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segunda-feira, janeiro 17, 2011

Apitó comboio

Imagem com o mesmo título do post, retirada daqui
Metro do Mondego: 12 trabalhadores, sete dos quais administradores.
A defesa do comboio, que é uma evidência para quem procura sustentabilidade, não pode desvalorizar a defesa da sua racionalidade económica.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Commodities e indústria automóvel

Gráfico com quatro diferentes índices de preços de futuros de commodities, tirado daqui.
Em vários jornais aparecem notícias de aumento de preço de commodities, desde o algodão, passando pelo trigo e o petróleo acima dos 90 dólares.
Parte disto são dificuldade conjunturais, como as más colheitas de cereais da Rússia, Ucrânia e países envolventes.
Mas convém não esquecer que ao mesmo tempo o Financial Times tinha ontem uma notícia muito interessante, sobre os construtores de carros alemães, que estão a planear paragens mais curtas no Natal para garantir a satisfação da procura, em especial chinesa.
De tanto ouvirmos falar na nossa crise, temos tendência para esquecer que a China, a Índia e o Brasil (para citar alguns mais notórios) estão apesar de tudo com crescimentos anuais importantes, grande parte em função das suas procuras internas e não apenas como exportadores (a China é hoje a fábrica do mundo, mas fabrica cada vez mais para chineses também).
Este crescimento traduz-se em mais riqueza e, consequentemente alteração dos padrões de consumo, nomeadamente na alteração da alimentaçãoo, onde a carne e os lacticínios tendem a aumentar (por pouco que aumentem para cada pessoa, o resultado é uma imensa pressão sobre os cereais, de tanta gente que há na China, Índia e Brasil).
Para os neo-malthusianos é agora que se vão conhecer os limites do crescimento (o Carlos Aguiar aconselhará uma atenção especial ao consumo de fósforo).
Para os outros as pressões sobre a economia vão obrigá-la a reformular-se, alterando os perdedores e ganhadores actuais.
Entretanto Xangai é a região do mundo com menor taxa de fertilidade e menor crescimento natural da população.
O futuro ainda será por muitos anos a mais desconhecida das realidades.
Pelo menos para mim, que não sei de economia nem consta que tenha biblioteca.
henrique pereira dos santos

domingo, outubro 24, 2010

O chícharo

imagem roubada daqui, que gosto deste blog
Chícharo, tanto pode ser o feijão frade, mais para norte, como uma coisa entre o tremoço e o grão, nos calcáreos do Centro.
Era uma cultura pobre, usada na rotação pobre da produção de cereais de Inverno. Essencialmente nas terras de milho de sequeiro (ou trigo, nas terras mais pesadas e barrentas) a leguminosa mais usada era a fava, e na produção de centeio e cevada, nas terras pobres, usava-se o chícharo e o tremoço. Enfim, a coisa não era assim tão simples mas para o que aqui quero serve.
Esta cultura esteve quase morta.
Aos poucos, algumas câmaras da zona, com destaque para Alvaiázere, e alguns grupos de pessoas (o rancho folclórico de Chãos e a sua cooperativa Terra Chã, por exemplo), retomaram o interesse pelo produto e hoje aparentemente está em expansão e é razoavelmente caro (como digo, era uma cultura complementar da rotação pobre, portanto mais que marginal na criação de valor da zona, sendo que a criação de valor se fazia mais pela fixação de azoto para o cereal, que propriamente pelo produto que se colhia).
Os restaurantes da região já quase todos têm uns pratos de chícharo, e é omnipresente no trabalho que tenho estado a desenvolver com as terras de sicó, baseado num dos capítulos do livro que escrevi, o da alimentação e paisagem. Neste trabalho, para além do Luís Jordão, tem sido fundamental o Chef António Alexandre, com quem temos feito umas acções de formação para os restaurantes da zona, procurando por um lado fomentar o uso de produtos locais, por outro chamar a atenção para a sua relação com a gestão da paisagem.
A recuperação do chícharo é um bom exemplo do que se pode fazer (e das dificuldades) na conservação da biodiversidade agrícola e da outra que lhe está associada.
Mas se o trabalho com produtos se vai fazendo, mais difícil tem sido ligar o produto à cadeia de produção.
Parte dessa dificuldade está claramente identificada: a paranóia higienista que impede um restaurante de fechar ciclos de uma forma eficiente.
Por exemplo, aproveitar os restos para cevar um porco, ainda se conseguiria em algumas circunstâncias (embora fosse difícil ter o porco na proximidade da maioria dos restaurantes, introduzindo ineficiência da produção). Mas depois, matar o bicho já não se pode, já teria de ir para o matadouro. E depois guardar um caneiro de banha menos ainda (embora se possa ter um balde de plástico com banha industrial, que não vale um caracol). Bem se queixam os formandos que por mais de usem o sangue que compram no talho, não conseguem fazer uma cabidela de jeito. E não têm alternativa porque não os deixam matar umas galinhas.
Na realidade há razões para a mão pesada dos organismos de velam pela higiene dos restaurantes (neste momento sobretudo a ASAE).
Mas o Estado português adoptou o seu modelo clássico de actuação: em vez de confiar nas pessoas e ter mão pesadíssima para quem não cumpra normas estabelecidas quanto aos produtos finais, optou por uma regulamentação preventiva excessiva.
No fundo, em vez de encerrar o negócio a quem tenha produtos estragados, passou a exigir o controlo de todo o processo de produção, o que, por exemplo, inviabiliza que nestas alturas de crise alguém use os seus dotes culinários cozinhando em casa para espaços públicos.
O resultado só pode ser o da fuga à lei, o da compra do fiscal, o da assimetria de informação que distorce os mercados.
E do ponto de vista ambiental, a maior dificuldade para que alguém se diferencie pela fidelidade a modos de produção ligados à terra.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, outubro 15, 2010

