"Explique lá que mecanismos legais é que utilizaria para fazer o desvio "das low cost para outros aeroportos".
Nestes dias tenho aqui escrito sobre comboios, matéria de que percebo pouco.
E agora, com este comentário, vou acabar a escrever sobre aviões, matéria sobre a qual ainda sei menos.
E por que razão escrevo sobre isso?
Porque o dinheiro envolvido nestas coisas é meu, porque quem paga a infra-estruturação do país são pessoas medianamente ignorantes no assunto como eu e porque a paisagem onde se localizam estas coisas, que é alterada por elas, também faz parte do património comum das pessoas comuns.
Mas deixo claro que posso dizer aqui asneiras várias, umas mais básicas, outras menos relevantes que isso não diminui um átomo o meu direito de perceber por que razão se tomam decisões cuja conta me é apresentada a mim, quer sobre a forma de uma dívida que põe em causa a autonomia do país, quer sob a forma de degradação do património comum.
Quem gasta o meu dinheiro é que tem obrigação de explicar essa opção de modo a que as pessoas comuns percebam as opções feitas, não sou eu que tenho de tirar um doutoramento em transportes para poder discutir políticas públicas.
Aqui chegado retomo então a questão de cima sobre aeroportos.
E retomo-a começando por estranhar a forma como ela é colocada. Porquê mecanismos legais? Por mim, há questões legais com certeza a tratar, mas essas não são as relevantes porque são instrumentais.
Desviar as low cost é fácil: é oferecer-lhes taxas mais baixas noutros aeroportos.
A história do novo aeroporto e da minha incompreensão sobre a decisão de fazer um novo aeroporto em Lisboa começa muito atrás.
Tanto quanto percebi o novo aeroporto de Lisboa nasce de algumas dificuldades operacionais do aeroporto da Portela, enormemente potenciadas por um sonho: o de criar um grande aeroporto português para competir com Barajas, Londres, Amesterdão, Frankfurt, Paris, e por aí fora.
Se Portugal conseguir criar esse grande aeroporto, o benefício económico será brutal (as contas, mais uma vez, devem ter sido feitas por Marvão Pereira e Jorge Andraz).
Note-se que o se não é um pormenor. Este se implica mobilizar investimento público e desviar capacidade de investimento público e privado para este objectivo, num país fortemente endividado e carente de investimento. E por outro lado implica assumir um risco do tamanho do sonho que alimenta o aeroporto de Lisboa.
Experimentemos olhar para o assunto fora desta ideia de pôr o desenvolvimento do país assente em grandes desígnios estratégicos alimentados com dinheiros públicos.
Comecemos a tentar aumentar o tempo de vida do aeroporto da Portela, redesenhando a infra-estrutura militar.
Não sei o suficiente sobre a defesa nacional para ter nenhuma certeza sobre o assunto, mas tenho as maiores dúvidas de que seja necessário concentrar no litoral, e em volta de Lisboa, grande parte dessa infra-estrutura no que diz respeito a bases aéreas.
Não tenho a certeza de que a nossa Defesa precise do aeroporto militar de Figo Maduro, de que a base do Montijo tenha de estar no Montijo, que o campo de tiro de Alcochete tenha de ser ali, de que a base militar de Monte Real e São Jacinto tenham de ser onde são, e por aí fora.
Portanto, sendo certo que deslocar infra-estruturas militares não é fácil, a verdade é que é possível. E mais que isso, que me pareceria lógico que o Estado Português se empenhasse em empurrar para o interior uma boa parte destas infra-estruturas militares, contribuindo dessa forma para o equilíbrio populacional e económico do país.
O que aparentemente uma estratégia deste tipo permitiria era ir respondendo à evolução da procura disponibilizando alternativas à medida das necessidades, deixando aos privados o investimento de transformação de bases militares em aeroportos civis secundários, ficando o Estado com o investimento na criação de novas bases militares, coisa ainda assim bastante menos onerosa que construir aeroportos.
Encerremos esta questão, que gostaria de perceber se faz algum sentido ou não, e retomemos o assunto na base civil.
Portugal tem um aeroporto com problemas de sobrecarga, em Lisboa, e um aeroporto sub-utlilizado no Porto. Prevê-se, com a alta velocidade que estes dois aeroportos fiquem separados por qualquer coisa como duas horas de distância.
