniciaria na Segunda Feira dia 10, o sistema de combate aos fogos iria ter o seu primeiro teste ao fim de dois dias e ao fim de cinco o país estaria a arder por todo o lado.
Esta previsão não se concretizará (provavelmente, a menos que a velocidade do vento venha a aumentar, o que não está previsto) em relação à dimensão do problema ao fim de cinco dias, mas aparentemente foi um primeiro teste para o sistema de combate aos fogos, embora ainda em regime de treino.
Na realidade é muito evidente o aumento do número de fogos diários durante o episódio em que estamos, mas é também muito clara a capacidade para os apagar depressa.
Esta situação deve-se provavelmente a dois factores: 1) o sistema de combate regista melhorias e parece adequado a estas condições (lembremos que o conceito base que foi desenvolvido é o da chegada ao fogo no mais curto espaço de tempo para o poder apagar ainda nascente); 2) o vento fraquíssimo (em muitas alturas tecnicamente calmaria) permitiu uma progressão muito lenta do fogo e ajudou o conceito base do despositivo de combate a incêndios.
Ainda assim estamos já com mais de duzentos fogos diários e os meios existentes esticam mais ou menos até aos 250 (se não forem muito concentrados).
Naturalmente vai ser impossível manter os valores de área ardida ao nível do ano passado (que são claramente uma anomalia, semelhante à de 2003, mas agora de sentido inverso) mas se a velocidade do vento se mantiver baixa as perspectivas para este ano melhoram bastante.
O que significa maior acumulação de combustível para anos seguintes em que a sorte possa não estar deste lado da Europa, como este ano não tem estado noutras regiões europeias.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, agosto 14, 2009

O mundo rural é gerível em Portugal?


Sofia Loureiro dos Santos fez um post no simplex sobre o mundo rural e lembrei-me de lhe responder com um exemplo que era demasiado extenso para a caixa de comentários do dito blog.
Fiz por isso este post
Aqui fica o exemplo da forma como o Governo tem gerido o mundo rural.
No fim do Governo anterior, por sugestão de Moreira da Silva, então Secretário de Estado, o ICNB lançou um programa chamado "Escola na Natureza".
O objectivo era fazer com que todos os alunos do oitavo ano (+/- 130 000) passassem pelo menos três dias e duas noites em áreas protegidas em actividades pedagógicas com as suas escolas e professores.
Durante anos o programa vegetou na típica boa vontade portuguesa: era só uma noite porque era experimental, o ICNB pagava o alojamento e os monitores, as câmaras os transportes e as escolas (ou as famílias) levavam o que comer. O Ministério da Educação batia palmas.
Com isto conseguia-se que dos 130 000 meninos do 8º ano, entre 1000 a 2000 participassem anualmente (aliás em condições precárias).
O programa foi redesenhado (declaração de interesses: fui responsável pelo novo desenho): as escolas (ou as famílias) tinham de suportar integralmente os custos, as actividades eram feitos pelos professores, o tempo passava para duas noites, o ICNB geria o programa, negociava preços especiais para o programa (chegava aos cinco euros por noite e menos, por exemplo). Os alunos do apoio social não pagavam.
O ministério da educação opôs-se porque a existência de um pagamento era discriminatória (embora o programa anterior discriminasse 129 000 dos 130 000 alunos e os alunos do apoio social não pagassem no novo desenho do programa).
O ICNB lançou as bases do programa e instituições como a movijovem, que gere as pousadas da juventude e são do próprio Estado, nunca responderam aos pedidos insistentes para que fizessem preços especiais para um programa que lhes ia aumentar a ocupação das pousadas mais dificeis (as que estão fora das cidades) em alturas mortas (tempo lectivo e durante a semana).
O orçamento (que foi feito com valores por cima do que era possível obter em concreto) de movimentar os 130 000 meninos andava pelos 10 milhões de euros anuais, se não estou em erro.
Serão 260 000 dormidas, cerca de meio milhão de refeições em áreas maioritariamente rurais e de interior.
Facilmente as famílias financiariam cerca de cinco milhões anuais (40 euros por cabeça para transporte, alimentação e alojamento, três dias e duas noites).
Noutros países (de onde a ideia foi importada) este tipo de programas fazem parte do curriculum escolar e são obrigatórios, pagos pelas as escolas (complementarmente as famílias são chamadas a suportar parte dos custos)
Para além dos efeitos estritamente pedagógicos, para além dos efeitos de educação ambiental associados e de ligação ao património natural de Portugal, este programa era sem dúvida um poderoso instrumento de deslocar dinheiro do litoral (onde estão os alunos) para o interior (onde está a maioria das áreas protegidas).
O programa ajuda a viabilizar pequenos (ou médios ou grandes) projectos de alojamento, restauração e prestação de serviços. Para além disso permite estruturar a oferta de produtos locais (batatas e outras coisas que o sector desimportador produz) para dar resposta à procura gerada.
Não tenho dúvidas da enorme simpatia que o programa terá por parte de Humberto Rosa.
Mas tenho a sensação de que com a minha saída do ICNB (com o meu mau feitio e teimosia), o projecto andará a vegetar mais uns anos sem grandes efeitos na gestão do mundo rural.
Espero que me engane mas entretanto investe-se em coisas mais sexy, como banda larga, magalhães, nas estradas (só o erro de Jorge Coelho adjudicar estradas sem estudos de impacte ambiental tem um custo, numa das auto-estradas, que daria para pagar dez anos o projecto, sem qualquer contribuição das famílias), e noutras coisas que tal, à espera que as infra-estruturas criem riqueza.
O melhor é esperar sentado para evitar as varizes.
henrique pereira dos santos