Lendo um jornal de hoje

O Financial Times de hoje tem um suplemento especial sobre alimentação que vale a pena ser lido numa óptica ambiental.
Num dos artigos mais interessantes fala-se do problema bem sério da ferrugem do trigo, que se pensou um dia que era um problema do passado, mas que desde 1998/ 1999, quando ressurgiu em força no Uganda, se tem vindo a espalhar, temendo-se que entre brevemente nas zonas produtoras da índia e bangladesh e afeganistão, o que poderia provocar milhões de mortes (esta discussão foi tida na lista ambio há algum tempo, incluindo o papel das plantas genéticamente modificadas na eventual defesa em relação a este risco, bem real).
É um exemplo típico das razões pelas quais a política de conservação da biodiversidade deve ser uma política pública já que o mercado lida mal com este tipo de problemas e não tem solução para eles.
Mas como quem lê este blog há mais tempo saberá, um dos meus maiores interesses é a relação entre alimentação e sustentabilidade (e dentro disto a gestão de paisagens a partir da alimentação).
E desse ponto de vista há um artigo muito interessante, que no essencial se baseia neste relatório do WWF, cuja leitura, pelo menos do sumário, merece o esforço.
Claramente uma perspectiva equilibrada dos impactos da alimentação, longe dos maniqueísmos frequentes nos meios veganos que pretendem que tudo se resolve mudando para dietas vegetarianas. O estudo tem análises preocupantes dos efeitos das nossas opções alimentares em países terceiros (no mesmo dossier do financial times refere-se a práctica cada vez mais habitual de garantir a produção de bens alimentares através da compra de terra em países terceiros, por parte das companhias mais ligadas ao negócio).
Um exemplo desses impactos, referido do relatório, é o do consumo de óleo de palma, mas poderia também ser o do consumo de azeite, referido neste estudo, que vários vezes tenho aqui referido em alternativa à manteiga, numa boa demonstração da complexidade da discussão em torno de uma alimentação sustentável.
A sustentabilidade não é um mar de rosas.
henrique pereira dos santos

sábado, outubro 09, 2010

Projectos estruturantes

Miguel Araújo, no contexto das discussões de posts recentes, sobre o ponto em que estamos, responde à minha provocação em que digo que não sei o que são projectos estruturantes: "Um projecto estruturante é um projecto que ajuda a lançar as bases de uma economia. Que cria condições para aumentar a competitividade dos agentes económicos através da criação de infraestruturas que dificilmente seriam pagas por agentes privados.".
Percebo o que o Miguel diz e nem sequer estou assim tão em desacordo.
Mas tenho mesmo muito medo da facilidade com que se afirma (aliás sempre suportados em estudos de custo/ benefício que concluem sistematicamente o que o dono da obra pretende que se conclua) que um projecto é estruturante.
Vou tentar explicar porquê (as minhas desculpas pela extensão do post, agravada pelas imagens).
Ora aqui temos um projecto estruturante em pleno trabalho de parto.



Sobre este projecto já disse aqui o pensava: um forte candidato à decisão mais estúpida de ordenamento do território que conheço.
Este projecto é por si considerado estruturante, mas integrado num outro mais estruturante, o Portugal Logístico, a que felizmente a crise veio pôr alguma contenção que dá mais alguma esperança de travar a destruição do vale do Coronado com outra plataforma logística.

Ora na realidade existem, do Trancão à Castanheira do Ribatejo, milhares de metros quadrados disponiveis, assentes das ruínas da indústria e logística que faliu, e a versão aprovada do Portugal logístico identifica bem essa potencialidade ao localizar ali a plataforma de Lisboa Norte. .



Na verdade o que vamos fazer é manter as ruínas como ruínas, num sub-aproveitamento das capacidades instaladas, para ocupar áreas produtores de bens e serviços transacionáveis (e no caso português, escassos, como são os bens agrícolas competitivos), destruindo património nacional relevante (os solos agrícolas) e aumentando os riscos pela ocupação do leito de cheia.
Razões? O promotor queria ali. Razões? O Estado não tem dinheiro para dizer que ali não pelas razões evidentes, expropriar os locais adequados e estruturar o território. Ou em alternativa, limitar-se a dizer que não e o mercado que empurre os operadores logísticos para as soluções racionais.
Mas o operador é irracional? Não, de maneira nenhuma, comprou terreno agrícola ao preço da chuva (mesmo que seja uma chuva mais grossa face à qualidade do solo e à expectativa) e vai vender ao preço do solo urbanizado, o que corresponde a um poderosíssimo apoio financeiro atribuído pelo Estado através de decisões administrativas irracionais (e injustas para o proprietário original, diga-se de passagem, bem como para os proprietários dos actuais terrenos entre o trancão e Castanheira do Ribatejo que face à oferta da nova plataforma ficam sem procura de justifique a reconversão dos seus terrenos, que continuarão ao abandono).
O projecto contribui para alterar a economia?
Sim, sem dúvida.
Desse ponto de vista é estruturante.
Mas Portugal tem um problema logístico sério e excedentes agrícolas abundantes que justifiquem o esforço do Estado em reforçar a distribuição, diminuindo a capacidade de produção agrícola?
Acho que nem a brincar alguém admite isso. Só mesmo a sério os estudos sobre logística conseguem justificar que a economia portuguesa, em que a distribuição é um dos sectores mais desenvolvidos e modernizados, que na região conta com inúmeras plataformas (desde do Luís Simões, às empresas mais conhecidas da distribuição, aos terminais de contentores, à antiga fábrica da opel na Azambuja, todos estão fortemente na região), porque os palhaços querem-se sisudos para serem eficazes, como a isso estava contratualmente obrigado o Buster Keaton.
Os projectos estruturantes com forte intervenção do Estado, seja por via do dinheiro real investido pelos contribuintes, seja pela venda de licença, como acontece neste caso, têm a estranha mania de serem contaminados por esta irracionalidade de não se perceber bem como há tanta coisa estratégica e afinal, passados anos, nem as moscas mudaram assim tanto.
A tradição vem de longe e continua: Porto de Sines, Ponte Vasco da Gama (que assinala a viragem recente decisiva para chegarmos onde estamos, ao libertar-se das amarras do dinheiro efectivamente existente, ou do crédito que pesa na dívida presente, para usar a dívida das gerações futuras através do complexo processo de project finance que inaugura as parcerias publico privadas), os célebres PIN, o Conrad Hotel, Alqueva, o aeroporto de Beja (uma coisa extraordinária, um aeroporto que se conclui sem que seja possível receber vôos e que suporta uma estrutura de gestão que custa o que custa ao contribuinte) e muitos e muitos outros exemplos, maiores ou menores, de coisas que por serem consideradas estratégicas pelo Estado nos levaram até aqui.
Eu estou farto de projectos estruturantes que querem resolver os problemas das empresas com o dinheiro que os contribuintes entregam ao Estado e ao mesmo tempo, uma chuvita da treta, desestrutura a vida da capital do país porque não parece haver muita gente a preocupar-se com os pequenos problemas do quotidiano comum, como ter as sarjetas limpas e um sistema de escoamento da água da chuva minimamente eficiente (esquecendo o tempo em que Lisboa tinha esgotos, cem anos antes de Londres ou Paris).
henrique pereira dos santos

