domingo, outubro 31, 2010

A parábola da Ribeira da Foz

Neste meu post, para o ilustrar, usei uma fotografia com uma extensa legenda explicando-a.
Todos os comentários ao post se centraram nessa legenda.
A questão de fundo prende-se com uma velha discussão: quando uma empresa investe em conservação isso é bom ou é simplesmente o chouriço que se dá a quem se roubou um porco?
O caso concreto é das celuloses, que ocupam com eucalitptal umas valentes centenas de hectares e deixam alguns para conservação (actualmente, com o modelo de certificação que usam, cerca de 10%), mas poderiam ser as eléctricas e as suas barragens, os eólicos e as suas torres, as construtoras e as suas estradas, enfim, a lista poderia não ter fim.
No fundo a discussão resume-se a saber se estamos melhor com empresas que produzem na lógica própria do negócio, usando para isso os recursos do território que podem ou querem, deixando uns bocados para a biodiversidade e a conservação, ou seria melhor que as empresas tivessem, de base, uma posição de conservação, a que adaptavam o seu negócio.
Do meu ponto de vista não há vantagem nenhuma em ser ineficiente no negócio a favor da conservação. Ou há razões para que a lógica de conservação de um recurso escape à produção económica (e há sítios em que isso se justifica), ou se um território tem uma lógica de produção, então que o faça o mais eficientemente possível, sem perdas para terceiros.
O problema é que nesta discussão o que uns acham perdas aceitáveis (quer porque são pequenas e reversiveis, quer porque sendo grandes e irreversiveis se justificam face aos benefícios da produção), outros acham perdas absolutamente inaceitáveis.
O caso dos eucaliptais e das barragens são provavelmente dos que mais extremadamente se discutem.
Infelizmente mais com o coração que com a razão.
Entrar pela ribeira da Foz, totalmente rodeada de eucaliptais que geram a riqueza que permite manter e alargar um corredor ecológico notável faz qualquer um interrogar-se sobre o que seria o destino dessa galeria ripícola se se tivesse mantido o uso tradicional da propriedade, com base em gado, agricultura e, provavelmente, algum montado.
Sair dessa galeria para o eucaliptal envolvente faz qualquer um interrogar-se sobre que mais valias de conservação poderiam existir na manutenção do mosaico pré-existente (desconheço o que existia na propriedade antes da primeira florestação, sirvo-me apenas da minha experiência e da observação da envolvente para admitir um cenário de montado pobre e agricultura marginal).
Mas ao mesmo tempo é inevitável admitir que esse cenário provavelmente estaria fora de causa, sendo mais natural que a economia da produção conduzisse ao abandono produzindo uma paisagem comum em Portugal, com recuperação notável dos sistemas naturais (evoluindo o montado para o sobreiral), de elevada susceptibilidade ao fogo e de baixo potencial de criação de riqueza.
O eucaliptal em Portugal é um bom motivo de discussão numa óptica ambiental: vale mais que os 750 000 hectares de eucalipto que temos sejam povoamentos mal geridos, com alguma diversidade biológica, com algum sub coberto interessante aqui e ali, com recuperação de carvalhal aqui e ali, produzindo alguma riqueza, como acontece na maioria desses 750 000 hectares, ou ganharíamos mais em ter povoamentos geridos de forma comercial pura e dura, como acontece nos cerca de 150 a 200 mil hectares geridos pelas celuloses e afins, criando riqueza a sério e gerindo e mantendo valores de conservação notáveis, em áreas mais ou menos marginais para a produção, de forma profissional.
Confesso que não tenho ideias totalmente claras a esse respeito, excepto achar que não faz sentido prescindir de produzir riqueza a partir da produção de eucalipto, pasta e papel.
Declaração de interesses: colaboro profissionalmente com a Altri.
henrique pereira dos santos

sábado, outubro 30, 2010

Malthus estará outra vez enganado?


fontes: Maddison, Angus (2009) Statistics on World Population, GDP and Per Capita GDP, 1-2006 AD (Last update: March 2009) in www.ggdc.net/maddison/World Bank World Development Indicators, http://data.worldbank.org/

Todo o movimento ambientalista é mais ou menos malthusiano no sentido em que sabendo que existem limites físicos ao crescimento pretender adoptar hoje medidas que seriam sensatas se esses limites fossem já sensiveis.
O erro de Malthus foi supôr que as tendências conhecidas se manteriam no futuro.
Ao olhar para este gráfico que reproduz a taxa de crescimento da população mundial parece fazer sentido perguntar se não estará o movimento ambientalista enganado e daqui a alguns anos o problema não será a escassez de recursos mas a escassez de pessoas que suportem o modelo económico e social que conhecemos.
Eu sei do exagero da pergunta, mas o gráfico...
henrique pereira dos santos

sexta-feira, outubro 29, 2010

Da realidade e da autoridade

Esta fotografia foi tirada por mim há oito dias numa propriedade da Altri, uma das duas celuloses que existem em Portugal. Gostaria de fazer notar que a notável galeria ripícola que se vê à direita se prolonga por cerca de oito quilómetros, gerida pela Altri com objectivos de conservação. Na baixa que se vê à esquerda foram retirados os eucaliptos da primeira florestação (penso que nos anos 80), tendo sido plantados freixos (eu tenderia a preferir a evolução natural). Nesta propriedade a entrega destas baixas, tradicionalmente agricultadas, à conservação é uma opção sistemática que permitirá que a mata ripícola ocupe de novo as baixas aluvionares que lhes pertenciam há séculos atrás (situação raríssima no Portugal actual). Em cima à esquerda reconhece-se o caminho que separa a área de conservação da área de produção intensiva de eucalipto. Esta baixa tinha (e ainda tem) uma forte infestação de exóticas invasoras (a mancha mais clara que encosta à galeria ripícola é bambu, por exemplo) que está a ser controlada pela gestão. Voltarei a fotografias desta visita um dia destes. Declaração de interesses: colaboro profissionalmente com a Altri

Jorge Paiva é um botânico conhecido e reconhecido, com uma longa história de activismo ambiental, a quem o movimento ambientalista deve estar reconhecido.
Apesar disso, ou melhor, especialmente por isso, não quero deixar passar em branco algumas afirmações feitas no contexto de uma série de artigos sobre biodiversidade patrocinados pelo BES, publicados às quintas feiras no Público.
Uma derivação para a curiosa forma como surgem esses artigos, em que textos claramente da responsabilidade do jornal intercalam com textos claramente da responsabilidade do BES.
O texto que quero comentar é claramente da responsabilidade do jornal, e especificamente do jornalista Nicolau Ferreira, que não conheço e cuja fidelidade ao que é dito não sei avaliar.
Mas conheço Jorge Paiva, cruzamo-nos aliás com frequência no comboio das seis da manhã, e reconheço no que li algumas constantes do seu discurso público sobre as matas em Portugal: uma glorificação constante de um mítico passado de gestão das matas no tempo dos serviços florestais; uma amargura constante face a um futuro que é sempre negro; uma caracterização do presente que é sempre mais negra que a realidade. E uma profunda desatenção ao que é feito em concreto na gestão das matas de produção e às alterações sócio-económicas que estão a transformar a natureza dos problemas de conservação em Portugal.
Ficam por isso algumas notas ao artigo em causa, porque continuo convencido de que é preciso combater o excesso de catastrofismo no discurso ambientalista dominante.
"Eu não digo isto aos miúdos, mas para mim a floresta portuguesa não tem salvação".
Não preciso de conhecer o jornalista para saber que esta frase traduz fielmente Jorge Paiva. Com dezenas de variações ouvi-a constantemente em todas as intervenções públicas que tem feito.
Mas é uma frase cuja fundamentação é muitíssimo frágil, sendo em alguns aspectos assente em pressupostos errados, revelando uma falta de rigor que sempre me intrigou no discurso de Jorge Paiva, por não bater certo com sua reconhecida carreira académica.
""Ficaram mais castanheiros, porque o carvalho foi mais cortado", esclarece o botânico. Para ver carvalhais é preciso ir à serra do Gerês ou à de Montezinho. "O nosso país não tinha pedra à mostra (como as serras despidas). Quando a floresta é incendiada ou derrubada, todo o solo vai embora."".
Este parágrafo é extraordinário como ilustração da falta de rigor do discurso catastrofista. Jorge Paiva e o jornalista estão na Margaraça, sempre tratada como um paraíso florestal selvagem em todo o artigo, mas que ardeu várias vezes nos últimos anos, sendo o mais extenso e violento incêndio em 1987, numa demonstração evidente de que a afirmação feita sobre os efeitos do fogo não tem correspondência na realidade (o artigo aliás fala também na Arrábida, outro exemplo documentado de recuperação total após fogo).
Mas se as ideias sobre os efeitos do fogo em matas maduras são mais controversas, o que seguramente não faz o menor sentido é dizer que quem quer ver carvalhais tem de ir ao Gerês e a Montezinho (dou aqui de barato a imprecisão geográfica de se considerar como incluída na expressão "Montezinho", também a Nogueira e outras áreas próximas de Montezinho, visto que a não ser assim a frase seria de uma ignorância que evidentemente Jorge Paiva não tem).
Hoje o carvalhal recupera inegavelmente em todo o país. E se até há pouco tempo essa recuperação era menos visível a escalas mais abrangentes, hoje é o recente inventário florestal que a reconhece à escala do país.
Por último, a ideia de que o país não tinha pedra à mostra é uma ideia que carece que ser contextualizada no tempo. É que para sustentar a ideia de que floresta em Portugal não tem futuro era preciso que esta ideia fosse verdadeira nas décadas anteriores, digamos, nos dois séculos anteriores. Sem a contextualização temporal que remete a ideia de que o país não tinha pedra à mostra para largas centenas de anos atrás, a ideia é pura e simplesmente uma mistificação.
Simplesmente não é verdade para os últimos dois séculos, sendo hoje o grau de cobertura do solo incomparavelmente maior que há 50/ 100 anos atrás.
"Porque é que não acredita que vamos conseguir manter isto? "Há alguma preocupação, mas não vejo meios eficazes, em Portugal muito menos. Criamos reservas, mas estão cada vez mais deterioradas, com menos pessoal, mais incêndios e muita pressão imobiliária."".
Aqui está a explicação. A ideia de que a conservação é uma questão de reservas e recursos alocados pelo Estado. A ideia de avaliar a conservação em função do esforço do Estado em retirar ao processo produtivo pedaços do território, em detrimento de uma compreensão dos mecanismos económicos que produzem riqueza e biodiversidade, é a génese do pessimismo de Jorge Paiva, que o leva inclusivamente a perder o rigor de análise que procurei demonstrar acima, quando esquece os processos de evolução das paisagens (com destaque para uma incompreensível diabilização do fogo que qualquer das avaliações científicas feitas até hoje por equipas de botânicos não suporta).
Uma ideia comum.
Mas errada.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, outubro 28, 2010

