Domingo, Outubro 31, 2010
A parábola da Ribeira da Foz
Sábado, Outubro 30, 2010
Malthus estará outra vez enganado?

fontes: Maddison, Angus (2009) Statistics on World Population, GDP and Per Capita GDP, 1-2006 AD (Last update: March 2009) in www.ggdc.net/maddison/World Bank World Development Indicators, http://data.worldbank.org/
Todo o movimento ambientalista é mais ou menos malthusiano no sentido em que sabendo que existem limites físicos ao crescimento pretender adoptar hoje medidas que seriam sensatas se esses limites fossem já sensiveis.
O erro de Malthus foi supôr que as tendências conhecidas se manteriam no futuro.
Ao olhar para este gráfico que reproduz a taxa de crescimento da população mundial parece fazer sentido perguntar se não estará o movimento ambientalista enganado e daqui a alguns anos o problema não será a escassez de recursos mas a escassez de pessoas que suportem o modelo económico e social que conhecemos.
Eu sei do exagero da pergunta, mas o gráfico...
henrique pereira dos santos
Sexta-feira, Outubro 29, 2010
Da realidade e da autoridade
"Eu não digo isto aos miúdos, mas para mim a floresta portuguesa não tem salvação".
Quinta-feira, Outubro 28, 2010
Parabéns à SPEA
Adenda: gostaria de usar o logotipo da SPEA para ilustrar o post, mas estou proibido, pela SPEA, de o fazer
henrique pereira dos santos
O fundo do Sabor
Terça-feira, Outubro 26, 2010
80 dólares (II)
Domingo, Outubro 24, 2010
O chícharo
imagem roubada daqui, que gosto deste blogSexta-feira, Outubro 22, 2010
Biodiversity4all (VIII)
Quinta-feira, Outubro 21, 2010
Para quem não tem nada para fazer neste fim de semana
Terça-feira, Outubro 19, 2010
Previsões certas e erradas
Segunda-feira, Outubro 18, 2010
Boas notícias (viva a Assírio e Alvim)
Sim, eu sei, deveria dar os parabéns aos autores e dou-os com certeza, mas sem editores a pôr dinheiro nas publicações de biodiversidade não vamos longe.
Por isso, parabéns aos autores, e viva a Assírio.
henrique pereira dos santos
"Aves de Portugal—Ornitologia do território continental pretende constituir-se como uma referência incontornável na ornitologia portuguesa. Este trabalho, que é simultaneamente o mais abrangente e o mais exaustivo alguma vez feito sobre a avifauna de Portugal Continental, é o resultado de décadas de experiência de campo dos autores e de uma pesquisa dirigida demais de 10 anos. Essa pesquisa permitiu recolher informação sobre a ocorrência de mais de 450 espécies de aves. A situação passada e presente de cada uma delas é descrita em pormenor ao longo das 943 páginas que compõem a obra, que é suportada por mais de 1500 referências bibliográficas.O livro contém ainda uma descrição dos principais habitats do país, bem como uma resenha histórica da ornitologia nacional que apresenta grande quantidade de dados inéditos e que constitui a primeira abordagem global a este assunto alguma vez escrita. Disponibiliza também a primeira compilação exaustiva de aves anilhadas recapturadas em Portugal, com um total de mais de 9000 registos.Para ilustrar a obra foram elaboradas 50 ilustrações, na sua maioria inéditas, de grande qualidade estética. Foram incluídas também 154 imagens da autoria de diversos fotógrafos portugueses, tendo ainda sido elaborados vários gráficos que permitem sintetizar informação relevante sobre algumas espécies."
Domingo, Outubro 17, 2010
Relatórios ou panfletos?
O que tem acontecido desde Julho. Repare-se como os fogos nocturnos se mantêm sempre, sugerindo que não são maioritariamente fogo posto, mas que resultam das condições gerais que dão origem aos fogos diurnos. Nesta próxima semana é natural que se dê um saltinho no número de fogos diários e se isso acontecer, o mesmo se verificará nos fogos nocturnos.