Eufemismos

O 31 da Armada resolveu fazer uma acção directa na mais clara tradição dos movimentos de desobediência civil:
Fez uma acção ilegal, mas pacífica e assumindo responsabilidades.
Têm aparecido comparações com a tolice Verde Eufémia doutro Verão.
Mas a verdade é que entre acções violentas e não violentas não há muito paralelismo. E entre acções claramente assumidas pelos seus autores (incluindo aí as responsabilidades pelo desrespeito pela lei) e acções anónimas e sem responsáveis também há pouca comparação.
E o impacto mediático também pende para a acção do 31 da Armada, entre outras razões por não ser violenta e ser apenas uma piada, e não um absoluto moral indeclinável imposto a terceiros.
Espero que o movimento ambientalista radical aprenda a deixar-se de violências nas suas acções e deixe de caracterizar o que faz com eufemismos.
Mesmo que verdes.

henrique pereira dos santos

quinta-feira, agosto 13, 2009

quem disse que foram as "eléctricas" que inventaram os ninhos artificiais :) ?

O ninho da torre da igreja de Figueira Castelo Rodrigo, fotografado na
década de 1920 ou 1930 por A. Metelo Machado (à esquerda)
e em 2007 (à direita); o aro de metal, o mesmo (?) que o colocado à quase
um século ainda existe, sendo visível, ainda que com algum esforço

"...Esta Pernalta goza de especial estima entre o nosso povo, que não a ataca nem lhe destrói os ninhos, antes, pelo contrário, os defende, como sucedeu, por exemplo, em Figueira de Castelo Rodrigo onde um casal de Cegonhas fez um ninho na tôrre da igreja matriz daquela vila. Em certo dia de inverno, um temporal mais violento atirou a terra os garavêtos do grande ninho das Cegonhas. Os figueirenses lamentaram o facto e, não fôssem as Cegonhas, no seu regresso, abandonar a tôrre e irem nidificar algures, foi-lhe construída no alto uma armação de ferro, onde se repuzeram os garavêtos do ninho que a tempestade tinha desmantelado.


Na primavera seguinte as Cegonhas voltaram: instalaram-se no seu velho ninho agora mais sólido. E, com grande satisfação de tôda a gente de Figueira de Castelo Rodrigo, em cada ano, um casal de Cegonhas vem instalar-se no alto miradoiro da tôrre da sua igreja.


À amabilidade do Dr. A. Metelo Machado, advogado naquela vila beirã, devo o obséquio do envio pronto de uns postais com a vista da igreja matriz, onde se vê o volumoso ninho pousado na cúpula que remata a tôrre sineira. Segundo me informa êste distinto advogado, os figueirenses têm certa vaidade naquele ninho, considerando-o timbre da terra. A própria Câmara Monicipal todos os anos o manda compôr, de forma que, quando as Cegonhas regressam «no dia de S. Braz (3 de Fevereiro) ou mais tarde», encontram o ninho restaurado das injúrias dos temporais de inverno."


Santos Júnior
in "A Cegonha-branca (nota de etologia)", Naturalia (1939)

Intermezzo radical


Vale a pena de vez em quando reconduzir as coisas ao óbvio.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, agosto 12, 2009

Programa Eleitoral do Partido Comunista Português


Foi ontem apresentado o Programa Eleitoral do Partido Comunista Português. Tal como já havia feito com os documentos eleitorais do Bloco de Esquerda e do Partido Socialista, analiso agora o do PCP, no que à Conservação da Natureza diz respeito.

A única frase que o PCP dispensa relativamente à Conservação da Natureza é o quinto ponto do sub-capítulo Uma adequada política de ambiente, ordenamento do território e de desenvolvimento regional, onde apenas refere que "uma política de preservação da natureza assente na gestão democrática das Áreas Protegidas e orientada para a valorização do património genético e paisagístico".

