sexta-feira, outubro 08, 2010
Imbecilidade animalista
Nas palavras de Monbiot:
"Had these people tipped a tanker load of bleach into the headwaters of the River Finn, they would have done less damage. The effects would be horrible for a while, but the ecosystem could then begin to recover. The mink, by contrast, will remain at large for years, perhaps millennia. Like many introduced species, American mink can slash their way through the ecosystem, as they have no native predators, and their prey species haven’t evolved to avoid them. Is there anything the animal lovers in Donegal could have done which would have harmed more animals?"
quarta-feira, agosto 18, 2010
Evolução do touro de lide
Aprendi alguma coisa lendo este artigo enviado para a lista ambio por António Eloy. Vale a pena ler.
quarta-feira, julho 28, 2010
Catalunha proíbe touradas
quinta-feira, março 04, 2010
Petição Redução de despesas com animais domésticos (IVA e IRS)
A imagem vem de uma loja de produtos para mimar o seu animal- Acho completamente inaceitável que se pretenda retirar dinheiro às pessoas mais pobres para o dar às pessoas que se dão ao luxo de ter animais domésticos;
- Acho completamente inaceitável que se invoque a protecção da natureza para uma actividade fortemente consumidora de recursos e que é um luxo insustentável;
- Acho completamente inaceitável que se invoquem os direitos dos animais para financiar (via deduções fiscais) a sua posse e manutenção num cativeiro que os impede de manifestarem a sua verdadeira natureza, ainda que, na maior parte dos casos, um cativeiro de luxo.
Para os que acham que a defesa dos direitos dos animais é um almoço que não se paga aqui fica a demonstração de que assim não é. Há pouco a petição tinha mais de 8000 assinaturas. Muito mais que a petição a favor da Reserva Agrícola Nacional, por exemplo, que é muito mais antiga e relevante do ponto de vista ambiental.
E francamente a justificação de sermos modernaços é do mais confrangedor que há.
henrique pereira dos santos
Exmº Sr Presidente da Assembleia da República: Nós, Abaixo Assinado, vimos por este meio solicitar a Vossas Excelências que considerem este pedido, tendo em conta não só os Direitos dos Animais, como a higiene e a saúde pública, a cidadania, a criação de comportamentos evolutivos, a imagem do nosso país e do nosso governo e, acima de tudo, os deveres cívicos que nos cabem a todos. E acreditamos que a Vossas Excelências também. É nosso dever como cidadãos respeitar a natureza e proteger os animais. E é nosso direito também, criar as condições para que esses deveres possam ser cumpridos. Governos e organizações em todo o mundo já actualizaram as suas práticas legislativas relacionadas à protecção dos animais. Portugal, com tantas pontos de vanguarda, não pode ficar para trás, sobretudo no que diz respeito a medidas tão elementares. Como disse Mahatma Ghandi, a grandeza de um povo vê-se pela forma como trata os seus animais. Contudo, muito pouco será possível sem a tomada de medidas, da Vossa parte, o quanto antes. Dignificando não só o trabalho de Vossas Execências pelo país, como o próprio País que representam. Acreditando na Vossa boa consciência, sentido de civilidade e poder de realização, solicitamos em primeiro lugar a redução do IVA e a dedução de despesas com animais no IRS, e ainda, colocar à Vossa consideração, as seguintes medidas: 10 MEDIDAS DE APOIO A PROPRIETÁRIOS ANIMAIS DOMÉSTICOS - PARA UM PAÍS MAIS LIMPO, MAIS JUSTO E MAIS CIVILIZADO: - Redução do IVA nos medicamentos para tratamento animal, com receita médita. - Redução do IVA na alimentação adquirida em veterinários ou lojas da especialidade. - Desconto no IRS das despesas médicas de animais domésticos (consultas, tratamentos, medicação, etc.) - Desconto no IRS das despesas cívicas (seguros de responsabilidade civil, vacinas obrigatórias, urgências hospitalares, etc.) - Punição dura ao abandono animal, com maior vigilância nas épocas balneares. - Criação/aumento de canis e gatis para que seja possível e acessível hospedar animais domésticos por período limitado. - Implementação de medidas/incentivos que estimulem o ramo hoteleiro no sentido de criar condições para clientes com animais de estimação. - Criação de novos espaços urbanos para animais, como parques próprios e “wc’s” caninos. - Instalação de pontos próprios nas ruas, com distribuidor de sacos e contentor para detritos. - Subsídio para particulares que tenham adoptado mais do que um animal doméstico em canis ou gatis públicos. Subscrevemos o nosso pedido com a mais elevada consideração, Lisboa, 15 de Dezembro de 2009. Os signatários
quarta-feira, fevereiro 17, 2010
gente perigosa
Neste parágrafo, são bem visíveis algunsaspectos que mais me afastam do movimento animalista ou, para quem preferir, do movimento que defende os direitos dos animais.
