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quarta-feira, agosto 25, 2010

150 000 cabras, 48 milhões de euros

O projecto pelos seus promotores (ou pelo relato da sua apresentação que dele faz o jornal Cinco Quinas, porque no site dos promotores há dificuldade em ter acesso a informação mais detalhada, embora no primeiro jornal do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial, a páginas 8 e 9, se faça uma descrição genérica):
"O Director Geral do AECT Duero-Douro, José Luis Pascual Criado, pormenorizou as características do Projecto Self-Prevention. Segundo as suas palavras, além de actuar activamente para a prevenção de incêndios, o Projecto contribui para um modelo de desenvolvimento socioeconómico para todo o território do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial Duero-Douro.
Disse que o investimento em matéria de prevenção é necessário para terminar com o fogo, mas também é necessário o envolvimento dos habitantes. Defendeu o Self-Prevention como projecto social, territorial, para as pessoas que moram nele, gerando um plano de futuro a longo prazo.
...
Está-se a trabalhar no Projecto Self-Prevention a partir da base, ou seja, a prevenção de incêndios.
Este visa reintroduzir 150.000 cabeças de gado para que sejam os próprios animais os "limpadores naturais" dos campos agrícolas abandonados, matos e valetas, deixando livres de vegetação aquelas zonas de potencial perigo de incêndio.
O projecto irá implantar-se num território fronteiriço de Portugal e Espanha, num total de 9 mil Km2, com 125 mil habitantes, e envolverá 187 entidades públicas dos dois países.
Após o investimento inicial, calculado em perto de 49 milhões de euros, estima-se uma rentabilidade anual do projecto de 30 milhões de euros. Com este projecto estima-se a criação de 558 postos de trabalho especializado, até porque está prevista a criação de 12 queijarias, uma central de comercialização, dois matadouros, 15 lojas de venda de produtos, e uma plataforma logística de transporte e distribuição, para além de se acreditar em novas potencialidades turísticas da região.
Para a concretização do projecto espera-se agora a adesão dos agricultores, onde existe a influência deste projecto. Os agricultores que apostarem nesta iniciativa, por cada cabra que coloque no projecto, recebe uma acção, e os proprietários de terrenos recebem três acções por hectare. Os lucros obtidos serão repartidos, depois, pelos titulares de acções no projecto. Para já, do lado português, estão envolvidos os municípios de Vila Nova de Foz Côa, Figueira de Castelo Rodrigo, Almeida e Sabugal, tendo já sido demonstrada também a intenção do município de Manteigas em aderir ao projecto do AECT.
Este projecto estará articulado em torno duma empresa de participação pública e privada que optimizará a sua sustentabilidade económica na produção e comercialização de leite e derivados caprinos.
Por: Cinco Quinas"

Quem lê o que aqui e noutros lados escrevo sabe que eu não poderia deixar de subscrever as intenções deste projecto e ficar satisfeito de ver quase todos os jornais e sites de jornais de hoje a falar positivamente, e não como uma ideia impossível de operacionalizar, de um projecto que pretende ter 150 000 cabras para ajudar à gestão do fogo e à criação de riqueza e emprego no interior rural.
Mas ao mesmo tempo conheço demasiado bem esta lógica de captação de recursos, por entidades públicas que se juntam para fazer entidades privadas que apresentam projectos de candidaturas a ajudas públicas, que incluem muita infra-estruturação (lojas, queijarias, matadouros) e no fim se espera a adesão dos verdadeiros produtores.
Por mim preferia que fizessem um fundo de capital de risco para entrar no capital das empresas dos produtores até elas atingirem a velocidade de cruzeiro, vender a sua participação e partirem para outra.
48 milhões de euros em capital de risco já era relevante.
Assim, fico satisfeito com a difusão da ideia, espero e desejo que resulte, mas como contribuinte tremo só de olhar para a fotografia de topo deste post, que retrata os membros do Agrupamento Europeu de Cooperação Trans-fronteiriça, e pensar que é esta a base de gestão de um projecto de 48 milhões de euros entregues ao Estado por quem produz riqueza.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, julho 12, 2010

