Hoje fui informado através da comunicação social por uma meia dúzia de vezes que um terço das plantas e animais do planeta está em vias de extinção. IUCN dixit.
Mas tive sorte. Fui visitado por duas pessoas cheias de conhecimento que me falta a mim, para falar sobre um projeto de proteção de anfíbios e resolvi dar um grande passeio com eles.
Mostrei-lhes o que corre sérios riscos de ser a melhor galeria ripícola da bacia hidrográfica do Tejo. São 6 km de sucessões de habitats classificados, percorremos aos trambolhões uma pequena parte, onde o amial adulto faz lembrar as florestas aluviais do Danúbio, com árvores cobertas de Hera que mal aguentam o seu peso, onde os lodãos-bastardes ocupam rapidamente qualquer clareira que se abre após queda de uma árvore vencida, onde os vestígios de lontras fazem sonhar com um vislumbre dos brincalhões, onde carvalhos-cerquinhos de grande porte nas encostas aguentam estoicamente a dinâmica das colegas ribeirinhas, onde os salgueiros torcidos mostram a sua beleza envelhecida.
Os poucos vestígios de utilização humana histórica vão caindo sob o peso do passar das décadas. A ribeira viu fogos florestais a passar-lhe ao lado sem lhe tocar, viu os campos agrícolas adjacentes a serem abandonados e ocupados por amieiros de seguida. Passou décadas a produzir através da talhadia de amieiro, mas entrou na reforma já lá vão também umas décadas. E está a ficar um pouco gorda.
É a Ribeira da Foz. Perdida na charneca ribatejana, num vale encaixado, rodeado de eucaliptais a perder de vista. É extraordinária e (quase) ninguém dá por ela. Não é classificada, nem integra a rede Natura2000, não teve qualquer estatuto de proteção desde que essas modernices foram inventadas. E mesmo assim é a pérola que é. Lá vai ela, levando a sua água ao Tejo, que a leva ao mar, o ano inteiro. Ela não sabe do IUCN e da extinção. Se calhar, se soubesse, encolhia os ombros e pensava que não seria por causa dela. É uma grande senhora.
E olha só para ela...
Henk Feith