A visão biocêntrica do universo, dos movimentos animalistas, em contraste com a antropocêntrica, que é a minha e a da enorme maioria dos cidadãos das sociedades ocidentais.
O fanatismo e o fundamentalismo com que se defendem os direitos dos animais, são mecanismos análogos a alguns outros (fanatismos e fundamentalismos) que defendem uma visão teocêntrica do mundo e que também entendem que para a impôr vale tudo, porque tudo a ela se subjuga. Depois, é apenas uma mera questão de poder e de meios.
Gonçalo Rosa
domingo, janeiro 10, 2010
160 000 000

sábado, julho 12, 2008
O renascimento da tourada

sexta-feira, julho 04, 2008
Espanha confere direitos humanos aos grandes símios
O comité parlamentar do ambiente de Espanha aprovou uma resolução que confere direitos humanos aos chimpanzés, gorilas e orangotangos.Estima-se que a resolução, que passou com apoio de vários partidos, passará a lei dentro de um ano. Esta resolução enquadra-se no "Great Ape Project" que é uma plataforma constituida por cientistas e filósofos que defendem que os nossos "primos" mais próximos deveriam ser objecto dos mesmos direitos à vida, liberdade e protecção contra a tortura que são conferidos aos seres humanos.
sábado, maio 17, 2008
O camarão e o seitan
Os camarões seriam provavelmente comprados aos miúdos (e também mais graúdos) que os vendiam de porta em porta a preços muito baixos. Estes camarões eram apanhados nas praias próximas, com meios rudimentares, directamente pelos pequenos pescadores que procuravam a subsistência familiar.
Não havia qualquer sistema de frio envolvido entre a apanha do camarão e a sua venda ao consumidor final. Em minha casa, casa de muita gente para alimentar, o camarão era cozido, descascado e quer um pouco da água do cozedura, quer sobretudo as cascas e cabeças do camarão eram passadas por um passe vite com o objectivo de aproveitar tudo o que fosse possível. O que resultava desta operação era usado para o molho branco do recheio dos rissóis. Tenho a vaga ideia, que não posso garantir, que os camarões, apesar de pequenos, eram ainda cortados em pedaços pequenos antes de se misturarem no molho branco para render mais. Tenho quase a certeza de que nem todos os rissóis tinham camarão (embora todos tivessem um forte gosto a camarão por via da tal técnica culinária) porque nessa altura eu não gostava de camarão (dá Deus nozes a quem não tem dentes) e os poucos bocados que apanhava nos rissóis passava-os a uma das minhas irmãs que era das poucas naquela ponta da mesa (a ponta dos mais novos) que gostava de camarão.
Vem esta crónica familiar (vá-se lá saber se inventada se verdadeira) a propósito de uma discussão sobre as consequências desta perturbação recente nos mercados alimentares, sobretudo com a alta dos preços dos cereais.
Nessa discussão referi o seitan como um produto de luxo e alguém perguntou por que razão falava do seitan e não do camarão.