Um país milionário

Tenho alguma contenção nos comentários sobre a actuação da actual presidência do ICNB, sobretudo em matérias que foram da minha responsabilidade.
Mas acho que há contenção que a manter-se se transforma em cumplicidade e para isso não estou disposto.
Ao longo do fim de semana fui lendo aqui e aqui e aqui sobre a visitação na RNET.
Talvez valha a pena lembrar meia dúzia de coisas anteriores.
Há já bastante tempo foi lançado um concurso público para desenvolver um estudo sobre a comunicação e visitação nas áreas protegidas.
Esse concurso levou à adjudicação a uma das sete equipas concorrentes (seis delas integrando antigos presidentes e vice-presidentes do ICNB), adjudicação essa que foi ferozmente atacada no Diário de Notícias por suposto favorecimento de antigos governantes do PSD. A jornalista que fez a peça é uma conhecida fretista próxima do PS e nunca conseguiu provar uma única das suas insinuações (mais jornalistas atraídos pelo cheiro a sangue consultaram o processo sem encontrarem uma única irregularidade ou mesmo estranheza no processo de concurso. A única coisa estranha parece ter sido o facto de ser um concurso importante feito de forma linear, transparente e completamente limpo).
Foi pelos vistos o primeiro round do aparelho do PS para conseguir entregar mais algum dinheiro público a gente do regime, mas que circunstâncias particulares impediram que desse resultado.
Não vou falar dos resultados da adjudicação porque estão claramente visiveis na página do ICNB, abertos ao escrutínio de qualquer pessoa.
Mais tarde uma pequena comissão de pessoas do Instituto do Turismo, dos hoteleiros, da equipa do estudo e do ICNB (espero não me esquecer de ninguém) desenvolveu um trabalho de aplicação concreta procurando envolver os principais agentes fundamentais para aplicação do estudo.
Durante todo este processo houve intensa discussão interna e externa sobre as opções de visitação e comunicação do ICNB.
O estudo não é seguramente perfeito e tem opções discutíveis (eu que participei no seu acompanhamento e aprovação seguramente teria meia dúzia de coisas sobre as quais gostaria de ter mais certezas) mas no essencial é um bom estudo, bastante exaustivo e com uma lógica muito consistente.
Mal mudou a Presidência do ICNB o estudo deixou de ser critério para a definição dos investimentos do ICNB nesta matéria, passando a vigorar o altíssimo (e seguramente aberto, transparente e democrático) critério do Director do Departamento respectivo, sem qualquer articulação entre os diferentes directores e os diferentes critérios (mesmo com cada director não é seguro que o critério seja o mesmo para todo o departamento).
De forma insidiosa e sistemática se foi fazendo crescer a ideia de que o estudo não servia, que não tinha sido exaustivo (leiam o link que deixo acima para aferir esta patetice), que as pessoas não tinham sido ouvidas (uma pura mentira, tanto mais indigna quanto era muitas vezes usada por pessoas que tinham estado muito envolvidas no estudo e o conhecem perfeitamente mas que sentindo o vento a mudar acharam melhor mudar rapidamente de cavalo).
Agora vejo que finalmente, sob o alto patrocínio do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Sr. Dr. António Costa, um rapaz sem qualquer influência no PS, parece que vão começar tudo de novo.
Tudo está bem quando acaba bem.
Finalmente o aparelhismo do PS parece estar em condições de conduzir a aplicação do dinheiro público que possa vir a estar disponível para a visitação das áreas protegidas, de forma a que não haja percalços e seja entregue a quem o merece.
Uma manobra que parece ter o também alto patrocínio do Sr. Presidente do Turismo de Portugal, antigo chefe de gabinete de Guterres e Sócrates e, ao que me dizem, um dirigente político que tem conduzido a sua carreira política mantendo a promessa que terá feito quando perdeu a única eleição a que concorreu: a presidência da Juventude Socialista.
Aos anos que isso foi. E a derrota ter-lhe-á sido tão amarga que terá prometido nunca mais concorrer a nenhum cargo electivo (pelo menos daqueles em que a eleição não é garantida, porque há lugares de deputado, por exemplo, que sendo em teoria electivos são na verdade nomeações). O que parece que tem cumprido.
O que o tem habilitado a uma carreira política sempre em ascenção, sem percalços de maior.
É assim, somos um país milionário, que nos damos ao luxo de desperdiçar o dinheiro dos contribuintes apenas para satisfazer birras pessoais e partidárias que todos conhecemos do tempo em que alguns donos da bola só deixavam os outros jogar se fossem eles a escolher a equipa em que jogavam, para terem a certeza de que ganhavam sempre.
E vale a pena acrescentar que se a relação de forças fosse a inversa é bem provável que tudo se tivesse passado apenas trocando PSD e PS onde aparecem escritos no post.
As ONGAs?
Parece que não sabem de nada. Desconhecem o que seja uma área protegida, nunca pensaram que as áreas protegidas precisavam de ser geridas, não lhes passou pela cabeça ter ideias sobre o que deve ser a visitação das áreas protegidas, nunca ouviram falar do programa de visitação e comunicação das áreas protegidas, nunca pensaram que seria bom não desperdiçar recursos na gestão de áreas protegidas, enfim, para sermos francos, seria pedir muito que as ONGAs em Portugal escrutinassem minimamente a gestão das áreas protegidas.
Elas existem para as grandes questões do nosso tempo, não para obrigar o Estado e a Administração a prestar publicamente contas sobre a forma como os interesses das pessoas são garantidos na aplicação dos recursos públicos gastos na gestão das áreas protegidas.
Uma choldra, um pardieiro, um curral, é que isto é. Alguns é que pensam que é um país.
Coitados, vivem amargurados pelas desilusões constantes.
henrique pereira dos santos