Mas mesmo não contando com a futura alta-velocidade Lisboa/ Porto, já hoje estes aeroportos estão ligados pelo metro do Porto, que liga directamente o aeroporto a Campanhã e pela CP. E funciona de facto como constata qualquer pessoa que use frequentemente o metro do Porto e saia em Campanhã. Um dia também o metro de Lisboa chegará ao aeroporto da Portela (supõe-se que ainda seja este ano, a menos que os planos de expansão do metro de Lisboa também tenham sido alterados).
Ora nestas circunstâncias o que parece lógico a quem não tenha um desígnio estratégico de condução da economia, mas apenas o objectivo ter uma economia a funcionar eficientemente na resolução das necessidades das pessoas?
Naturalmente que o reforço da operação no aeroporto do Porto captaria tráfego desviando-o de Lisboa. O que, do meu ponto de vista, significaria pôr os dois aeroportos em concorrência, retirando o aeroporto do Porto da tutela da ANA (aliás acusada de fazer exactamente o contrário para justificar o novo aeroporto, mas admito que seja uma acusação infundada) e concessionando-o em concurso público, vedado à ANA naturalmente.
O mesmo se diria de alguns pequenos aeroportos secundários que se poderiam fazer a partir de algumas das bases militares existentes (há quem se tenha mostrado interessado em Monte Real, que poderia ajudar a encher a auto-estrada vazia que passa ao lado e a mobilizar esforços para o investimento na via férrea do oeste, mas o mais óbvio parece-me ser o Montijo).
Já sei que me vão argumentar com as aves e etc., mas isso é treta. Não que a concentração de aves não seja um problema de segurança nos aeroportos, não que o Montijo não tenha as suas pistas muito próximas de áreas importantes para a avifauna, mas porque a segurança dos aviões não é substancialmente diferente nas localizações alternativas de que se fala e a conservação não é um valor absoluto, devendo ser ponderada em confronto com outros valores públicos. Incluindo a cada vez mais difícil situação financeira do país e o desperdício de recursos que pode existe se o tal grande aeroporto europeu se ficar pelo único verdadeiro aeroporto nacional de dimensão média, como tem sido até hoje o aeroporto da Portela.
henrique pereira dos santos
Nestes dias tenho aqui escrito sobre comboios, matéria de que percebo pouco.
E agora, com este comentário, vou acabar a escrever sobre aviões, matéria sobre a qual ainda sei menos.
E por que razão escrevo sobre isso?
Porque o dinheiro envolvido nestas coisas é meu, porque quem paga a infra-estruturação do país são pessoas medianamente ignorantes no assunto como eu e porque a paisagem onde se localizam estas coisas, que é alterada por elas, também faz parte do património comum das pessoas comuns.
Mas deixo claro que posso dizer aqui asneiras várias, umas mais básicas, outras menos relevantes que isso não diminui um átomo o meu direito de perceber por que razão se tomam decisões cuja conta me é apresentada a mim, quer sobre a forma de uma dívida que põe em causa a autonomia do país, quer sob a forma de degradação do património comum.
Quem gasta o meu dinheiro é que tem obrigação de explicar essa opção de modo a que as pessoas comuns percebam as opções feitas, não sou eu que tenho de tirar um doutoramento em transportes para poder discutir políticas públicas.
Aqui chegado retomo então a questão de cima sobre aeroportos.
E retomo-a começando por estranhar a forma como ela é colocada. Porquê mecanismos legais? Por mim, há questões legais com certeza a tratar, mas essas não são as relevantes porque são instrumentais.
Desviar as low cost é fácil: é oferecer-lhes taxas mais baixas noutros aeroportos.
A história do novo aeroporto e da minha incompreensão sobre a decisão de fazer um novo aeroporto em Lisboa começa muito atrás.
Tanto quanto percebi o novo aeroporto de Lisboa nasce de algumas dificuldades operacionais do aeroporto da Portela, enormemente potenciadas por um sonho: o de criar um grande aeroporto português para competir com Barajas, Londres, Amesterdão, Frankfurt, Paris, e por aí fora.
Se Portugal conseguir criar esse grande aeroporto, o benefício económico será brutal (as contas, mais uma vez, devem ter sido feitas por Marvão Pereira e Jorge Andraz).