Ora o camarão apanhado e consumido como descrevi não tem nada a ver com produtos de luxo e tem muito pouco de produto insustentável, pelo contrário, é uma maneira racional de consumir elementos importantes para a nossa alimentação com incorporações mínimas de energia e outros recursos.
A razão pela qual referi o seitan como um produto de luxo prende-se com a necessidade de, do ponto de vista da sustentabilidade, considerar luxo a incorporação de energia e a perda inútil de valor alimentar do que comemos e não o seu preço ou o valor moral que se pretende dar a diferentes alimentos.
O seitan é um substituto da carne em dietas vegetarianas e consiste num elemento manipulado de farinha de trigo à qual se retiram (não sei se sempre mas seguramente muitas vezes sem qualquer aproveitamento) os hidratos de carbono para se obter um produto de elevado valor proteico. O processo usa água em abundância (para lavar a farinha dos componentes que não interessam) e energia (para cozer). Ou seja, produzimos uma cultura exigente em solo como o trigo para depois, através de um processo fortemente consumidor de recursos, extrair proteínas que poderiam facilmente ser obtidas a partir de terrenos muito mais pobres, deitando fora grande parte do valor nutricional do que produzimos.
Confrontar estes dois usos dos recursos para alimentação foi o método que escolhi para procurar demonstrar que em matéria de sustentabilidade alimentar é completamente errado olhar para métodos e componentes da alimentação sem avaliar toda a cadeia que está a montante da chegada dos produtos ao prato.
Dizer de forma simplista que as dietas vegetarianas são mais sustentáveis que as dietas omnívoras, esquecendo que o mercado dos legumes e frutas é hoje um mercado largamente insustentável (mesmo que muitas vezes seja biológico) é o mesmo que dizer que o consumo de camarão é sempre um luxo (não falo sequer do caviar que um dos meus sobrinhos quase bebé comia às colherinhas (de vez em quando) no país em que vivia, um dos maiores produtores do mundo de caviar onde o valor alimentar é popularmente reconhecido como muito favorável para as crianças). Ou o mesmo que dizer que as dietas vegetarianas são sempre absurdas.
Sendo a sustentabilidade do nosso consumo muito influenciada pela alimentação parece-me que seria bom racionalizarmos a discussão e abandonar muitos dos preconceitos que têm dificultado discussões serenas e profícuas sobre a matéria.
Começando por abandonar os anátemas morais sobre tipos de alimentos e concentrarmo-nos na análise de todo o ciclo de vida de cada produto alimentar que nos chega ao prato.
henrique pereira dos santos
terça-feira, outubro 17, 2006
Animalistas soltam 15,000 exóticas na Galiza

Um grupo de alegados defensores dos animais soltou 15,000 indivíduos de um predador exótico, Mustela vison, nos campos da Corunha. Muitos desses indivíduos foram capturados, outros morreram, outros, inevitavelmente, sobreviverão e reproduzir-se-ão algures na Corunha. Já existem Visões na Corunha pelo que não criarão um problema de raiz. No entanto acentuarão um problema existente, designadamente no que se refere ao incremento da pressão sobre espécies autóctones como a Marta (Martes marta).
Acções como esta lembram-me o caso dos esquilos exóticos americanos nos Alpes Italianos. Alegados defensores dos animais (vulgo animalistas) conseguiram impedir as autoridades ambientais de prosseguir os esforços de erradicação desta espécie invasora com vista a reduzir a pressão que esta exercia sobre os esquilos vermelhos dos Alpes (nas Ilhas Britânicas os Esquilos americanos levaram à extinção do Esquilo vermelho em quase todo o território).