Parabéns à SPEA

por esta carta.
Adenda: gostaria de usar o logotipo da SPEA para ilustrar o post, mas estou proibido, pela SPEA, de o fazer
henrique pereira dos santos

O fundo do Sabor

Ontem sairam mais notícias sobre este fundo.
Aos poucos vai-se percebendo melhor o puzzle e o despacho original pode ser visto aqui.
Estamos a falar de um valor que, conforme as notícias, andará pelos 400 mil e o milhão de euros anuais. Estranharia esta incerteza se não conhecesse a opacidade deste tipo de processos.
Mas não me conformo com a pobreza do trabalho jornalístico que se limita a citar a fonte de que tem o número de telefone em vez de efectivamente ir saber preto no branco qual é o valor.
Mas isso é apenas um pormenor que trago como sinal da falta de confiança que o processo me merece, como aliás já expliquei aqui.
Como disse nessa altura, este fundo tem tudo para criar corrupção.
Não estão em causa as pessoas envolvidas, que calculo que sejam todas excelentes pessoas e estejam todas apenas a trabalhar pelo bem comum.
O facto dos autarcas estarem furiosos porque o fundo é gerido pelo presidente do ICNB, no que aliás têm alguma razão mas não toda, é um sinal evidente de que com as regras existentes, o fundamental é saber quem toma a decisão de afectação dos dinheiros disponiveis.
Ora quando num fundo público (alimentado ou não por privados, isso é irrelevante) a principal questão é a de saber quem toma as decisões só uma conclusão é possível: as regras estão mal feitas.
Há muitos processos de afectação de verbas públicas em que é mais ou menos indiferente quem toma as decisões. Pode ser uma pessoa mais eficiente ou menos eficiente, pode ser um melhor ou pior angariador de fundos, pode ser mais trabalhador ou menos trabalhador, mas as regras impedem-no de ser determinante na afectação das verbas, dificultando a aplicação do princípio geral da governação em Portugal: "proteger os amigos, perseguir os inimigos e aplicar a lei aos restantes".
Na verdade estes fundos (e para quem tiver dúvidas o melhor mesmo é estudar aprofundadamente a aplicação do Fundo Florestal Permanente, essa fonte permanente de canalização de dinheiro ineficiente para o Estado, do qual a floresta não beneficia quase nada) deveriam ter processos concursais com júris de avaliação independentes e apoiados na definição prévia muito clara dos critérios de selecção de projectos e com regras taxativas de interdição de financiamento de entidades públicas e entidades privadas em que o Estado detenha mais de 25% do capital. E transparência, prestação de contas, transparência, prestação de contas, transparência, prestação de contas, tudo coisas ausentes do processo.
Como estão os regulamentos é de esperar o pior.
Melhor seria ter entregue a gestão do fundo à Fundação EDP, pelo menos era tudo mais claro.
henrique pereira dos santos

terça-feira, outubro 26, 2010

80 dólares (II)

Tenho usado esta barreira dos 80 dólares para minha orientação.
Acredito (é fé mesmo, fundamentação racional, zero) que andará pelo limite da competitividade da energia eólica. Confio em quem me disse isso há uns tempos, mas não sei o suficiente para saber se assim é ou não.
É claro que é um valor mais que impreciso, tanto mais que a inflação terá comido parte do valor dos 80 dólares de então, mas também as melhorias de eficiência na produção de electricidade a partir do vento terão diminuído o limite da sua competitividade, sem apoio público, face às energias fósseis.
A coisa não deve estar muito longe visto que, tanto quanto sei, nos últimos leilões para atribuição de licenças de produção eólica, o preço médio por kW das eólicas andar a par do preço médio do mercado.
Mas convém notar que este preço do petróleo existe numa altura de crise económica em várias economias importantes, e também de abrandamento no crescimento de economias como a da China.
Vale a pena olhar para a figura que publico a ilustrar este post e que é do financial times do dia 19 de Outubro, publicada a ilustrar um artigo sobre o esforço de eficiência que a China está a fazer (o objectivo é a redução em 20% da intensidade energética, isto é, a energia gasta por cada unidade produzida). Vale a pena notar o aumento previsto do consumo, mesmo que os objectivos de eficiência energética sejam atingidos.
Eu não percebo nada de economia, vou lendo aqui e ali, ouço quem sabe mais que eu do assunto e por mais cauteloso que seja não consigo ver coisa diferente disto: se o petróleo está nos 80 dólares nestas circunstâncias, qual é a perspectiva face à uma hipotética recuperação económica na Europa, USA e Japão.
É nestas alturas que me lembro de há muitos anos estar no jardim da Gulbenkian, onde, não muito longe, estava uma mulher a falar para quem a queria ouvir, preocupada porque estávamos em Outubro e ela tinha deixado passar o Verão sem tomar banho, pelo que a perspectiva era agora esperar mais um ano pelo próximo banho.
De água fria, calculo eu.
henrique pereira dos santos

