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quinta-feira, março 24, 2011

Em impressão

"são ideias enraizadas na convicção de que dar de comer a quem tem fome é, ao mesmo tempo, construir paisagens, moldar encostas, conduzir águas, estrumar terras".
henrique pereira dos santos

domingo, dezembro 05, 2010

A resistência dos conservacionistas às boas notícias

A série de posts sobre o lobo resultam em grande medida do facto de eu ter dito que o lobo era uma espécie em expansão no Norte de Portugal e alguém imediatamente ter dito: "e a perda de alcateias no Alvão?".
Independentemente da discussão técnica sobre o assunto, a verdade é que esta é uma atitude muito frequente nos meios da conservação: a valorização do aspecto pontual que assinala a visão negativa da realidade e a desvalorização de tudo que sejam boas notícias.
Os conservacionistas gostam de dramas.
Na primeira metade dos anos oitenta trabalhei em Montezinho (não fui lá fazer uns trabalhos, vivi e trabalhei lá) e o lobo era então uma novidade nas conversas, ali no meio termo entre as velhas histórias com lobos, e as novas ideias de que parece que afinal havia mais do que se pensava.
Logo depois trabalhei na envolvente do Azibo. Aí não vivi lá, trabalhava no Porto, mas como era meu hábito na altura, quando trabalhava para uma área percorria-a a pé durante uns dias, com itinerários mais ou menos definidos mas comendo e dormindo onde calhava, vendo o que calhava e conversando com quem calhava. Estive uma semana inteira por ali, de mochila às costas. De lobos nem sinal nas conversas.
Trabalhei na segunda metade dos anos oitenta no PNPG, que percorri de lés a lés. Lobos? Eram quase só histórias do passado, e muito menos se falava de lobos na serra de Arga (não estou a falar de estudos académicos, que os havia muito pouco, mas do dia a dia das pessoas).
Na primeira metade dos anos noventa trabalhei para o Alvão (dessa vez não vivi lá, fiz algum trabalho para lá) e já se começava a ouvir falar de lobos com maior proximidade geográfica e temporal.
E de lá para cá foi sempre a aumentar. Por isso quando me perguntam por que razão eu digo, sem a menor reserva ou dúvida, que o lobo é uma espécie em expansão em Portugal, eu respondo que porque a razão me diz que o que ouvi nas serras do Norte de Portugal nos últimos vinte a trinta anos não me deixa qualquer dúvida.
Mas há outra razão para eu o dizer. É que esta dinâmica descrita é perfeitamente coerente com as dinâmicas da paisagem e das espécies presa do lobo.
Por volta dos anos 50 dá-se o pico da pressão sobre o território rural em Portugal. Daí para cá o abandono tem sido imenso. Ora o fim dos anos 70 e início dos oitenta coincide provavelmente com o período de maior escassez trófica para os lobos: por um lado a diminuição de rebanhos diminui as presas domésticas (incluindo o que daí resultava de necrofagia), a população de coelho atinge o seu pico mínimo (sim, o coelho, os especialistas que quiserem discutir a provável importância do coelho da dieta do lobo ibérico façam o favor de se chegar à frente) e a recuperação dos sistemas ainda não está suficientemente madura para que o aumento dos ungulados compensem essas duas perdas.
A partir dos anos 80 dá-se a inversão da disponibilidade alimentar, quando o desfasamento entre o abandono e a recuperação dos sistemas fica coberto e as populações de ungulados começam a cobrir as perdas das outras presas do lobo.
Estradas, eólicos, pedreiras, caça?
Quando uma raposa ronda um galinheiro e desaparecem galinhas, para quê procurar outras explicações para o seu desaparecimento?
Dramas de conservação há sim senhor, mas é com os perdedores deste processo, não é com o lobo.
henrique pereira dos santos

domingo, setembro 19, 2010

Curiosidades X

A imagem foi tirada daqui e o sítio vale a visita, mesmo para quem está farto do assuntos das cabras
Para quem prefere falar das dificuldades em ter cabras em vez de as resolver aconselho a leitura desta notícia, com respectivo slideshow e video.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, agosto 25, 2010