Este é mais um caso de voluntarismo bacoco, ignorante e contraproducente que, infelizmente, caracteriza muitas das acções dos alegados defensores dos animais. Era conveniente que o movimento ambientalista (nomeadamente a CPADA, Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente, dado que possui animalistas no seu interior), se demarcasse publicamente deste tipo de actos, sob risco de alguns tentarem uma colagem (como aconteceu com o caso da Quercus e dos touros) estratégica entre animalismo e ambientalismo que em nada beneficiará a causa ambiental.
sexta-feira, setembro 15, 2006
Terrorismo em prol dos animais
O problema está numa ideologia que sustenta a ideia de que os animais não humanos devem ter “direitos” na sociedade humana. Levado ao extremo estes “direitos” privariam os humanos de exercer poder sobre animais não humanos, por exemplo, limitando ou abolindo a utilização de animais para alimentação humana.
É natural que tal ideologia gere comportamentos antisociais. A realidade é de tal maneira contrastante com os princípios defendidos por esta ideologia que é difícil de conceber que pelo menos alguns dos seus defensores não sintam a necessidade de perpetrar actos violentos para impor as suas ideias.
É o que se tem passado no Reino Unido e agora nos EUA. Hoje o editorial da revista “Science” denuncia episódios de terrorismo perpetrado por defensores dos animais contra investigadores norte americanos e suas famílias. O articulista conclui:
“(…) the terrorists, equipped with a kind of moral certainty that cannot distinguish righteous from right, are likely to continue this campaign unless the law of the land makes it clearly illegal and punishable”.
Tenho em crer que o absolutismo moral desta ideologia já chegou a Portugal. No entanto, talvez por sermos um povo de brandos costumes, ainda não se manifestou da mesma forma violenta como se tem vindo a manifestar nos países de matriz anglo-saxónica. Mas creio que não faltará muito tempo para que isso aconteça.
Como os artigos da “Science” só estão disponíveis aos assinantes desta revista alguém com acesso ao seu conteúdo teve a delicadeza de colocar o referido editorial como primeiro comentário a este “post”.
sexta-feira, maio 26, 2006
Animais e economia rural
Para responder com mais espaço retomei um velho texto que escrevi na lista de discussão da ambio a propósito da pegada ecológica das dietas vegan em comparação com outras dietas.
Aqui fica a minha resposta à questão de saber se a produção de trigo em Portugal é menos impactante que a produção de porco preto ou de borrego ou de cabrito.
O argumento base é a de que há uma perda de 90% da energia utilizável cada vez que se sobe um patamar na cadeia trófica. E este argumento é genericamente verdadeiro, sendo utilizado para explicar que se todos fôssemos vegetarianos poderíamos alimentar muito mais gente e, consequentemente, ter uma pegada ecológica mais pequena.
Qual é o problema desta argumentação?
É que a produção de cereais (e de grande parte das proteínas de origem vegetal) é bastante exigente em solos e disponibilidade hídrica.
Sendo assim como foi resolvido o problema pelas sociedades mediterrânicas tradicionais?
Os melhores solos foram reservados para a agricultura (sobretudo cereais de inverno, trigo, centeio, cevada) quando não há água.
E hortas de produção muito intensiva para os primores (e a língua não deixa mentir sobre o carácter excepcional desta produção) quando há água, cuja tecnologia de gestão foi aproveitada para os cereais de regadio (milho, sobretudo) quando a primeira grande vaga da globalização proporcionada pelos Descobrimentos permitiu a introdução desta exótica (juntamente com o feijão, cultivado em consociação porque permite azotar o solo e produzir proteína vegetal e, mais tarde, em consequência da doença da tinta do castanheiro, também a batata que até essa altura era apenas usada para dar aos porcos).
Esta é aliás a base da alimentação tradicional mediterrânica, seja o pão por estas paragens, seja o pão e as massas, lá para o lado da Itália, essa sim, rica agricolamente e grande produtora de trigos duros.
Na zona de Portugal que conheço melhor, a base da alimentação a partir do século XVI e XVII é o caldo de couves com feijão, mais tarde com acrescento das batatas, tudo acompanhado com quantidades astronómicas de broa de milho.