domingo, outubro 24, 2010

O chícharo

imagem roubada daqui, que gosto deste blog
Chícharo, tanto pode ser o feijão frade, mais para norte, como uma coisa entre o tremoço e o grão, nos calcáreos do Centro.
Era uma cultura pobre, usada na rotação pobre da produção de cereais de Inverno. Essencialmente nas terras de milho de sequeiro (ou trigo, nas terras mais pesadas e barrentas) a leguminosa mais usada era a fava, e na produção de centeio e cevada, nas terras pobres, usava-se o chícharo e o tremoço. Enfim, a coisa não era assim tão simples mas para o que aqui quero serve.
Esta cultura esteve quase morta.
Aos poucos, algumas câmaras da zona, com destaque para Alvaiázere, e alguns grupos de pessoas (o rancho folclórico de Chãos e a sua cooperativa Terra Chã, por exemplo), retomaram o interesse pelo produto e hoje aparentemente está em expansão e é razoavelmente caro (como digo, era uma cultura complementar da rotação pobre, portanto mais que marginal na criação de valor da zona, sendo que a criação de valor se fazia mais pela fixação de azoto para o cereal, que propriamente pelo produto que se colhia).
Os restaurantes da região já quase todos têm uns pratos de chícharo, e é omnipresente no trabalho que tenho estado a desenvolver com as terras de sicó, baseado num dos capítulos do livro que escrevi, o da alimentação e paisagem. Neste trabalho, para além do Luís Jordão, tem sido fundamental o Chef António Alexandre, com quem temos feito umas acções de formação para os restaurantes da zona, procurando por um lado fomentar o uso de produtos locais, por outro chamar a atenção para a sua relação com a gestão da paisagem.
A recuperação do chícharo é um bom exemplo do que se pode fazer (e das dificuldades) na conservação da biodiversidade agrícola e da outra que lhe está associada.
Mas se o trabalho com produtos se vai fazendo, mais difícil tem sido ligar o produto à cadeia de produção.
Parte dessa dificuldade está claramente identificada: a paranóia higienista que impede um restaurante de fechar ciclos de uma forma eficiente.
Por exemplo, aproveitar os restos para cevar um porco, ainda se conseguiria em algumas circunstâncias (embora fosse difícil ter o porco na proximidade da maioria dos restaurantes, introduzindo ineficiência da produção). Mas depois, matar o bicho já não se pode, já teria de ir para o matadouro. E depois guardar um caneiro de banha menos ainda (embora se possa ter um balde de plástico com banha industrial, que não vale um caracol). Bem se queixam os formandos que por mais de usem o sangue que compram no talho, não conseguem fazer uma cabidela de jeito. E não têm alternativa porque não os deixam matar umas galinhas.
Na realidade há razões para a mão pesada dos organismos de velam pela higiene dos restaurantes (neste momento sobretudo a ASAE).
Mas o Estado português adoptou o seu modelo clássico de actuação: em vez de confiar nas pessoas e ter mão pesadíssima para quem não cumpra normas estabelecidas quanto aos produtos finais, optou por uma regulamentação preventiva excessiva.
No fundo, em vez de encerrar o negócio a quem tenha produtos estragados, passou a exigir o controlo de todo o processo de produção, o que, por exemplo, inviabiliza que nestas alturas de crise alguém use os seus dotes culinários cozinhando em casa para espaços públicos.
O resultado só pode ser o da fuga à lei, o da compra do fiscal, o da assimetria de informação que distorce os mercados.
E do ponto de vista ambiental, a maior dificuldade para que alguém se diferencie pela fidelidade a modos de produção ligados à terra.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, outubro 22, 2010

Biodiversity4all (VIII)

Quem acompanha este blog sabe que tenho um carinho grande por este projecto que vou apoiando (menos talvez do que gostaria, ou pelo menos com menos resultados do que gostaria).
No segundo post que fiz sobre o site dizia-me satisfeito com a possibilidade de se acumularem dez mil registos em cinco anos.
A base de dados foi disponibilizada ao público em Março deste ano, pelo que passaram pouco mais de seis meses e o número de observações registadas está quase nas vinte mil.
O projecto é em parte vítima do seu próprio sucesso, porque inteiramente dependente do trabalho de três ou quatro pessoas em regime totalmente voluntário, não estava preparado (admito eu, não tenho certezas) para uma tão grande adesão. Mas ainda assim funciona magnificamente.
Claro que o registo de observações tem sido irregular, mas são raros os dias sem observações e alguns dias têm mesmo muitas observações.
Aparentemente reduziu-se o leque de observadores regulares, mas os observadores fiéis vão fazendo um jogo inocente que se traduz por competirem pela posição de observador mais activo em cada grupo.
Apenas nas aves se mantêm no topo os observadores holandeses que dominavam todos os grupos inicialmente. De resto, quase sempre (há outra excepção nas plantas, mas não tão notória como nas aves) os observadores portugueses dominam e, bastante interessante, alguns em posições intermédias são instituições, como o CISE da serra da Estrela e uma ou outra escola.
Recentemente o observador com mais espécies observadas (não é o mesmo que maior número de observações) de todos os grupos mudou para Francisco Barros. Durante estes meses quase todos foi Paulo Eduardo Cardoso até ontem ou anteontem. Fernando Romão, da Faia Brava (um dos locais com mais observadores e observações e com observações mais relevantes do ponto de vista de conservação) também parece entrar na competição, de forma mais discreta.
Não conheço o Paulo Eduardo, mas conheço os outros dois e posso assegurar que são dos melhores naturalistas que se encontram em Portugal. Suponho que encontraram no site uma forma de organizar os seus cadernos de campo de forma fácil e útil, para eles e para todos.
É um site engraçado, que qualquer pessoa pode usar, como observador ou utilisador de informação e que permite alguma exploração lúdica e de saudável competição sem prémio.
Mas é um site que está a fazer um trabalho muito sério de democratização da informação sobre biodiversidade.
Não posso deixar de notar a relativa ausência de grande parte dos académicos que trabalham em biodiversidade. Alguns será por andarem pouco no campo, outros simplesmente porque não calha, alguns outros porque não dão muita relevância à necessidade de democratizar a informação sobre biodiversidade.
O que hoje queria era uma coisa simples: agradecer aos observadores que têm a generosidade de partilhar o que vêem com toda a gente.
Adenda: tanto quanto me parece, não há uma única espécie de cogumelo registado. É estranho, mas também é a boa altura para alterar isto.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, outubro 21, 2010

Para quem não tem nada para fazer neste fim de semana

O post tem uns dias, mas diz respeito ao que vai acontecer este fim de semana:
henrique pereira dos santos

terça-feira, outubro 19, 2010

Previsões certas e erradas

O gráfico acima, traduz na sua parte final, a entrada de uns dias de vento Leste, desde este fim de semana até amanhã ou quinta feira, e confirma a previsão feita na legenda do primeiro gráfico publicado neste post.
Depois do fim de semana de 9 e 10 de Outubro, em que choveu todo o dia em todo o território, o que deu origem a dois raros dias seguidos sem um único fogo, tivemos uma semana com fogos a começar na dezena (chuva aqui e ali mas menos persistente que no fim de semana), que rapidamente passam para o patamar dos trinta a quarenta fogos diários quando pára a chuva. O vento Leste começa a fazer-se sentir no Domingo, segunda o número de fogos subiu para 65 (mais de 50% de aumento num dia) e ontem, terça, foram 100 fogos. Veremos o que nos espera o resto desta semana, se a previsão de vento Leste se concretizar até quarta ou quinta.
Algumas notas:
1) Como mais uma vez se comprova, o vento Leste é uma espécie de potenciador das condições existentes, favorável ao fogo. Ou seja, por si só não representa um risco de especial, mas induz um risco maior de fogo às condições existentes, seja em que altura do ano for. Para mim é incompreensível que não entre formalmente na avaliação de risco que é feita.
2) Ao contrário do que era a minha previsão, o número de fogos nocturnos não voltou à percentagem de trinta a 45% onde esteve na grande parte do Verão para o qual existe informação. As fracas condições de propagação podem ser as responsáveis por isso, havendo uma diminuição das ignições diferidas, que é a minha explicação principal para os fogos nocturnos. É um chamado "educated guess" não é uma conclusão com base em dados empíricos. Outra explicação possível são as características amplitudes térmicas dos episódios de vento Leste de Outono/ Inverno, com noites francamente frias e mais húmidas que contrastam com os dias bastante solarengos, luminosos e secos. Mas o que é lógico não é necessariamente verdadeiro, pelo que mais informação empírica seria aqui necessária.
3) Nas estatísticas fornecidas pela protecção civil verifica-se que durante a semana anterior, em dias com trinta e tal fogos, havia mais de dez intervenções de meios aéreos, apesar de ter chovido abundantemente há menos de uma semana, o que ajuda a explicar por que razão gastamos agora 100 milhões anuais em vez dos trinta milhões de há cinco anos. Ontem, para 100 fogos, não houve intervenções de meios aéreos. Espera-se que esta opção corresponda a uma correcção táctica perfeitamente justificável. O ataque inicial com meios aéreos é caríssimo (e, já agora, ambientalmente desastroso no consumo de recursos) e parece-me incompreensível que para condições gerais de fácil extinção e progressão lenta dos fogos, como são as actuais, pese embora o vento Leste, se estejam a desperdiçar recursos em meios aéreos. Acresce que arder nesta altura, com estas temperaturas e com vento fraco, não é problema nenhum, a menos que existam valores como casas, povoamentos, infra-estruturas, em risco real. A doutrina táctica deveria ser adaptada a estas condições e não manter a obsessão da extinção no menor tempo possível. Essa é uma das razões pelas quais a área ardida é um péssimo indicador. Nas actuais condições, os fogos trazem mais benefícios que prejuízos, apesar de não serem fogos controlados, e representam poderosos instrumentos de gestão de combustíveis, pelo que o papel do dispositivo de combate aos incêndios deveria ser simplesmente o de conduzir o fogo em função dos valores presentes, e não o de o extinguir. Com algum risco se poderá dizer que, nestas condições, quanto mais arder, sobretudo fora de povoamentos, melhor ficaríamos preparados para os dias de condições verdadeiramente difíceis.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, outubro 18, 2010