domingo, abril 04, 2010

As contas não são neutras

Escolhi esta imagem para explicar aos comentadores do post anterior sobre o tema que sei bem (como qualquer pessoa) distinguir chaminés industriais de centrais nucleares e que a oposição ao nuclear não precisa de imagens falsas ou deturpadas, basta-lhe informação rigorosa sobre custos e riscos

Pinto de Sá tem um blog que tem sido muito citado a propósito da política energética, sobretudo no que diz respeito à contabilidade dessa política energética.
Eu fui durante algum tempo um frequentador desse blog, porque é um blog tecnicamente sólido numa matéria em que sou apenas um curioso.
Deixei de o frequentar por Pinto de Sá detestar o contraditório e considerar insultos coisas corriqueiras (muito menos graves do que diz dos outros), considerando inaceitáveis coisas como começar um comentário por “pelo contrário” para assinalar a discordância sobre o post. Para além de pura e simplesmente não publicar coisas razoáveis e educadas apenas porque o contrariam.
Mas o retorno da discussão do nuclear via manifesto “Por uma nova Política energética”, que põe a tónica no custo da energia (esquecendo todos os outros aspectos da política energética), aplanando caminho para a argumentação “o nuclear é barato” leva-me a chamar a atenção para alguns aspectos que a mim, ignorante e não técnico do assunto, me causam perplexidade nas contas de Pinto de Sá que, mercê da agressividade da sua argumentação aliada a uma férrea eliminação do contraditório no seu blog, passam como contas certas e indiscutiveis.
Corro pois o risco de dizer muitas asneiras, mas é o risco de participação cívica de quem recusa a tecnocracia de que o blog “a ciência não é neutra” faz permanentemente a apologia.
Comecemos pelo post onde Pinto de Sá faz uma revisão da matéria dada. Nos comentários, que Pinto de Sá procura imediatamente condicionar dizendo que não devia publicar mas publica para poder dar mais umas lições, é evidente um dos problemas de Pinto de Sá: a escolha criteriosa de informação orientada pelas conclusões a que se pretende chegar.
Por exemplo, Pinto de Sá diz no post que o reforço de potência não produz mais energia e explica tecnicamente porquê. Está tudo certo, excepto que a explicação técnica só é válida para situações em que a potência instalada já não deixa água por turbinar (nos comentários Pinto de Sá reconhece esta limitação de raciocínio, mas o relevante é notar como sabendo isso de princípio, Pinto de Sá tentou passar a ideia de que o reforço de potência não permite aumento de produção. Já em posts anteriores havia comentários chamando a atenção de Pinto de Sá sobre este aspecto mas isso não o impede de truncar informação para melhor convencer os incautos).
Uma segunda limitação deste raciocínio é o de que produzir em horas de cheio não é o mesmo que produzir em horas de vazio e, consequentemente, se o reforço de potência (mesmo nas situações em que a potência instalada anteriormente não deixava água por turbinar) permitir turbinar água mais rapidamente (produzindo mais energia em menos tempo), isso significa que permite aumentar a água usada para produzir energia em horas de cheio e, consequentemente, aumentar a variação de volume das albufeiras o que implica, aumentar a capacidade de encaixe no vazio (na cascata do Douro são apenas algumas horas, mas essas horas podem ser o necessário para adequar melhor a produção ao consumo).
No caso das barragens com capacidade de armazenamento, isso permite de facto produzir mais em alturas de abundância de água, e permite uma melhor gestão de reservas.
A que preço?, é a pergunta certa de Pinto de Sá. É uma pergunta a que convém dar resposta, sem dúvida, mas não vale a pena dá-la de forma a esconder parte da informação.
Outro aspecto constantemente esquecido nas contas de Pinto de Sá é a variabilidade interanual dos nossos recursos hídricos. Parte do armazenamento feito em barragens justifica-se com a necessidade de dar resposta a anos de baixa pluviosidade, matéria de que Pinto de Sá foge como o diabo da cruz (pelo menos que eu tenha visto).
Grande parte dos raciocínios que vi são desenvolvidos com base neste ano hidrológico, claramente fora do padrão.
A correlação estatística entre vento e precipitação de que Pinto de Sá fala (note-se que os comentários de Pinto de Sá neste post são incompreensíveis para quem não saiba que as minhas objecções da altura, depois de publicadas em tempo, foram apagadas, como Estaline apagou Trotsky na célebre fotografia), e da qual saberá tanto como eu porque não é climatologista e usa dados do Norte da Europa para a fundamentar (um erro primário que ninguém faz a não ser por ignorância ou má-fé), é um exemplo de argumento “vale tudo” usado por Pinto de Sá para defender a sua dama. A fundamentação para a afirmação é quase nenhuma, mas mesmo que exista a tal correlação ela só tem efeitos em anos (e provavelmente dias) excepcionais, como este ano hidrológico, em que as albufeiras têm estado 20 a 30 pontos percentuais de armazenamento acima da média. O que Pinto de Sá sabe perfeitamente (até por estar dito nos comentários convenientemente apagados) mas não quer que os seus leitores saibam.
E por fim, mesmo que as contas sobre o impacto nulo da produção de electricidade estejam certas, por razões que desconheço Pinto de Sá abstem-se de fazer as contas ao impacto de ter disponibilidade em horas de cheio, aproveitando horas de vazio.