É a partir desta altura que o País se entorna para o litoral do ponto de vista demográfico porque o milho (e o feijão) permitem alimentar muito mais gente.
Mas neste cantinho da Europa os solos agrícolas são uma raridade e preciosidade (um interregno para mais uma vez clamar por uma maior atenção do movimento ambientalista em relação aos solos agrícolas e à RAN, que é para nós muito mais importante que a REN). O que significa que a grande maioria do território ficaria despovoado e maninho, sem grande utilidade produtiva se a nossa dieta fosse exclusivamente vegetariana.
Porque é o gado miúdo que se encarrega de transformar urzes, carqueijas, tojos e etc., em matéria comestível por nós (com certeza que há sempre aquela velha história do abade que um dia, em consequência de uma aposta, fez um pudim de ovos com palha cortada muito fininha e o deu a comer ao Rei D. Carlos, grande gastrónomo, concluindo no fim que todo o burro come palha, a questão é saber dar-lha, tudo isto a propósito do divinal pudim do abade de priscos, que é feito com banha de porco).
Cabras sobretudo nas agrestes serras do Norte e Centro (e o facto de ser a chanfana de cabra o prato tradicional dos casamentos das serras xistosas do centro traduz bem a sua pobreza extrema quando comparada com a pobreza remediada mais a Norte, em que se come cabrito), ovelhas e porcos de montanheira nos xistosos e mais suaves relevos femininos do Sul.
Naturalmente há ainda a caça, a pesca (em grande medida por razões religiosas que impunham a abstinência à sexta-feira, na quaresma e noutras vésperas de festividades, como é o caso do bacalhau e do polvo, salgados e secos para se poderem conservar e transportar, no dia de jejum e abstinência que é a véspera de Natal).
E há produção de frutos secos, com a castanha à cabeça de todos, sobretudo no Nordeste, mas em todo o lado onde era possível produzir castanha, até a doença da tinta ter obrigado as pessoas substituí-las por batatas.
Bem como as azeitonas (a oliveira parece vir com os árabes e expandir-se a partir dos passais das igrejas, onde eram cultivadas para se poder substituir o combustível da iluminação porque o azeite era bastante mais conveniente que o sebo de origem animal usado anteriormente), os figos em Torres Novas e no Algarve e, sobretudo, o vinho, que uma bebida que é sagrada há mais de dois mil anos alguma virtude terá (a última ceia, como todos sabemos, é exemplarmente ilustrativa da dieta mediterrânica ao ser consituída por pão e vinho).
Ora para trabalhar a terra o trabalho animal é fundamental (sem ele, não só a vida seria ainda mais dura, como se alimentaria muito menos gente), e portanto a junta de vacas no norte, e de bois nos solos mais fundos do ribatejo, tem o seu papel, tendo como benefício marginal a produção de leite e vitelos, que ajuda à sacralização destes animais através do ritual sacrificial da tourada ou das chegas de bois no Norte, utilizados como mecanismos de melhoramento genético.
Neste sistema o gado não substitui nunca a produção agrícola mas emerge onde não é possível produzir mais nada, porque o solo não dá como nos montes escalavrados ou nos prados salgados da lezíria ou do baixo Vouga lagunar.
Para além destas duas funções, o gado tem uma importância extraordinária num aspecto central da sustentabilidade do sistema: a manutenção do fundo de fertilidade do solo através da produção de estrumes (por amor de Deus não me venham contrapôr com a produção de composto), que é o que permite levar ao máximo a capacidade produtiva dos solos agrícolas.
Ora o que está em causa nestas discussões é que a dieta que resulta de todos estes sistemas, que é claramente omnívora com baixos consumos de carne e peixe, não por opção mas por falta de opção, é que deve ser contraposta às dietas vegan.
