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quinta-feira, abril 21, 2011

Pé n'A Terra III


Entramos hoje na fase mais intensa da iniciativa Pé n'a Terra, uma iniciativa para celebrar o dia da terra (22 de Abril) passeando e registando biodiversidade.

No calendário das actividades estão agora quase sessenta actividades à disposição de qualquer pessoa, incluindo actividades em Lisboa e Porto.

Sim, a chuva pode ter levado algumas pessoas a achar que as condições não são óptimas, mas a biodiversidade é assim, diversa, e por isso há mesmo grupos que beneficiam com estas condições (que o diga o projecto charcos com vida que organiza a partir de hoje quase uma dezena de visitas em diferentes localizações até Domingo. Podem mesmo aproveitar para ir renovado Jardim Botânico do Porto, o jardim da casa de infância de Sofia de Mello Breyner, hoje às 15).

Para o primeiro ano da iniciativa é muito animador. O tráfego no site está a aumentar e estamos quase nas 40 mil observações, o que torna credível o meio milhão de observações nos primeiros dez anos. Suspeito que com tudo o que é preciso ainda melhorar (a lógica de acesso é a do observador e do registo, e é ainda muito pouco intuitivo o acesso na óptica do utilizador dos dados, por exemplo) é bem possível que estejamos a caminhar no sentido de ter informação de biodiversidade com verdadeiro interesse, com verdadeira amplitude de grupos e verdadeiramente acessível no prazo de alguns, poucos, anos.

Não serve, nem nunca servirá, para a produção de informação que exija métodos de observação e protocolos de registo mais sofisticados, mas serve muito bem como informação complementar para muitos e muitos fins, desde os mais científicos aos mais turísticos.

Acho que vou propor que se avalie a possibilidade de repetir a iniciativa num espaço de tempo mais curto do que pensava e concretizar uma ideia antiga: casar finalmente a tradição sulista e muito popular da quinta feira da espiga com as modernas ideias da conservação da natureza democrática.

henrique pereira dos santos

sexta-feira, dezembro 31, 2010

Café S. Lourenço

O café S. Lourenço permite aos seus clientes de repente serem transportados ao tempo do Estado Novo. É um café de beira de estrada numa pequena vila (ou grande aldeia) burguesa dessa época, com as suas madeiras, as suas mesas redondas e por aí fora.
Mas ao contrário de muitos outros cafés deste tipo que se encontram pelo país, não se sente decadência, mas antes uma atitude claramente indiferente a algumas modas, mas atenta aos clientes.
Foi aí que vi manteiga de ovelha à venda. 4 euros um pacote de 125 gramas, ou seja, 32 euros o quilo (no supermercado a manteiga de boa qualidade, industrial e de vaca, anda por pouco menos que 4 euros o quilo).
Perguntei se se vendia bem, numa região onde o leite de ovelha é altamente valorizado na produção de queijo.
Sim, sem qualquer dúvida foi a resposta.
É nessas alturas que tenho a sensação de que avaliar o futuro de alguns sectores pelo seu desempenho no passado pode ser um enorme equívoco.
E lembro-me então da música de campanha de Bill Clinton (mesmo que me custe pôr aqui esta musiquinha em detrimento do fabuloso Sara).

henrique pereira dos santos

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Protecção a mais

Imagem retirada daqui, onde se defende exactamente o contrário do que se defende neste post
Lá vem a história do abate de sobreiros e das compensações associadas.
Esta história das compensações associadas a abates de sobreiros e azinheiras "é um vôo cego a nada".
Quer o sobreiro quer a azinheira estão em rápida expansão. Não estará o montado, que exige gestão e manutenção, mas está com certeza o azinhal e o sobreiral, com a regeneração aos molhos que por aí anda.
É por isso absurda a protecção às árvores em vez da protecção ao que corre alguns riscos: o montado.
O tempo e os recursos gastos nestas tretas, porque é de tretas que se trata, de contar sobreiros abatidos, fazer plantações noutro lado para compensar (sem que ninguém verifique o que lá está cinco anos depois), parar investimentos por causa de sobreiros e azinheiras é pura e simplesmente uma perda de recursos para o país, sem benefícios visiveis para o que se pretende proteger.
Fora o que isto implica de distorção de prioridades, como se pode ver neste parecer da QUERCUS sobre o novo aeroporto de Lisboa, em que se diz: "Ao ser deslocada a área de implantação do NAL para Noroeste, será afectada uma maior área de montado, que agora totaliza 1278 ha. A localização anterior do NAL permitia poupar uma área significativa de montado e de povoamento de sobreiros, uma vez que a zona Sul é constituída maioritariamente por eucaliptal e por áreas agrícolas." (sublinhado meu).
Há a possibilidade destas áreas agrícolas estarem implantadas em solos de pouca aptidão, mas há uma fortíssima probabilidade destas áreas agrícolas serem os melhores solos que por ali estão. O que este parágrafo quer dizer é que a QUERCUS está mais preocupada com destruição que o aeroporto causa em 1287 hectares de sobreiro (dos mais de 700 000 que o país tem, isto é, menos de 0,2% do total) que com a destruição de solo agrícola, muito mais estratégico para o País.
Confesso, estou um bocado farto da irracionalidade da legislação de protecção do sobreiro e da azinheira.
Proteger, de acordo, mas sensatamente e distinguindo bem o que é de proteger e como, do que pura e simplesmente é excesso de zelo.
henrique pereira dos santos

domingo, outubro 24, 2010

O chícharo

imagem roubada daqui, que gosto deste blog
Chícharo, tanto pode ser o feijão frade, mais para norte, como uma coisa entre o tremoço e o grão, nos calcáreos do Centro.
Era uma cultura pobre, usada na rotação pobre da produção de cereais de Inverno. Essencialmente nas terras de milho de sequeiro (ou trigo, nas terras mais pesadas e barrentas) a leguminosa mais usada era a fava, e na produção de centeio e cevada, nas terras pobres, usava-se o chícharo e o tremoço. Enfim, a coisa não era assim tão simples mas para o que aqui quero serve.
Esta cultura esteve quase morta.
Aos poucos, algumas câmaras da zona, com destaque para Alvaiázere, e alguns grupos de pessoas (o rancho folclórico de Chãos e a sua cooperativa Terra Chã, por exemplo), retomaram o interesse pelo produto e hoje aparentemente está em expansão e é razoavelmente caro (como digo, era uma cultura complementar da rotação pobre, portanto mais que marginal na criação de valor da zona, sendo que a criação de valor se fazia mais pela fixação de azoto para o cereal, que propriamente pelo produto que se colhia).
Os restaurantes da região já quase todos têm uns pratos de chícharo, e é omnipresente no trabalho que tenho estado a desenvolver com as terras de sicó, baseado num dos capítulos do livro que escrevi, o da alimentação e paisagem. Neste trabalho, para além do Luís Jordão, tem sido fundamental o Chef António Alexandre, com quem temos feito umas acções de formação para os restaurantes da zona, procurando por um lado fomentar o uso de produtos locais, por outro chamar a atenção para a sua relação com a gestão da paisagem.
A recuperação do chícharo é um bom exemplo do que se pode fazer (e das dificuldades) na conservação da biodiversidade agrícola e da outra que lhe está associada.
Mas se o trabalho com produtos se vai fazendo, mais difícil tem sido ligar o produto à cadeia de produção.
Parte dessa dificuldade está claramente identificada: a paranóia higienista que impede um restaurante de fechar ciclos de uma forma eficiente.
Por exemplo, aproveitar os restos para cevar um porco, ainda se conseguiria em algumas circunstâncias (embora fosse difícil ter o porco na proximidade da maioria dos restaurantes, introduzindo ineficiência da produção). Mas depois, matar o bicho já não se pode, já teria de ir para o matadouro. E depois guardar um caneiro de banha menos ainda (embora se possa ter um balde de plástico com banha industrial, que não vale um caracol). Bem se queixam os formandos que por mais de usem o sangue que compram no talho, não conseguem fazer uma cabidela de jeito. E não têm alternativa porque não os deixam matar umas galinhas.
Na realidade há razões para a mão pesada dos organismos de velam pela higiene dos restaurantes (neste momento sobretudo a ASAE).
Mas o Estado português adoptou o seu modelo clássico de actuação: em vez de confiar nas pessoas e ter mão pesadíssima para quem não cumpra normas estabelecidas quanto aos produtos finais, optou por uma regulamentação preventiva excessiva.
No fundo, em vez de encerrar o negócio a quem tenha produtos estragados, passou a exigir o controlo de todo o processo de produção, o que, por exemplo, inviabiliza que nestas alturas de crise alguém use os seus dotes culinários cozinhando em casa para espaços públicos.
O resultado só pode ser o da fuga à lei, o da compra do fiscal, o da assimetria de informação que distorce os mercados.
E do ponto de vista ambiental, a maior dificuldade para que alguém se diferencie pela fidelidade a modos de produção ligados à terra.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, outubro 21, 2010