Mas o mais interessante da forma como são feitas as contas por Pinto de Sá é a longa citação que vou fazer de um dos seus posts, onde fica bem claro que o conceito de energia nuclear barata é um conceito que se baseia no velho princípio capitalista de privatizar os lucros e socializar os prejuízos (neste caso, os imensos custos aqui imputados ao Estado e, consequentemente, retirados das contas do preço da energia nuclear).
E tudo assente num hipotético renascimento nuclear, cujos sinais tardam em aparecer, infelizmente (e digo infelizmente porque seria bom para todos que o nuclear tivesse conseguido resolver os problemas de base de que padece desde que apareceu a prometer amanhãs que cantam, sem nunca os conseguir concretizar):
“15. Portugal precisa de energia eléctrica barata de fontes controláveis, sem aumento de emissões de CO2, sem políticas perigosas para as liberdades cívicas e com a máxima criação de riqueza nacional sustentável. Em particular, a opção nuclear tem de ser cuidadosa e antecipadamente preparada.De tudo o que foi analisado nos pontos anteriores, resulta evidente a necessidade de Portugal considerar seriamente a opção nuclear como estratégia energética e económica, dada a sua controlabilidade, não emissão de CO2 e baixo custo da energia gerada.Não se trata, porém e no imediato, de considerar a compra de uma central nuclear, com a mesma irresponsabilidade e ausência de planeamento com que foi feita a importação de equipamentos de energias renováveis, mas sim e apenas de iniciar a preparação de uma possível futura opção nesse sentido.Dado o conjunto de aspectos a considerar, é necessária uma estrutura organizativa que coordene esses aspectos. E, dados os longos tempos a envolver nas acções e eventuais investimentos associadas, a actividade dessa estrutura não deverá obedecer aos horizontes temporais de calendários eleitorais. Por esta razão, é necessário que a sua criação resulte de um pacto de regime que garanta uma maioria de apoio parlamentar permanente, e é também imperioso que a sua chefia tenha uma independência imaculada de outros interesses que não os nacionais, sendo por isso recomendável que a sua nomeação requeira a anuência da Presidência da República, podendo a atribuição de funções militares de prevenção e segurança facilitar essa tutela Presidencial. Vale a pena recordar, aliás, que a Junta de Energia Nuclear criada há mais de 50 anos dependia directamente de Salazar, e não do Governo de ocasião. Aliás, o aqui proposto é a refundação de uma Junta como essa, para iniciar a preparação de uma possível opção nuclear!Esta Nova Junta da Energia Nuclear deverá dispor de uma Comissão Executiva com pelo menos 3 membros, e constituir um Conselho Consultivo onde estejam representados reconhecidos peritos das áreas relevantes e com um leque de sensibilidades ideológicas diversificado, que garanta o escrutínio e a transparência de todas as actividades desenvolvidas. As actividades prioritárias da Comissão Executiva, a terminar no prazo de um ano, deverão incluir:a) A recolha e análise de todos os estudos parcelares realizados no passado sobre a opção nuclear para Portugal;b) A constituição de uma equipa interdisciplinar de técnicos de primeira qualidade, cobrindo nomeadamente os aspectos das engenharias civil, mecânica, de controlo e automação, a Física nuclear tecnológica, a Geologia, as Finanças e as Seguranças civil e militar;c) A identificação das normas internacionais, das necessidades de recursos técnicos especializados futuros e dos projectos em curso ou lançamento noutros países.Numa segunda etapa, esta Nova Junta deverá preparar, num prazo adicional de 4 a 5 anos, já com a equipa técnica de alta qualidade criada na 1ª etapa e uma definição de objectivos mais precisa:1) O estudo das opções tecnológicas e comerciais disponíveis internacionalmente;2) O estudos dos possíveis modelos de financiamento;3) As normas técnicas nacionais, em harmonia com as internacionais existentes e em particular as europeias, detalhadas e precisas, a aplicar nos projectos de centrais;4) A formação dos recursos humanos necessários ao acompanhamento e fiscalização de obras;5) A pré-selecção de locais apropriados;6) A definição das actividades económicas sustentáveis para as quais se possa associar a máxima incorporação nacional, da preparação do combustível ao tratamento de resíduos, passando pelo aproveitamento dos jazigos nacionais de Urânio;7) As colaborações internacionais desejáveis, técnicas, económicas e de segurança;8) A preparação de um Caderno de Encargos rigoroso para uma Central Nuclear.9) O debate público aberto e esclarecedor das opções em apreço.Finda esta preparação, que se iniciada já poderia estar concluída em 2015 ou 2016, o país estaria em condições de decidir se avançaria ou não para a construção de uma Central nuclear. Até lá muita coisa evoluirá no domínio das opções internacionais de energia nuclear, dando tempo a que se venha a aproveitar a experiência alheia. Se por volta de 2015 ou 2016 se tiver efectivamente verificado o renascimento do Nuclear, Portugal estará em condições de fazer a opção correspondente, podendo vir a ter a sua primeira central a tempo de substituir a de carvão em Sines, dentro de uma década. Se não for essa a evolução que ocorrer, também não terá sido grande a perda incorrida nesta preparação - afinal o país custeou por mais de 50 anos uma Junta de Energia Nuclear de que não retirou qualquer préstimo!A ausência da preparação desta opção é que poderá ser trágica!”