As dietas vegan são tão filhas da industrialização da produção agrícola e do mundo rural como o macdonalds. Comparando estas duas dietas, não tenho qualquer dúvida de que a dieta vegan é incomparavelmente melhor do ponto de vista ambiental que o macdonalds ou todas as dietas demasiado ricas em carne e peixe (mas as duas são tristemente monótonas do ponto de vista cultural, não porque não seja possível inventar mil pratos diferentes com os mesmos ingredientes, mas porque lhes falta o enraízamento à terra que só as culturas rurais longamente sedimentadas permitem).
Mas comparando estas duas dietas com a anterior (e como se diz, muito bem, mudar de dieta é, actualmente, mais difícil que mudar de religião) tenho as maiores dúvidas da sustentabilidade das dietas vegan, sobretudo porque assente em preconceitos ambientais errados que levam pessoas muito bem intencionadas e com o enorme mérito de conseguirem definir a sua dieta em função de paradigmas sociais que acham preferíveis, preferir o seitan, produzido com enormes perdas do valor alimentar o trigo, ao fumeiro de Vinhais.
Isto é, se alguém quiser mudar a pegada ecológica a partir da sua dieta, que procure avaliar o efeito de todo o ciclo produtivo do que está a comer (e já agora, não se fique pela economia e a ecologia e olhe bem para as culturas que a sua dieta suporta ou agride).
Por mim acho este esforço vão (pessoalmente dá uma tranquilidade moral grande pensar que o mundo pode estar muito mal, mas é responsabilidade dos outros) e prefiro pugnar por uma energia mais cara que internalize os seus efeitos ambientais no preço, porque acredito mais na eficácia da racionalidade económica que na mudança da natureza humana.
henrique pereira dos santos
quinta-feira, maio 25, 2006
Quercus contra as touradas

A Quercus apoiou uma manifestação contra as touradas, no Campo Pequeno, promovida por organizações defensoras dos direitos dos animais. Muitos ambientalistas, entre os quais alguns membros desta organização, consideram esta posição um anacronismo. Outros consideram-na uma posição louvável. Este é um tema que divide mais do que une os ambientalistas e o blogue da ambio oferece o espaço de comentários a esta mensagem para que cada um deixe a sua opinião sobre a matéria.
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PS (30 de Maio de 2006)
Seria bom que algumas pessoas entendessem que as associações devem tomar posições que reflictam, sempre que possível, o pensamento dos seus associados. E para que tal aconteça as associações devem concentrar-se no que é essencial e não no acessório.
E o que é essencial? Essencial, no quadro de uma associação, é o que une e motiva as pessoas a constituir-se como associação.
Neste contexto cumpre perguntar se a causa das touradas está relacionada com devir da associação Quercus e se é partilhada pela maioria dos associados?
Bastará conhecer um pouco da história desta associação para entender que não foi esta causa que esteve na origem da sua fundação. Também não foi o vegetarianismo, muito menos a ideologia que alguns teimam em colar a opções de dieta que são, ou deveriam ser, do foro pessoal.
Quem quer defender ideias pessoais em matéria de valores morais tem dois caminhos: fazê-lo sozinho ou fazê-lo no quadro de organizações que perfilham esses pontos de vista.
Tomar de assalto uma associação, com um capital de prestigio conquistado noutras batalhas, como é a Quercus, para agendas pessoais, terá inevitavelmente a oposição dos que se revêm numa linha mais próxima dos princípios fundadores da organização.
Fotografia de João Santiago
segunda-feira, maio 19, 2003
Deverão os animais ser objecto de direito?
Creio que os animais não devem ser objecto de “direito”. Esta é, para mim, uma questão formal. O “DIREITO” é um conceito inventado por humanos para regular a sociedade. Sem a invenção das normas de convivência em sociedade, posteriormente formalizadas em quadros legais e antes disso em normas de moral religiosa, viveríamos hoje em estado semi-selvagem. Matando-nos e comendo-nos uns aos outros como se ainda observa em alguns recondidos lugares do planeta. Os direitos são uma invenção humana para condicionar os seus instintos mais básicos e assegurar o progresso social. Ou seja, são normas internas à sociedade. Fora dela, vigoram outras leis. Leis, mal ou bem, aproximadas pelo pai da Biologia moderna, Charles Darwin. Leis que, para nós humanos, são consideradas de desumanas. O principio da extensão de direitos sociais humanos a outros conjuntos de seres vivos representa, quanto a mim, o passo supremo de antropocentrismo. O passo que consagra um olhar sobre o mundo animal fora do quadro das regras e princípios que caracterizaram a sua evolução natural.