150 000 cabras, 48 milhões de euros

O projecto pelos seus promotores (ou pelo relato da sua apresentação que dele faz o jornal Cinco Quinas, porque no site dos promotores há dificuldade em ter acesso a informação mais detalhada, embora no primeiro jornal do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial, a páginas 8 e 9, se faça uma descrição genérica):
"O Director Geral do AECT Duero-Douro, José Luis Pascual Criado, pormenorizou as características do Projecto Self-Prevention. Segundo as suas palavras, além de actuar activamente para a prevenção de incêndios, o Projecto contribui para um modelo de desenvolvimento socioeconómico para todo o território do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial Duero-Douro.
Disse que o investimento em matéria de prevenção é necessário para terminar com o fogo, mas também é necessário o envolvimento dos habitantes. Defendeu o Self-Prevention como projecto social, territorial, para as pessoas que moram nele, gerando um plano de futuro a longo prazo.
...
Está-se a trabalhar no Projecto Self-Prevention a partir da base, ou seja, a prevenção de incêndios.
Este visa reintroduzir 150.000 cabeças de gado para que sejam os próprios animais os "limpadores naturais" dos campos agrícolas abandonados, matos e valetas, deixando livres de vegetação aquelas zonas de potencial perigo de incêndio.
O projecto irá implantar-se num território fronteiriço de Portugal e Espanha, num total de 9 mil Km2, com 125 mil habitantes, e envolverá 187 entidades públicas dos dois países.
Após o investimento inicial, calculado em perto de 49 milhões de euros, estima-se uma rentabilidade anual do projecto de 30 milhões de euros. Com este projecto estima-se a criação de 558 postos de trabalho especializado, até porque está prevista a criação de 12 queijarias, uma central de comercialização, dois matadouros, 15 lojas de venda de produtos, e uma plataforma logística de transporte e distribuição, para além de se acreditar em novas potencialidades turísticas da região.
Para a concretização do projecto espera-se agora a adesão dos agricultores, onde existe a influência deste projecto. Os agricultores que apostarem nesta iniciativa, por cada cabra que coloque no projecto, recebe uma acção, e os proprietários de terrenos recebem três acções por hectare. Os lucros obtidos serão repartidos, depois, pelos titulares de acções no projecto. Para já, do lado português, estão envolvidos os municípios de Vila Nova de Foz Côa, Figueira de Castelo Rodrigo, Almeida e Sabugal, tendo já sido demonstrada também a intenção do município de Manteigas em aderir ao projecto do AECT.
Este projecto estará articulado em torno duma empresa de participação pública e privada que optimizará a sua sustentabilidade económica na produção e comercialização de leite e derivados caprinos.
Por: Cinco Quinas"

Quem lê o que aqui e noutros lados escrevo sabe que eu não poderia deixar de subscrever as intenções deste projecto e ficar satisfeito de ver quase todos os jornais e sites de jornais de hoje a falar positivamente, e não como uma ideia impossível de operacionalizar, de um projecto que pretende ter 150 000 cabras para ajudar à gestão do fogo e à criação de riqueza e emprego no interior rural.
Mas ao mesmo tempo conheço demasiado bem esta lógica de captação de recursos, por entidades públicas que se juntam para fazer entidades privadas que apresentam projectos de candidaturas a ajudas públicas, que incluem muita infra-estruturação (lojas, queijarias, matadouros) e no fim se espera a adesão dos verdadeiros produtores.
Por mim preferia que fizessem um fundo de capital de risco para entrar no capital das empresas dos produtores até elas atingirem a velocidade de cruzeiro, vender a sua participação e partirem para outra.
48 milhões de euros em capital de risco já era relevante.
Assim, fico satisfeito com a difusão da ideia, espero e desejo que resulte, mas como contribuinte tremo só de olhar para a fotografia de topo deste post, que retrata os membros do Agrupamento Europeu de Cooperação Trans-fronteiriça, e pensar que é esta a base de gestão de um projecto de 48 milhões de euros entregues ao Estado por quem produz riqueza.
henrique pereira dos santos