Extraordinário. Realmente, como defende o manifesto, o melhor é alguém independente fazer o estudo técnico-económico das opções energéticas, porque se as contas forem deixadas ao pessoal do nuclear o resultado está definido à partida.
henrique pereira dos santos

terça-feira, fevereiro 16, 2010

O prazer de matar

O título deste post é um dos argumentos mais usados contra a caça, sendo supostamente uma sólida base ética para eliminar a caça.
Simplesmente trata-se de um argumento que não se pode chamar ad terrorem porque não visa criar medo nos outros, mas não anda longe porque visa impedir a discussão ética numa base racional: a discussão dos sistemas de valores em causa e a sua aplicação a situações concretas.
Na verdade o que é relevante na caça, para muitos dos seus participantes, não é o seu resultado mas o caminho que se percorre (o mesmo se pode dizer da tourada e de muitas outras actividades humanas). Esquecer isto procurando pôr nos outros sistemas de valores que não perfilham não é sério.
Tive um dia destes uma troca de mails com Pedro Melo, o proprietário da única reserva de caça que proíbe a caça a migradoras. Pedro Melo ponderou acabar com essa especificidade porque perde dinheiro com isso e, no caso das migradoras, não vê grande vantagem de conservação porque entende que a maioria vai ser caçada pelos vizinhos do lado.
E nessa troca de mails Pedro Melo refere: "se por exº cada caçador só abatesse uma perdiz por dia e dispendesse o resto do dia a caçá-las utilizando cartuchos sem chumbo: á partida parece um disparate, mas pergunto-me se os caçadores não aceitariam de bom grado caçar mais dias, aproveitar os prazeres da caça que são muitíssimos, dando em troca o sacrifício de trazer para casa uma só peça". Parece-me que está feita a demonstração de que o que motiva a caça, pelo menos para alguns, não é morte dos animais em si, mas toda uma actividade ancestral de relação com o campo. Poderia dar o meu exemplo, que nunca fui caçador nem tenho a menor vocação para caçador, mas houve um ou dois Verões em que andei aos passarinhos com uma pressão de ar e uns primos meus (actividade ilegal, mas evidentemente nunca detectada. Na altura nem sei se sabia que era ilegal, mas é possível que soubesse). Quando se feria um pássaro a regra era matá-lo o mais rapidamente possível para evitar sofrimento, de maneira geral torcendo-lhe o pescoço. Essa era sem dúvida a parte que mais me custava e não tinha nenhum gosto nisso. Os passarinhos fritos não eram maus mas não era isso que me fazia por ali andar. O que verdadeiramente me motivava era ter um motivo para andar pelo monte (noutras alturas ia pastar as vacas de um amigo meu, era também um bom motivo. A actividade era substancialmente diferente, embora me fosse igualmente prazenteira), era procurar, era conseguir, era ser mais esperto, mais silencioso, mais hábil que o pássaro, mas sobretudo ser capaz de fazer coisas que à partida eu diria que não sabia ou não era capaz. Pode-se discutir os sistemas de valores envolvidos nisto, mas nunca a partir da ideia de que todos os que caçam o fazem pelo prazer de matar.
Alexandre Vaz diz: "Ou se acredita que a vida é um valor que deve ser preservado ou não. Ou se acredita que todos os seres vivos se devem subordinar aos interesses dos humanos ou não."
Vejamos as consequências destes da adopção destes dois valores, começando por discutir o primeiro. Depois avaliemos a caça no quadro das actividades humanas, no contexto de um sistema de valores que adoptasse este dois princípios.