Dito isto, convém referir que não defendo a aceitação da prática de actos de barbárie sobre animais. Assim como julgo termos uma responsabilidade moral de legar aos nossos filhos um ambiente em condições (incluindo um potencial evolutivo o mais próximo do que seria se não fosse afectado por nós) também julgo termos uma responsabilidade de tratar os animais (especialmente os animais por nós criados e multiplicados) com normas básicas de decência. Como dizia o José Carlos Marques, há uns anos, temos o dever de tratar os animais com humanidade. Assim, substituindo a frase “direitos dos animais” (que me parece incorrecta) por “deveres para com os animais” (reflecte exactamente o que estamos a falar) eu concordaria com uma grande maioria (mas não todas) das medidas preconizadas por alguns alegados defensores dos animais.
2 – Sobre símios
Não há regra sem excepção. O caso dos símios é um dos que faz abalar as minhas convicções mais profundas. Não tanto pelos argumentos aventados, ou seja, o das capacidades cognitivas, mas sobretudo por representarem o último reduto de humanidade (no sentido prosaico do termo) fora da espécie humana. Sejamos claro: - Se hoje não existem mais espécies de hominídios, além do Homo sapiens, foi porque os nossos antepassados os exterminaram. O nepotismo, o bairrismo, o nacionalismo, o racismo e outros “ismos, são variantes do mesmo comportamento de “clã” que caracteriza a nossa espécie e cujo expoente máximo é o “especismo”, ou seja, a tendência para marginalizar outras espécies. Esta tendência é tanto maior quanto maior for o conflito de interesses entre a nossa e outras espécies. Foi esta característica marcada que fez com que os Ibéricos exterminassem os últimos homens e mulheres de Neendertal e que outros tivessem extinguido as dezenas de espécies de hominídios coincidentes, no tempo, com o Homo sapiens. Imaginem, por um momento, que não tínhamos exterminado outras espécies de hominídios? Teriam eles direitos? Para mim é óbvio que sim e é nesse quadro que considero os símios. Os símios não são hominídios mas são o mais próximo que nos resta deles. Mais! Se não adoptarmos medidas drásticas para a sua conservação correm o risco de ser extintos em pouco mais de uma década. Ainda que o direito não tenha sido inventado para eles e – rigorosamente – não lhes seja aplicado, não me chocaria criar um caso de excepção para este grupo de organismos. Se é verdade que não existem direitos sem deveres, também é verdade que já aceitamos a excepção dos deficientes mentais. Porque não alargar a extensão a animais que, em certos casos, até são mais próximos dos humanos que alguns deficientes mentais da nossa espécie? Pela minha parte não me importaria de pagar o arranjo da perna de um chimpanzé que caiu da bicicleta mais do que me importa pagar outras tantas despesas públicas que se vêem por aí. Provavelmente se me desse a escolher até canalizaria toda a minha contribuição, para a segurança social, para a segurança dos gorilas, chimpanzés e bonobos.