sábado, julho 03, 2010

Ilídio de Araújo

Ilídio de Araújo fez no Porto a apresentaçäo do livro que escrevi, mas fê-lo usando a apresentaçäo para uma coisa rara, como ele próprio diz: falar de das paisagens, näo tanto do livro.
E porque é hoje raro ouvir Ilídio de Araújo falar de paisagens transcrevo partes do que disse. A extensäo do texto näo me permite a cópia integral e corro o risco de fazer batota escolhendo eu o que transcrever.
Mas achei que o que foi dito há semanas no Porto (e que por estes dias chegou ao meu mail) vale os riscos.
"O meu colega Henrique Pereira dos Santos teve a gentileza de, há algumas semanas atrás, me vir entregar um exemplar de um compêndio de meditações suas sobre as paisagens portuguesas, a que deu o título «Do Tempo e da Paisagem». Proporciona-se-me agora uma oportunidade de publicamente dar conta da meditação que a sua leitura me suscitou, e a que poderia dar quase o mesmo título: «Da Paisagem e do Tempo Actual»
...
Naquele tempo eu andava pelas nossas paisagens à procura de problemas; hoje fujo deles como de perturbadores pesadelos ... só ... me fez quebrar o voto de não mais falar publicamente de «paisagens» num país cujos governantes confundem econometristas com economistas, desenhadores com urbanistas, idiotas com doutores. E para quem os problemas das paisagens são problemas de lana caprina que nada têm a ver com a produtividade final do nosso trabalho colectivo.
...
a gestão das paisagens exige de quem tenha de a fazer um conhecimento muito abrangente do funcionamento e exigências dos múltiplos sistemas que as integram ou devam integrar, e do modo de os harmonizar para evitar imcompatibilidades, deseconomias e desequilibrios que possam tornar-se catastróficos por empolarem exageradamente os custos de produção, e assim comprometerem a produtividade do nosso trabalho colectivo.
...
Porque a gestão qualificada das paisagens tem de se alicerçar forçosa e basilarmente no respeito pelas exigências do funcionamento economicamente viável nos sistemas bióticos de fixação da energia solar (nas explorações agrícolas, florestais e nos sistemas hídricos).
...
A maior parte dos nossos responsaveis políticos quando ouve falar de paisagens continua a focar a sua atenção apenas em aspectos pseudo-estéticos, porque, esquecendo completamente as funções essenciais das paisagens humanizadas, permanecem insensíveis às desastrosas consequências económicas do desordenamento paisagístico
...
o progresso técnico, a explosão demográfica, o progresso humano e social, e a globalização mundial da economia, fizeram recair sobre a Administração Pública um volume imenso de tarefas de previsão e de coordenação, que eram imprevisíveis há 60 anos – quando a ambição máxima de desenvolvimento que se propunha para cada português não passava de uma cabana, uma horta e sete palmos de terra no cemitério paroquial (emprestados por quatro ou cinco anos). Hoje qualquer idiota doutorado em contas de mercearia e mestre escola incapaz de escrever uma postal sem dar uma dúzia de facadas na ortografia da sua própria língua reclama do Estado o direito adquirido a uma infinidade de serviços mais ou menos gratuitos, e de um menu de mordomias e privilégios, acrescentado com vencimentos mensais de milhões de euros.
...
Mas foi precisamente, quando começaram a crescer exponencialmente as responsabilidades políticas no domínio da gestão do território, e que a acção política mais exigia a presença de uma rectaguarda técnica à altura da complexidade dos problemas, que um governo de pessoas irresponsáveis resolveu desmantelar os gabinetes de estudo e planeamento (sectoriais e de coordenação) que já tinham acumulado os saberes e a experiência indispensáveis à fundamentação da actuação governativa e, quebrando a tradição de os postos de chefia na Administração Pública serem ocupados por funcionários que ao longo das suas laboriosas carreiras se tivessem revelado os mais capazes de garantirem a melhor gestão e evolução dos serviços públicos, promoveu a ocupação dos postos de chefia no aparelho do Estado por indivíduos cuja única recomendação para o lugar era a cumplicidade partidária com os governantes. Desse modo o aparelho do Estado entrou em rápida degradação, muitos lugares de chefia dos Serviços públicos foram invadidos por uma vaga de idiotas e oportunistas sem preparação para o desempenho das funções que o posto requeria. e os governamtes passaram a governar apoiados numa rectaguarda de pessoas tecnicamente irresponsáveis, mas que rapidamente se convenciam de terem recebido do Espirito Santo, no acto da investidura, todas as competências exigidas pelo desempenho das funções inerentes ao lugar que lhes foi confiado.
...
Naturalmente é a parte mais vulnerável da nossa população que já está e vai continuar a pagar durante as próximas décadas o preço de se deixar governar durante os últimos 25 anos por primeiros-ministros tão pretenciosos e arrogantes nas suas propostas, como inconscientes das suas limitações e impreparados para as responsabilidades da governação.
...
A optimização da produtividade do trabalho e dos investimentos tem de ser o objectivo essencial das políticas de ordenamento das paisagens, e impressiona-me ouvir constantemente apontar a baixa produtividade do nosso trabalho como a nossa maior pecha económica, ao mesmo tempo que vai passando década sobre década, sem que os responsáveis pela nossa Economia se apercebam de que o principal factor responsável pela baixa produtividade social do trabalho do povo português (dentro do seu país) é precisamente o inqualificável desordenamento das nossas paisagens humanizadas, geridas por idiotas em obediência a planos idiotamente elaborados.
...
E depois de vários partidos políticos terem aproveitado a sua passagem pelo governo para instalarem no aparelho do Estado as suas clientelas, assistimos agora ao espectáculo revoltante de governantes oriundos de partidos que andaram as esbanjar os recursos postos á sua disposição para racionalizarem os sistemas produtivos do país, andarem a esmifrar o povo laborioso, não para endireitarem as finanças do País, mas para continuarem a sustentar os privilégios das quadrilhas mais ou menos parasitárias que incrustaram no aparelho de Estado para lhes garantir alguma esperança de reeleição, face ao número crescente dos que, não se revendo em nenhum dos actuais partidos políticos, são ainda frequentemente assaltados pela suspeita de que alguns destes estejam a transformar-se em autênticas organizações mafiosas.
...
A maior parte dos portugueses continua a pensar que, como há 100 anos, qualquer espertalhaço de olho vivo é capaz de conduzir a nau do Estado a porto seguro, e têm tendência para confiarem mais no vendedor de banha-de-cobra que em troca de voto lhes promete uma cautela do Euro-.milhões, do que em quem lhes diz que se quizerem uma velhice tranquila têm de se sujeitar a uma vida ordeira e laboriosa, e olho atento aos vigaristas que o cercam .
Concluo que no âmago do nosso drama actual está o problema da gestão racional e ordenada das nossas paisagesns, que, tanto quanto me é dado apreciar, continua a ser orientada por idotas irresponsáveis."
henrique pereira dos santos, citando Ilídio de Araújo