Boas notícias (viva a Assírio e Alvim)


Sim, eu sei, deveria dar os parabéns aos autores e dou-os com certeza, mas sem editores a pôr dinheiro nas publicações de biodiversidade não vamos longe.
Por isso, parabéns aos autores, e viva a Assírio.
henrique pereira dos santos

"Aves de Portugal—Ornitologia do território continental pretende constituir-se como uma referência incontornável na ornitologia portuguesa. Este trabalho, que é simultaneamente o mais abrangente e o mais exaustivo alguma vez feito sobre a avifauna de Portugal Continental, é o resultado de décadas de experiência de campo dos autores e de uma pesquisa dirigida demais de 10 anos. Essa pesquisa permitiu recolher informação sobre a ocorrência de mais de 450 espécies de aves. A situação passada e presente de cada uma delas é descrita em pormenor ao longo das 943 páginas que compõem a obra, que é suportada por mais de 1500 referências bibliográficas.O livro contém ainda uma descrição dos principais habitats do país, bem como uma resenha histórica da ornitologia nacional que apresenta grande quantidade de dados inéditos e que constitui a primeira abordagem global a este assunto alguma vez escrita. Disponibiliza também a primeira compilação exaustiva de aves anilhadas recapturadas em Portugal, com um total de mais de 9000 registos.Para ilustrar a obra foram elaboradas 50 ilustrações, na sua maioria inéditas, de grande qualidade estética. Foram incluídas também 154 imagens da autoria de diversos fotógrafos portugueses, tendo ainda sido elaborados vários gráficos que permitem sintetizar informação relevante sobre algumas espécies."

domingo, outubro 17, 2010

Relatórios ou panfletos?

O que tem acontecido desde Julho. Repare-se como os fogos nocturnos se mantêm sempre, sugerindo que não são maioritariamente fogo posto, mas que resultam das condições gerais que dão origem aos fogos diurnos. Nesta próxima semana é natural que se dê um saltinho no número de fogos diários e se isso acontecer, o mesmo se verificará nos fogos nocturnos.

A Autoridade Florestal Nacional publica regularmente uns relatórios de ponto de situação dos fogos.
O último, já incluindo todo Setembro, pode ser lido aqui. Mas não é muito aconselhável para quem procura informação e não propaganda.
Porque a forma como a informação e a comunicação é gerida em matéria de fogos influencia muito as opções políticas (ou eu li mal, ou a Autoridade de Protecção Civil, depois de ter dado um salto dos 30 milhões para 100 milhões nestes últimos cinco anos, ainda vai ter um aumento de orçamento, apesar do aperto generalizado das contas públicas) achei por bem fazer uma leitura mais exigente deste relatório.
"Da análise do histórico (Quadro 1), constata-se que o total de ocorrências contabilizado até 30 de Setembro (20.927) é próximo do valor médio do decénio 2000-2009 (22.474). Apesar disso, o total de área ardida é cerca de 87% da média dos 10 anos anteriores (-18.577ha). A área ardida até à data é inferior em três dos dez anos da última década (2000, 2003 e 2005)."
Este é o último parágrafo do sumário executivo do dito relatório e subentendida fica a ideia de que se trabalhou bem porque houve mais fogos mas a área ardida foi menor. E aliás foi menor que a média dos últimos dez anos. E na última frase, um erro crasso de português, permite supôr que apenas em três dos anos do último decénio a área ardida foi inferior à deste ano.
Com a verdade (em rigor, meia verdade, porque a última frase ou é um erro de português ou é mentira, visto que o que traduziria a realidade era a frase corrigida "A área ardida até à data é inferior à de três dos dez anos da última década (2000, 2003 e 2005)") me tentas enganar tu, dir-se-ia.
O facto de serem mais ou menos fogos interessa muito pouco, porque dos mais de vinte mil fogos registados, apenas 169 (os grandes incêndios) são responsáveis por quase 80% da área ardida. Ou seja, o que seria importante comparar era se o número de grandes fogos aumenta ou diminui e se a área ardida nesses grandes fogos aumenta ou diminui (quer na área média por fogo, quer no peso total da área ardida no ano), o que poderia dar alguma indicação de um dispositivo capaz de responder às condições em que esses fogos, que são os que realmente contam, se desenvolvem.
Mas sobre isso o relatório diz nada.
"Comparativamente com os últimos 11 anos, o valor acumulado do DSR (índice de severidade diário) no ano de 2010 mantém-se superior ao valor registado em 2003 e 2006 e apenas inferior a 2005, conforme se verifica na Figura 2."
Este ano esta frase tem sido um must da propaganda à volta dos fogos. O que do alto de uns índices fantásticos, baseados no índice canadiano (pessoas sérias e sabedoras) e produzido pelo Instituto de Meteorologia (tudo muito científico, claro), nos querem convencer é que este ano foi terrível para os fogos, do ponto de vista meteorológico, mesmo pior que o ano de 2003, em que ardeu quatro vezes mais que o normal.
É uma tentativa pueril de atirar areia para os olhos das pessoas.
Na realidade o ano não foi fácil, mas está longe de ter sido um ano excepcional do ponto de vista do risco de fogo, o vento nunca soprou forte, o número de dias seguidos de vento Leste nunca foi muito grande e as zonas que arderam são zonas muito povoadas, onde há descontinuidade de combustiveis.
Mas o extraordinário é olhar mesmo para o gráfico que publico, onde se comparam os anos desde 2000, incluindo a média (que o relatório faz questão de dizer que é maior que a área ardida este ano, esquecendo-se de explicar que 2003 e 2005 desvalorizam esta média), mas também a mediana (que traduz muito melhor a verdadeira posição do valor da área ardida deste ano, que é superior à mediana, embora com pouco significado) e ainda o objectivo político com base no qual o dinheiro para o dispositivo de combate aos fogos foi muito aumentado.
A área ardida é um mau indicador mas qualquer que seja a perspectiva, a verdade é que o princípio estratégico em que assenta o dispositivo de combate aos fogos (apagar os fogos em fase nascente, pelo que todos os esforços para chegar ao fogo o mais rapidamente possível são justificados) está errado. Esse princípio pressupõe que apagando os fogos no seu início se resolvem grande parte dos problemas. Ora o que esse princípio consegue é resolver os vinte mil fogos que não são um problema e esgotar os recursos sem resolver os 200 que de facto fogem do controlo e dão origem a 80% da área ardida.
Estamos onde estávamos há cinco anos, com a diferença de que gastamos 100 milhões de euros onde gastávamos 30 milhões.
henrique pereira dos santos

sábado, outubro 16, 2010

Fogos e biodiversidade

Dois eventos, mais ou menos filhos da iniciativa Business and Biodiversity e do ano internacional da biodiversidade, tocam o assunto dos fogos e biodiversidade.
Já na quarta feira 27 de Outubro que o assunto é trazido pelas conferências do BES, onde uma especialista em ecologia do fogo, do Kruger Park, fará uma conferência comentada por Francisco Rego.
Depois em 5 de Novembro a Portucel organiza o seu seminário internacional 2010 com o tema "Biodiversidade, um valor com futuro", em que falarei de fogos e biodiversidade.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, outubro 15, 2010