Sábado, Outubro 16, 2010
Fogos e biodiversidade
Sexta-feira, Outubro 15, 2010
Um exemplo de má gestão em áreas protegidas
Lendo um jornal de hoje
Terça-feira, Outubro 12, 2010
Terra alerta III
Mais um programa Terra Alerta (eu apareço por lá fugazmente, no contexto discussão sobre a proposta delirante da LPN em classificar o Sudoeste Alentejano como parque nacional, com argumentos absurdos como sejam os que dizem respeito à maior visibilidade que o estatuto traria à área protegida, argumentos cuja seriedade política e de gestão está ao nível do "vote Tiririca, pior que está não fica").
Não sei que audiências tem o programa, que tem uma estrutura engraçada, tanto quanto percebo, com uma reportagem sobre um problema de actualidade, outra sobre intervenções directas em temas que muitas vezes ligam economia e biodiversidade ou ciência e biodiversidade, e uma terceira sobre uma personalidade ambiental.
Gostaria de saber das audiências porque isso nos ajudaria a perceber se o problema da escassez de informação televisiva em matérias ambientais (e especificamente de biodiversidade) está nos decisores de conteúdos das televisões ou se no público que não quer saber destes assuntos.
henrique pereira dos santos
Sábado, Outubro 09, 2010
Projectos estruturantes
Percebo o que o Miguel diz e nem sequer estou assim tão em desacordo.
Mas tenho mesmo muito medo da facilidade com que se afirma (aliás sempre suportados em estudos de custo/ benefício que concluem sistematicamente o que o dono da obra pretende que se conclua) que um projecto é estruturante.
Vou tentar explicar porquê (as minhas desculpas pela extensão do post, agravada pelas imagens).
Ora aqui temos um projecto estruturante em pleno trabalho de parto.
Sobre este projecto já disse aqui o pensava: um forte candidato à decisão mais estúpida de ordenamento do território que conheço.
Este projecto é por si considerado estruturante, mas integrado num outro mais estruturante, o Portugal Logístico, a que felizmente a crise veio pôr alguma contenção que dá mais alguma esperança de travar a destruição do vale do Coronado com outra plataforma logística.
Ora na realidade existem, do Trancão à Castanheira do Ribatejo, milhares de metros quadrados disponiveis, assentes das ruínas da indústria e logística que faliu, e a versão aprovada do Portugal logístico identifica bem essa potencialidade ao localizar ali a plataforma de Lisboa Norte. .
Na verdade o que vamos fazer é manter as ruínas como ruínas, num sub-aproveitamento das capacidades instaladas, para ocupar áreas produtores de bens e serviços transacionáveis (e no caso português, escassos, como são os bens agrícolas competitivos), destruindo património nacional relevante (os solos agrícolas) e aumentando os riscos pela ocupação do leito de cheia.
Razões? O promotor queria ali. Razões? O Estado não tem dinheiro para dizer que ali não pelas razões evidentes, expropriar os locais adequados e estruturar o território. Ou em alternativa, limitar-se a dizer que não e o mercado que empurre os operadores logísticos para as soluções racionais.
Mas o operador é irracional? Não, de maneira nenhuma, comprou terreno agrícola ao preço da chuva (mesmo que seja uma chuva mais grossa face à qualidade do solo e à expectativa) e vai vender ao preço do solo urbanizado, o que corresponde a um poderosíssimo apoio financeiro atribuído pelo Estado através de decisões administrativas irracionais (e injustas para o proprietário original, diga-se de passagem, bem como para os proprietários dos actuais terrenos entre o trancão e Castanheira do Ribatejo que face à oferta da nova plataforma ficam sem procura de justifique a reconversão dos seus terrenos, que continuarão ao abandono).
O projecto contribui para alterar a economia?
Sim, sem dúvida.
Desse ponto de vista é estruturante.
Mas Portugal tem um problema logístico sério e excedentes agrícolas abundantes que justifiquem o esforço do Estado em reforçar a distribuição, diminuindo a capacidade de produção agrícola?