segunda-feira, abril 26, 2010

Paraíso


O jardim é uma representação do paraíso, um esforço de ordem e equilíbrio resgatado ao caos da mata, do desconhecido e do não humano, mantido pelo esforço constante de domesticação dos elementos naturais que demonstram o triunfo da razão do homem sobre a irracionalidade aparente da natureza.
Por isso é tão difícil conciliar biodiversidade e jardins.
Mas ainda assim tenho dúvidas de que as árvores do paraíso se pareçam com o que aqui se vê.
henrique pereira dos santos

sábado, abril 03, 2010

Pura propaganda

No dia 15 de Abril estarei em Vila Real a acompanhar a apresentação deste livro que será feita por João Bento (na Universidade, auditório de geociências às 4 da tarde), e no dia 30 de Abril estarei a fazer o mesmo na feira do livro de Lisboa às seis e meia, onde Humberto Rosa fará a sua apresentação. Na feira do livro da Lousã ainda está em aberto.
É um livro pequeno, de divulgação, sobre paisagens (embora não tenha um único boneco, para além da belíssima aguarela do Nuno Mendoça na capa).
Está já nas livrarias (eu ainda não o vi fisicamente em nenhuma, mas a minha amostra é pequena e pode sempre pedir-se que encomendem) ou pode ser comprado aqui, na livraria on-line da Principia.
Depois deste anúncio comercial, a programação do blog segue com normalidade dentro de momentos.
henrique pereira dos santos