Para quem não tem nada para fazer neste fim de semana

O post tem uns dias, mas diz respeito ao que vai acontecer este fim de semana:
henrique pereira dos santos

terça-feira, setembro 21, 2010

Do discurso irresponsável sobre a gestão de áreas protegidas

Joaquim Sande Silva responde ao meu último post na caixa de comentários respectiva.
E acho que levanta algumas questões mais que suficientes para que eu tenha optado por um novo post, mais extenso, em vez de também responder num comentário mais ou menos curto.
Primeiro Joaquim Sande Silva assume uma convicção nunca demonstrada: a "má relação do ICNB com as populações das áreas protegidas".
Esta ideia não só nunca foi demonstrada (existe, que eu saiba, um doutoramento em alemão sobre as populações do Sudoeste Alentejano que tem o título "Enforquem os verdes". Nunca a li (não sei alemão) mas conversei com o autor no fim do ano passado e, tanto quanto percebi, área protegida, verdes, ONGs etc., é uma amálgama contra a qual existe um sentimento de oposição).
Nunca ouvi falar de questões de maior entre as áreas protegidas e as populações em muitas áres protegidas. Ouvi muitas vezes umas pessoas que dizem representar as populações defender interesses específicos de forma muito audível (as pedreiras no PNSAC, o turismo de massas no Gerês, os proprietários de barcos na Arrábida, os pescadores não profissionais no sudoeste, coisas deste tipo) mas alguma demonstração de divórcio, oposição e etc., desconheço.
Insisto, nunca vi ninguém propôr a desclassificação de uma área protegida, com excepção da mais que justa pretensão do dono do açude da Agolada (até o centro histórico de Coruche, área protegida nos termos da legislação que criou parques e reservas, só o deixou de ser agora, com o novo regime jurídico, por ter passado o prazo para a reclassificação sem que tal tenha acontecido, aliás como uma série de outros sítios classificados que ninguém parece saber que deixaram de o ser).
Ainda assim, assume-se esta ideia como um facto.
Depois Joaquim Sande Silva assume que melhorar essa relação diminui a área ardida. Por que razão assume esta posição é para mim um mistério já que quer nas áreas com vozes que gritam muito para espalhar esta ideia de mau tratamento das populações locais, quer nas áreas protegidas onde há consensualmente relações cordiais mais ou menos com toda a gente, arde nas mesmas circunstâncias.
Depois Joaquim Sande Silva repisa um argumento que já tinha usado na notícia de Mariana Oliveira sobre o fogo em áreas protegidas: "Talvez se o ICNB em vez de ter o dobro de técnicos superiores relativamente ao de vigilantes da natureza no seu quadro de pessoal, tivesse o contrário, as coisas se passassem de forma diferente...". Não vou descer ao nível deste tipo de argumentação perguntando quantos técnicos e quantos vigilantes tem a LPN para gerir os seus terrenos (ou a QUERCUS, que apesar de muito crítica sobre a gestão de áres protegidas durante anos prescindiu de gerir de facto as suas propriedades entregando-as à exploração de um sócio em condições que nunca percebi, e que ainda hoje está longe de ter criado uma área de getão exemplar, apesar das condições favoráveis como o controlo da propriedade e a disponibilidade de recursos da associação). O que faço notar é que sendo as fragilidades técnicas do ICNB mais que reconhecidas, Joaquim Sande Silva ache que o problema é a relação técnicos e vigilantes e não simplesmente a insuficiência de vigilantes, sendo muito claro na notícia de Mariana Oliveira, incluindo na ideia totalmente errada de que ser técnico é estar longe do terreno (eu já levantei mais autos que a grande maioria dos vigilantes de áreas protegidas, mesmo que há muitos anos não tenha funções semelhantes às que já tive): ""há muito gente para planear e estudar e pouca no terreno".". E sendo uma pessoa que acompanha de perto a gestão das áreas protegidas (ao ponto de não ter dúvidas que a área ardida é uma consequência da sua gestão, não se perturbando com as dinâmicas sociais e económicas que existem em todo o território nacional, nem com o facto de yellowstone ter ardido em 80% só num ano) esquece-se de explicar que o modelo de vigilância das áreas protegidas seguido em Portugal tem um importante pilar no SEPNA da GNR, pelo que a análise do problema apenas com base no número de vigilantes está evidentemente distorcida.
Também curiosamente fala dos programas de queima com pastores em Espanha, ignorando que em Portugal também existem programas desses (talvez menos extensos, talvez menos estruturados, sim, com certeza, mas não vale a pena é usar a ignorância sobre o que se passa como argumento).
Que a gestão das áreas protegidas é má, não tenho a menor dúvida.
Mas também não tenho a menor dúvida de que este discurso irrealista e sem relação nenhuma com o que se passa no terreno, feito por gente nunca geriu nem avaliou seriamente a gestão de nenhuma área protegida com base em dados objectivos, mas com imenso crédito em alguns jornalistas, é um dos factores que contribuem para a má gestão das áreas protegidas.
Toda esta discussão e a peça jornalística que lhe está associada são um exemplo perfeito.
Do que se passou este ano, há uma situação preocupante: arder parte da mata do Cabril.
Não será tão preocupante como dizem, não será tão pouco preocupante como eu acho, mas a verdade é que situações como as da mata do Cabril são situações onde deveria haver um esforço sério de supressão do fogo.
Pois bem, uma das principais razões pelas quais isso não é feito é porque existe uma forte pressão pública que decorre de ideias feitas (e profundamente erradas) com as que Joaquim Sande Silva aqui expressa: "Arde com certeza no resto do País, mas numa área protegida deveria arder muitissimo menos, por isso mesmo é que se chama "Protegida"!".
Ora esta ideia, tratando toda a área protegida por igual e assumindo que o fogo é sempre mau, é uma ideia que impede o verdadeiro zonamento das áreas protegidas em função de objectivos de conservação e gestão do fogo.
Que toda a encosta de Vilarinho arda e mais um bom pedaço da serra Amarela no Parque Nacional não tem importância nenhuma (ou quase nenhuma, para ser mais exacto), pelo que quer os recursos de prevenção, quer os do combate deveriam ter desde o primeiro momento como objectivo principal evitar que a mata do Cabril (ou a de Albergaria e se quiserem mais dois ou três bocados de carvalhais mais evoluídos que vai havendo) ardessem, concentrando-se nesse objectivo.
Mas com ideias erradas sobre o papel do fogo na gestão de áreas com interesse para a conservação, o que faz Joaquim Sande Silva e muitos outros é contribuir, com um discurso pelo qual nunca são responsabilizados, para a errada afectação dos meios existentes.
Que os meios deveriam ser outros, estou de acordo. Mas que este discurso contribui para a errada afectação dos meios que existem é para mim inquestionável.
Lamentável não é que arda parte da mata do Cabril (que recuperará, de qualquer maneira, embora fosse melhor ter evitado que ardesse), lamentável é que se continue com a conversa, sem qualquer base científica, de que os fogos são um grande problema de gestão das áreas protegidas, canalizando para esse não problema cada vez mais recursos retirados da gestão de verdadeiros problemas de conservação.
henrique pereira dos santos