Concordo que a gestão das áreas protegidas seja mais participada, ainda que desconfie que em moldes diferentes aos que o PCP estará, possivelmente, a propor. Mas é realmente este o principal problema da conservação da natureza em Portugal? Não tem o PCP mais nada a propor?

Não costumo contabilizar a quantidade de vezes que palavras-chave são referidas no texto, o número de parágrafos dedicados à Conservação da Natureza e, enfim, a extensão do texto. Importa-me sobretudo a pertinência, amplitude e aplicabilidade das propostas. Parece-me bem mais interessante a apresentação de um leque razoável de propostas que resolvam eficazmente os principais problemas da Conservação da Natureza no país , ainda que apresentadas de forma (necessariamente) sucinta, mas suficientemente concreta por forma a compreender qual o verdadeiro compromisso assumido por cada partido. Mas francamente, reduzir as propostas de uma partido político naquela área a uma simples frase, parece-me revelador do vazio de ideias ou da falta de interesse político pela Conservação da Natureza. Tanto para mais que o PCP tem n'Os Verdes, um braço pressupostamente ambientalista.

Gonçalo Rosa
PS - não me peçam para tratar "Os Verdes", como um verdadeiro partido político; os factos de nunca ter concorrido sozinho em eleições legislativas e de ser completamente subserviente ao PCP, falam por si.

terça-feira, agosto 11, 2009

O fundo da barragem



Sujeito à barragem da propaganda não tinha ainda percebido bem a conversa acerca da rapidez com que os projectos do Fundo para a Conservação da Natureza iriam estar no terreno.
É que dá não ler os papéis:
"A compensação pela perda de valores naturais e sua preservação deve ser assegurada através de contribuições anuais para o Fundo para a Conservação da Natureza e da Biodiversidade, previsto no artigo 37.º do Decreto-Lei n.º 142/2008, de 24 de Julho, de acordo com o constante na medida de compensação n.º 13. ".
Esta é a terceira condicionante da DIA de aprovação da barragem de Foz Tua.
"A compensação pela perda, quer directa quer de forma cumulativa com outros empreendimentos na bacia do Douro, de valores naturais e sua preservação deve ser assegurada através de contribuições anuais para o Fundo para a Conservação da Natureza e da Biodiversidade, previsto no artigo 37.º do Decreto-Lei n.º 142/2008, de 24 de Julho, as quais deverão ser calculadas na base de 3% do valor líquido anual médio de produção, ou seja, da receita anual do empreendimento.
As referidas contribuições deverão ser asseguradas desde o início da fase de construção, sendo que até ao início da fase de exploração o montante da contribuição deverá ser calculado em função da estimativa do valor líquido anual médio de produção.".
E esta é a medida de compensação referida.
Pelo meio pode ler-se o que é pedido para o RECAPE como medidas compensatórias, a maioria das quais são estudos e essa novidade que são as áreas protegidas privadas.
Não vou transcrever aqui o que é pedido que o RECAPE faça dada a extensão (pode ser consultado aqui, por exemplo) mas deixo apenas um exemplo: "Estudo da filogeografia do buxo (Buxus sempervirens) no Centro-Norte da Península Ibérica, tendo por base estudos detalhados de caracterização e análise de variabilidade genética das populações.".
Eu leio e não acredito que isto seja considerado aceitável, quer pelos técnicos que fazem a avaliação, quer os dirigentes dos organismos públicos que aprovam os pareceres, quer pelo promotor, quer finalmente pelo decisor político que assina a DIA.
Não há almoços grátis: tudo isto vamos nós pagar em tarifas mais altas de electricidade e em perda de competitividade económica das nossas empresas.
Não está em causa a necessidade de compensar impactos negativos por parte dos promotores do projecto até ao nível que for necessário. O que está em causa é o delírio na definição de responsabilidades.
Ora é sobre esta lógica delirante e irresponsável que se vai lançar dinheiro através do Fundo para a Conservação da Natureza que será gerido pelo ICNB, que é simultaneamente quem tem a responsabilidade de verificar a conformidade do executado com o imposto pela DIA.
O promotor, esse, passou a ser apenas responsável por passar os cheques.
O corolário é um promotor satisfeito que entregou ao Estado a sua responsabilidade, é uma administração da conservação satisfeita por ter dinheiro fácil e pouco escrutinável e um número muito alargado de organizações e pessoas (nomeadamente os muitos investigadores necessários para os estudos que as espécies e habitats nunca lerão e de que provavelmente nunca sentirão qualquer efeito concreto) que se vão entreter a produzir projectos para gastar o dinheiro (como o dinheiro vem de um respeitável Fundo para a Conservação da Natureza não se boicota, se viesse da EDP, aí sim, seria inaceitável. De onde vem e por que formas o dinheiro chega ao Estado é um detalhe que evidentemente não interessa nada).
Vou pregar a outra freguesia.
Tudo isto me incomoda e me põe uma viscosidade na alma que não deve fazer-me bem.
henrique pereira dos santos