Note-se que o se não é um pormenor. Este se implica mobilizar investimento público e desviar capacidade de investimento público e privado para este objectivo, num país fortemente endividado e carente de investimento. E por outro lado implica assumir um risco do tamanho do sonho que alimenta o aeroporto de Lisboa.
Experimentemos olhar para o assunto fora desta ideia de pôr o desenvolvimento do país assente em grandes desígnios estratégicos alimentados com dinheiros públicos.
Comecemos a tentar aumentar o tempo de vida do aeroporto da Portela, redesenhando a infra-estrutura militar.
Não sei o suficiente sobre a defesa nacional para ter nenhuma certeza sobre o assunto, mas tenho as maiores dúvidas de que seja necessário concentrar no litoral, e em volta de Lisboa, grande parte dessa infra-estrutura no que diz respeito a bases aéreas.
Não tenho a certeza de que a nossa Defesa precise do aeroporto militar de Figo Maduro, de que a base do Montijo tenha de estar no Montijo, que o campo de tiro de Alcochete tenha de ser ali, de que a base militar de Monte Real e São Jacinto tenham de ser onde são, e por aí fora.
Portanto, sendo certo que deslocar infra-estruturas militares não é fácil, a verdade é que é possível. E mais que isso, que me pareceria lógico que o Estado Português se empenhasse em empurrar para o interior uma boa parte destas infra-estruturas militares, contribuindo dessa forma para o equilíbrio populacional e económico do país.
O que aparentemente uma estratégia deste tipo permitiria era ir respondendo à evolução da procura disponibilizando alternativas à medida das necessidades, deixando aos privados o investimento de transformação de bases militares em aeroportos civis secundários, ficando o Estado com o investimento na criação de novas bases militares, coisa ainda assim bastante menos onerosa que construir aeroportos.
Encerremos esta questão, que gostaria de perceber se faz algum sentido ou não, e retomemos o assunto na base civil.
Portugal tem um aeroporto com problemas de sobrecarga, em Lisboa, e um aeroporto sub-utlilizado no Porto. Prevê-se, com a alta velocidade que estes dois aeroportos fiquem separados por qualquer coisa como duas horas de distância.
Mas mesmo não contando com a futura alta-velocidade Lisboa/ Porto, já hoje estes aeroportos estão ligados pelo metro do Porto, que liga directamente o aeroporto a Campanhã e pela CP. E funciona de facto como constata qualquer pessoa que use frequentemente o metro do Porto e saia em Campanhã. Um dia também o metro de Lisboa chegará ao aeroporto da Portela (supõe-se que ainda seja este ano, a menos que os planos de expansão do metro de Lisboa também tenham sido alterados).
Ora nestas circunstâncias o que parece lógico a quem não tenha um desígnio estratégico de condução da economia, mas apenas o objectivo ter uma economia a funcionar eficientemente na resolução das necessidades das pessoas?
Naturalmente que o reforço da operação no aeroporto do Porto captaria tráfego desviando-o de Lisboa. O que, do meu ponto de vista, significaria pôr os dois aeroportos em concorrência, retirando o aeroporto do Porto da tutela da ANA (aliás acusada de fazer exactamente o contrário para justificar o novo aeroporto, mas admito que seja uma acusação infundada) e concessionando-o em concurso público, vedado à ANA naturalmente.
O mesmo se diria de alguns pequenos aeroportos secundários que se poderiam fazer a partir de algumas das bases militares existentes (há quem se tenha mostrado interessado em Monte Real, que poderia ajudar a encher a auto-estrada vazia que passa ao lado e a mobilizar esforços para o investimento na via férrea do oeste, mas o mais óbvio parece-me ser o Montijo).
Já sei que me vão argumentar com as aves e etc., mas isso é treta. Não que a concentração de aves não seja um problema de segurança nos aeroportos, não que o Montijo não tenha as suas pistas muito próximas de áreas importantes para a avifauna, mas porque a segurança dos aviões não é substancialmente diferente nas localizações alternativas de que se fala e a conservação não é um valor absoluto, devendo ser ponderada em confronto com outros valores públicos. Incluindo a cada vez mais difícil situação financeira do país e o desperdício de recursos que pode existe se o tal grande aeroporto europeu se ficar pelo único verdadeiro aeroporto nacional de dimensão média, como tem sido até hoje o aeroporto da Portela.
henrique pereira dos santos




henrique pereira dos santos