quarta-feira, outubro 06, 2010

A crise e o gasto militar em Portugal

A discussão sobre a dívida e o que fazer suscitou um debate interessante. Este debate surgiu da minha perplexidade pelo montante dos investimentos em submarinos. Basicamente os dois submarinos que vamos pagar custam aproximadamente 2/3 da receita calculada com as medidas extraordinárias anunciadas recentemente pelo governo. Ou seja, grande parte dos sacrifícios que os Portugueses farão durante o ano de 2011 são para pagar estes investimentos em equipamento militar. Não se contabiliza aí a aquisição de "novos" aviões à Holanda (mais 200 milhões de euros) que foram hoje divulgados na imprensa.

Questionar os gastos da defesa nacional é quase um tabu em Portugal. Os comentários que foram feitos aqui e ali deixam antever que existe a percepção de que este é um debate ideológico. Ser de esquerda é ser contra estes gastos e ser de direita é ser a favor. Não podia estar em maior desacordo. Eu considero-me uma pessoa de difícil classificação pois estou no centro do espectro político. Nuns aspectos serei classificável como de esquerda, noutros de direita. Na verdade estas classificações interessam-me pouco pois o mundo de hoje não se compadece com a classificação das pessoas num único eixo de abcissas. O que me interessa é a racionalidade das escolhas. E por isso questiono a opção estratégica deste e de outros governos para situar Portugal à cabeça dos países Europeus em matéria de gasto militar.

Portugal gastou em 2008, 2% do seu produto interno bruto (PIB) em despesas militares. Este valor aumentará no ano em que se pagarem os submarinos. Mas quanto gastam os nossos parceiros Europeus?

Aqui vão os dados retirados da wikipedia: Itália (1.7%); Roménia (1.5%); Dinamarca (1.4%); Alemanha (1.3%), Finlândia (1.3%); Noruega (1.3%); Belgica (1.2%); Espanha (1.2%); Hungria (1.2%); Austria (0.9%); Suiça (0.8%); Luxemburgo (0.7%); Islandia (0.1%).

Gastam mais do que nós, ou o mesmo que nós, a Grécia (3.5%), o Reino Unido (2.5%), a França (2.3%), e a Polónia (2%).

A Grécia pela relação conflituosa que têm com a Turquia (ainda que seja pouco provável que a Turquia ousasse atacar território Europeu, sendo aliás parceira da Grécia na NATO). O Reino Unido e a França pelo importante papel internacional que desempenham, nomeadamente no quadro do Conselho de Segurança da ONU. A Polónia pela idiossincrasia nacional, forjada por invasões recorrentes por parte da Alemanha e Rússia.

A menos que nos queiram convencer que o gasto militar Português se justifica pelo medo da invasão Espanhola (um absurdo nos dias de hoje), não se entende a racionalidade da escolha dos sucessivos governos do bloco central. Não se entende que nos estejamos a hipotecar até às orelhas, ao ponto de comprometermos a sociedade de bem estar que fomos construindo, para manter um nível de gasto militar muito acima da média Europeia (e quase o dobro do gasto Espanhol).

Não entendo que os comentadores e autores deste blogue achem isto normal.

terça-feira, outubro 05, 2010

O dinheiro do público (prioridade e urgência)