Um exemplo de má gestão em áreas protegidas

Amanhã abre ao Público uma exposição antológica de pintura do meu primo João Queiroz.
Há muitos anos o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros resolveu fazer um extenso programa de investimento na visitação da área, que incluía várias coisas, entre elas um conjunto de leitores de paisagem.
Na altura fui um dos principais responsáveis técnicos pela concepção deste programa, que na sua concepção inicial incluía alguma infra-estruturação, a cedência de gestão de infra-estruturas rentáveis por concurso público e um programa de detecção de potencial que abriria as portas aos potenciais empreendedores candidatos ao concurso de exploração das infra-estruturas de alojamento, procurando responder à descapitalização dos potenciais jovens empresários locais.
A ideia deste programa de detecção de potencial seguia de perto (com adaptações) o programa JEEP (jovens empresários de elevado potencial) uma ideia de Miguel Cadilhe, ao tempo no gabinete de estudos (ou qualquer coisa do género) do Banco Português do Atlântico que pretendia responder à carência de empresários no país após PREC, e no qual eu tinha participado e por isso conhecia bem.
Esta parte do programa foi liminarmente rejeitada (com o argumento peregrino de que poderia ser aproveitado pelos exploradores de pedreiras, como se não fosse melhor ter melhor capacitação dos empresários de pedreiras) e na prática o programa restringiu-se à infra-estruturação paga, em grande parte, com dinheiro comunitário.
Infra-estruturação sem capacitação de gestão tem habitualmente como resultado o mau uso das infra-estruturas e muitas destas infra-estruturas desapareceram, algumas delas sem nunca terem servido sequer o seu objectivo (como por exemplo um famoso secador de plantas, um edifício que nunca secou uma única planta, tanto quanto sei).
Nesse contexto estavam previstos, como disse, vários leitores de paisagens.
Quando se discutiu qual seria a melhor solução para fazer o desenho base de cada ponto de vista, e face à falta de soluções, lá disse que tinha um primo pintor, e que se quisessem dava os contactos para avaliarem se servia, desligando-me do assunto por evidente conflito de interesses.
Era o João um mais que desconhecido pintor em início de carreira, sem trabalho nem mercado por aí além, que aceitou o trabalho por tuta e meia.
Das últimas vezes que passei pela meia dúzia de locais onde deviam estar os leitores de paisagem não me lembro de os ter visto, mas acredito que alguns ainda lá estejam a cumprir a sua função.
Ainda trabalhava eu no PNSAC, há bastantes anos, quando vi tratados a pontapé e em evidente risco de degradação os originais dos desenhos do João, chamando a atenção para o facto do João se ter entretanto tornado num pintor com algum reconhecimento, pelo que talvez fosse prudente guardar esses originais. Em rigor, mesmo que quem tivesse feito os desenhos não tivesse reconhecimento, seria do mais elementar bom senso garantir a conservação de originais de coisas desse tipo, como teria sido avisado guardar adequadamente o riquíssimo acervo documental da então delegação florestal do Gerês, como mais de cem anos de documentação, o que penso que não terá acontecido. Este padrão de desprezo pela documentação e arquivo no ICNB é muito forte.
Hoje o João é um pintor consagrado, cujos originais têm um valor de mercado bastante razoável. Não para o PNSAC, que nunca demonstrou o menor interesse em valorizar o facto de ter leitores de paisagem desenhados por um pintor agora consagrado, nem faz a menor ideia de onde estão os originais, que devem ter ido para o lixo há um bom par de anos.
henrique pereira dos santos

Uma excelente iniciativa

ainda a propósito de alimentação.
henrique pereira dos santos

Lendo um jornal de hoje

O Financial Times de hoje tem um suplemento especial sobre alimentação que vale a pena ser lido numa óptica ambiental.
Num dos artigos mais interessantes fala-se do problema bem sério da ferrugem do trigo, que se pensou um dia que era um problema do passado, mas que desde 1998/ 1999, quando ressurgiu em força no Uganda, se tem vindo a espalhar, temendo-se que entre brevemente nas zonas produtoras da índia e bangladesh e afeganistão, o que poderia provocar milhões de mortes (esta discussão foi tida na lista ambio há algum tempo, incluindo o papel das plantas genéticamente modificadas na eventual defesa em relação a este risco, bem real).
É um exemplo típico das razões pelas quais a política de conservação da biodiversidade deve ser uma política pública já que o mercado lida mal com este tipo de problemas e não tem solução para eles.
Mas como quem lê este blog há mais tempo saberá, um dos meus maiores interesses é a relação entre alimentação e sustentabilidade (e dentro disto a gestão de paisagens a partir da alimentação).
E desse ponto de vista há um artigo muito interessante, que no essencial se baseia neste relatório do WWF, cuja leitura, pelo menos do sumário, merece o esforço.
Claramente uma perspectiva equilibrada dos impactos da alimentação, longe dos maniqueísmos frequentes nos meios veganos que pretendem que tudo se resolve mudando para dietas vegetarianas. O estudo tem análises preocupantes dos efeitos das nossas opções alimentares em países terceiros (no mesmo dossier do financial times refere-se a práctica cada vez mais habitual de garantir a produção de bens alimentares através da compra de terra em países terceiros, por parte das companhias mais ligadas ao negócio).
Um exemplo desses impactos, referido do relatório, é o do consumo de óleo de palma, mas poderia também ser o do consumo de azeite, referido neste estudo, que vários vezes tenho aqui referido em alternativa à manteiga, numa boa demonstração da complexidade da discussão em torno de uma alimentação sustentável.
A sustentabilidade não é um mar de rosas.
henrique pereira dos santos

terça-feira, outubro 12, 2010

Terra alerta III


Mais um programa Terra Alerta (eu apareço por lá fugazmente, no contexto discussão sobre a proposta delirante da LPN em classificar o Sudoeste Alentejano como parque nacional, com argumentos absurdos como sejam os que dizem respeito à maior visibilidade que o estatuto traria à área protegida, argumentos cuja seriedade política e de gestão está ao nível do "vote Tiririca, pior que está não fica").
Não sei que audiências tem o programa, que tem uma estrutura engraçada, tanto quanto percebo, com uma reportagem sobre um problema de actualidade, outra sobre intervenções directas em temas que muitas vezes ligam economia e biodiversidade ou ciência e biodiversidade, e uma terceira sobre uma personalidade ambiental.
Gostaria de saber das audiências porque isso nos ajudaria a perceber se o problema da escassez de informação televisiva em matérias ambientais (e especificamente de biodiversidade) está nos decisores de conteúdos das televisões ou se no público que não quer saber destes assuntos.
henrique pereira dos santos

sábado, outubro 09, 2010

Projectos estruturantes

Miguel Araújo, no contexto das discussões de posts recentes, sobre o ponto em que estamos, responde à minha provocação em que digo que não sei o que são projectos estruturantes: "Um projecto estruturante é um projecto que ajuda a lançar as bases de uma economia. Que cria condições para aumentar a competitividade dos agentes económicos através da criação de infraestruturas que dificilmente seriam pagas por agentes privados.".
Percebo o que o Miguel diz e nem sequer estou assim tão em desacordo.
Mas tenho mesmo muito medo da facilidade com que se afirma (aliás sempre suportados em estudos de custo/ benefício que concluem sistematicamente o que o dono da obra pretende que se conclua) que um projecto é estruturante.
Vou tentar explicar porquê (as minhas desculpas pela extensão do post, agravada pelas imagens).
Ora aqui temos um projecto estruturante em pleno trabalho de parto.



Sobre este projecto já disse aqui o pensava: um forte candidato à decisão mais estúpida de ordenamento do território que conheço.
Este projecto é por si considerado estruturante, mas integrado num outro mais estruturante, o Portugal Logístico, a que felizmente a crise veio pôr alguma contenção que dá mais alguma esperança de travar a destruição do vale do Coronado com outra plataforma logística.

Ora na realidade existem, do Trancão à Castanheira do Ribatejo, milhares de metros quadrados disponiveis, assentes das ruínas da indústria e logística que faliu, e a versão aprovada do Portugal logístico identifica bem essa potencialidade ao localizar ali a plataforma de Lisboa Norte. .