domingo, setembro 12, 2010

Festa da pecuária

Não gosto do nome, mas gosto do conceito (mais da festa que de seguir o rebanho).
henrique pereira dos santos

quarta-feira, setembro 08, 2010

As minhas protegidas

A propósito de mais um rebanho de cento e tal cabras que vai deixar de produzir bens de consumo e bens difusos, incluindo gestão de combustiveis numa área crítica de fogos, mandaram-me algumas fotografias do que ironicamente chamaram as minhas protegidas.
As notícias vão no sentido de confirmar que o Thomas retorna à sua Alemanha antes do fim do ano.
Uma das informações que me dão, e que não sei confirmar, é que para além das muitas outras razões, havia um subsídio às cabras que foi retirado "às áreas de matos. Para um dono de cabras receber algum dinheiro dos nossos impostos tem de as pastar em pastagens finas, trevos não-sei-quê e demais pastagens semeadas. Apenas nos alentejos, ribatejos e outros locais semelhantes, de boa terra, vale a pena ter cabras", como me dizem sem que eu saiba se a informação é precisa ou se há erros de interpretação.
Eu gostava que algum dos leitores do blog que sabem mais do assunto me confirmasse, ou não, esta regra.
É que a regra parece-me tão abstrusa que é bem possível que alguém no Ministério da Agricultura a tenha inventado.
henrique pereira dos santos
Adenda para uma curiosidade: o Thomas usa painéis solares para fazer a contenção das cabras com pastores eléctricos. Fosse ele um professor universitário a brincar à produção de cabras com menor incorporação de carbono e reforço da sustentabilidade e receberia uma pipa de massa para saber quantos quilos de CO2 se poderiam poupar usando esta técnica. Mas como é um simples produtor de cabras à procura de soluções que lhe permitam viver do seu trabalho independente como quer, o razoável é infernizar-lhe a vida até o mandar de volta para a sua Alemanha natal.

quarta-feira, agosto 25, 2010

150 000 cabras, 48 milhões de euros

O projecto pelos seus promotores (ou pelo relato da sua apresentação que dele faz o jornal Cinco Quinas, porque no site dos promotores há dificuldade em ter acesso a informação mais detalhada, embora no primeiro jornal do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial, a páginas 8 e 9, se faça uma descrição genérica):
"O Director Geral do AECT Duero-Douro, José Luis Pascual Criado, pormenorizou as características do Projecto Self-Prevention. Segundo as suas palavras, além de actuar activamente para a prevenção de incêndios, o Projecto contribui para um modelo de desenvolvimento socioeconómico para todo o território do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial Duero-Douro.
Disse que o investimento em matéria de prevenção é necessário para terminar com o fogo, mas também é necessário o envolvimento dos habitantes. Defendeu o Self-Prevention como projecto social, territorial, para as pessoas que moram nele, gerando um plano de futuro a longo prazo.
...
Está-se a trabalhar no Projecto Self-Prevention a partir da base, ou seja, a prevenção de incêndios.
Este visa reintroduzir 150.000 cabeças de gado para que sejam os próprios animais os "limpadores naturais" dos campos agrícolas abandonados, matos e valetas, deixando livres de vegetação aquelas zonas de potencial perigo de incêndio.
O projecto irá implantar-se num território fronteiriço de Portugal e Espanha, num total de 9 mil Km2, com 125 mil habitantes, e envolverá 187 entidades públicas dos dois países.
Após o investimento inicial, calculado em perto de 49 milhões de euros, estima-se uma rentabilidade anual do projecto de 30 milhões de euros. Com este projecto estima-se a criação de 558 postos de trabalho especializado, até porque está prevista a criação de 12 queijarias, uma central de comercialização, dois matadouros, 15 lojas de venda de produtos, e uma plataforma logística de transporte e distribuição, para além de se acreditar em novas potencialidades turísticas da região.
Para a concretização do projecto espera-se agora a adesão dos agricultores, onde existe a influência deste projecto. Os agricultores que apostarem nesta iniciativa, por cada cabra que coloque no projecto, recebe uma acção, e os proprietários de terrenos recebem três acções por hectare. Os lucros obtidos serão repartidos, depois, pelos titulares de acções no projecto. Para já, do lado português, estão envolvidos os municípios de Vila Nova de Foz Côa, Figueira de Castelo Rodrigo, Almeida e Sabugal, tendo já sido demonstrada também a intenção do município de Manteigas em aderir ao projecto do AECT.
Este projecto estará articulado em torno duma empresa de participação pública e privada que optimizará a sua sustentabilidade económica na produção e comercialização de leite e derivados caprinos.
Por: Cinco Quinas"

Quem lê o que aqui e noutros lados escrevo sabe que eu não poderia deixar de subscrever as intenções deste projecto e ficar satisfeito de ver quase todos os jornais e sites de jornais de hoje a falar positivamente, e não como uma ideia impossível de operacionalizar, de um projecto que pretende ter 150 000 cabras para ajudar à gestão do fogo e à criação de riqueza e emprego no interior rural.
Mas ao mesmo tempo conheço demasiado bem esta lógica de captação de recursos, por entidades públicas que se juntam para fazer entidades privadas que apresentam projectos de candidaturas a ajudas públicas, que incluem muita infra-estruturação (lojas, queijarias, matadouros) e no fim se espera a adesão dos verdadeiros produtores.
Por mim preferia que fizessem um fundo de capital de risco para entrar no capital das empresas dos produtores até elas atingirem a velocidade de cruzeiro, vender a sua participação e partirem para outra.
48 milhões de euros em capital de risco já era relevante.
Assim, fico satisfeito com a difusão da ideia, espero e desejo que resulte, mas como contribuinte tremo só de olhar para a fotografia de topo deste post, que retrata os membros do Agrupamento Europeu de Cooperação Trans-fronteiriça, e pensar que é esta a base de gestão de um projecto de 48 milhões de euros entregues ao Estado por quem produz riqueza.
henrique pereira dos santos

terça-feira, agosto 24, 2010

Escola na natureza

Com frequência falo deste projecto.
Comecei aqui, continuei a discutir aqui as objecções de uma das poucas pessoas que não acha boa a iniciativa, e mais tarde fui dando conta do meu desencanto, por exemplo, aqui e aqui.
Falei da escola na natureza a propósito do encerramento do país aos poucos, para explicar como a opção de fechar escolas da forma como se está a fazer não é um fatalismo a que o realismo político se verga, mas o corolário de uma visão do mundo rural como espaço produtivo inviável.
Ora este post resulta dos comentários do Nuno a esta última referência à escola na natureza.
Tentei fazer o projecto dentro do ICNB e falhei. Tentei interessar alguns promotores de projectos de conservação da natureza no projecto para o desenvolverem numa lógica de rede criando desta forma uma fonte de financiamento à sua actividade e falhei. Tentei interessar uma empresa de consultoria a partir de candidaturas a um dos vários programas de financiamento existentes, de forma a criar o primeiro embrião da rede autónoma de produtores de biodiversidade de que falei antes e falhei.
Para mim falhar é sempre uma coisa mais ou menos temporária, já vi renascer das cinzas muitas ideias minhas consideradas inviáveis (algumas até pela mão de pessoas que tinham o poder para as considerar inviáveis e depois, felizmente e por acaso, tinham as mesmas ideias mais tarde. Mais chato é quando aparecem tão deturpadas que se tornam mesmo inviáveis ou desviadas dos objectivos iniciais, como também aconteceu de quando em vez).
Neste caso nem é uma ideia minha, é apenas uma ideia copiada com a qual perdi muitas horas a estruturar a forma de a levar à prática.
Portanto não me importo de arriscar outro falhanço apoiando a ideia do Nuno: levar à prática a escola na natureza a partir das comunidades escolares, ligando-as aos empreendedores que no mundo rural queiram entrar para o barco.
É possível, é sustentável e, infelizmente, é possível que a sua execução fora do mundo da conservação permita melhores condições de execução, usando todo o mundo rural em que haja alguém que queira.
Nuno, apesar do video com o que vou ilustrar o enésimo post sobre a escola na natureza, podemos começar hoje a fazer a associação escola na natureza e a montar o projecto.
Sem dinheiro, é certo, mas isso também não é o essencial.
Seja bem vindo quem vier por bem.