O Miguel diz:
"Eu manifesto perplexidade por se deprimir a economia cortando salários, congelando pensões, aumentando impostos, etc, mantendo investimentos, desnecessários, em submarinos" e continua, especificamente para mim: "não percebo a tua complacência com os gastos em submarinos e a tua animosidade a investimentos estruturarais, como é o caso do TGV."
Tudo começou por eu questionar a forma como o Miguel coloca a discussão, exactamente por achar que não se pode discutir alternativamente cortar salários e etc., e pagar ou não um investimento contratado.
Primeiro as questões práticas, depois as de substância.
Que o Estado está falido é uma evidência (e é arrepiante olhar para os compromissos futuros já assumidos e não constam da dívida para já).
Como todos os dias, a todas as horas estamos a consumir 110 quando produzimos 100, naturalmente precisamos que alguém nos empreste dinheiro.
Claro que quem tem dinheiro apenas empresta se tiver ums expectativa razoável de vir a receber o dinheiro mais tarde, sendo que o juro que nos cobra por esse empréstimo está directamente relacionado com o risco que associa à possibilidade de não ser pago.
A situação neste momento é a de uma urgência: temos contas para pagar amanhã e o cofre está vazio. Como continuamos alegremente a gastar 110 e a produzir 100, o emprestador está a cobrar-nos um risco elevado e a diminuir a sua disponibilidade para nos emprestar dinheiro.
Cortar salários, aumentar impostos e etc., tem um efeito recessivo inegável. Com isso diminuímos a nossa capacidade de honrar a dívida. Mas tem como resultado uma diminuição sensível e imediata dos gastos do Estado que, aos olhos de quem nos empresta dinheiro, aumenta a confiança em que venhamos a pagar a dívida.
Imaginemos que em vez de fazer isto, resolvíamos não pagar compromissos jurídicamente claros. Para além de ser duvidoso que não tivessemos de qualquer maneira que pagar, obrigados pelo tribunal, a verdade é que demonstrar que os compromissos titulados internacionalmente (e tanto faz que sejam submarinos ou chupa-chupas) eram letra morta para nós, só faria aumentar a desconfiança, tendo como resultado o fecho da torneira do crédito ou o pagamento de juros exorbitantes (ou um mix das duas coisas). O resultado seria ainda mais desastroso para uma economia completamente viciada no crédito.
Acresce que cortar salários na administração coloca o patamar para a evolução futura mais abaixo, não pagar um submarino tem um efeito pontual nas contas de um ano, mantendo inalteradas todas as condições que nos levam à falência do Estado.
Portanto não se podem discutir as alternativas no termos em que o Miguel as pôs porque uma responde ao problema, a outra não.
Passemos às questões de substância.
O que tenho dito sobre os submarinos (para além da questão prática de ser um compromisso juridicamente forte) é que não sei discutir o assunto porque não sei o suficiente de defesa nacional nem das modernas funções de defesa, nem das modernas possibilidades dos submarinos.
Se, como afirma o Miguel, os submarinos forem inúteis, só tenho de lamentar que vários Governos e vários ministros e vários primeiros-ministros tenham sempre mantido e garantido a sua utilidade e imprescindibilidade.
Vamos então à questão dos investimentos estruturantes.
Quando um Estado tem dinheiro, é livre de fazer opções. Quando está falido, faz as opções que quem tem dinheiro lhe permite. Quando é o Estado português governado por um inimputável, toma decisões absurdas e culpa os outros pelos resultados.
Tomemos um exemplo.
As parcerias publico privado foram criadas para as situações em que as melhorias de eficiência de uma gestão privada de um determinado projecto (por exemplo, a operação de um hospital) eram suficientemente grandes para cobrir os sobrecustos decorrentes do financiamento privado ser mais caro (o risco é maior com os privados que com o Estado) e ter de incluir a remuneração do capital.
O Estado português resolveu inovar, usando as parcerias para criar dívida futura sem aumentar o déficit presente, baseando-se em conceitos de economia voodoo. Estes conceitos postulam que os projectos vão gerar uma economia cujos impostos vão servir para pagar a dívida no futuro. Pura roleta, pura economia de casino, porque se as previsões estiverem mal feitas (e em Portugal têm estado sempre) quem fica com os custos operacionais é o Estado (outra das inovações do Estado português, porque nas parceira público privado o risco fica sempre do lado do concessionário, sendo esse o motor da melhoria da eficiência, mas em Portugal o Estado assume o risco em dezenas de situações).
Uma coisa é fazer um ponte (um dos dois exemplos que George Soros dá hoje no Financial Times a propósito dos Estados Unidos) cujos custos de operação são marginais. Outra coisa é operar comboios, cujos custos operacionais existem sempre e são muito relevantes.
Se o Estado português fizesse a linha e concessionasse a operação com o risco do lado do concessionário, a discussão sobre o TGV prender-se-ia apenas com questões de oportunidade (há ou não dinheiro para isso? Hoje não, mas amanhã haverá. Encantado, faz-se amanhã). Só que não é isso que está em cima da mesa (por isso dei o exemplo de outro projecto estruturante, Alqueva, com problemas semelhantes).
O que está em cima da mesa é não só criar dívida para construir (atirando para as gerações futuras o seu pagamento), como ao contrário do que diz o Rui Tavares no seu texto, não é garantido que haja crescimento futuro porque uma exploração deficitária não só não paga a dívida como a agrava.
Daí que o dinheiro do público deva ser muito parcimoniosamente usado, não para deprimir ou estimular a economia (essa é a função das empresas, não do Estado), mas para criar condições para o desenvolvimento da economia (boa e eficaz justiça, segurança de pessoas e bens, defesa nacional proporcionada, diplomacia eficaz, património colectivo bem gerido,etc.), ou para a resolução dos problemas que o mercado não resolve eficazmente (apoio social aos excluídos, resolução de falhas de mercado e por aí fora).
Projectos estruturantes, Miguel, não sei o que são. Só conheço investimentos com retorno positivo (e não é necessariamente económico ou financeiro, pode ser simplesmente a escolha social, como boas áreas protegidas, por exemplo) e investimento sem retorno (na verdade, desperdício), que para além de ser delapidador da riqueza nacional, ainda cria impactos negativos (muitas vezes ambientais, mas não só), apreciáveis em muitos casos.
Se num momento em que o Estado para resolver uma crise económica quiser investir, sabendo que é a fundo perdido, pois que o faça, mas que o faça em coisas que não obriguem a exploração deficitária, mas que tenham utilidade social. Submarinos não é a coisa mais óbvia para mim (embora não exclua a modernização das forças armadas, prefiro, por exemplo, a compra de terrenos com interesse para a conservação e que não necessitem de gestão activa), mas pior que isso são os projectos deficitários que para cumprirem a sua função social precisam de uma gestão activa e uma operação deficitária.
Olhar para o gráfico do último post e ver o peso que estamos a pôr em cima dos nossos filhos, de forma consciente, devia levar-nos a pensar como é possível que seja essa a opção do Governo.
E há três opções: ou somos governado por um indivíduo completamente irresponsável, incompetente e inconsciente; ou somos governados por um indivíduo absolutamente cínico e aldrabão que não hesita em sacrificar o futuro dos outros ao seu poder imediato; ou somos governados por um alienado que vive numa realidade paralela, com vagas ligações com o mundo das pessoas comuns.
Porque independentemente das opções entre submarinos e tgvs, a verdade é que a compromissos anteriores dificilmente suportáveis se foram somando de forma indecorosa mais e mais compromissos, sem outra base que não a contabilidade criativa, até à situação de depressão económica em que estamos a entrar.
E fomos nós que optámos por isso, não foi uma fatalidade inevitável.
henrique pereira dos santos