Acho que nem a brincar alguém admite isso. Só mesmo a sério os estudos sobre logística conseguem justificar que a economia portuguesa, em que a distribuição é um dos sectores mais desenvolvidos e modernizados, que na região conta com inúmeras plataformas (desde do Luís Simões, às empresas mais conhecidas da distribuição, aos terminais de contentores, à antiga fábrica da opel na Azambuja, todos estão fortemente na região), porque os palhaços querem-se sisudos para serem eficazes, como a isso estava contratualmente obrigado o Buster Keaton.
Os projectos estruturantes com forte intervenção do Estado, seja por via do dinheiro real investido pelos contribuintes, seja pela venda de licença, como acontece neste caso, têm a estranha mania de serem contaminados por esta irracionalidade de não se perceber bem como há tanta coisa estratégica e afinal, passados anos, nem as moscas mudaram assim tanto.
A tradição vem de longe e continua: Porto de Sines, Ponte Vasco da Gama (que assinala a viragem recente decisiva para chegarmos onde estamos, ao libertar-se das amarras do dinheiro efectivamente existente, ou do crédito que pesa na dívida presente, para usar a dívida das gerações futuras através do complexo processo de project finance que inaugura as parcerias publico privadas), os célebres PIN, o Conrad Hotel, Alqueva, o aeroporto de Beja (uma coisa extraordinária, um aeroporto que se conclui sem que seja possível receber vôos e que suporta uma estrutura de gestão que custa o que custa ao contribuinte) e muitos e muitos outros exemplos, maiores ou menores, de coisas que por serem consideradas estratégicas pelo Estado nos levaram até aqui.
Eu estou farto de projectos estruturantes que querem resolver os problemas das empresas com o dinheiro que os contribuintes entregam ao Estado e ao mesmo tempo, uma chuvita da treta, desestrutura a vida da capital do país porque não parece haver muita gente a preocupar-se com os pequenos problemas do quotidiano comum, como ter as sarjetas limpas e um sistema de escoamento da água da chuva minimamente eficiente (esquecendo o tempo em que Lisboa tinha esgotos, cem anos antes de Londres ou Paris).
henrique pereira dos santos
Sexta-feira, Outubro 08, 2010
Imbecilidade animalista
Nas palavras de Monbiot:
"Had these people tipped a tanker load of bleach into the headwaters of the River Finn, they would have done less damage. The effects would be horrible for a while, but the ecosystem could then begin to recover. The mink, by contrast, will remain at large for years, perhaps millennia. Like many introduced species, American mink can slash their way through the ecosystem, as they have no native predators, and their prey species haven’t evolved to avoid them. Is there anything the animal lovers in Donegal could have done which would have harmed more animals?"
Quarta-feira, Outubro 06, 2010
A crise e o gasto militar em Portugal
Questionar os gastos da defesa nacional é quase um tabu em Portugal. Os comentários que foram feitos aqui e ali deixam antever que existe a percepção de que este é um debate ideológico. Ser de esquerda é ser contra estes gastos e ser de direita é ser a favor. Não podia estar em maior desacordo. Eu considero-me uma pessoa de difícil classificação pois estou no centro do espectro político. Nuns aspectos serei classificável como de esquerda, noutros de direita. Na verdade estas classificações interessam-me pouco pois o mundo de hoje não se compadece com a classificação das pessoas num único eixo de abcissas. O que me interessa é a racionalidade das escolhas. E por isso questiono a opção estratégica deste e de outros governos para situar Portugal à cabeça dos países Europeus em matéria de gasto militar.
Portugal gastou em 2008, 2% do seu produto interno bruto (PIB) em despesas militares. Este valor aumentará no ano em que se pagarem os submarinos. Mas quanto gastam os nossos parceiros Europeus?