henrique pereira dos santos

sábado, agosto 21, 2010

Encerrar o país aos poucos

Ferreira de Almeida publica no quarta república um post com o título que copiei, a propósito do encerramento das escolas do ensino primário.
Penso ter deixado já clara a minha posição nesta matéria: a gravidade do encerramento destas escolas, desta maneira, é o facto de criar dificuldades à instalação de novos empreendedores em territórios de povoamento necessariamente esparso.
Nos comentários, interessantes, que o post motiva aparece o clássico argumento da inviabilidade do mundo rural em Portugal (não, as pessoas não defendem a inviabilidade do mundo rural, apenas raciocinam nessa base), ou se quisermos, do povoamento esparso, assumindo-se como uma fatalidade este despovoamento.
O despovoamento tem vantagens ambientais, é certo, mas tem também riscos, quer ambientais, quer sociais. O abandono assumido e com objectivos como os que o Miguel Araújo questiona aqui parece-me defensável em algumas circunstâncias.
A pura ruína, cansaço e desesperança que se vive no mundo rural parece-me indefensável.
Para quem, como eu, não defende a criação artificial de emprego e ao mesmo tempo reconhece que o desemprego (que é muitas vezes o mesmo que dizer, actividade económica não competitiva) é o problema central do mundo rural em Portugal, subsiste uma pergunta: o que se pode fazer?
Há uma parte do Estado.
Cinco exemplos de intervenção do Estado.
1) O Estado é responsável pela gestão das áreas protegidas, porque a conservação da biodiversidade é intrinsecamente deficitária mas produz bens difusos que são essenciais. Pois bem, o Estado em vez de criar condições de emprego digno e útil dotando as áreas protegidas dos meios necessários à sua missão, desinveste em vigilantes e em técnicos de forma escandalosa. O recentre reestruturaçã do ICNB que pretendia reforçar as equipas locais ao mesmo tempo que criava condições para um exercício profissional mais gratificante, aberto ao mundo e de relação com os outros, tem sido gerida de forma mesquinha e sem o investimento pressuposto em novas tecnologias de modo a optimizar o trabalho não centralizado assente em regras e procedimentos gerais que garantam os objectivos nacionais e internacionais que a política de conservação prossegue.
2) O Estado, na sua política de educação, resolve distribuir Magalhães a esmo, ao mesmo tempo que boicota e não executa dois programas potencialmente positivos para o mundo rural: a escola na natureza, que além de criar melhores condições de ensino para todos por facilitar o contacto directo com a realidade das áreas protegidas, geraria meio milhão de refeições ano e cerca de 250 mil dormidas, com um custo anual (que poderia facilmente nem ser todo do Estado) de 10 milhões de euros; a escola móvel, que permite juntar o ensino à distância com períodos de socialização dos alunos, uma das alternativas evidentes para territórios de povoamento esparso.
3) O Estado desenvolve um estudo para a comunicação e visitação das áreas protegidas que, se bem executado, poderia criar muitas pequenas iniciativas empresariais, com o consequente emprego. Por curteza de vistas e porque o Estado está capturado por grupos de interesse, o estudo é engavetado, não há um tostão para o assunto, a não ser uma recente iniciativa piloto. Onde? Nas áreas protegidas encravadas nas zonas de maior despovoamento rural? Não, no estuário do Tejo , em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa.
4) O Estado tem a oportunidade de desenhar programas de financiamento do mundo rural ao abrigo da política agrícola comum, tendo uma larga margem de opção política. Faz opções no sentido de remunerar os serviços ambientais prestados pelas comunidades rurais que não são valorizáveis no mercado? Não. Enterra mais de 11% das verbas em Alqueva, financia o preço da água (naturalmente à custa de recursos que poderiam ser usados noutro lado) que é usada em actividades perfeitamente lucrativas como o golfe e o olival super intensivo, usa grande parte das verbas para apoiar actividades que são valorizáveis no mercado, por imposição comunitária programa verbas para agro-ambientais (ITIs, como lhe queiram chamar) que poderiam pagar serviços ambientais e depois boicota a sua utilização para ter argumentos para as reafectar posteriormente por baixa taxa de execução.
5) Alguns, poucos a meu ver, estão dispostos a investir em biodiversidade, trabalhando no mercado de doações que sustenta a gestão privada de áreas de conservação. O Estado apoia, nem que seja com uma política fiscal agressiva que reconheça a utilidade social quer deste trabalho, quer das doações? Não, tem uma lei de mecenato mais que duvidosa em alguns aspectos, não aplicável a sérias opções possiveis de investimento privado em conservação, e trata os proprietários que se disponham a usar a sua propriedades publicamente para a conservação e o usufruto público como se, à partida, fossem todos aldrabões.
Longo vai o post, por isso a intervenção dos privados e da adminsitração local ficam para um dia.
Encerrar escolas primárias não é uma opção para que o Estado foi conduzido pela debilidade económica destas regiões, é uma opção coerente do Estado face à sua opção ideológica de que o mundo rural é caro demais para o que produz.
Ao Estado português parece razoável gastar 3 milhões de euros para que a zona mais rica do país fique isento de portagens para ir para a praia em Agosto. Mas é um absurdo gastar os mesmos três milhões a alavancar o programa escola na natureza, gerador de economias fulcrais para dar sustentabilidade económica a muitas iniciativas no mundo rural.
Concentrar escolas reforçando as dificuldades de criação de emprego em territórios de povoamento esparso é apenas o corolário lógico desta política.
Eu não estou de acordo e acho a educação é demasiado importante para ser deixada aos educadores.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, agosto 12, 2010

A escola móvel e o mundo rural

Tenho escrito abundantemente sobre o fecho das escolas primárias e a viabilidade do mundo rural.
Reconhecendo sempre que não é a escola que mantém as pessoas mas sim o emprego, tenho repetidamente dito que sem escolas primárias que permitam uma vida de qualidade para os miúdos dificilmente alguém se dispõe a criar o seu próprio emprego em zonas mais ou menos isoladas.
Sobre isso pode ler-se por exemplo este post (e respectivas ligações) ou este (acho que um dos melhores posts que escrevi, sobretudo se lido com este que escrevi depois).
Conheci a escola móvel, agora extinta, quando procurava dar consistência ao programa Escola na Natureza (RIP) e tive pelo menos uma reunião com pessoas responsáveis pela escola móvel. Desde o primeiro momento fiquei rendido à ideia de uma escola para os filhos dos profissionais itinerantes, que tinham aulas e etc., através de meios electrónicos e períodos definidos em que os alunos se juntavam nas escolas.
Tenho pena que tenha acabado. Porque é cara, dizem.
E uma das razões por que tenho pena é porque sempre achei que era um dos modelos possíveis de escolarização das crianças dos territórios de povoamento esparso, em alternativa à loucura normal que se instalou com a criação de mega agrupamentos para onde as crianças são arrebanhadas às primeiras horas da manhã e de onde são retiradas ao fim do dia, como se faz às vacas nos pastos.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, julho 15, 2010