Predadores de topo

Retomo as questões associadas aos posts anteriores, tentando clarificar por que razão me parece mais razoável a posição claramente anti-capitalista que as posições de diabolização dos sector financeiro, sem a consequente conclusão anti-capitalista, que só servem para distrair as atenções do que realmente importa, porque é o que podemos influenciar: a responsabilização dos Governos pelas suas opções.
Felizmente, ontem no Público, Rui Tavares deu-me uma ajuda para fazer este post, com um texto que é um bom exemplo do que pretendo contestar.
"isto não teria de tornar-se numa depressão, a não ser pela insistência em fazer a população comum pagar pelos erros dos perdadores no topo da economia".
Num assomo liberal que lhe desconhecia (e de que só encontro eco nos liberais mais radicais) Rui Tavares assume que se deveriam deixar falir os bancos e outros operadores financeiros para evitar que fosse o dinheiro dos contribuintes a pagar os seus erros.
Até aqui não tenho discordância de fundo, isto é, é uma alternativa possível, tenho dúvidas sobre a sua exequibilidade e sobre o que faria sofrer mais as pessoas comuns, mas é uma posição clara e passível de discussão.
Mas como o corolário desta posição está nos antípodas do que defende politicamente Rui Tavares, o artigo continua.
Num golpe de rins, Rui Tavares afirma "depois de terem alavancado os seus castelos no ar, reprovaram a construção de infra-estruturas que dariam emprego agora e crescimento no futuro".
Rui Tavares acha o dinheiro uma coisa imaterial, elástica e um bem público, parece-me a mim. Mas mais, acha que os capitalistas (isto é, os que têm dinheiro), são uns predadores de topo quando o emprestam, mas são umas bestas quando não o emprestam.
Repare-se, quando o crédito excessivo andava por aí, os únicos beneficiários foram os predadores de topo da economia, diz Rui Tavares.
Pelos vistos, aqueles a quem foram feitos os empréstimos não beneficiaram nada com isso, não compraram bens e serviços que pretendiam, não investiram, não nada, o que é estranho porque a bolha imobiliária, decorre exactamente de haver pessoas que compram bens e serviços com dinheiro que lhes foi emprestado sem que houvesse garantias reais equivalentes, para o caso da coisa correr mal, como correu. Ou seja, Rui Tavares defende a velha ideia de que o banco é aquele sítio onde os que não precisam conseguem dinheiro emprestado, achando que o esforço da finança (com forte empenho dos Estados) em emprestar a quem realmente precisava (os que não são capazes de dar garantias) é um crime inqualificável.
Que esta tenha sido a opção também dos Estados para dar casa a quem precisava mas não tinha recursos para isso, em detrimento da velha opção de meados do século XX do Estado gastar directamente o dinheiro dos contribuintes em habitação social (obviamente com prejuízo para outras opções onde gastar o dinheiro existente), parece ser uma coisa em que Rui Tavares não acredita.
Mas a frase que citei pressupõe que Rui Tavares ache que os predadores de topo têm obrigação de emprestar o dinheiro aos Estados para fazer as infra-estruturas que o Estado não tem dinheiro para fazer. Rui Tavares aparentemente não acredita que seja obrigação dos Estados convencer quem tem dinheiro de que no futuro consegue pagar as dívidas contraídas, ou então, em alternativa, que os Estados primeiro arrecadem o dinheiro e depois façam as infra-estruturas sem necessitar de ir pedir batatinhas a predadores de topo.
Veja-se este gráfico que retirei de um artigo de opinião de Miguel Frasquilho e que é semelhante a outros, um dos quais publiquei há tempos mas não encontro agora o post.
A gestão eleitoral do pagamento de rendas pelas parcerias público privadas é muito evidente no OE de 2009, sendo inconcebível como foi possível adoptar parcerias em que o Estado recebeu dinheiro à cabeça (melhorando o défice nesse ano e passando a dívida para o sector financeiro, que lhe permite dizer hoje que a dívida do país é essencialmente privada) que irá pagar com língua de palmo depois das eleições de 2013 (ano em que por acaso as rendas diminuem bruscamente, criando espaço para investimento em ano eleitoral).
Pretender, como faz Rui Tavares, que os malandros são os que não emprestam dinheiro a quem cria artificialmente este cenário, por puro cálculo eleitoral, é branquear um procedimento político que merece sanção.
Mas há outro aspecto da frase de Rui Tavares, que corresponde ao mainstream deste pensamento anticapitalista soft, que vale um comentário: "infra-estruturas que dariam emprego agora e crescimento no futuro".
Pelo que percebo Rui Tavares pretende que eu (e os capitalistas que emprestam dinheiro para fazer obras que os Estados não têm como pagar) acredite que o TGV para Madrid (e não para a Europa, porque a ligação de Espanha com o resto da Europa não está resolvida) tem um movimento anual de 10 milhões de passageiros.
E mais, que ao contrário de Alqueva, onde a água vai ter de ter um preço político, financiado pelos contribuintes, para que os agricultores a usem, o TGV não vai precisar de ser subsidiado, secando a disponibilidade de dinheiro na economia pelo seu uso pelo Estado num processo cujo retorno económico se aproxima muito mais de um jogo de azar (ou uma economia de casino) que qualquer especulação financeira.
Ou seja, para Rui Tavares não existe um problema real de dinheiro, que é acentuado pela despesa do Estado, existem sim predadores de topo que não o querem disponibilizar (aparentemente porque tiveram perdas colossais na recente crise e ficaram mais cautelosos acerca destes amanhãs risonhos e promissores, exactamente a atitude que Rui Tavares, e os anticapitalistas soft, entendem que poderia ter evitado a crise se tivesse sido adoptada anteriormente pelos predadores de topo).
Infelizmente estas sessões lúdicas de construções de mundos alternativos, onde o dinheiro é um bem inesgotável e controlado por Governos que são grandes empresários justos e competentes, têm mais influência do que parece: a quantidade de gente que vocifera contra os predadores de topo em vez de pura e simplesmente votar em conformidade com a responsabilidade dos Governos incumbentes é suficiente para manter no poder quem sempre se caracterizou por predar o Estado a favor dos amigos, usando o crescimento futuro como desculpa para tudo.
henrique pereira dos santos