Aqui vão os dados retirados da wikipedia: Itália (1.7%); Roménia (1.5%); Dinamarca (1.4%); Alemanha (1.3%), Finlândia (1.3%); Noruega (1.3%); Belgica (1.2%); Espanha (1.2%); Hungria (1.2%); Austria (0.9%); Suiça (0.8%); Luxemburgo (0.7%); Islandia (0.1%).
Gastam mais do que nós, ou o mesmo que nós, a Grécia (3.5%), o Reino Unido (2.5%), a França (2.3%), e a Polónia (2%).
A Grécia pela relação conflituosa que têm com a Turquia (ainda que seja pouco provável que a Turquia ousasse atacar território Europeu, sendo aliás parceira da Grécia na NATO). O Reino Unido e a França pelo importante papel internacional que desempenham, nomeadamente no quadro do Conselho de Segurança da ONU. A Polónia pela idiossincrasia nacional, forjada por invasões recorrentes por parte da Alemanha e Rússia.
A menos que nos queiram convencer que o gasto militar Português se justifica pelo medo da invasão Espanhola (um absurdo nos dias de hoje), não se entende a racionalidade da escolha dos sucessivos governos do bloco central. Não se entende que nos estejamos a hipotecar até às orelhas, ao ponto de comprometermos a sociedade de bem estar que fomos construindo, para manter um nível de gasto militar muito acima da média Europeia (e quase o dobro do gasto Espanhol).
Não entendo que os comentadores e autores deste blogue achem isto normal.
Terça-feira, Outubro 05, 2010
O dinheiro do público (prioridade e urgência)
"Eu manifesto perplexidade por se deprimir a economia cortando salários, congelando pensões, aumentando impostos, etc, mantendo investimentos, desnecessários, em submarinos" e continua, especificamente para mim: "não percebo a tua complacência com os gastos em submarinos e a tua animosidade a investimentos estruturarais, como é o caso do TGV."
Tudo começou por eu questionar a forma como o Miguel coloca a discussão, exactamente por achar que não se pode discutir alternativamente cortar salários e etc., e pagar ou não um investimento contratado.
Primeiro as questões práticas, depois as de substância.
Que o Estado está falido é uma evidência (e é arrepiante olhar para os compromissos futuros já assumidos e não constam da dívida para já).
Como todos os dias, a todas as horas estamos a consumir 110 quando produzimos 100, naturalmente precisamos que alguém nos empreste dinheiro.
Claro que quem tem dinheiro apenas empresta se tiver ums expectativa razoável de vir a receber o dinheiro mais tarde, sendo que o juro que nos cobra por esse empréstimo está directamente relacionado com o risco que associa à possibilidade de não ser pago.
A situação neste momento é a de uma urgência: temos contas para pagar amanhã e o cofre está vazio. Como continuamos alegremente a gastar 110 e a produzir 100, o emprestador está a cobrar-nos um risco elevado e a diminuir a sua disponibilidade para nos emprestar dinheiro.
Cortar salários, aumentar impostos e etc., tem um efeito recessivo inegável. Com isso diminuímos a nossa capacidade de honrar a dívida. Mas tem como resultado uma diminuição sensível e imediata dos gastos do Estado que, aos olhos de quem nos empresta dinheiro, aumenta a confiança em que venhamos a pagar a dívida.
Imaginemos que em vez de fazer isto, resolvíamos não pagar compromissos jurídicamente claros. Para além de ser duvidoso que não tivessemos de qualquer maneira que pagar, obrigados pelo tribunal, a verdade é que demonstrar que os compromissos titulados internacionalmente (e tanto faz que sejam submarinos ou chupa-chupas) eram letra morta para nós, só faria aumentar a desconfiança, tendo como resultado o fecho da torneira do crédito ou o pagamento de juros exorbitantes (ou um mix das duas coisas). O resultado seria ainda mais desastroso para uma economia completamente viciada no crédito.
Acresce que cortar salários na administração coloca o patamar para a evolução futura mais abaixo, não pagar um submarino tem um efeito pontual nas contas de um ano, mantendo inalteradas todas as condições que nos levam à falência do Estado.