3 – Vegans
Não percebi muito bem qual a origem da discussão e o porquê da animosidade. Vegans são os que preferem não comer ou vestir nada que seja de origem animal. Os vegans que conheço são os primeiros a reconhecer que este não é um comportamento natural. Mas estão conscientes que se sentem melhor com esta escolha? E daí? Pessoalmente já me desagradaria se os vegans se sentissem moralmente superiores e procurem fazer alarde desse sentimento de forma menos respeitosa. Mas na realidade sentir-me-ia igual desagradado se esse comportamento viesse de comedores de carne fanáticos. Quanto à questão do impacte ambiental dos vegans a minha posição é simultaneamente coincidente com a da Estrela e do Carlos Aguiar. Numa sociedade fortemente orientada para o consumo de produtos animais não há mal nenhum no desenvolvimento de correntes de tendência oposta já que o balanço é, necessariamente um consumo global mais equilibrado e uma pressão menor sobre a produção industrial de produtos animais. Por outro lado se atingíssemos um cenário oposto, de prevalência de vegans, os carnívoros teriam um papel fundamental para justificar a manutenção de sistemas tradicionais de pastorícia em conflito com novas monoculturas da soja e afins. Em todo o caso tenho algumas dúvidas que esse seja um cenário realista nas próximas gerações.
Sobre Peter Singer e a sua filosofia
(...)
Para Peter Singer a fronteira moral para atribuição de direitos a um ser vivo está na sua “personhood”, a que o autor associa à capacidade, ou não, que um ser tem de sofrer. I.e. todo a “pessoa” que tenha capacidade de sofrer deve ter o direito a não sofrer, independentemente da sua religião, sexo, cor, ou espécie. O direito que os individuos de uma espécie têm de ter prazer, termina com o direito de individuos de outra espécie a não sofrer. Esta seria a base moral para acabar com as touradas, zoos e toda a manipulação animal que lhes cause sofrimento.
Na sequência deste raciocinio Peter Singer avança que nem todas as “pessoas” são humanas e que alguns humanos não são “pessoas”. Decorre que os humanos que não tenham as capacidade para sofrer, de acordo com os parametros definidos, não têm direitos humanos. A teoria de Peter Singer leva-o, por exemplo, a afirmar que matar uma criança ou um deficiente mental - p.e. com sindroma de Down - é menos crime que matar um chipanze adulto que, como é sabido, tem mais capacidades cognitivas que uma criança com menos de 3 anos de idade. Este autor vai mais longe afirmando que uma criança recém nascida (a fronteira são os 28 dias após o nascimento), por não ser uma pessoa de acordo com a definição, tem menos direito à vida que outros individuos e seres mais evoluidos. O direito à vida ou morte de uma criança recém nascida é, assim, dominio exclusivo dos pais. Para o autor, será preferivel matar uma criança do que deixá-la viver se a sua vida afectar a felicidade/dor de individuos ou seres com maior capacidade cognitiva. O mesmo autor defende que é criminoso gastar-se dinheiro com velhos doentes, p.e. com alzeimer, quando esse dinheiro poderia ser utilizado para aliviar o sofrimento de “pessoas”, humanas ou não. Neste casos o autor defende que o mais adequado é exterminar estes seres (inferiores) a bem da felicidade de outros seres (superiores). A carácter de preferência que a nossa espécie dá a si própria em detrimimento de outras espécies -especismo- é, para Peter Singer, tão depresível como outras formas de descriminação (p.e. racismo, chauvinismo, machismo, etc).
Esta teoria é a consequência lógica da racionalização do que, para muitos, é apenas uma reacção emotiva a ver “os bichos sofrer”. Obviamente que poderão haver várias nuances às ideas de Peter Singer. A sua teoria decorre da racionalização dos direitos dos animais sem condicionantes morais, judaico-cristãos, associados. Se não abdicarmos explicitamente da sacralização da vida humana e colocarmos os seres humanos num patamar distinto das restantes “pessoas” não humanas as ideias de Peter Singer não chocarão tanto. O problema, porém, é que no dia em que dermos direitos humanos a não humanos teremos aberto o precedente para uma revolução moral (e legal) bem mais profunda do que se poderá fazer crer à partida. Inevitavelmente a lista de candidatos a protecção legal aumentará e inevitavelmente os seus direitos começarão a chocar com os direitos dos humanos. (...)