domingo, outubro 03, 2010

Finanças

O Miguel neste post explicita a sua perplexidade perante o facto de se cortarem ordenados e prestações sociais em vez de pagamentos de submarinos.
A discussão subsequente derivou depois para o mrcado financeiro global, com Lowlander a falar na clássica falácia de distinguir economia real e economia financeira (pressupondo-se que as finanças e o crédito são uma coisa que parasita a economia) e o José M. Sousa a achar que a destruição de valor no mercado financeiro não é bem um problema para os acionistas das empresas financeiras porque "elas resultaram dessa magnifica capacidade de gerar riqueza, que consistiu em fazer dinheiro com dinheiro e que depois deu no estouro, que só podia dar".
Ora olhando para este gráfico (já com mais de um ano, que é uma correcção de outro semelhante indicado pelo José M. Sousa) tem-se a percepção da dimensão da redução do valor de mercado dos activos financeiros.
É evidente que isto representou uma perda brutal para os seus acionistas e é também evidente que isto representa uma retirada de dinheiro a toda a economia, o que tem efeitos recessivos importantes. O que demonstra que a finança não é um parasita da economia real, é economia tão real como a outra.
Não há dinheiro, não há palhaços.
Adenda, correcção do Miguel: A bem do rigor convém corrigir a tua interpretação sobre o meu post. Eu não explicitei perplexidade perante o facto de se cortarem ordenados e prestações sociais em vez de pagamentos de submarinos. Eu manifesto perplexidade por se deprimir a economia cortando salários, congelando pensões, aumentando impostos, etc, mantendo investimentos, desnecessários, em submarinos, que representam uma fatia importante da poupança que se obtém com os apertos acima referidos.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, setembro 27, 2010

Pontos de vista

Não, não é um panfleto de uma organização ecologista, é a capa desta semana da Economist.
14 páginas sobre florestas.
A manchete do Financial Times do fim de semana era sobre a eventual fusão de dois gigantes da distribuição alimentar, um francês e um de Singapura.
A razão para ser manchete é o facto do Financial Times achar que esta eventual fusão decorre da revolução do negócio alimentar que está a ocorrer, à medida que os mercados africano e sobretudo asiático substituem o arroz com vegetais por carne e produtos lácteos.
As questões ambientais nunca são apenas ou sobretudo ambientais, são filhas da economia. Aparentemente as filhas estão a ganhar idade e estatuto para serem tratadas como adultas.

henrique pereira dos santos

quarta-feira, agosto 25, 2010

150 000 cabras, 48 milhões de euros

O projecto pelos seus promotores (ou pelo relato da sua apresentação que dele faz o jornal Cinco Quinas, porque no site dos promotores há dificuldade em ter acesso a informação mais detalhada, embora no primeiro jornal do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial, a páginas 8 e 9, se faça uma descrição genérica):
"O Director Geral do AECT Duero-Douro, José Luis Pascual Criado, pormenorizou as características do Projecto Self-Prevention. Segundo as suas palavras, além de actuar activamente para a prevenção de incêndios, o Projecto contribui para um modelo de desenvolvimento socioeconómico para todo o território do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial Duero-Douro.
Disse que o investimento em matéria de prevenção é necessário para terminar com o fogo, mas também é necessário o envolvimento dos habitantes. Defendeu o Self-Prevention como projecto social, territorial, para as pessoas que moram nele, gerando um plano de futuro a longo prazo.
...
Está-se a trabalhar no Projecto Self-Prevention a partir da base, ou seja, a prevenção de incêndios.
Este visa reintroduzir 150.000 cabeças de gado para que sejam os próprios animais os "limpadores naturais" dos campos agrícolas abandonados, matos e valetas, deixando livres de vegetação aquelas zonas de potencial perigo de incêndio.
O projecto irá implantar-se num território fronteiriço de Portugal e Espanha, num total de 9 mil Km2, com 125 mil habitantes, e envolverá 187 entidades públicas dos dois países.
Após o investimento inicial, calculado em perto de 49 milhões de euros, estima-se uma rentabilidade anual do projecto de 30 milhões de euros. Com este projecto estima-se a criação de 558 postos de trabalho especializado, até porque está prevista a criação de 12 queijarias, uma central de comercialização, dois matadouros, 15 lojas de venda de produtos, e uma plataforma logística de transporte e distribuição, para além de se acreditar em novas potencialidades turísticas da região.
Para a concretização do projecto espera-se agora a adesão dos agricultores, onde existe a influência deste projecto. Os agricultores que apostarem nesta iniciativa, por cada cabra que coloque no projecto, recebe uma acção, e os proprietários de terrenos recebem três acções por hectare. Os lucros obtidos serão repartidos, depois, pelos titulares de acções no projecto. Para já, do lado português, estão envolvidos os municípios de Vila Nova de Foz Côa, Figueira de Castelo Rodrigo, Almeida e Sabugal, tendo já sido demonstrada também a intenção do município de Manteigas em aderir ao projecto do AECT.
Este projecto estará articulado em torno duma empresa de participação pública e privada que optimizará a sua sustentabilidade económica na produção e comercialização de leite e derivados caprinos.
Por: Cinco Quinas"