Portanto não se podem discutir as alternativas no termos em que o Miguel as pôs porque uma responde ao problema, a outra não.
Passemos às questões de substância.
O que tenho dito sobre os submarinos (para além da questão prática de ser um compromisso juridicamente forte) é que não sei discutir o assunto porque não sei o suficiente de defesa nacional nem das modernas funções de defesa, nem das modernas possibilidades dos submarinos.
Se, como afirma o Miguel, os submarinos forem inúteis, só tenho de lamentar que vários Governos e vários ministros e vários primeiros-ministros tenham sempre mantido e garantido a sua utilidade e imprescindibilidade.
Vamos então à questão dos investimentos estruturantes.
Quando um Estado tem dinheiro, é livre de fazer opções. Quando está falido, faz as opções que quem tem dinheiro lhe permite. Quando é o Estado português governado por um inimputável, toma decisões absurdas e culpa os outros pelos resultados.
Tomemos um exemplo.
As parcerias publico privado foram criadas para as situações em que as melhorias de eficiência de uma gestão privada de um determinado projecto (por exemplo, a operação de um hospital) eram suficientemente grandes para cobrir os sobrecustos decorrentes do financiamento privado ser mais caro (o risco é maior com os privados que com o Estado) e ter de incluir a remuneração do capital.
O Estado português resolveu inovar, usando as parcerias para criar dívida futura sem aumentar o déficit presente, baseando-se em conceitos de economia voodoo. Estes conceitos postulam que os projectos vão gerar uma economia cujos impostos vão servir para pagar a dívida no futuro. Pura roleta, pura economia de casino, porque se as previsões estiverem mal feitas (e em Portugal têm estado sempre) quem fica com os custos operacionais é o Estado (outra das inovações do Estado português, porque nas parceira público privado o risco fica sempre do lado do concessionário, sendo esse o motor da melhoria da eficiência, mas em Portugal o Estado assume o risco em dezenas de situações).
Uma coisa é fazer um ponte (um dos dois exemplos que George Soros dá hoje no Financial Times a propósito dos Estados Unidos) cujos custos de operação são marginais. Outra coisa é operar comboios, cujos custos operacionais existem sempre e são muito relevantes.
Se o Estado português fizesse a linha e concessionasse a operação com o risco do lado do concessionário, a discussão sobre o TGV prender-se-ia apenas com questões de oportunidade (há ou não dinheiro para isso? Hoje não, mas amanhã haverá. Encantado, faz-se amanhã). Só que não é isso que está em cima da mesa (por isso dei o exemplo de outro projecto estruturante, Alqueva, com problemas semelhantes).
O que está em cima da mesa é não só criar dívida para construir (atirando para as gerações futuras o seu pagamento), como ao contrário do que diz o Rui Tavares no seu texto, não é garantido que haja crescimento futuro porque uma exploração deficitária não só não paga a dívida como a agrava.
Daí que o dinheiro do público deva ser muito parcimoniosamente usado, não para deprimir ou estimular a economia (essa é a função das empresas, não do Estado), mas para criar condições para o desenvolvimento da economia (boa e eficaz justiça, segurança de pessoas e bens, defesa nacional proporcionada, diplomacia eficaz, património colectivo bem gerido,etc.), ou para a resolução dos problemas que o mercado não resolve eficazmente (apoio social aos excluídos, resolução de falhas de mercado e por aí fora).
Projectos estruturantes, Miguel, não sei o que são. Só conheço investimentos com retorno positivo (e não é necessariamente económico ou financeiro, pode ser simplesmente a escolha social, como boas áreas protegidas, por exemplo) e investimento sem retorno (na verdade, desperdício), que para além de ser delapidador da riqueza nacional, ainda cria impactos negativos (muitas vezes ambientais, mas não só), apreciáveis em muitos casos.