A primeira questão é a de saber o que se define como o valor da vida. A discussão ética existe quando se confrontam dois valores e é preciso optar por prescindir ou diminuir um deles. Por exemplo, no caso da praga de ratos que refere Alexandre Vaz, o que está em causa não é apenas a discussão do valor da vida de cada rato, mas o facto da expansão incontrolada de ratos implicar perda de muitas outras vidas (sentientes e não sentientes). É portanto mais que duvidoso que o valor da vida esteja incluído no valor absoluto da vida de cada indivíduo (por isso é eticamente razoável matar em legítima defesa).
O que tenho vindo a dizer é que a caça pode ser um instrumento de conservação de muitos indivíduos que beneficiam das acções de gestão de habitat sem que sejam caçados, o que inclui muitos indivíduos de espécies não cinegéticas, borboletas, por exemplo, e muitos indivíduos das espécies cinegéticas que passam a ter mais alimento e condições de reprodução e que nunca chegam a ser caçados por homens (muitos são caçados por outras espécies, é aliás esse o objectivo das acções de conservação que visam aumentar a disponibilidade alimentar dos predadores de topo).
A ideia de que preservar o valor da vida é preservar a vida de cada indivíduo é uma ideia perversa, fortemente prejudicial para a conservação da vida, entendida não apenas como a vida de cada indivíduo mas também como o processo que permite a reprodução dos sistemas naturais.
Quanto à questão do antropocentrismo, o segundo valor de que fala o Alexandre, sim, eu e a grande maioria das pessoas deste mundo somos antropocêntricos, não percebendo por que razão a pequena minoria que pretende ter um quadro de valores diferente acha que tem o direito de o impôr à esmagadora maioria das outras pessoas.
Mas ainda que se parta de uma visão biocêntrica, a caça é das menores preocupações éticas de quem parte de um sistema de valores que postula a igualdade entre as espécies. Partindo do pressuposto de que todas as espécies estão num plano de igualdade, o primeiro problema não é o da caça de indivíduos que viveram sempre livres e sem contacto com o homem (e que tanto podem ser mortos por uma pessoa, como por outro predador qualquer) mas sim o problema da posse de indivíduos (por isso o problema da escravatura é um problema ético de primeiríssima grandeza, inaceitável em qualquer circunstância, ao contrário do problema da morte de terceiros que aceitamos em dezenas de situações, incluindo na guerra). O que significaria que partir de um sistema de valores biocêntricos deveria levar quem adopta estes valores a ser ferozmente anti-posse de animais. Sobretudo dos que são tratados sem qualquer respeito por aquilo que seria o seu comportamento natural, quer sejam postos em gaiolas para produzir ovos e leite, quer estejam nas nossas casas para que lhes façamos festinhas e nos compensem as carências afectivas, e não anti-actividades que respeitam a essência e a liberdade dos indivíduos, mesmo que no final os tratem violentamente (como na caça e na tourada).
Por alguma razão Jane Goodall (em cima, na fotografia), absolutamente insuspeita deste ponto de vista, afirmou que lhe parecia bem menos aceitável ter animais domésticos em casa que ter touradas (mesmo que ela seja, como penso que é, contra as touradas).
A ética é uma coisa bem mais complicada que frases soltas de belo efeito. E por isso os argumentos éticos sobre a caça têm de ser um bom bocado mais sólidos que os que por aqui têm aparecido.
henrique pereira dos santos

domingo, janeiro 24, 2010

business as usual ?