Quem lê o que aqui e noutros lados escrevo sabe que eu não poderia deixar de subscrever as intenções deste projecto e ficar satisfeito de ver quase todos os jornais e sites de jornais de hoje a falar positivamente, e não como uma ideia impossível de operacionalizar, de um projecto que pretende ter 150 000 cabras para ajudar à gestão do fogo e à criação de riqueza e emprego no interior rural.
Mas ao mesmo tempo conheço demasiado bem esta lógica de captação de recursos, por entidades públicas que se juntam para fazer entidades privadas que apresentam projectos de candidaturas a ajudas públicas, que incluem muita infra-estruturação (lojas, queijarias, matadouros) e no fim se espera a adesão dos verdadeiros produtores.
Por mim preferia que fizessem um fundo de capital de risco para entrar no capital das empresas dos produtores até elas atingirem a velocidade de cruzeiro, vender a sua participação e partirem para outra.
48 milhões de euros em capital de risco já era relevante.
Assim, fico satisfeito com a difusão da ideia, espero e desejo que resulte, mas como contribuinte tremo só de olhar para a fotografia de topo deste post, que retrata os membros do Agrupamento Europeu de Cooperação Trans-fronteiriça, e pensar que é esta a base de gestão de um projecto de 48 milhões de euros entregues ao Estado por quem produz riqueza.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, abril 30, 2010

Uns gananciosos, estes trabalhadores - crónica de Daniel Oliveira


in Expreso, 13 de Abril de 2010

A Galp propôs aos seus funcionários um aumento de 1,5 por cento. Os trabalhadores vão fazer uma greve. O presidente do conselho de Administração, Ferreira de Oliveira, acusou os trabalhadores de "falta de solidariedade para com o futuro da empresa".

Alguns dados:

1 - Ferreira de Oliveira recebeu, em 2009 , quase 1,6 milhões de euros, dos quais mais de um milhão em salários, 267 mil em PPR, quase 237 mil euros de prémios de desempenho (mais de 600 mil em 2008) e 62 mil para as suas despesas de deslocação e renda de casa. É um dos gestores mais bem pagos deste país.

2 - Os sete administradores da empresa (ex-ministros Fernando Gomes e Murteira Nabo incluídos) receberam 4,148 milhões de euros. Mais subsídio de renda de casa ou de deslocação, no valor de três mil euros mensais. Os 13 administradores não executivos receberam 2,148 milhões de euros. Entre os administradores não executivos está José António Marques Gonçalves, antigo CEO da petrolífera, que levou para casa uma remuneração total de 626 mil euros, incluindo 106 mil de PPR e 94 mil de bónus. No total, os 20 gestores embolsaram 6,2 milhões de euros, 2,9% dos lucros da companhia.

3 - Os trabalhadores pedem um aumento de 2,8 por cento no mínimo de 55 euros. Perante estas exigências de aumento, a administração que recebe estes salários diz que, tendo sido estes dois últimos dois anos "de crise", elas são "impossíveis de satisfazer".

4 - A Galp não está em dificuldades. Os lucros ascenderam, no ano passado, a 213 milhões de euros. No ano anterior foram de 478 milhões de euros. A empresa vai distribuir dividendos pelos accionistas. Mas ao contrário do que tem acontecido nos últimos cinco anos os trabalhadores ficam de fora. "Não é possível distribuir resultados que não alcançámos", diz Ferreira de Oliveira, que, tal como o resto da administração, não deixou de receber o seu prémio pelos resultados que não alcançou.

Os factos comentam-se a si mesmos. Por isso, ficam apenas umas notas:

A administração que suga (com uma grande contribuição do seu CEO) quase três por cento dos lucros de uma das maiores empresas nacionais acusa os trabalhadores de falta de solidariedade por quererem um aumento de 2,8 por cento. E que a greve "não defende os interesses nem de curto nem de longo prazo dos que trabalham e muito menos dos que aspiram a vir a trabalhar" na Galp.

De facto, ex-ministros pensarão duas vezes em escolher aquela empresa para dar conforto à sua reforma se os trabalhadores receberem 2,8 por cento de aumento. De facto, um futuro CEO que precise de receber mais de sessenta mil euros para pagar a sua renda de casa e deslocações (que um milhão nem dá para as despesas) pensará duas vezes antes de aceitar o cargo se os funcionários que menos recebem tiverem um aumento de 55 euros mensais. De facto, gestores que recebem prémios por "resultados não alcançados" não aceitarão dirigir uma empresa que distribui dividendos quando os lucros baixam.

A ganância destes trabalhadores desmoraliza qualquer homem de negócios mais empenhado. Assim este País não vai para a frente. A ver se os trabalhadores da Galp percebem: todos temos de fazer sacrifícios.