domingo, agosto 09, 2009

Cabras, fogos e o admirável mundo das plantas

Em 1974, John Phillip Grime, actualmente professor emérito da Universidade de Sheffield, publicou um artigo seminal na revista Nature com o titulo "Vegetation classification by reference to strategies". Grime revelou que as plantas têm estratégias de vida diferenciadas que as permitem sobreviver num mundo de intensa competição por recursos escassos. As plantas foram agrupadas em três grupos, consoante as suas estratégias de vida: as ruderais, tolerantes ao "stress" e as competitivas.

As ruderais seriam as primeiras a colonizar um dado ambiente após uma perturbação como seja o fogo, o sobre-pastoreio, ou a "limpeza" da vegetação para actividades agrícolas ou florestais, etc. São, portanto, plantas que beneficiam de - e nalguns casos promovem - condições que favorecem as perturbações cíclicas no ambiente. Um exemplo conhecido é a esteva (Cistus ladanifer) que coloniza, em regime de quase monocultura, solos excessivamente pastoreados ou queimados do sul do País e que possui estratégias de vida que contribuem para aniquilar espécies competidoras. A esteva consegue este objectivo através da produção de uma substância (a cola nas suas folhas que se chama "labdano") que favorece a ignição do fogo, logo a manutenção de condições de perturbação que a beneficiam e que, quando depositada no solo, inibe o crescimento de outras plantas (um mecanismo semelhante ao do eucalipto).

As plantas tolerantes aos "stress" seriam as que suportam condições ambientais extremas, no limite do que é possível pela maior parte das plantas. São exemplo, os líquenes, as plantas tolerantes a ambientes salinos, de estrema aridez, etc.

As plantas competitivas seriam as que logram vingar em ambientes de intensa competição, característicos de ambientes biológicos complexos como sejam as florestas. Contrariamente às ruderais são plantas que beneficiam de condições de baixa perturbação e, como tal, possuem alguns mecanismos que inibem a propagação de perturbações. É o caso de muitas plantas que "ardem mal" (por exemplo os medronheiros, os lentiscos, as murtas, etc) e que beneficiam das condições criadas por comunidades estruturalmente complexas, como os bosques, que favorecem a existência de predadores de topo que reduzem a incidência de herbívoros e logo o risco de sobre-pastoreio.

Vêm estes considerandos a propósito dos inspirados posts do Henrique Pereira dos Santos sobre as aventuras e desventuras de Thomas. A tese defendida pelo Henrique é que a intensidade dos fogos em Portugal se deve em grande parte ao abandono dos campos e que a solução passaria por revalorizar estas actividades de modo a manter a sua função ecológica (e económica).

Naturalmente, não discordo da tese até porque parte do que o Henrique defende é factual. Porém, o raciocinio está incompleto pois não reconhece que a especial propensão dos campos abandonados para o fogo é resultado de um sistema de exploração da terra que criou condições para uma sobre-abundância de plantas ruderais que possuem estratégias para manter, em regime cíclico, as condições para aparecimento de grandes fogos.

Como se resolve o problema? Uma solução, implícita nas propostas do Henrique, é emular o sistema tradicional de exploração agro-pastoril do território. Caricaturizando, a ideia é que as cabras reduziriam a biomassa acumulada, logo a magnitude dos fogos. Sabemos, porém, que este é justamente o sistema que, após abandono, criou condições para a propagação de grandes fogos em Portugal. Portanto, é uma solução potencialmente paliativa, ou seja, uma solução que não resolve o problema de fundo (existência de condições que favorecem as plantas ruderais) mas que resolve o sintoma (excesso de ruderais) por via de uma actividade económica, o pastoreio, cuja rentabilidade - logo perenidade - depende de factores variados, alguns dos quais são externos.

Será a melhor solução? Certamente que é mais eficaz do que nada fazer e/ou simplesmente apagar fogos com meios cada vez mais avançados e caros. Mas outra solução seria gerir o território de uma maneira mais integrada e baseada num zonamento, de fina escala, sobre usos potenciais de cada parcela. Num cenário ideal, a gestão do território deveria limitar a pastorícia a áreas concretas, com baixo potencial para o desenvolvimento de florestas. As diferentes espécies de herbívoros (cabras, ovelhas, cavalos, etc) e as densidades dos mesmos deveriam ser cuidadosamente controladas e o objectivo de gestão da paisagem deveria incluir a criação de mosaicos de vegetação onde as plantas com características competitivas (florestais) tivessem um papel importante na limitação da propagação do fogo. Estamos a falar, em particular, de linhas de água, zonas de vale, vertentes suaves expostas a norte, etc.