Há algumas semanas atrás, a SPEA lançou um inquérito ao sócios sobre qual deveria ser a ave do ano. Existiam três propostas disponibilizadas, uma das quais a Cegonha-preta. Como existiam vários erros na página daquela espécie, publicada no website da SPEA, entendi contactar o Director Executivo da SPEA, Luís Costa. Eis a troca de e-mails:

04.01.2010
Olá,
Para além de outras incorrecções/imprecisões no texto aqui publicado, chamo à atenção que o nome ciêntífico da Cegonha-preta não é, evidentemente, Phoenicopterus ruber...
Gonçalo Rosa

05.01.2010
Obrigado, Gonçalo, já mandei rectificar o nome, e a o parágrafo das ameaças fica assim, vê lá o que achas:
A Cegonha-preta encontra-se em perigo?
Esta espécie está classificada com o estatuto de ameaça de “Vulnerável”, pelo Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, enfrentando algum risco de extinção na natureza.
As maiores ameaças à sua sobrevivência são a perturbação humana, especialmente devido a actividades de recreio e de turismo em áreas de nidificação. A colisão com linhas eléctricas é também uma ameaça a considerar.
Abraço
Luís

05-01-2010
Olá,
Não há nenhuma informação que suporte a afirmação que a colisão com linhas eléctricas é uma ameaça a considerar. As principais ameaças são a perda de habitat de nidificação (p. ex. construção de barragens) e a perturbação humana em áreas de nidificação e de concentração pós-nupcial (p. ex. actividades de recreio e de turismo, actividades florestais, entre outras).
1 abraço,
Gonçalo

Depois deste email, não recebi resposta/contestação ao que afirmei. O primeiro erro que apontara foi corrigido, o restante, não.

Hoje, no Público (ver aqui), fiquei a saber que a Ave do Ano eleita pela SPEA foi mesmo a Cegonha-preta. A notícia cita a SPEA, referindo que “A maior ameaça à sua sobrevivência é a perturbação humana, especialmente devido às actividades de recreio e de turismo em áreas de nidificação. A colisão com linhas eléctricas, a florestação com espécies exóticas e a poluição dos rios e ribeiras são também ameaças consideráveis”.

Tendo trabalhado vários anos, enquanto técnico do então ICN, precisamente com Cegonha-preta, não seria razoável a SPEA questionar a pertinência da minha correcção contrapondo-a com evidências ou provas do contrário, assim sustentando o que insistem em afirmar? Em busca de resposta para esta insistência e silêncio, não encontro nada de muito agradável. Deve ser da minha mente perversa, ferina e sempre desconfiada da candura natural das coisas...

Gonçalo Rosa

quarta-feira, outubro 21, 2009

interesses obscuros?



No Domingo passado, a SIC noticiou as rotas de três tartarugas recuperadas pelo ZooMarine e libertadas no início de Outubro. Os animais, marcados com emissores, nadam agora Oceano Atlântico dentro ou ao longo da costa atlântica marroquina. Seguiram o seu caminho percorrendo, na totalidade, algo mais de 2000 quilómetros.

Desde 2002 que o ZooMarine tem um contrato com o ICNB, sendo responsável pela recuperação de mamíferos e repteis marinhos em Portugal, desenvolvendo assim um trabalho em prol da promoção ambiental e de serviço à comunidade que nunca o Estado teve capacidade de executar. Dá enorme relevo à educação/promoção ambiental que, na minha opinião, deve ser a principal vertente destas estruturas, mas que, por exemplo nos centros do Estado tem sido continuadamente desprezada, entendendo-se a recuperação de animais como um importante braço armado da conservação da natureza. Salvo casos muito particulares, um enorme equívoco.

Eis pois, para desconcerto de alguns, uma bela demonstração de como uma empresa privada que tem obviamente fins lucrativos, pode prestar um excelente serviço na área ambiental, em contra ponto à incapacidade do Estado, obeso de tantas competências legais nesta e noutras áreas, mas indolente no seu cumprimento.

Gonçalo Rosa

quarta-feira, abril 22, 2009

É tarde...


Já aqui abordei, por diversas vezes, quer uma certa tendência para o alarmismo do movimento ambientalista, quer a dificuldade que este tem no seu relacionamento com os media.