terça-feira, março 09, 2010

Curiosidades IV

No fim do século XIX era assim representada a importância relativa dos animais por distrito. Como o que está representado é o valor e não o número de cabeças de gado, é sem surpresa que as vacas ocupam o primeiro lugar em todo o lado. Também sem surpresa, mas muito datado, os cavalos estão em segundo em Santarém e Lisboa e em terceiro em muitos outros lados, de maneira geral os distritos mais ricos. Os burros e as mulas seguem atrás (num ou noutro distrito, mesmo à frente) dos cavalos, como é normal. Hoje seria quase residual a sua presença num mapa deste tipo. Os porcos estão em segundo quase em todo o lado, com excepção Bragança, Guarda e Faro e daqueles em que os cavalos estão em segundo. As ovelhas são sobretudo importantes nas zonas mais interiores.
Note-se no entanto a discrepância entre o valor do gado e o seu papel modelador da paisagem.
De qualquer maneira é o retrato de um mundo que deixou de existir há muito.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Chapelada por um encontro fortuito


"Embora não o tenha confirmado pessoalmente, sempre ouvi dizer que Álvaro Dentinho, um dos mais criativos arquitectos paisagistas das primeiras gerações, se insurgia de vez em quando contra a proibição de urbanizar Monsanto."
Começa assim o capítulo que escrevi sobre as cidades e paisagem.
Na realidade este parágrafo está desactualizado quando o publicar.
Ontem cruzei-me com Álvaro Dentinho na rua e resolvi esclarecer a dúvida confirmando que de facto na sua opinião a não urbanização de Monsanto foi um erro.
Nunca trabalhei com Álvaro Dentinho (penso mesmo que seria impossível) e cruzei-me com ele várias vezes mas quase sempre em contactos relativamente curtos (por vezes, como é costume com Álvaro Dentinho, com algum tumulto).
Gosto especialmente de contar a história de uma caminhada da Gulbenkian para sua casa, meio à procura de um táxi, meio deixando correr a conversa, que nos levou à porta do Corte Inglés. Notando o cansaço de Álvaro Dentinho propus-lhe atalhar caminho pelo Corte Inglés, subindo dois lances pelas escadas rolantes para seguirmos pelo cimo do Parque Eduardo VII, vencendo com pouco esforço a diferença de cotas. Como se lhe tivesse picado um lacrau, respondeu-me bruscamente que se recusava terminantemente a entrar numa feitoria espanhola. Diplomaticamente, e ajudado com certeza pelos espíritos que velam por pessoas como Álvaro Dentinho, respondi-lhe mansamente que percebia o seu ponto de vista, que no entanto só era válido se fóssemos dar dinheiro aos espanhóis e o que íamos fazer era gastar-lhes o dinheiro usando as suas escadas rolantes sem pagar nada. Sorriu, evidentemente cansado, e lá respondeu que vistas as coisas assim....
Percebo que o meu fascínio pela genialidade deste homem não seja partilhado por muita gente.
Ainda ontem quando me perguntou o que estava eu a fazer e lhe respondi que trabalhava na gestão da biodiversidade e na conservação da natureza, matéria que sabia que ele não apreciava por aí além, respondeu primeiro hesitante que não era bem assim, mas rapidamente disse assertivamente: "claro que sou um inimigo da natureza, evidentemente".
Penso que é aqui que nasce o meu fascínio, na sua capacidade de dizer coisas certas procurando a forma de as fazer parecer erradas, para obrigar o interlocutor a pôr o cérebro a trabalhar.
A fotografia de cima é de Miguel Silveira Ramos, faz parte da galeria da biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian e mostra num simples muro a capacidade criativa de Álvaro Dentinho, na forma como remata o encontro dos espaços exteriores com o passeio, a mesma capacidade criativa que o levou a criar os quadrados do pavimento do Tribunal de Rio Maior que são o modelo que Viana Barreto e Ribeiro Telles vão depois usar no seu jardim da Gulbenkian (O jardim de Rio Maior, de Álvaro Dentinho e Marques Moreira, se não me engano, foi estupidamente mutilados há pouco tempo, estou convencido de que sem que as pessoas que sobre isso decidiram tivessem consciência da opção cultural que fizeram ao substituir uma legítima obra de um mestre por um quadro de fancaria comprado na feira do relógio, de onde aliás se pode facilmente ir apreciar in loco o muro, e o conjunto a que está associado, fotografado lá em cima).