Será utopia propor modelos de gestão do território baseados num zonamento por objectivos, que não sejam exclusivamente mercantilistas? Talvez este não seja o momento histórico para fazer propostas desta natureza mas não deixa de ser paradigmático que volvidos mais de 30 anos sobre a publicação dos influentes trabalhos de Grime, continuemos a pensar a gestão do território sem procurar entender o comportamento das plantas e sem entender que trabalhando com elas mais do que contra elas alcançaremos uma gestão mais sustentável dos recursos escassos que estão à nossa disposição.

O mundo rural e o papel higiénico preto


Antes de começar o episódio de vento Leste que a partir de amanhã ou depois submergirá o espaço mediático em labaredas (ainda que o vento se preveja fraco), lembrei-me de fazer mais um post sobre o outro mundo rural, o do não abandono, o que pode resistir ao fogo, como resistiu a quinta do Thomas quando pelas redondezas tudo era fogo.
Ao pensar no assunto apercebi-me de que a discussão sobre a competitividade do mundo rural foi durante muitos anos uma discussão sobre produtividade, ou mesmo sobre produção por hectare, ou produção sobre hora de trabalho, mas raramente uma discussão sobre valor criado.
Lentamente em algumas fileiras, o vinho, o azeite, para além da produtividade começou a discutir-se a criação de valor.
Quando José Roquete resolveu começar a vindimar as uvas brancas à noite para evitar grandes diferenças de temperaturas nas uvas até a adega do Esporão, não estava com certeza preocupado com a produtividade da operação mas com a diferença de valor que isso introduzia no seu vinho branco e que o mercado estava disposto a remunerar.
A mesma lógica têm algumas agro-industrias, como a dos laticínios, quando diversificam permanentemente os gostos dos yogurtes.
E a mesma lógica foi a da Renova ao criar o rolo de papel higiénico preto: uma pequena empresaa do sector (não à escala de Portugal, mas à escala global) tornou-se mundialmente conhecida, e acarinhada por muita gente, por ter a ousadia de olhar para o papel higiénico sem os limites que uniformizavam a produção mundial em torno do branco ou das cores claras e suaves. Uma das principais razões para a Renova ter sido capaz de fazer isto foi a consciência da sua pequenez no sector e a consciência de que nunca poderia competir com os gigantes do sector pelo preço, mas apenas pela diferenciação. Mesmo num produto que aparentemente não permitia grande diferenciação, como o papel higiénico.
É a mesma lógica que leva a Delta Cafés a fazer lotes de café a partir de cafés de mais de cinquenta proveniências, havendo alguns lotes com perto de dez cafés diferentes, ao contrário da meia dúzia de proveniências usadas pelos gigantes deste mercado.
Infelizmente as nossas políticas para o mundo rural foram sempre desenhadas por produtivistas, como é natural que sejam os homens da produção.
As nossas escolas de agricultura ensinam sobretudo a produzir, não ensinam a criar valor.
Por isso todos os nossos sistemas tradicionais de pequena produção diversificada, com forte integração de retalhos de terra agrícola e montes a perder de vistas foram considerados atavismos de que a modernização do país, e especificamente a modernização da produção agrícola, nos haveria de libertar, transformando-os em florestas.
Porque esses sistemas são inevitavelmente sistemas de baixa produção. Ironicamente, em muitos casos, mesmo para as florestas.
O mais que se tentou foi encontrar novas produções que substituissem as antigas, que à semelhança do azeite e do vinho fossem à partida reconhecidas no mercado como produtos susceptiveis de diferenciação e remuneração compatível com os elevados custos de produção.
Mas cabras, esterco e coisas que tal é que nunca seriam competitivos.
Ora o marketing, como dizia um dos directores de comunicação de uma das empresas que citei, é sobretudo informação e bom senso.
O que sabemos hoje é que o abandono dos nossos sistemas agrícolas tradicionais tem um custo elevadíssimo que se consome na paranoia dos fogos (e outros sintomas de falta de controlo social sobre o território).
É por isso de bom senso confrontar os riscos de abandono com os riscos de olhar para cada produtor como um criador de valor e não apenas um produtor de alimentos ou fibras.
Talvez fosse tempo de olhar para esses sistemas sem ser pela sua produtividade, que será sempre baixa face aos territórios com condições naturais de maior produção, mas pelo lado da criação de valor.
Se a única produção possível num determinado sítio é o mato, pois olhemos para o mato e para a forma de lhe acrescentar valor, em vez de teimarmos em querer produzir trigo porque temos um déficit de produção alimentar.
Se a partir desse mato formos eficientes na criação de valor, se conseguirmos valorizar no mercado o que ele tem de único (por si, ou porque o pintámos de preto), é bem possível que no fim do dia tenhamos ganho o suficiente para ir comprar a outro lado o trigo que nos faz falta.
E criar valor não é necessariamente produzir mais, é vender mais caro porque se incorpora mais valor.
Seja porque se integra a produção para vender produtos mais diferenciados (é difícil aumentar o valor das amoras, mas é possível criar uma compota diferenciada), seja porque se incorpora em marcas (e marcas são associações de ideias) outros valores mais intangiveis que a produção de bens (por exemplo, o azeite Faia Brava incorpora a ideia de que a compra de cada garrafa representa a compra de 50 metros quadrados de terreno para a conservação da biodiversidade).
O que implica ganhar competências em três matérias que as nossas escolas de agricultura e os nossos cursos de formação para agricultores de maneira geral tratam muito mal: 1) comunicação, 2) comunicação, 3) comunicação.
henrique pereira dos santos

