
Na última crónica da Clara Ferreira Alves, "Selvagens nas dunas", a cronista chama atenção para um problema conhecido, que é o caravanismo na costa Vicentina. Como compete a um cronista, a Clara exagere qb (não dou cinco anos ao 'paraiso' da Costa Vicentina: esta ideia oiço desde o início dos anos 90, quando era a primeira vez que fui de férias à CV), tem alguma razão no que diz, mas deita tudo por terra quando resolve introduzir duas coisas: a nacionalidade dos caravanistas e o seu padrão de consumo. A Clara não gosta de caravanistas, sobretudo aqueles que partilham o local de férias da Clara, e não gosta de serem estrangeiros_ "muitos são alemães, muitos são espanhois, alguns ingleses e holandeses" que "percorrem as estradas da Europa naquelas casas de portento e chegam (...) entre a ponta de Sagres e Aljezur." e por terem formas de passar as suas férias diferentes da Clara. Segue uma lista de comportamentos reprovados (pasma-se: "bebericando cerveja e vinho ao por do sol"). Mas o melhor vem depois: "comendo latas de conserva e pão de plástico em fatias, trazido dos sueprmercados dos países onde habitam. (...) Nem frequentam restaurantes nem compram em lojas.".
Por acaso estou a passar umas férias em Aljezur. Vejo as caravanas por todo o lado, não o nego. Não acho que são mais que em anos anteriores, mas aí a minha subjetividade por estar a trocar-me as voltas e, presumo eu, a cronista terá feita o seu trabalho de casa antes de afirmar o seu aumento. Não acho provável que a Clara não tenha reparado nas inúmeras caravanas Portuguesas que vejo plantadas por aí fora, por isso sou levado a crer que a Clara acha o comportamento dos caravanistas Portugueses muito mais civilizado que as bestas estrangeiras que invadem Portugal. Quando vou ao supermercado em Aljezur, vejo que a maioria da clientela são (que horror) alemães, espanhõis, alguns ingleses e holandeses. Deixam lá bastantes euros para comprar latas de conservas Portuguesas, vinho e cerveja Portugueses, para não falar do pão de Rogil (em fatias, como é possível?), bolos de alfarroba e figo, fruta e legumes frescos. Volto a encontrar esses estrangeiros nas esplanadas e restaurantes da zona, e, pelo que me parece, consomem o que é habitual nesses lugares. São tipicamente pacíficos e pouco dados a confusões.
Para a Clara, um comportamento reprovável (na sua perspectiva, não a dos caravanistas, claro) exercido por um estrangeiro é bem pior que o mesmo comportamento exercido por um cidadão Portugues. Um estrangeiro a usefruir do paraíso da Clara já é difícil de suportar para ela, mas um que não gasta cá as suas notas, então isso é um escândalo que merece uma crónica.
Sendo a Clara uma pessoa culta, instruída e contratada para partilhar os seus pensamentos sobre a sociedade com uma centena de milhares de leitores do Expresso, esperava-se um pouco mais de reflexão e ponderação nas suas palavras. Se calhar ela devia mas é tirar umas férias, para descansar um pouco a cabeça e voltar a escrever crónicas quando tem algo para dizer, em vez de catalogar pessoas com base na sua nacionalidade ou hábitos de consumo.
Henk Feith