henrique pereira dos santos

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Até pode ser que seja verdade...


"Manter-nos vivos, modelar a paisagem, produzir mais, circular, tudo isso são actividades consumidoras de energia, quer no momento inicial em que abrimos uma clareira, uma estrada ou construímos mais uma casa, quer depois, para usar e manter em bom estado o que tende sempre para a ruína e o desaparecimento.
O que distingue a “mão invisível” que conduzia a intervenção tradicional no território da “mão invisível” que conduz a intervenção moderna é a imperfeição da integração do custo energético resultante da actual energia a pataco.
...
Pode parecer estranha a referência a energia a pataco num tempo em que se fala de energia cara, mas essa estranheza apenas resulta do que se usa como referência base. Os preços da energia actual, mesmo com as suas grandes oscilações, são ainda incomparavelmente mais baixos que no tempo em que 30 000 homens abriam em onze anos um canal de drenagem na Roma imperial."
henrique pereira dos santos

quarta-feira, janeiro 13, 2010

granito



Há uns dias atrás fui dar uma volta pela Serra da Estrela. Aproveitei para visitar a vertente sul do serra, área que desconhecia totalmente. A paisagem, da serrania nevada, é fantástica. Respira-se ar puro e agradáveis aromas silvestres. Um pouco por todo o lado nascentes e fios de água formados pela neve que o sol de inverno tranquilamente derrete, interrompe o silêncio da montanha. A espaços, um pastor pastava as suas cabras com a ajuda dos cães. Mais frequentes são as velhas casas e currais de granito que foram sendo abandonadas. Mais ou menos degradadas, quase todas vandalizadas.

Recordo-me de uma particularmente bela, que deverá ter sido casa de férias de alguma família mais abastada, lá para as bandas da Loriga. É casario de dois pisos, todo em granito, com janelas de madeira pintadas de azul, e que vive em perfeita harmonia na encosta de um grande vale, junto a um pequeno ribeiro que corre abundantemente, ensombrado por alguns carvalhos e outras árvores. Como todas as outras casas, abandonado e vandalizado.



Nos povoados abundam casas e até prédios que parecem ter brotado em terra sem lei, feita ao gosto dos seus donos, engenheiros e arquitectos, sem ponta de respeito pela traça local. Cores chocantes do amarelo-canário ao azul, fachadas em azulejo ordinário, telhados com inclinações e de materiais diversos. Gradeamentos, sebes e muros que contornam vivendas para todos os gostos. Na verdade, de tão abundantes, fazem com que nos perguntemos qual seria a traça local ou se haveria alguma.

Entre outras, haverão seguramente razões económicas, urbanísticas, de ocupação do território e sócio-culturais que expliquem a lógica disto tudo. Na verdade, não percebo nada de casas, de materiais de construção, muito menos de arquitectura. Não percebo nada de um mundo de coisas. Mas não gosto do que vejo.  