sábado, agosto 08, 2009

Thomas e Tomás


Num comentário de Ana Paula Dias a este post (obrigado pela sua divulgação) diz-se:
"Quero eu dizer no fundo que a estrutura fundiária é, ainda, um problema que impede outros Tomás de fazerem o mesmo."
A questão da dimensão foi entretanto respondida pelo Jaime Pinto, mas mesmo que os trinta hectares fossem a área disponível inicial há outros aspectos bem mais importantes para que o Thomas faça coisas diferentes de Tomás.
Em primeiro lugar acho que há um problema de cultura.
Thomas é agricultor porque quer e tem orgulho em ser um pessoa que depende essencialmente de si próprio.
Tomás normalmente é agricultor porque não se conseguiu safar em mais nada e sente que falhou na vida.
Thomas é instruído, consulta regularmente a internet (por vezes levando o seu computador portátil para a serra quando sai com as cabras) à procura de melhorias para sua exploração (quando o visitei da última vez deu-me um artigo científico que tinha impresso sobre a contenção de cabras com um sistema mais eficiente que os pastores eléctricos que hoje usa).
Tomás normalmente tem uma formação deficiente.
Thomas é um cidadão do mundo que se relaciona com pessoas de todo o lado e usa a internet e organizações internacionais de voluntariado para disponibilizar a sua quinta aos outros.
Tomás é normalmente um cidadão da sua aldeia que às vezes vai à vila.
Thomas relaciona-se com o Estado numa posição de igualdade e conhecendo exactamente os seus direitos e obrigações de cidadão.
Tomás normalmente procura não ter complicações com o Estado para não prejudicar os apoios de que pode vir a precisar.
Thomas é um músico nas horas vagas e o engenheiro que concebe e monta o sistema de produção de electricidade que usa na sua quinta.
Tomás é muitas vezes um habilidoso do desenrascanço mas dificilmente lhe passaria pela cabeça que a electricidade pode ser produzida por si e não comprada à companhia e muito menos tem a formação para desenhar e construir o sistema.
Thomas toma as suas decisões de produção e comercialização reinventando o sistema tradicional de exploração de zonas pobres, com integração da produção agrícola e do monte, naturalmente adquirindo o gado miúdo uma posição preponderante na exploração.
Tomás está refém das modernices dos técnicos agrícolas que lhe dizem (e desenham os apoios ao mundo rural nessa perspectiva) que o modelo secular de integração campo/ monte é inviável e que o querem transformar ora num produtor de maçãs, ora num produtor de lúpulo, ora num produtor de kiwis, ora num produtor de mirtilo, de qualquer maneira um especialista e que abominam cabras e apoiam essa inovação recente em Portugal que é ser produtor florestal.
Poderia continuar mas o essencial parece-me dito: em Portugal ser agricultor (com excepção das grandes propriedades do Sul) é um acidente de percurso numa vida que nós todos consideramos falhada.
Seguramente em Portugal não é fácil ser Thomas sendo Tomás, embora seja possível. Entre outras razões porque sempre desenhámos as políticas para o mundo rural a partir de inovadores modelos académicos de exploração que pretendem liquidar o que existiu, que sempre considerámos uma atraso atávico do país, e raramente temos políticas desenhadas a partir da vontade de valorização dos modelos seculares existentes.
A novidade é que agora insistimos em fazer a vida negra ao Thomas porque ele não é Tomás e, apesar de todos as nossas certezas em contrário, ter uma vida digna numa exploração viável que contraria tudo o que as nossas escolas de agricultura nos andam a ensinar há anos.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, agosto 07, 2009

O teste

Dizem-me que a partir de segunda feira dia 10 entra um episódio vento Leste (ainda não identificado na previsão do site do IGM).
A confirmar-se e a durar mais de dois dias será o primeiro teste do dispositivo de combate a incêndios. Se durar mais de cinco será um inferno.
henrique pereira dos santos

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Foi recentemente noticiado o lançamento do Partido Nulo, um movimento que apela ao voto nulo nas eleições (ao que me pude aperceber) em geral.