Se num momento em que o Estado para resolver uma crise económica quiser investir, sabendo que é a fundo perdido, pois que o faça, mas que o faça em coisas que não obriguem a exploração deficitária, mas que tenham utilidade social. Submarinos não é a coisa mais óbvia para mim (embora não exclua a modernização das forças armadas, prefiro, por exemplo, a compra de terrenos com interesse para a conservação e que não necessitem de gestão activa), mas pior que isso são os projectos deficitários que para cumprirem a sua função social precisam de uma gestão activa e uma operação deficitária.
Olhar para o gráfico do último post e ver o peso que estamos a pôr em cima dos nossos filhos, de forma consciente, devia levar-nos a pensar como é possível que seja essa a opção do Governo.
E há três opções: ou somos governado por um indivíduo completamente irresponsável, incompetente e inconsciente; ou somos governados por um indivíduo absolutamente cínico e aldrabão que não hesita em sacrificar o futuro dos outros ao seu poder imediato; ou somos governados por um alienado que vive numa realidade paralela, com vagas ligações com o mundo das pessoas comuns.
Porque independentemente das opções entre submarinos e tgvs, a verdade é que a compromissos anteriores dificilmente suportáveis se foram somando de forma indecorosa mais e mais compromissos, sem outra base que não a contabilidade criativa, até à situação de depressão económica em que estamos a entrar.
E fomos nós que optámos por isso, não foi uma fatalidade inevitável.
henrique pereira dos santos
Predadores de topo
Felizmente, ontem no Público, Rui Tavares deu-me uma ajuda para fazer este post, com um texto que é um bom exemplo do que pretendo contestar.
"isto não teria de tornar-se numa depressão, a não ser pela insistência em fazer a população comum pagar pelos erros dos perdadores no topo da economia".
Num assomo liberal que lhe desconhecia (e de que só encontro eco nos liberais mais radicais) Rui Tavares assume que se deveriam deixar falir os bancos e outros operadores financeiros para evitar que fosse o dinheiro dos contribuintes a pagar os seus erros.
Até aqui não tenho discordância de fundo, isto é, é uma alternativa possível, tenho dúvidas sobre a sua exequibilidade e sobre o que faria sofrer mais as pessoas comuns, mas é uma posição clara e passível de discussão.
Mas como o corolário desta posição está nos antípodas do que defende politicamente Rui Tavares, o artigo continua.
Num golpe de rins, Rui Tavares afirma "depois de terem alavancado os seus castelos no ar, reprovaram a construção de infra-estruturas que dariam emprego agora e crescimento no futuro".
Rui Tavares acha o dinheiro uma coisa imaterial, elástica e um bem público, parece-me a mim. Mas mais, acha que os capitalistas (isto é, os que têm dinheiro), são uns predadores de topo quando o emprestam, mas são umas bestas quando não o emprestam.
Repare-se, quando o crédito excessivo andava por aí, os únicos beneficiários foram os predadores de topo da economia, diz Rui Tavares.
Pelos vistos, aqueles a quem foram feitos os empréstimos não beneficiaram nada com isso, não compraram bens e serviços que pretendiam, não investiram, não nada, o que é estranho porque a bolha imobiliária, decorre exactamente de haver pessoas que compram bens e serviços com dinheiro que lhes foi emprestado sem que houvesse garantias reais equivalentes, para o caso da coisa correr mal, como correu. Ou seja, Rui Tavares defende a velha ideia de que o banco é aquele sítio onde os que não precisam conseguem dinheiro emprestado, achando que o esforço da finança (com forte empenho dos Estados) em emprestar a quem realmente precisava (os que não são capazes de dar garantias) é um crime inqualificável.
Que esta tenha sido a opção também dos Estados para dar casa a quem precisava mas não tinha recursos para isso, em detrimento da velha opção de meados do século XX do Estado gastar directamente o dinheiro dos contribuintes em habitação social (obviamente com prejuízo para outras opções onde gastar o dinheiro existente), parece ser uma coisa em que Rui Tavares não acredita.