Curiosidades VII

Clicar para ver melhor. Gráfico muito interessante para discutir tendências de biodiversidade em Portugal.
Para mim é surpreendente o crescimento relativo da população portuguesa, tanto mais que até esta altura a urbanização ainda incipiente não chega para explicar o que se vê.
As crises entre as duas guerras mundiais, incluindo a grande depressão de 1929 e depois a segunda guerra mundial em que Portugal se manteve neutro, fecharam a porta tradicional do reequilíbrio populacional de Portugal: a emigração. Bem pelo contrário, o forte refluxo da migração das primeiras décadas do século vinte provocado pela crise económica entre guerras, traz de volta milhares de pessoas, não atraídas pela prosperidade portuguesa mas à procura de ao menos ter uma talisca de terra que as alimentasse depois do fracasso da sua experiência migradora.
O resultado é um campo cheio de gente com fome e uma pressão sobre os recursos naturais sem paralelo na história (por isso sorrio sempre que me falam no aumento da pressão humana sobre o território para explicar modernas tendências populacionais de espécies selvagens).
henrique pereira dos santos

quinta-feira, julho 08, 2010

Gondramaz, a chanfana e o resto

Clicar para ler o texto delirante que retrata melhor os mundos idílicos que existem na cabeça de quem o escreve que a verdadeira realidade da aldeia retratada
"Miranda do Corvo
Locais a visitar
Aldeia do Gondramaz
O Gondramaz é uma pequena aldeia de xisto encravada na serra de Vila Nova, cuja origem se perde nos tempos. Com meia dúzia de habitantes fixos, a aldeia é actualmente alvo de um programa de reabilitação por estar inserida na Rede das Aldeias de Xisto. A tipicidade das suas casas e dos seus moradores - de onde sobressai o escultor Carlos Rodrigues - faz deste pedaço de paraíso natural um local a visitar e descobrir. Com a evolução dos tempos e a busca de melhores e mais dignas condições de vida, a Aldeia foi sendo substituída pela Cidade, e a estas comunidades onde fervilhava gente deram lugar os largos abandonados de conversas, onde aqui e ali se sentam os que ficaram e esperam lentamente que o ponteiro dos segundos passe, ansiando que o Verão chegue e traga de volta aqueles que o vento levou para longe. Durante a subida da montanha vamo-nos apercebendo de vários pontos de miragem sobre a vila de Miranda do Corvo e das encostas das montanhas de uma beleza rara de vegetação que vai escorrendo e envolvendo a íngreme depressão até ao sopé, terminando numa euforia de verde. A fauna, esconde-se no embrenhado da flora, mostrando-se aqui e ali de uma forma tímida. Veados e javalis dividirão com o aventureiro os caminhos pedonais que se abrem diante dos seus olhos e que o guiam neste passeio pedestre. Chegados ao cimo da montanha, deixando para trás a aldeia do Cadaval, abandonada, pinta-se perante os nossos olhos, um quadro feito pelos deuses. As elevações e depressões, as várias tonalidades de verde, toda a paisagem parece não ter fim. O percurso continua, sobre os caminhos de terra batida, levando-nos à explosão de beleza máxima e ao terminus do percurso: a aldeia do Gondramaz. Ergue-se do solo uma aldeia que de uma forma envergonhada se mostra por detrás da vegetação. A sensação é esmagadora. A sinaléctica indica-nos os pontos de referência da aldeia e dá-nos a conhecer os seus segredos. A audição é envolta de um som forte, por uma música de uma pauta escrita pelas asas das abelhas. O cheiro é extasiante, de um odor de verde da natureza. O sabor está envolto no gosto delicioso das castanhas que envolvem o chão. A aldeia do Gondramaz é um exemplo puro de várias vidas que se perdem no tempo e no espaço. Para além da sua localização, afastada do mundo do século XXI, do corrupio das vidas agitadas, no Gondramaz o relógio parou há muito. Os seus habitantes envelhecidos, alimentam as horas do dia com a refeição da solidão. O Gondramaz é, sem dúvida, o símbolo da adequabilidade ao local, da natureza, da arquitectura popular que, felizmente, se preservou ao longo das gerações. Aqui os únicos cinco residentes vivem da pastorícia e da agricultura, a que, de uma forma tão apaixonada, dedicam a vida, os dias."

Gondramaz vale a visita, sem dúvida.
Mas não sei de que mais me espantar, se do texto delirante sobre a duríssima vida das aldeias isoladas com que as terras do xisto promovem a aldeia (tipicamente publicidade enganosa), se do texto contraditório que a Câmara de Miranda usa na sua promoção, mas apesar de tudo bastante mais realista.
A produção primária destas aldeias está entalada entre as visões idílicas das terras do xisto, assente na ideia de que é possível um turismo que resgate este mundo gerindo aparências, e a resignação dos responsáveis que não acreditam que o trabalho da sua terra possa ser competitivo.
Só isso parece explicar que um município, ao mesmo tempo e no mesmo cartaz, se intitule capital da chanfana e defensor estrénue da floresta que depende de todos e foi erguida contra as cabras.
Aparentemente não passa pela cabeça dos munícipes (sim, dos munícipes, não apenas dos responsáveis) que a chanfana depende de um sistema competitivo de produção de cabras que é preciso reinventar, investindo em conhecimento e inovação, para o conciliar com a floresta, a escassez de braços e os novos contextos sociais.
Aparentemente ser capital da chanfana não traz responsabilidades sobre a sustentabilidade da produção de cabra.
Aparentemente ser capital da chanfana significa investir milhões na defesa da floresta de onde a cabra é afastada, significa investir milhares em programação cultural para criar um turismo que substitua a produção de cabra como base económica, mas não significa o menor esforço a pensar e investir na cabra.
Miranda do Corvo é apenas um exemplo, não é substancialmente diferente de grande parte do resto do país.
E repito, Gondramaz vale a visita.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, junho 25, 2010

Há coisas insuspeitadas em Portugal

Fiquei tão surpreendido com estas placas há algum tempo que apesar do atraso, da chuva e etc., virei o carro para as seguir.
Encontrei um viveiro florestal que parecia um viveiro florestal, umas placas de rotas que quase ninguém usa que pareciam umas placas de rotas que quase ninguém usa, um sítio aprazível e bem tratado e uns edifícios que suponho que estariam relacionados com este centro nacional de caprinicultura.
Mas fiquei desde essa altura com uma dúvida: será que Portugal tem um centro de caprinicultura e não tem um centro de pastorícia?
Eu gostava de conhecer o centro experimental de pastorícia.
Eu gostava que a pastorícia fosse tratada ao nível das outra actividades económicas e produtoras de riqueza para Portugal.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, junho 07, 2010

Crime? Talvez, mas quem é o criminoso?