Para além do tom algo jocoso com que se apresenta, bem adequado à silly season que atravessamos, o objectivo final é mesmo a promoção do voto nulo. Mas se há mensagens que passam como brincadeira pois é como tal que todos as levamos, outras há que, perigosamente, alimentam uma certa maneira de estar e de pensar (diria mesmo um traço de carácter comum a muitos de nós), que em nada contribuem para a solução dos problemas que a atingem.

No seu Manifesto, o Partido Nulo justifica o voto nulo com: "O voto nulo surge então como uma alternativa plena de potencial expressivo individual e colectivo. Através do voto nulo, afirmamos a legitimidade do sistema de representação popular clamando simultaneamente por melhores candidatos, melhores programas políticos, maior capacidade de entendimento do país."

Esta ideia, amplamente difundida na sociedade portuguesa, de exigir aos outros soluções para os problemas que são, afinal, também nossos, é profundamente errada e, diga-se, até egoísta. Assumimos o Estado como coisa que não é nossa, cabendo, como tal, a um qualquer outro dar o corpo ao manifesto. Mas esta demissão da participação na vida pública, tem uma extensão bastante mais ampla.

A quase ausência de participação voluntária na vida das associações ambientalistas é, disso mesmo, bom exemplo. Se é certo que, não raras vezes, os que as dirigem parecem muito pouco interessados na participação activa dos outros associados - especialmente quando é posta em causa a manutenção dos primeiros enquanto dirigentes - não menos certo é, que esta realidade não pode servir de justificação individual para toda e qualquer ausência de participação na vida das ONGAs. Na maioria das eleições para os corpos dirigentes a abstenção é superior a 95% (!!!) entre os sócios com quotas em dia, nas assembleias gerais é quase constante uma quase total ausência de propostas concretas por parte de alguns "intrusos" que nelas participam e eleições concorridas por duas listas/programas são verdadeiros "casos de Jardim Zoológico". Ao invés, abunda o "malhanço", completamente estéril, em mesas de café ou vão de escada.

Ser cidadão, é participar activamente na construção de uma sociedade melhor. Deve ser muito mais que um direito inalienável, um estatuto dado à priori, confundível com a mera condição de ser humano. E é seguramente bem mais do que um voto nulo, se não estiver bom tempo e a praia nos apetecer.

Gonçalo Rosa

O zero da discussão política

Neste post do blog de apoio ao PS nesta campanha eleitoral, Palmira Silva pretende contradizer o ensaio de Joanaz de Melo sobre a insustentabilidade do investimento público em Portugal. Insustentabilidade na definição clássica de Bruntland, não sustentabilidade financeira que é que tem sido posta em causa por Manuela Ferreira Leite.
O que Palmira Silva faz é a enésima variação de um panegírico ao sucesso deste governo em relação às energias renováveis, que tenho vindo a comentar no referido blog com a pertinácia de querer uma resposta a uma pergunta simples: se a prioridade às energias renováveis tem fundamento em razões ambientais, por que razão não foi dada prioridade ao que é realmente prioritário do ponto de vista ambiental, a eficiência energética e a água quente solar?
Só que neste caso Palmira Silva vai mais longe e resolve contestar os argumentos de Joanaz de Melo, e que o Público traduziu num artigo que Palmira Silva leu, com base num engraçadismo qualquer sobre a substituição da queima de carvão pela queima de rosas na Londres do século XVII e a impossibilidade de ter políticas de eficiência energética na Índia e China como base para contestar a necessidade de políticas de eficiência energética em Portugal.
A simples frase com que Palmira Silva começa um dos seus parágrafos "Mas se não esperava que o factor económico fosse apelativo para os nossos ambientalistas" evidencia a distância que vai do interior da sua cabeça à realidade.
Mas não se pense que estou a falar de uma obscura comentadora de um obscuro blog, não, trata-se de uma investigadora universitária com créditos firmados e suficientemente influente politicamente para estar a escrever no blog não oficial de apoio ao PS nestas eleições.
Ou seja, o que isto quer dizer é que ao silêncio sobre política energética, sustentabilidade e ambiente do Jamais (o blog de apoio ao PSD e que tem José Eduardo Martins como um dos colaboradores, embora até hoje não tenha escrito nada) se junta uma pueril argumentação do SIMPLEX a favor das energias renováveis que não faz mais que repetir ad nauseum a propaganda do Governo em relação às renováveis.
Ou seja, mesmo com o esforço do Gonçalo Rosa ir avaliando neste blog e criticando os programas de governo dos candidatos às próximas eleições em matéria de conservação da natureza, parece que estamos no grau zero da discussão política sobre sustentabilidade.
É mau.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, agosto 06, 2009