A respeito do post de ontem publicado neste blog - "O que os números não dizem" -, um amigo fez-me chegar um link para um artigo publicado no passado dia 12 de Abril, no DN Ciência, e que pode ser lido na íntegra aqui. O seu título "Ave do ano em risco de extinção", é demolidor. É porém justo salientar a prudência do técnico da SPEA, de quem, aliás, sou amigo pessoal, que afirma que "os dados sobre a redução desta espécie não são fidedignos. Isto porque, em Portugal, a monitorização só começou em 2004, o que faz com que os primeiros resultados sobre o picanço-barreteiro, bem como as restantes espécies, só estejam concluídos em 2014". Tarde demais. O título arrasa com qualquer explicação à posteriori.

É o jornalismo que temos, bem sei. Eu diria até mais. É a sociedade que temos e que consome, preferencialmente, tudo o que é bombástico. Tudo o que choca. Mas é o que temos e já vai sendo tempo de aprendermos a lidar com os media. E convenhamos, quando publicamos informação "não fidedigna" (como a contida no gráfico que coloquei no post anterior retirada integralmente do site da SPEA, ver aqui), arriscamos títulos como este.

Gonçalo Rosa

terça-feira, abril 21, 2009

O que os números não dizem

Picanço-barreteiro
Lanius senator
(foto sacada daqui)

Recentemente, a SPEA nomeu o Picanço-barreteiro como a sua "Ave do Ano 2009". Estive a ler alguma da informação disponibilizada pela SPEA aqui sobre esta espécie e encontrei este gráfico:

No texto, acrescenta a SPEA que "os primeiros resultados do Censo de Aves Comuns [CAC] apontam para uma descida de cerca de 26% na população de Picanço-barreteiro entre 2004 e 2007". Se é certo que o que diz o texto é a leitura linear do gráfico (ou, pelo menos, da diferença entre o valor de 2007 relativamente a 2004), não me parece correcto disponibizar esta informação sem referir explicitamente que um reduzido número de anos de seguimento populacional não permite conhecer com segurança a verdadeira tendência populacional.

Aproveitei para verificar o que dizia o EBCC-European Bird Census Council, que publicou vários indicadores obtidos pelo Pan-European Common Bird Monitoring Scheme (PECBMS) onde são incluídos os dados do CAC e de programas semelhantes em curso noutros países. Encontrei isto (tirado daqui):


Numa leitura grosseira do gráfico, o que verifico é que após uma muito acentuada queda verificada de 1996 para 1997, o índice mantem-se relativamente estável (entre os 50% e os 65%, relativamente a 1996) até 2006. Para o mesmo período, o EBCC conclui que globalmente as populações de Picanço-barreteiro se encontram em "declínio moderado", que define como "significant decline, but not significantly more than 5% per year. Criterion: 0.95 < upper limit of confidence interval < 1.00".

Intrigado com a tendência populacional apresentada pelo gráfico do EBCC, tentei investigar as fontes de informação que o sustentam e cheguei à conclusão que a informação tem origem em apenas 5 países (na Europa, o Picanço-barreteiro distribui-se ao longo da bacia mediterrânica). Surpreendentemente, verifico que entre 1996-1999, apenas Espanha forneceu informação. Só mais tarde, Itália (2000), França (2001), Portugal e Bulgária (2004) aderiram ao programa. Decidi pois, visitar ao site da SEO-Sociedad Española de Ornitologia que é quem coordenada o SACRE (um projecto análogo ao CAC), em território espanhol.

Cheguei ao seguinte gráfico, (aqui reproduzido na íntegra, já que no site da SEO o mesmo estava em versão pdf):

Considera a SEO que, entre 1998 e 2008, as populações espanholas de Picanço-barreteiro apresentavam uma tendência "estável". Ainda assim, faz a salvaguarda que outros não fizeram, afirmando que "a medida que aumente el número de años de muestreo las tendencias serán más representativas de la realidad, por lo que estos resultados hay que interpretarlos, de momento, con precaución".

Posto isto, fico estupefacto com a forma ligeira usada pelo EBCC para referir que a população europeia de Picanço-barreteiro se encontra em "declínio moderado", tendo por base exclusivamente dados obtidos em Espanha, sendo que os dados que suportam tal pessimismo são relativos a apenas um ano (1996). Acrescente-se ainda que, estes dados foram recolhidos no primeiro ano do projecto SACRE, em regiões relativamente limitadas.

E fico a pensar que, mostrassem os dados o inverso e haveria muito mais cautelas no que se dizia...

Gonçalo Rosa