Imagem retirada de um blog de que gosto
José Sócrates, de quem discordo frontalmente há muito tempo, muito tempo antes de ser primeiro ministro, resolveu dizer que seria um crime não encerrar as escolas com menos de 20 alunos.
Utilizou a técnica retórica habitual de comparar as suas decisões com não fazer nada, como se no mundo existissem apenas duas opções para cada problema: não fazer nada ou as soluções óbvias, fundamentadas e certas de José Sócrates.
Tomada uma decisão, seja por que razão for, José Sócrates costuma fazer um brain storming com a sua entourage política para saber que razão formal, com que toda a gente esteja mais ou menos de acordo, pode ser usada para justificar a decisão tomada.
Neste caso o argumento invocado foi o do maior insucesso escolar nas escolas com menos de vinte alunos.
Dando de barato que exista algum estudo sobre o assunto e que o estudo conclui que há mais insucesso escolar nas escolas com menos de vinte alunos (eu não acredito em nada do que é dito por José Sócrates neste tipo de argumentações, mas não é isso que interessa agora e por isso dou essa parte de barato), é evidentemente curto como justificação para o encerramento das escolas.
Porque naturalmente as escolas com menos de vinte alunos estão nas comunidades mais pequenas, mais empobrecidas, mais "tão fora de esperar bem" e menos dinâmicas do país. É por isso natural que os filhos destas comunidades partam para a vida em desvantagem, nomeadamente em escolas que, justamente, estão formatadas para a maioria que tem um ponto de partida diferente.
Não fazer nada perante esta situação é de facto mau, nisso estou de acordo com José Sócrates.
Mas a única solução apresentada até agora tem os efeitos que já descrevi neste post e neste e estão muito longe de serem preferiveis ao não fazer nada.
Há outras soluções, entre o nada fazer e a loucura normal de considerar a institucionalização de crianças de seis anos contra a vontade dos pais, ou o seu rapto diário por doze horas, como soluções pedagogicamente defensáveis.
São soluções que partem de pressupostos diferentes: o uso dos recursos públicos de forma eficiente aconselha a reorganização da rede escolar, sem dúvida, mas essa reorganização deve servir as comunidades rurais ou deve estar ao serviço da estúpida concentração de recursos nas sedes de concelho (com uma ou outra excepção em aldeias maiores)?
Se se admitir que deve estar ao serviço das populações rurais, então não há dúvida que muitas soluções diferentes existem, desde escolas móveis, a concentrações por afinidade geográfica e muitas outras.
Eu que não percebo nada do assunto pergunto-me se não seria esta uma matéria referendável.
Não podem 75000 cidadãos interessados obrigar à convocação de um referendo?
Para perguntar às pessoas se estão de acordo com o encerramento de escolas com menos de vinte alunos, ou outra pergunta que seja mais consistente (eu posso estar de acordo com o fecho de escolas com menos de vinte alunos, mas não estou seguramente de acordo com a forma como o problema está a ser gerido).
Tenho poucas dúvidas de que algumas das soluções alternativas são mais caras que concentrar os miúdos todos em escolas das sedes de concelho (ou perto disso). De qualquer maneira essa é uma contabilidade que tem muitas zonas cinzentas, a principal das quais a de saber o que nos custa perder o controlo social sobre grande parte do território nacional.
Mas ainda que sejam mais caras, não temos nós o direito de nos pronunciar sobre a retracção do Estado em matéria de gestão territorial?
Será que começando passo a passo não podemos mesmo forçar esta discussão, forçando um referendo sobre isto?
henrique pereira dos santos

quinta-feira, maio 13, 2010

Quinta-feira da espiga


Esta fotografia veio daqui
Mais um ano sem que o movimento ambientalista (maioritariamente urbano) acorde para a importância de explorar as ligações ancestrais das pessoas comuns com o campo.
Dentro de dias, no dia 22, dia internacional da biodiversidade, há uma excelente e meritória iniciativa em que se pede que as pessoas vão ao campo e registem das suas observações de biodiversidade.
Não poderíamos ter aproveitado esta quinta feira da espiga como ensaio geral? É que hoje haverá milhares de pessoas, sobretudo no Ribatejo, Estremadura e Alentejo, a ir ao campo apanhar uma espiga e meia dúzia de flores.
Talvez para o ano que vem nos lembremos a tempo da quinta feira de Ascenção como um bom dia para observações de biodiversidade.
Talvez para o ano consigamos fazer uma lista de voluntários que se disponibilizem para nesse dia acompanhar um qualquer dos milhares de grupos, muitos escolares, juntando o pic-nic tradicional e o registo de observações.
E esta veio daqui e é de 1963
henrique pereira dos santos

terça-feira, março 02, 2010

Rompendo círculos sociais


Nos comentários a este post, Alexandre Vaz levanta um tópico de discussão muito relevante:
"Para terminar, este jargão neoliberal que sistematicamente nos atira com a necessidade de "acrescentar valor" a tudo e mais alguma coisa é profundamente desonesto... Pior do que isso só mesmo a panaceia que se tornou a ideia de "inovação".Quem julga que a ruralidade e o campesinato são sustentáveis alicerçados apenas no turismo e nos produtos diferenciados de excelência está profundamente enganado."
No fundo a pergunta é: há sustentabilidade sem sustentabilidade económica?
Eu diria que sim, em casos razoavelmente limitados e com apoio social muito alargado. As áreas protegidas (as bem geridas, em qualquer parte do mundo) são um exemplo disso, os santuários são outro exemplo, algumas instalações militares, outro exemplo.
Tudo sistemas artificiais mantidos por recursos externos durante largos períodos de tempo.
Mas isso não é possível para a ruralidade e o campesinato. Ou pelo menos, para a generalidade da ruralidade e do campesinato.
Para a manutenção da ruralidade e do campesinato é fundamental a sua viabilidade económica. Pode argumentar-se que essa viabilidade pode não vir do mercado mas de apoios do Estado, por exemplo. Mas este tipo de apoios externos são bem mais voláteis que a viabilidade económica, que estamos de acordo que não é nenhuma vaca sagrada nem uma mezinha que resolve tudo.
Mas é, entre todos os instrumentos possiveis para conservar património, a mais fiável, embora contingente, das ferramentas a que podemos deitar a mão.
Ora essa viabilidade económica, em economias de mercado (eu não sei o que é isso do neo-liberal, eu por mim sou liberal no sentido em que dispenso bem o Estado na grande parte da minha vida, e defendo um Estado forte nas suas funções clássicas, a que acrescento a da conservação da biodiversidade), dizia, a viabilidade em economias de mercado faz-se de competitividade: ou se produz mais barato, ou pelo menos ao mesmo preço do parceiro do lado, ou se produz diferente do parceiro do lado e essa diferença é relevante para um número suficiente de pessoas dispostas a pagar também um preço diferente. Não conheço outra maneira de prevalecer nos mercados.
A grande maioria do mundo rural com maior valor patrimonial de conservação tem handicaps de produção muito relevantes, doutra forma já teria sido transformado para produções intensivas, isto é, que competem pelo preço.
Se isto for assim, qual é a alternativa à diferenciação dos produtos?
E é aqui que a produção de biodiversidade é de facto relevante: a biodiversidade é um poderoso elemento de diferenciação com valor no mercado. Um valor limitado, com certeza, mas com valor de mercado.
Ou seja, nas áreas relevantes para a biodiversidade que dependem de gestão (porque a não gestão é uma opção que deve entrar na discussão, com certeza, porque é também uma opção de gestão) ou há diferenciação relevante para o mercado, ou há Estado, ou há mecenas. Pode haver de tudo um pouco, claro, mas um dos três tem de existir.
E se a diferenciação é um dado relevante para a sustentabilidade de sistemas ricos do ponto de vista da biodiversidade, parece-me evidente que romper o círculo social em que a conservação em Portugal se deixou enredar, chegando a públicos e mercados dispostos a pagar a diferenciação que permita equilibrar o facto da produção ser mais difícil e cara nestas áreas, é uma questão estratégica.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Rolhas

Chegou ao meu email esta carta de um produtor florestal ainda sobre a história das rolhas e tampas de rosca no vinho.
Achei que valia a pena retomar o assunto enquanto espero uma resposta de Miguel Champalimaud à carta que lhe escrevi.
henrique pereira dos santos