Programa de Governo do Partido Socialista


Há cerca de uma semana, foi publicado o Programa de Governo do Partido Socialista. Tal como já havia feito com o do Bloco de Esquerda, analisei este documento do PS, no que à Conservação da Natureza diz respeito.

As medidas propostas pelo PS, resumem-se a um parágrafo no sub-capítulo Desenvolvimento Sustentável e Ambiente (página 83) e são as seguintes:

- “... Consolidaremos a salvaguarda da Rede Natura e dos demais valores naturais protegidos no âmbito do novo regime jurídico de conservação da natureza e biodiversidade...”;

[de acordo, mas uma verdadeira generalidade, onde “cabe tudo”...]

- “... apoiaremos a classificação e gestão de áreas protegidas locais e de áreas protegidas privadas, complementando a Rede Nacional de Áreas Protegidas...”;

[de acordo, ainda que, mais uma vez, fosse desejável compreender o que entende o PS por “apoiar”, especificando um pouco mais as suas propostas]

- “... fomentaremos as sinergias sustentáveis entre a biodiversidade e as actividades económicas e produtivas ligadas ao uso do território, como a agricultura, a floresta, a pesca, a caça e o turismo...”;

[vindo do “nada”, é mais uma generalidade, eventualmente pouco polémica; vindo de onde vem, temo que o significado seja a continuação da constante subalternização dos interesses da conservação da natureza e da biodiversidade aos das actividades económicas, na qual, o uso abusivo dos PIN teve, pela mão do actual Governo PS, o seu expoente máximo]

- “... ponteciaremos, em especial, a Rede Nacional de Áreas Protegidas como base preferencial para o cluster do turismo de natureza...”;

[outra generalidade, com a qual concordo, mas onde, mais uma vez, “cabe tudo”; o Turismo de Natureza deve ser entendido como uma actividade económica, que evidencia/explora valores naturais, que pode contribuir para o desenvolvimento sustentável, mas que, por si só, não é conservação da natureza; nesta área e falando da Rede Nacional de AP’s, muito mais esperaria]

“... promoveremos, também, um novo sistema de gestão e financiamento das áreas protegidas e classificadas, através de medidas de fiscalidade adequadas e do reforço das parcerias com entidades com capacidade de gestão activa do território (municípios, produtores florestais e agrícolas, associações de defesa do ambiente, empresas, etc.) ...”

[necessário, sem dúvida, mas, mais uma vez, não há propostas de medidas concretas]

“... reforçaremos a imagem internacional de Portugal como líder em questões de biodiversidade marinha, através do alargamento da rede de áreas marinhas protegidas, quer na costa, quer no alto mar, sendo designadas novas áreas classificadas e concretizada a extensão da Rede Natura 2000 ao meio marinho, em harmonia com a política comunitária...”

[de acordo, mas de pouco vale a classificação de novas áreas se, depois, continuar a não haver vontade política para as gerir convenientemente, não sendo disponibilizados meios para o efeito]

Apesar do PS apresentar propostas com as quais concordo, são, na sua grande maioria, demasiado genéricas. Tão genéricas que dificilmente permitirão, caso o PS vença as próximas eleições legislativas, avaliar do seu cumprimento. No concreto, ficamos sem perceber qual a linha de rumo do ICNB e das áreas protegidas que tutela, bem como o que fará relativamente à actual Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e da Biodiversidade (EBCNB), concretizá-la de finitivamente ou pô-la assumidamente "na gaveta".

Talvez seja bom recordar que “promover a reorganização do Instituto da Conservação da Natureza, devolvendo-lhe dignidade e superando, progressivamente, a situação de grave estrangulamento financeiro em que se encontra” foi um dos pontos do programa eleitoral do PS em 2005 (ver Programa Eleitoral do PS para 2005-2009, página 97) e que, quanto ao estrangulamento financeiro, a situação não foi, de todo, saneada. Também a concretização da Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e da Biodiversidade, não passou de uma promessa (ver post aqui publicado por Henrique Pereira dos Santos), estando, basicamente, no papel. De resto, generalidades. Muito pouco.

Gonçalo Rosa