Na verdade o que vamos fazer é manter as ruínas como ruínas, num sub-aproveitamento das capacidades instaladas, para ocupar áreas produtores de bens e serviços transacionáveis (e no caso português, escassos, como são os bens agrícolas competitivos), destruindo património nacional relevante (os solos agrícolas) e aumentando os riscos pela ocupação do leito de cheia.
Razões? O promotor queria ali. Razões? O Estado não tem dinheiro para dizer que ali não pelas razões evidentes, expropriar os locais adequados e estruturar o território. Ou em alternativa, limitar-se a dizer que não e o mercado que empurre os operadores logísticos para as soluções racionais.
Mas o operador é irracional? Não, de maneira nenhuma, comprou terreno agrícola ao preço da chuva (mesmo que seja uma chuva mais grossa face à qualidade do solo e à expectativa) e vai vender ao preço do solo urbanizado, o que corresponde a um poderosíssimo apoio financeiro atribuído pelo Estado através de decisões administrativas irracionais (e injustas para o proprietário original, diga-se de passagem, bem como para os proprietários dos actuais terrenos entre o trancão e Castanheira do Ribatejo que face à oferta da nova plataforma ficam sem procura de justifique a reconversão dos seus terrenos, que continuarão ao abandono).
O projecto contribui para alterar a economia?
Sim, sem dúvida.
Desse ponto de vista é estruturante.
Mas Portugal tem um problema logístico sério e excedentes agrícolas abundantes que justifiquem o esforço do Estado em reforçar a distribuição, diminuindo a capacidade de produção agrícola?
Acho que nem a brincar alguém admite isso. Só mesmo a sério os estudos sobre logística conseguem justificar que a economia portuguesa, em que a distribuição é um dos sectores mais desenvolvidos e modernizados, que na região conta com inúmeras plataformas (desde do Luís Simões, às empresas mais conhecidas da distribuição, aos terminais de contentores, à antiga fábrica da opel na Azambuja, todos estão fortemente na região), porque os palhaços querem-se sisudos para serem eficazes, como a isso estava contratualmente obrigado o Buster Keaton.
Os projectos estruturantes com forte intervenção do Estado, seja por via do dinheiro real investido pelos contribuintes, seja pela venda de licença, como acontece neste caso, têm a estranha mania de serem contaminados por esta irracionalidade de não se perceber bem como há tanta coisa estratégica e afinal, passados anos, nem as moscas mudaram assim tanto.
A tradição vem de longe e continua: Porto de Sines, Ponte Vasco da Gama (que assinala a viragem recente decisiva para chegarmos onde estamos, ao libertar-se das amarras do dinheiro efectivamente existente, ou do crédito que pesa na dívida presente, para usar a dívida das gerações futuras através do complexo processo de project finance que inaugura as parcerias publico privadas), os célebres PIN, o Conrad Hotel, Alqueva, o aeroporto de Beja (uma coisa extraordinária, um aeroporto que se conclui sem que seja possível receber vôos e que suporta uma estrutura de gestão que custa o que custa ao contribuinte) e muitos e muitos outros exemplos, maiores ou menores, de coisas que por serem consideradas estratégicas pelo Estado nos levaram até aqui.
Eu estou farto de projectos estruturantes que querem resolver os problemas das empresas com o dinheiro que os contribuintes entregam ao Estado e ao mesmo tempo, uma chuvita da treta, desestrutura a vida da capital do país porque não parece haver muita gente a preocupar-se com os pequenos problemas do quotidiano comum, como ter as sarjetas limpas e um sistema de escoamento da água da chuva minimamente eficiente (esquecendo o tempo em que Lisboa tinha esgotos, cem anos antes de Londres ou Paris).
henrique pereira dos santos

sexta-feira, outubro 08, 2010

Imbecilidade animalista

Há uns anos denunciei aqui um acto imbecil dos animalistas que libertaram 15.000 visões americanos no norte de Espanha. Semelhante imbecilidade regista-se agora na Irlanda com mais 5000 individuos desta espécie exótica libertados na natureza. Haverá acto mais idiota que os animalistas possam fazer para causar mais dano na biodiversidade?

Nas palavras de Monbiot:
"Had these people tipped a tanker load of bleach into the headwaters of the River Finn, they would have done less damage. The effects would be horrible for a while, but the ecosystem could then begin to recover. The mink, by contrast, will remain at large for years, perhaps millennia. Like many introduced species, American mink can slash their way through the ecosystem, as they have no native predators, and their prey species haven’t evolved to avoid them. Is there anything the animal lovers in Donegal could have done which would have harmed more animals?"

quarta-feira, outubro 06, 2010

A crise e o gasto militar em Portugal

A discussão sobre a dívida e o que fazer suscitou um debate interessante. Este debate surgiu da minha perplexidade pelo montante dos investimentos em submarinos. Basicamente os dois submarinos que vamos pagar custam aproximadamente 2/3 da receita calculada com as medidas extraordinárias anunciadas recentemente pelo governo. Ou seja, grande parte dos sacrifícios que os Portugueses farão durante o ano de 2011 são para pagar estes investimentos em equipamento militar. Não se contabiliza aí a aquisição de "novos" aviões à Holanda (mais 200 milhões de euros) que foram hoje divulgados na imprensa.

Questionar os gastos da defesa nacional é quase um tabu em Portugal. Os comentários que foram feitos aqui e ali deixam antever que existe a percepção de que este é um debate ideológico. Ser de esquerda é ser contra estes gastos e ser de direita é ser a favor. Não podia estar em maior desacordo. Eu considero-me uma pessoa de difícil classificação pois estou no centro do espectro político. Nuns aspectos serei classificável como de esquerda, noutros de direita. Na verdade estas classificações interessam-me pouco pois o mundo de hoje não se compadece com a classificação das pessoas num único eixo de abcissas. O que me interessa é a racionalidade das escolhas. E por isso questiono a opção estratégica deste e de outros governos para situar Portugal à cabeça dos países Europeus em matéria de gasto militar.

Portugal gastou em 2008, 2% do seu produto interno bruto (PIB) em despesas militares. Este valor aumentará no ano em que se pagarem os submarinos. Mas quanto gastam os nossos parceiros Europeus?

Aqui vão os dados retirados da wikipedia: Itália (1.7%); Roménia (1.5%); Dinamarca (1.4%); Alemanha (1.3%), Finlândia (1.3%); Noruega (1.3%); Belgica (1.2%); Espanha (1.2%); Hungria (1.2%); Austria (0.9%); Suiça (0.8%); Luxemburgo (0.7%); Islandia (0.1%).

Gastam mais do que nós, ou o mesmo que nós, a Grécia (3.5%), o Reino Unido (2.5%), a França (2.3%), e a Polónia (2%).

A Grécia pela relação conflituosa que têm com a Turquia (ainda que seja pouco provável que a Turquia ousasse atacar território Europeu, sendo aliás parceira da Grécia na NATO). O Reino Unido e a França pelo importante papel internacional que desempenham, nomeadamente no quadro do Conselho de Segurança da ONU. A Polónia pela idiossincrasia nacional, forjada por invasões recorrentes por parte da Alemanha e Rússia.

A menos que nos queiram convencer que o gasto militar Português se justifica pelo medo da invasão Espanhola (um absurdo nos dias de hoje), não se entende a racionalidade da escolha dos sucessivos governos do bloco central. Não se entende que nos estejamos a hipotecar até às orelhas, ao ponto de comprometermos a sociedade de bem estar que fomos construindo, para manter um nível de gasto militar muito acima da média Europeia (e quase o dobro do gasto Espanhol).

Não entendo que os comentadores e autores deste blogue achem isto normal.

terça-feira, outubro 05, 2010

O dinheiro do público (prioridade e urgência)