"Pela Felipa Arantes Pedroso que é uma amiga comum recebi um texto redigido pelo Miguel Champalimaud sobre Screw Top / Rolhas de Cortiça / Quinta do Cottô, que defende algumas posições técnicas assumidas pela casa vinícola Montez Champalimaud a nível da adopção de vedantes para os seus vinhos. Pareceu-me contudo a mim, essencialmente pelo tipo de argumentação empregue, que o texto acima de tudo demonstra muito mais uma curiosa forma de pensar e estar na vida da pessoa física em questão.
Pede o Miguel Champalimaud debate, respostas e comentários para animar o País mas, será que o que o subscritor do documento pretende não é tão-somente polémica e propaganda grátis que o ajudem a escoar o seu produto que, pelo que se diz, tem vindo a ter uma significativa queda nas suas vendas tanto no mercado Nacional como no Internacional?
Como entretanto ninguém lhe respondeu apesar dos seus apelos, o que eventualmente seria o mais sensato a fazer-se, achei por bem ser eu a dizer algumas coisas para que as pessoas, de uma maneira geral, não ficassem com uma única visão da questão, que ainda por cima na versão Miguel Champalimaud, no meu ponto de vista, se apresenta incompleta, distorcida, tendenciosa e desactualizada.
Mesmo para quem possa defender que “à excepção da honra, tudo se vende” não será possível negar que, sem verdade, a honra sai sempre menorizada; e a discussão sobre a cortiça precisa de mais verdade.
Assim, vamos lá:
Em primeiro lugar gostaria de dizer, para aqueles que não me conhecem, que sou Português, tenho mais de 50 anos, sou Produtor Florestal (cortiça inclusive), pertenço a uma família que há 6 gerações está neste negócio e que me considero razoavelmente informado sobre a questão que o MC levanta. Nunca organizei, apoiei ou participei em qualquer boicote organizado á compra de vinhos com tampas de rosca de alumínio mas entendo perfeitamente todos aqueles que o façam. Faço-o particularmente e pelo que sei, muitos outros (e cada vez mais), sem estarem engajados em nenhum movimento organizado, também o fazem.
A razão porque o faço? Simples. Por que carga de água iria privilegiar um produto sem fronteira, poluidor, que não traz nenhuma riqueza a Portugal e aos Portugueses e que ainda por cima corta os dedos ao ser utilizado quando, em Portugal, existe um produto que faz melhor a sua função, é natural, reciclável, amigo do ambiente e que gera uma riqueza enorme para o meu País. Só se fosse doido.
Em segundo lugar é importante que seja também dito que na sua missiva e em alguns pontos (poucos) o MC tem razão. Dentro destes destaco a sua menção á passividade e mesmo irresponsabilidade dos produtores de cortiça que pelo seu individualismo nunca quiseram assumir a sua cota parte na defesa do sector em que estão inseridos. Mas mesmo com essa atitude Portugal graças ao Grupo Amorim (e é bom que se diga isso) é líder mundial neste sector e se eventualmente as repartições dos proveitos e das responsabilidades desta situação podem ser questionáveis não é menos verdade que por exactamente existir essa situação os próximos anos estão garantidos para toda a fileira da cortiça. É essa a situação também nos vinhos da casa vinícola Montez Champalimaud? Espero que sim sinceramente pois não desejo gratuitamente mal a ninguém e muito menos a um Produtor de vinhos Português.
O MC para justificar as suas decisões aponta as suas baterias ao “bando” com especial ênfase no problema do TCA/sabor a rolha.
Começava então exactamente por ai.
A- Facto número 1: Tem a ver com o crítico de vinhos número 1: Robert Parker.
MC, que diz ser “a favor da modernidade”, poderia ter lido as últimas declarações de R Parker no seu blog, uma forma moderna de obter informação actualizada. Assim, em vez de cometer o erro de repetir afirmações feitas em 2004, poderia ter acesso às declarações do mês passado em que Robert Parker diz que “the tiny percentage of corked bottles (TCA) confirms what I have been seeing for the last 3-4 years...that industry has awakened following the decline in cork quality…less then 1% of corked bottles”. As palavras de Robert Parker, na primeira pessoa, estão disponíveis para o mundo moderno em:
http://dat.erobertparker.com/bboard/showthread.php?t=209945.
Caso as opiniões de Robert Parker deixem, a partir de agora, de ser uma referência útil para o Miguel Champalimaud, afirmações semelhantes também têm sido proferidas por pessoas tão relevantes para o vinho como Stephen Spurrier, Dr Christian Butzke, Dr Jamie Goode, David Denton e, pasme-se, o próprio Australian Wine Research Institute. Tenho a certeza que o MC por mais que procure não os encontrará numa lista de “gente da indústria corticeira” ou numa lista de”gente da Pátria”; mas, para o MC, parece que a verdade não se deve intrometer no meio de um mau argumento. É pena.
B- Facto número 2 tem a ver com a opinião de MC que elementos do processo produtivo de vedantes para vinho serão quimicamente instáveis ou inapropriados para o seu contacto com produtos alimentares. Podemos preferir ignorar o parecer favorável da Food and Drug Administration dos Estados Unidos sobre estes produtos usados pela cortiça. Mas isso não implicaria apenas escamotear o parecer de uma autoridade como a FDA; seria invalidar toda a indústria farmacêutica que o próprio MC, na sua carta, parece reter como paradigma. Mas talvez não se trate aqui de um caso de incoerência. De facto, tendo em conta as inúmeras questões médicas recentemente levantadas sobre componentes plásticos, também usados nos vedantes de rosca dos vinhos Quinta do Cottô, talvez valha a pena consultar o que tem sido escrito por meios de informação como Beverage Daily que em:
http://www.beveragedaily.com/Publications/Food-Beverage-Nutrition/FoodProductionDaily.com/Quality-Safety/BPA-causes-reproductive-health-defects-at-levels-currently-considered-safe-study/?c=YtUctU%2B%2Fv6ErwLhvSIOGzQ%3D%3D&utm_source=newsletter_daily&utm_medium=email&utm_campaign=Newsletter%2BDaily
dá conta do trabalho da North Carolina State University sobre o possível impacto na saúde pública de ingredientes utilizados em material para contacto com produtos alimentares. Além disso e bem ao estilo da argumentação que o MC utiliza podemos sempre dizer que não precisamos ir tão longe e basta atentar para as manchetes dos jornais e das Tv´s Portuguesas de ontem que noticiaram com grande alarde a interrupção do fornecimento de água a Évora por a mesma conter resíduos exagerados de Alumínio (não é o mesmo material das tampas de rosca do MC?) e que é muitíssimo perigoso para a saúde pública.
C- O terceiro facto prende-se com a “ideia” do MC que screwcaps significam modernidade, que a sociedade e as caves empobrecem por causa da cortiça e que as rolhas de cortiça são mais caras que os screwcaps (“esquecendo-se” é claro que ambas os famílias de produtos tem especificações diferentes e dentro desses parâmetros, preços diferentes).
Não haverá, aqui, necessidade de recorrer aos peritos estrangeiros que o MC parece favorecer quando discute a cortiça. Assim, deixemos de lado as opiniões do Forest Stewardship Council, do WWF, da RainForest Alliance e de milhares de cientistas internacionais sobre o significado de um futuro sem sustentabilidade ambiental e social. Imagino ser difícil para o MC que viu todo o sucesso alcançado pelo seu Tio António nos anos 50, 60 e 70 do século passado com enormes e poluentes fábricas siderúrgicas (e não só), começar agora a considerar que não pode haver futuro sem sustentabilidade e equilíbrio ambiental. É bom que o MC reconheça que todo o sucesso alcançado pelo seu Tio não foi pelo tipo de fábricas e produtos que teve e sim por ter sido um homem extremamente inteligente, um visionário e um enorme empreendedor e é bom não confundir o tipo de polémica que ele criou com este tipo de polémica.
Talvez não seja necessário relembrar que a fabricação de alumínio, como aquele usado nos vedantes artificiais dos vinhos do MC, constitui o processo industrial que mais energia consome em todo o mundo e que, por exemplo, o Governo da Noruega boicota as acções da maior empresa produtora de screwcaps por esta violar os princípios éticos de investimento do maior fundo soberano da Europa. Mas podemos preferir ler o artigo da Bloomberg News sobre o impacto de outra empresa de alumínio na floresta tropical da Amazónia e perguntar que tipo de modernidade seria criada se todos seguíssemos as “ideias” de MC. Exercício assustador mas fácil se consultarmos:
http://www.bloomberg.com/news/marketsmag/mm_0909_story3.html