Gonçalo Rosa

sábado, junho 20, 2009

Prémio Quercus 2009



Justo, muito justo, para um homem tão fundamental para o ordenamento do território em Portugal como discreto, de tal maneira que não arranjei melhor imagem que a de cima para ilustrar o post.
Usem o link abaixo para o reconhecer e lhe agradecer o que fez pelo país quando se cruzarem com ele na rua:


henrique pereira dos santos

sábado, maio 16, 2009

Biodiversidade urbana

Por uma destas coincidências improváveis, quando acabei de apresentar uma proposta de trabalho sobre biodiversidade urbana, eis que ao atravessar a rua me deparo com esta imagem, já depois de ver os carros parar para os deixar passar na passadeira (embora com sinal encarnado para os peões.
Intrigado segui os patos.
A determinação de chegar ao destinho pré-estabelecido pareceu-me inquestionável: sabiam com certeza daquelas amoreiras usadas como árvore de arruamento no centro de Lisboa.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, maio 14, 2009

Uma relação difícil com o espaço público...

... e em especial com os jardins e com os peões.

A placa que ali se vê pede que circulemos pelo outro passeio.

O curioso é que como se vê este passeio tinha espaço para ser deixada uma linha de circulação junto ao jardim. Para além disso não há como atravessar para o outro lado de uma rua bastante movimentada, por falta de passadeira. E, como se não chegasse, há um acesso simpático ao anfiteatro da esquerda que permite contornar a obra, pelo jardim, sem passar para o outro passeio e não fazendo um percurso maior.
E é isto a Câmara Municipal da capital do país.
Já o disse noutro post, votarei em quem em prometer que só faz pequenas acções para ajudar a resolver o quotidiano das pessoas, quem me prometer requalificar a frente ribeirinha, ou resolver o trânsito de Lisboa através de obras estruturantes, ou criar uma nova centralidade disto ou daquilo, garantidamente não tem o meu voto.

henrique pereira dos santos

terça-feira, maio 12, 2009

O terreiro do paço


Leio no Público de hoje:

"Especialista em questões da Baixa, Walter Rossa dá mesmo os parabéns aos seus autores, por terem conseguido "respeitar a solenidade e o silêncio do espaço". Tal como João Rodeia, também Walter Rossa temia o surgimento de árvores, banquinhos ou outro mobiliário urbano que de alguma forma apoucasse o sítio. "Qualquer intervenção deve respeitar a escala do local", e não tentar transformá-la, diz o arquitecto."

Curvo-me perante a sapiência dos eminentes especialistas e desde já declaro a minha ignorância, que é tão funda e tão grande que nem consigo perceber o que é um especialista em questões da Baixa.

Mas o silêncio do espaço? Mas respeitar a escala do local e não alterá-la?
O silêncio do local?
De que silêncio se fala aqui?
Do inerente ao Porto de Lisboa que tinha à ilharga o arsenal da construção de navios?
Dos autos de fé da inquisição?
Dos cortejos nupciais de reis e rainhas?
Da principal praça de comércio do maior porto do mundo?

Dos desembarques cerimoniais?

Mas se o Terreiro do Paço está bem para quê intervir? Se não é para o alterar, para quê gastar dinheiro?
Tudo se alterou, o centro do governo, o império, o porto, o comércio, a posição de Portugal, Lisboa e as pessoas que aqui vivem, mas quando tudo mudou o que é fundamental é manter o que perdeu sentido, isto é, a função cerimonial?
Não é espaço e nobreza a mais para tão pouco retorno para a cidade?

Deixem-me apresentar-lhes a Place des Vosges, de lindíssimo enquadramento formal edificado.
Que burros os parisienses, em vez de contratar um arquitecto, desses que respeitam o rigor formal do mundo, que mandasse limpar tudo para deixar ver bem os edifícios, respeitar o silêncio hierático dos edifícios, respeitar a escala real da praça, os estúpidos, limitam-se à pequenez ignorante de a usar.
E eu, cuja ignorância sobre o assunto é tão grande como o Terreiro do Paço, olho embasbacado a discussão sobre pavimentos e a fina inteligência de decidir sobre a mais nobre das praças de Lisboa sem perguntar, sem discutir e sem ouvir os lisboetas.
Que evidentemente preferem ir para a praia a esturricar no meio do Terreiro do Paço, bêbados de silêncio e respeito pela escala.


Ah, fadista!
henrique pereira dos santos
PS E que tal uma acção popular a propor um referendozito para se fazer um concurso público, que escolha uma solução formal, depois da discussão pública para definir o programa?