O Miguel diz:
"Eu manifesto perplexidade por se deprimir a economia cortando salários, congelando pensões, aumentando impostos, etc, mantendo investimentos, desnecessários, em submarinos" e continua, especificamente para mim: "não percebo a tua complacência com os gastos em submarinos e a tua animosidade a investimentos estruturarais, como é o caso do TGV."
Tudo começou por eu questionar a forma como o Miguel coloca a discussão, exactamente por achar que não se pode discutir alternativamente cortar salários e etc., e pagar ou não um investimento contratado.
Primeiro as questões práticas, depois as de substância.
Que o Estado está falido é uma evidência (e é arrepiante olhar para os compromissos futuros já assumidos e não constam da dívida para já).
Como todos os dias, a todas as horas estamos a consumir 110 quando produzimos 100, naturalmente precisamos que alguém nos empreste dinheiro.
Claro que quem tem dinheiro apenas empresta se tiver ums expectativa razoável de vir a receber o dinheiro mais tarde, sendo que o juro que nos cobra por esse empréstimo está directamente relacionado com o risco que associa à possibilidade de não ser pago.
A situação neste momento é a de uma urgência: temos contas para pagar amanhã e o cofre está vazio. Como continuamos alegremente a gastar 110 e a produzir 100, o emprestador está a cobrar-nos um risco elevado e a diminuir a sua disponibilidade para nos emprestar dinheiro.
Cortar salários, aumentar impostos e etc., tem um efeito recessivo inegável. Com isso diminuímos a nossa capacidade de honrar a dívida. Mas tem como resultado uma diminuição sensível e imediata dos gastos do Estado que, aos olhos de quem nos empresta dinheiro, aumenta a confiança em que venhamos a pagar a dívida.
Imaginemos que em vez de fazer isto, resolvíamos não pagar compromissos jurídicamente claros. Para além de ser duvidoso que não tivessemos de qualquer maneira que pagar, obrigados pelo tribunal, a verdade é que demonstrar que os compromissos titulados internacionalmente (e tanto faz que sejam submarinos ou chupa-chupas) eram letra morta para nós, só faria aumentar a desconfiança, tendo como resultado o fecho da torneira do crédito ou o pagamento de juros exorbitantes (ou um mix das duas coisas). O resultado seria ainda mais desastroso para uma economia completamente viciada no crédito.
Acresce que cortar salários na administração coloca o patamar para a evolução futura mais abaixo, não pagar um submarino tem um efeito pontual nas contas de um ano, mantendo inalteradas todas as condições que nos levam à falência do Estado.
Portanto não se podem discutir as alternativas no termos em que o Miguel as pôs porque uma responde ao problema, a outra não.
Passemos às questões de substância.
O que tenho dito sobre os submarinos (para além da questão prática de ser um compromisso juridicamente forte) é que não sei discutir o assunto porque não sei o suficiente de defesa nacional nem das modernas funções de defesa, nem das modernas possibilidades dos submarinos.
Se, como afirma o Miguel, os submarinos forem inúteis, só tenho de lamentar que vários Governos e vários ministros e vários primeiros-ministros tenham sempre mantido e garantido a sua utilidade e imprescindibilidade.
Vamos então à questão dos investimentos estruturantes.
Quando um Estado tem dinheiro, é livre de fazer opções. Quando está falido, faz as opções que quem tem dinheiro lhe permite. Quando é o Estado português governado por um inimputável, toma decisões absurdas e culpa os outros pelos resultados.
Tomemos um exemplo.
As parcerias publico privado foram criadas para as situações em que as melhorias de eficiência de uma gestão privada de um determinado projecto (por exemplo, a operação de um hospital) eram suficientemente grandes para cobrir os sobrecustos decorrentes do financiamento privado ser mais caro (o risco é maior com os privados que com o Estado) e ter de incluir a remuneração do capital.
O Estado português resolveu inovar, usando as parcerias para criar dívida futura sem aumentar o déficit presente, baseando-se em conceitos de economia voodoo. Estes conceitos postulam que os projectos vão gerar uma economia cujos impostos vão servir para pagar a dívida no futuro. Pura roleta, pura economia de casino, porque se as previsões estiverem mal feitas (e em Portugal têm estado sempre) quem fica com os custos operacionais é o Estado (outra das inovações do Estado português, porque nas parceira público privado o risco fica sempre do lado do concessionário, sendo esse o motor da melhoria da eficiência, mas em Portugal o Estado assume o risco em dezenas de situações).
Uma coisa é fazer um ponte (um dos dois exemplos que George Soros dá hoje no Financial Times a propósito dos Estados Unidos) cujos custos de operação são marginais. Outra coisa é operar comboios, cujos custos operacionais existem sempre e são muito relevantes.
Se o Estado português fizesse a linha e concessionasse a operação com o risco do lado do concessionário, a discussão sobre o TGV prender-se-ia apenas com questões de oportunidade (há ou não dinheiro para isso? Hoje não, mas amanhã haverá. Encantado, faz-se amanhã). Só que não é isso que está em cima da mesa (por isso dei o exemplo de outro projecto estruturante, Alqueva, com problemas semelhantes).
O que está em cima da mesa é não só criar dívida para construir (atirando para as gerações futuras o seu pagamento), como ao contrário do que diz o Rui Tavares no seu texto, não é garantido que haja crescimento futuro porque uma exploração deficitária não só não paga a dívida como a agrava.
Daí que o dinheiro do público deva ser muito parcimoniosamente usado, não para deprimir ou estimular a economia (essa é a função das empresas, não do Estado), mas para criar condições para o desenvolvimento da economia (boa e eficaz justiça, segurança de pessoas e bens, defesa nacional proporcionada, diplomacia eficaz, património colectivo bem gerido,etc.), ou para a resolução dos problemas que o mercado não resolve eficazmente (apoio social aos excluídos, resolução de falhas de mercado e por aí fora).
Projectos estruturantes, Miguel, não sei o que são. Só conheço investimentos com retorno positivo (e não é necessariamente económico ou financeiro, pode ser simplesmente a escolha social, como boas áreas protegidas, por exemplo) e investimento sem retorno (na verdade, desperdício), que para além de ser delapidador da riqueza nacional, ainda cria impactos negativos (muitas vezes ambientais, mas não só), apreciáveis em muitos casos.
Se num momento em que o Estado para resolver uma crise económica quiser investir, sabendo que é a fundo perdido, pois que o faça, mas que o faça em coisas que não obriguem a exploração deficitária, mas que tenham utilidade social. Submarinos não é a coisa mais óbvia para mim (embora não exclua a modernização das forças armadas, prefiro, por exemplo, a compra de terrenos com interesse para a conservação e que não necessitem de gestão activa), mas pior que isso são os projectos deficitários que para cumprirem a sua função social precisam de uma gestão activa e uma operação deficitária.
Olhar para o gráfico do último post e ver o peso que estamos a pôr em cima dos nossos filhos, de forma consciente, devia levar-nos a pensar como é possível que seja essa a opção do Governo.
E há três opções: ou somos governado por um indivíduo completamente irresponsável, incompetente e inconsciente; ou somos governados por um indivíduo absolutamente cínico e aldrabão que não hesita em sacrificar o futuro dos outros ao seu poder imediato; ou somos governados por um alienado que vive numa realidade paralela, com vagas ligações com o mundo das pessoas comuns.
Porque independentemente das opções entre submarinos e tgvs, a verdade é que a compromissos anteriores dificilmente suportáveis se foram somando de forma indecorosa mais e mais compromissos, sem outra base que não a contabilidade criativa, até à situação de depressão económica em que estamos a entrar.
E fomos nós que optámos por isso, não foi uma fatalidade inevitável.
henrique pereira dos santos

Predadores de topo

Retomo as questões associadas aos posts anteriores, tentando clarificar por que razão me parece mais razoável a posição claramente anti-capitalista que as posições de diabolização dos sector financeiro, sem a consequente conclusão anti-capitalista, que só servem para distrair as atenções do que realmente importa, porque é o que podemos influenciar: a responsabilização dos Governos pelas suas opções.
Felizmente, ontem no Público, Rui Tavares deu-me uma ajuda para fazer este post, com um texto que é um bom exemplo do que pretendo contestar.
"isto não teria de tornar-se numa depressão, a não ser pela insistência em fazer a população comum pagar pelos erros dos perdadores no topo da economia".
Num assomo liberal que lhe desconhecia (e de que só encontro eco nos liberais mais radicais) Rui Tavares assume que se deveriam deixar falir os bancos e outros operadores financeiros para evitar que fosse o dinheiro dos contribuintes a pagar os seus erros.
Até aqui não tenho discordância de fundo, isto é, é uma alternativa possível, tenho dúvidas sobre a sua exequibilidade e sobre o que faria sofrer mais as pessoas comuns, mas é uma posição clara e passível de discussão.
Mas como o corolário desta posição está nos antípodas do que defende politicamente Rui Tavares, o artigo continua.
Num golpe de rins, Rui Tavares afirma "depois de terem alavancado os seus castelos no ar, reprovaram a construção de infra-estruturas que dariam emprego agora e crescimento no futuro".
Rui Tavares acha o dinheiro uma coisa imaterial, elástica e um bem público, parece-me a mim. Mas mais, acha que os capitalistas (isto é, os que têm dinheiro), são uns predadores de topo quando o emprestam, mas são umas bestas quando não o emprestam.
Repare-se, quando o crédito excessivo andava por aí, os únicos beneficiários foram os predadores de topo da economia, diz Rui Tavares.
Pelos vistos, aqueles a quem foram feitos os empréstimos não beneficiaram nada com isso, não compraram bens e serviços que pretendiam, não investiram, não nada, o que é estranho porque a bolha imobiliária, decorre exactamente de haver pessoas que compram bens e serviços com dinheiro que lhes foi emprestado sem que houvesse garantias reais equivalentes, para o caso da coisa correr mal, como correu. Ou seja, Rui Tavares defende a velha ideia de que o banco é aquele sítio onde os que não precisam conseguem dinheiro emprestado, achando que o esforço da finança (com forte empenho dos Estados) em emprestar a quem realmente precisava (os que não são capazes de dar garantias) é um crime inqualificável.
Que esta tenha sido a opção também dos Estados para dar casa a quem precisava mas não tinha recursos para isso, em detrimento da velha opção de meados do século XX do Estado gastar directamente o dinheiro dos contribuintes em habitação social (obviamente com prejuízo para outras opções onde gastar o dinheiro existente), parece ser uma coisa em que Rui Tavares não acredita.
Mas a frase que citei pressupõe que Rui Tavares ache que os predadores de topo têm obrigação de emprestar o dinheiro aos Estados para fazer as infra-estruturas que o Estado não tem dinheiro para fazer. Rui Tavares aparentemente não acredita que seja obrigação dos Estados convencer quem tem dinheiro de que no futuro consegue pagar as dívidas contraídas, ou então, em alternativa, que os Estados primeiro arrecadem o dinheiro e depois façam as infra-estruturas sem necessitar de ir pedir batatinhas a predadores de topo.
Veja-se este gráfico que retirei de um artigo de opinião de Miguel Frasquilho e que é semelhante a outros, um dos quais publiquei há tempos mas não encontro agora o post.
A gestão eleitoral do pagamento de rendas pelas parcerias público privadas é muito evidente no OE de 2009, sendo inconcebível como foi possível adoptar parcerias em que o Estado recebeu dinheiro à cabeça (melhorando o défice nesse ano e passando a dívida para o sector financeiro, que lhe permite dizer hoje que a dívida do país é essencialmente privada) que irá pagar com língua de palmo depois das eleições de 2013 (ano em que por acaso as rendas diminuem bruscamente, criando espaço para investimento em ano eleitoral).
Pretender, como faz Rui Tavares, que os malandros são os que não emprestam dinheiro a quem cria artificialmente este cenário, por puro cálculo eleitoral, é branquear um procedimento político que merece sanção.
Mas há outro aspecto da frase de Rui Tavares, que corresponde ao mainstream deste pensamento anticapitalista soft, que vale um comentário: "infra-estruturas que dariam emprego agora e crescimento no futuro".
Pelo que percebo Rui Tavares pretende que eu (e os capitalistas que emprestam dinheiro para fazer obras que os Estados não têm como pagar) acredite que o TGV para Madrid (e não para a Europa, porque a ligação de Espanha com o resto da Europa não está resolvida) tem um movimento anual de 10 milhões de passageiros.
E mais, que ao contrário de Alqueva, onde a água vai ter de ter um preço político, financiado pelos contribuintes, para que os agricultores a usem, o TGV não vai precisar de ser subsidiado, secando a disponibilidade de dinheiro na economia pelo seu uso pelo Estado num processo cujo retorno económico se aproxima muito mais de um jogo de azar (ou uma economia de casino) que qualquer especulação financeira.
Ou seja, para Rui Tavares não existe um problema real de dinheiro, que é acentuado pela despesa do Estado, existem sim predadores de topo que não o querem disponibilizar (aparentemente porque tiveram perdas colossais na recente crise e ficaram mais cautelosos acerca destes amanhãs risonhos e promissores, exactamente a atitude que Rui Tavares, e os anticapitalistas soft, entendem que poderia ter evitado a crise se tivesse sido adoptada anteriormente pelos predadores de topo).
Infelizmente estas sessões lúdicas de construções de mundos alternativos, onde o dinheiro é um bem inesgotável e controlado por Governos que são grandes empresários justos e competentes, têm mais influência do que parece: a quantidade de gente que vocifera contra os predadores de topo em vez de pura e simplesmente votar em conformidade com a responsabilidade dos Governos incumbentes é suficiente para manter no poder quem sempre se caracterizou por predar o Estado a favor dos amigos, usando o crescimento futuro como desculpa para tudo.
henrique pereira dos santos