D- Quanto à “ideia” de M Champalimaud que a cortiça pode contribuir para o empobrecimento da sociedade e da indústria do vinho, por tão manifestamente inane, valerá a pena analisar alguns factos que, por tão óbvios, imploram a questão: Têm noção o MC do peso do sector da cortiça no PIB Nacional? Tem noção o MC do valor das exportações anuais Portuguesas do sector da cortiça? Tem noção o MC do valor que o Estado Português arrecada em Impostos com as actividades ligadas á cortiça? Tem noção o MC da quantidade de empregos directos e indirectos que estão ligados a este sector? Sabe o MC que um dos trabalhos agrícolas mais bem pagos do mundo, pela sua especialização, existe em Portugal, exactamente na extracção da cortiça do Sobreiro? Sabe o MC que, à medição de riqueza monetária convêm também somar a riqueza derivada de uma biodiversidade única no mundo? Sabe o MC que sem sobreiros o problema da desertificação não deixaria o país mais rico? Sabe porventura o MC que os preços médios de vinho são mais altos nas garrafas vedadas com cortiça natural? E sabe também o MC que os preços absolutos mais altos do mundo são alcançados por garrafas que têm rolha de cortiça?
Mas afinal o que é que sabe o MC? Será que a sugestão dele é que toda esta riqueza criada em Portugal seja abandonada e entregue nas mãos de uma multinacional do Alumínio que hoje está aqui e amanha noutro qualquer lugar do mundo em troca de subsídios e de mão-de-obra barata?
E- Exemplo óbvio é a série de 21 questões colocadas na carta de M Champalimaud e, das quais, gostaria de destacar algumas.
- “a água mineral (…) há muito deixou de usar cortiça”. Por acaso, a água mineral mais cara do mundo até usa cortiça. Inovadora, moderna, bom gosto? Não sei, mas decidam vendo o produto e o preço (ah, essa questão 2.15…) em http://www.blingh2o.com/
- “ a cerveja há muito que deixou de usar cortiça (…).” Não só se vendem milhões de rolhas todos os anos para cerveja, como este mês uma marca portuguesa de cerveja lançou um produto com rolha de cortiça. E, a propósito, a cerveja mais cara do mundo também usa rolha de cortiça. Denominada Vintage Nº2, custa 250 euros a garrafa e é produzida pela Carlsberg. Empobrecedora, a cortiça? Só se comprar toda a produção desta cerveja ao preço de retalho….
- “(…) 75% das mulheres (…) têm dificuldade em abrir uma garrafa de vinho usando um saca-rolhas”. Com este tipo de afirmações sexistas e misóginas, não admira que MC se refira à “gente da retaliação e do boicote”. E a grande maioria dessa “gente” devem ser as mulheres da “Pátria” que acham que este tipo de atitudes não é “a favor da modernidade”.
Pergunto eu: E que tal incluir o numero crescente de queixas apresentadas por cortes nas mãos provenientes exactamente das folhas de alumínio afiadas de que é feito a tampa de rosca?
- “Porque é que na indústria da construção não se usa (sic) em Portugal e no mundo, a cortiça como isolante?” Eu uso e sei de outros que usam (ex: cadeia mundial de lojas Ghant) e se os meios de informação nacionais dão eco do reconhecimento do Museu Guggenheim em relação à utilização da cortiça como material de construção, assume-se que o MC é daqueles que herdou uma televisão e esta permanece (ah, essa questão 2.19…) dentro de um móvel que está sempre fechado?
Se Portugal, todos os anos, fabrica e exporta milhões e milhões de euros de material para construção em cortiça e um líder do tecido empresarial nacional nunca ouviu falar desse facto, sugiro vivamente que marque uma reunião com o Instituto Nacional de Estatística?
- “Quando vai comprar uma garrafa de vinho fá-lo na expectativa de comer a rolha?” Aplicando o mesmo raciocínio ao facto de o vinho também vir dentro de uma garrafa de vidro, poderemos deduzir que o próximo Grande Escolha irá adoptar uma lata de alumínio tipo Coca-Cola, com “easy-open” e tudo. Boa, vai com certeza ser um sucesso de vendas.
Pergunta-se ainda ao MC se quando se compra o vinho tem-se a expectativa que ele esteja deficientemente selado? Ou esteja oxidado? Ou mesmo se têm a expectativa de cortar os dedos no processo da abertura da garrafa? E o produtor de vinho terá a expectativa de que as suas garrafas vão verter, que o vinho vai ficar oxidado e que vai cortar os dedos dos seus clientes?
É que já muitas vezes aconteceu e foi amplamente divulgado (como ao “PORCO” do Francis Ford Coppola; http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=email_en&sid=aMtOOCYDuqeU) mas acredito que este tipo de argumentos não interessa ao MC trazer para aqui.
- “um produtor paga mais dinheiro por uma rolha de qualidade do que recebe pela venda (…). Alguns dos produtores de vinho com mais êxito no mundo usam rolhas de nova geração com custos semelhantes ao de um screwcap. Nobilo, marca da maior empresa de vinhos do mundo, é o vinho branco neozelandês mais vendido nos EUA; há alguns meses mudou de screwcap para cortiça, como reportado pela britânica Decanter. Como não se chega a número 1 de nada tomando decisões operacionalmente ineficazes e financeiramente ineficientes, a Constellation não o teria feito se isso significasse perda de competitividade ou não fosse um factor de diferenciação positivo.
Preocupa-me de sobremaneira este ponto da dissertação do MC pois os seus argumentos parecem indicar que acredita piamente que mais de 90% dos produtores de vinho engarrafados (e entre eles, sem duvida, os produtores dos considerados melhores vinhos do mundo) não fazem a menor ideia de como é que se deve vedar as suas garrafas de vinho. Sugere o MC que ninguém sabe o que é que está a fazer e que só ele é que sabe? Preocupante.
Finalmente, sendo eu também daqueles que acreditam que “recusar o progresso científico de nada serve” gostaria de terminar chamando a atenção de M Champalimaud para o que a ciência, hoje em dia, tem a dizer sobre vinhos e vedantes. Tal seria claro se tivesse lido os estudos publicados em 2006, 2007 e 2008 em revistas científicas como o Journal of Agriculture and Food Chemistry dos EUA, que prova que a rolha não é “apenas uma matéria subsidiária” do vinho. A rolha é parte integrante de um processo de ingresso de oxigénio considerado fundamental. Artigos do Dr. Jamie Goode publicados em revistas norte-americanas e britânicas (por exemplo, Harpers; Dezembro 2006, Reino Unido) traduzem a ciência para os amantes do vinho. Mas se 2006 ainda é demasiado perto no tempo, uma leitura sobre as opiniões de Pasteur em 1863 sobre o impacto positivo do oxigénio no vinho terão já, porventura, uma difusão significativa entre o grande público.
Termino lembrando que, para produtores florestais e industriais, pouco relevância tem que algumas caves decidam promover o seu vinho com artifícios publicitários focados não no produto, mas sim na “novidade” do tipo de obturador adoptado. Pensei que o MC tinha dito e acreditava que o vedante era “apenas uma matéria subsidiária”.
Parece-me que o MC apesar de ser um amante da modernidade até aqui está desactualizado pois inúmeras caves australianas já o fazem há anos e, pelas notícias dos últimos dois anos, já ninguém aponta esse mercado vinícola como modelo de negócio a seguir ou exemplo de futuro. As implicações e consequências técnicas dessa decisão são, realmente, discutidas não na praça pública mas em fóruns técnicos especializados. Quanto às implicações junto do consumidor, essa soberana “gente do produto 100% natural”, continua a preferir a cortiça em todos e cada um dos mercados onde se vende vinho. E está disposta a, cada vez mais, valorizar o natural, o orgânico e o genuíno. Nos EUA, mercado fundamental para a nossa economia, o consumo deste tipo de produtos duplicou de 2003 a 2008 e já representa mais de 16 mil milhões de dólares.
Pareceria, pois, não apenas prudente mas também “moderno” tomar decisões baseado no que se sabe hoje e não no que parecia certo há anos atrás.
Respeito intrinsecamente todas as decisões do Miguel Champalimaud nas suas opções empresariais e desejo-lhe até sucesso, sinceramente é-me indiferente. O que não posso de maneira nenhuma aceitar é que alguém, seja quem for, só porque de alguma maneira se sente na necessidade de justificar ou promover o que quer que seja venha dar conhecimento público de notícias falsas, tendenciosas e desactualizadas, tentando condicionar comportamentos, sobre um produto e um assunto que merece respeito de todos nós porque a todos nós pertence e toca.
Com a esperança de humildemente ter contribuído para o esclarecimento do assunto.
António Posser de Andrade
Produtor Florestal"