Mas a frase que citei pressupõe que Rui Tavares ache que os predadores de topo têm obrigação de emprestar o dinheiro aos Estados para fazer as infra-estruturas que o Estado não tem dinheiro para fazer. Rui Tavares aparentemente não acredita que seja obrigação dos Estados convencer quem tem dinheiro de que no futuro consegue pagar as dívidas contraídas, ou então, em alternativa, que os Estados primeiro arrecadem o dinheiro e depois façam as infra-estruturas sem necessitar de ir pedir batatinhas a predadores de topo.
Veja-se este gráfico que retirei de um artigo de opinião de Miguel Frasquilho e que é semelhante a outros, um dos quais publiquei há tempos mas não encontro agora o post.
A gestão eleitoral do pagamento de rendas pelas parcerias público privadas é muito evidente no OE de 2009, sendo inconcebível como foi possível adoptar parcerias em que o Estado recebeu dinheiro à cabeça (melhorando o défice nesse ano e passando a dívida para o sector financeiro, que lhe permite dizer hoje que a dívida do país é essencialmente privada) que irá pagar com língua de palmo depois das eleições de 2013 (ano em que por acaso as rendas diminuem bruscamente, criando espaço para investimento em ano eleitoral).Pretender, como faz Rui Tavares, que os malandros são os que não emprestam dinheiro a quem cria artificialmente este cenário, por puro cálculo eleitoral, é branquear um procedimento político que merece sanção.
Mas há outro aspecto da frase de Rui Tavares, que corresponde ao mainstream deste pensamento anticapitalista soft, que vale um comentário: "infra-estruturas que dariam emprego agora e crescimento no futuro".
Pelo que percebo Rui Tavares pretende que eu (e os capitalistas que emprestam dinheiro para fazer obras que os Estados não têm como pagar) acredite que o TGV para Madrid (e não para a Europa, porque a ligação de Espanha com o resto da Europa não está resolvida) tem um movimento anual de 10 milhões de passageiros.
E mais, que ao contrário de Alqueva, onde a água vai ter de ter um preço político, financiado pelos contribuintes, para que os agricultores a usem, o TGV não vai precisar de ser subsidiado, secando a disponibilidade de dinheiro na economia pelo seu uso pelo Estado num processo cujo retorno económico se aproxima muito mais de um jogo de azar (ou uma economia de casino) que qualquer especulação financeira.
Ou seja, para Rui Tavares não existe um problema real de dinheiro, que é acentuado pela despesa do Estado, existem sim predadores de topo que não o querem disponibilizar (aparentemente porque tiveram perdas colossais na recente crise e ficaram mais cautelosos acerca destes amanhãs risonhos e promissores, exactamente a atitude que Rui Tavares, e os anticapitalistas soft, entendem que poderia ter evitado a crise se tivesse sido adoptada anteriormente pelos predadores de topo).
Infelizmente estas sessões lúdicas de construções de mundos alternativos, onde o dinheiro é um bem inesgotável e controlado por Governos que são grandes empresários justos e competentes, têm mais influência do que parece: a quantidade de gente que vocifera contra os predadores de topo em vez de pura e simplesmente votar em conformidade com a responsabilidade dos Governos incumbentes é suficiente para manter no poder quem sempre se caracterizou por predar o Estado a favor dos amigos, usando o crescimento futuro como desculpa para tudo.
henrique pereira dos santos
Domingo, Outubro 03, 2010
Finanças
Sábado, Outubro 02, 2010
ICNB
Sexta-feira, Outubro 01, 2010
Uma discussão que deve ser feita
Via Blasfémias cheguei a este video e à polémica associada.
Não gosto do filme como de maneira geral não gosto da publicidade de choque.
A minha interpretação é a de que o filme é bastante irónico em relação ao movimento ambientalista mais radical, mas seguramente de mau gosto.
Vale a pena discutir os caminhos da comunicação no movimento ambientalista.
Adenda: verifico que o video foi retirado do site da campanha. Aparentemente o bom senso impôs-se.
henrique pereira dos santos
Não sei a fonte.