domingo, outubro 03, 2010

Finanças

O Miguel neste post explicita a sua perplexidade perante o facto de se cortarem ordenados e prestações sociais em vez de pagamentos de submarinos.
A discussão subsequente derivou depois para o mrcado financeiro global, com Lowlander a falar na clássica falácia de distinguir economia real e economia financeira (pressupondo-se que as finanças e o crédito são uma coisa que parasita a economia) e o José M. Sousa a achar que a destruição de valor no mercado financeiro não é bem um problema para os acionistas das empresas financeiras porque "elas resultaram dessa magnifica capacidade de gerar riqueza, que consistiu em fazer dinheiro com dinheiro e que depois deu no estouro, que só podia dar".
Ora olhando para este gráfico (já com mais de um ano, que é uma correcção de outro semelhante indicado pelo José M. Sousa) tem-se a percepção da dimensão da redução do valor de mercado dos activos financeiros.
É evidente que isto representou uma perda brutal para os seus acionistas e é também evidente que isto representa uma retirada de dinheiro a toda a economia, o que tem efeitos recessivos importantes. O que demonstra que a finança não é um parasita da economia real, é economia tão real como a outra.
Não há dinheiro, não há palhaços.
Adenda, correcção do Miguel: A bem do rigor convém corrigir a tua interpretação sobre o meu post. Eu não explicitei perplexidade perante o facto de se cortarem ordenados e prestações sociais em vez de pagamentos de submarinos. Eu manifesto perplexidade por se deprimir a economia cortando salários, congelando pensões, aumentando impostos, etc, mantendo investimentos, desnecessários, em submarinos, que representam uma fatia importante da poupança que se obtém com os apertos acima referidos.
henrique pereira dos santos

sábado, outubro 02, 2010

Construção

De um comentário a este post:Não sei a fonte.

henrique pereira dos santos

ICNB

Muito mais que em relação a outros institutos do Estado, o ICNB é responsabilizado pelas políticas de conservação, com demasiada frequência.
Na realidade este instituto, como os outros, não define políticas, executa-as.
Os seus recursos são os que são postos à sua disposição pelo Orçamento do Estado (ou seja, pelos senhores deputados) e marginalmente pelas suas receitas (a conservação é inerentemente deficitária e tem sido opção de diferentes governos não definir taxas que revertam para o ICNB de forma significativa).
Os seus recursos humanos são os que são postos à sua disposição e a margem de manobra própria do ICNB é muito reduzida na matéria actualmente (houve tempos de vacas gordas em que não foi assim.
Há com certeza responsabilidade do ICNB na gestão destes recursos e na forma como aplica as políticas, mas verdadeiramente cabe à tutela política a primeira e principal responsabilidade sobre o desempenho do ICNB.
Embora eu tenha actualmente relativamente pouco contacto com as pessoas do ICNB (com excepção da minha mulher, mas o ICNB é assunto tabu cá em casa) esta semana por acaso cruzei-me várias vezes com pessoas do ICNB.
E aó agora me apercebi de uma coisa cuja responsabilidade é evidentemente da tutela política e que de todo não compreendo, tanto mais que as políticas de conservação são políticas de conhecimento intensivo: haverá alguma razão pela primeira vez desde que o ICNB existe (que eu saiba) toda a sua cúpula estar ocupada por pessoas que não têm qualquer curriculum ou formação base em conservação?
Bem sei que a gestão de uma organização é um trabalho que exige que se saiba mais de gestão que do assunto em concreto, mas até há pouco tempo havia sempre na presidência do ICNB alguém com claro perfil de conservação, com curriculum e experiência na matéria. Esta solução fazia sentido: é preciso ter algum treino e sensibilidade para pesar os diferentes interesses em presença nas decisões, incluindo a integração adequada dos aspectos da conservação.
Dir-se-á que os serviços e os técnicos farão essa ponderação.
Talvez, mas eu não percebo a vantagem de ninguém da presidência do ICNB perceber nada de conservação ou ter experiência na organização.
É uma opção legítima da tutela política? Sim, é.
A conservação fica a ganhar com isso?
Tenho dúvidas.

Adenda: Depois de escrever este texto achei melhor acrescentar que parte desta situação se deverá provavelmente à dificuldade em recrutar pessoas com curriculum na matéria para lugares na Presidência do ICNB. Que eu saiba, desde quase todos os dirigentes mais visiveis das maiores ONGS, passando por alguns jornalistas que habitualmente escrevem sobre o assunto, até alguns académicos, muitas foram as pessoas que ao longo dos anos foram convidadas a prestar o serviço público de passarem de comentadores de bancada para materialização das suas ideias e críticas. Por muitas e legítimas razões a verdade é que as recusas foram a resposta habitual. Eu compreendo: este serviço público é chato, desgastante, absorvente e com frequência bem mais mal pago que o que as pessoas fazem habitualmente. Mas que pelo menos a alguns ter-lhes-ia ficado bem pegar o toiro pelos cornos, lá isso teria, sobretudo depois de tudo o que dizem sobre a gestão do ICNB.

henrique pereira dos santos

sexta-feira, outubro 01, 2010

Uma discussão que deve ser feita


Via Blasfémias cheguei a este video e à polémica associada.

Não gosto do filme como de maneira geral não gosto da publicidade de choque.

A minha interpretação é a de que o filme é bastante irónico em relação ao movimento ambientalista mais radical, mas seguramente de mau gosto.

Vale a pena discutir os caminhos da comunicação no movimento ambientalista.

Adenda: verifico que o video foi retirado do site da campanha. Aparentemente o bom senso impôs-se.

henrique pereira dos santos