sexta-feira, abril 23, 2010

Tretas


Ecotretas, nos comentários a este post, traz dois argumentos para a discussão da racionalidade da produção de electricidade (que é uma pequena parte da discussão da política energética).
O primeiro argumento pode ser visto aqui e no essencial diz que a venda de electricidade a Espanha a custo zero não é pontual, mas pelo contrário, é frequente. Para o fundamentar apresenta quatro dias seguidos em que isso aconteceu: 3, 4, 5 e 6 de Abril.
Essse argumento merece alguns comentários:
O primeiro é o que de estamos ainda a falar de situações pontuais, continuo a não ver uma avaliação concreta e alargada de quantas horas e, sobretudo, que custo tem esta situação para o sistema eléctrico;
O segundo é a afirmação de que isso resulta do facto de não se poder parar as eólicas (que mantêm o preço de entrega na rede mesmo nestas circunstâncias), quando na verdade isso resulta também da produção base térmica e hidraulica. A primeira não pode ser desligada, a segunda pode, quando o caudal dos rios o permite, o que não tem acontecido este ano, excepcionalmente;
O terceiro resulta do que é dito no anterior sobre a produção hídrica: o que se está a verificar não pode ser avaliado apenas num ano excepcionalmente húmido em que as albufeiras estão muito acima da média do seu enchimento, mas no conjunto dos anos onde habitualmente há capacidade de encaixe que este ano, excepcionalmente, repito, existe apenas de forma muito limitada;
O quarto é que a análise que é feita não é uma análise económica séria, porque omite o facto de que quaisquer que sejam as fontes de energia usadas, é precisa uma capacidade instalada muito superior às necessidades de consumo das horas de vazio (que é quando ocorrem estas entragas de energia a preço zero, valendo a pena lembrar que o camarada tretas escolhe um fim de semana para fazer a análise), pelo que em quaisquer fontes de energia há custos associados à não produção de energia, que podem ser integrados na tarifa paga (como acontece nas outras fontes de energia) ou podem ser pagos com garantia de compra (como acontece nos eólicos). O que não há, seguramente, é almoços de borla, portanto é preciso, para todas as fontes de energia, ser claro na contabilidade;
O quinto, e mais relevante, é que não é feito o balanço de perdas e ganhos, porque seria preciso saber que custos teríamos nós para comprar ou produzir energia em horas de cheio, para perceber em concreto quanto é o sobrecusto das renováveis e se isso é aceitável.
Ora nada disso tem vindo a ser feito, tem-se apenas brandido o fantasma das horas que são pagas às eólicas e oferecidas aos espanhóis (e não estou aqui a falar no facto da península energeticamente ser uma ilha, e não uma península, porque a França e os seus problemas decorrentes da falta de flexibilidade do seu nuclear, nos impedir de ter um mercado de elctricidade bem mais aberto e dinâmico, tanto quanto me parece mas percebo pouco do assunto).
Contas gerais em vez de factos pontuais ajudariam bastante.
O segundo argumento é o de que se está a bombar para depois abrir comportas em Alqueva.
É um argumento ainda mais extraordinário que pressupõe que as barragens deveriam ser equipadas com potências preparadas para turbinar caudais com períodos de retorno alargados, como são os que actualmente enchem Alqueva. E esquece na bombagem a questão não é bem de energia (o que se produz bombando é sempre muito menos que o que se gasta a bombar) mas de economia (compra-se a preço de vazio para bombar, vende-se a preço de cheio, e a diferença de preço por unidade compensa largamente o défice energético negativo). Ou seja, este argumento, se analisado do ponto de vista económico, é totalmente diferente do que parece se analisado do ponto de vista da energia material envolvida.
E os argumentistas sabem disso muito bem.
A primeira pergunta é pois a seguinte: por que razão nuns argumentos usam unidades físicas (energia gasta e consumida) e noutros argumentos usam unidades económicas (custos e proveitos)?
A segunda pergunta é ainda a seguinte: por que razão se extrapolam conclusões gerais de dias particulares em vez de analisar os dados gerais?
henrique pereira dos santos

domingo, outubro 25, 2009

A conservação do lince ibérico

O Público de hoje tem uma longa notícia sobre conservação do lince, tendo como pretexto imediato a chegada amanhã do primeiro lince ao centro de reprodução do Algarve.
Há já alguns anos que vou acompanhando o que é feito para a conservação do lince, de maneira geral com bastantes dúvidas sobre a afectação de recursos que é feita com base na conservação do lince.
E lendo as notícias mantenho as minhas dúvidas.
Há bastantes anos tive várias discussões porque defendi que a reprodução em cativeiro não era prioritária, sendo um gasto de recursos brutal com pouco efeito real na conservação da espécie.
A situação progressivamente mais desesperada das populações de lince convenceu-me a mudar de posição e achar que era preciso ter um bom programa de reprodução em cativeiro, no mínimo como seguro de vida da espécie, quer ela se extinguisse ou não na natureza. O que não significa que ache a reprodução em cativeiro em Portugal prioritária mas admito que Portugal participe nesse esforço que é fortemente consumidor de recursos, e de resultados muito incertos.
As minhas dúvidas prendem-se com o meu desconhecimento do modelo de gestão do centro do Algarve (não sei quem paga, quanto paga e com que objectivos) mas sobretudo com as medidas de conservação in situ.
O conservação do lince depende inteiramente da conservação do coelho. Convém compreender bem o que se passou com estas populações de coelho para perceber a minha perplexidade quando ouço dizer, a propósito da conservação do lince, que a tranquilidade e a ausência de pessoas é uma condição favorável à sua recuperação.
No Mediterrâneo o coelho, animal de clareira como nós, co-evoluiu connosco, tornando-se, durante milhares de anos, um animal abundante com um grande peso não só na dieta humana como na de muitos outros predadores, com especial destaque para o lince de que é praticamente a única presa.
Poucos anos depois da introdução do primeiro vírus na Austrália com o objectivo de controlar as populações de coelho que são uma praga naquela zona do mundo, o vírus foi introduzido acidentalmente em França. Menos de cinco anos depois, mais de 90% da população de coelhos de França e Inglaterra tinha sido dizimada.
Para o Mediterrâneo e para a área de distribuição do lince não existem dados com a mesma precisão, mas é consensual a ideia de que há uma queda acentuada do número de coelhos, o seu desaparecimento, mesmo que temporário, de muitas zonas e, sobretudo, uma rarefacção brutal, com diminuições de densidade que tornam inviável a existência de populações de lince (seis a sete coelhos por hectare é considerado o limiar mínimo de densidade de coelhos para sustentar populações viáveis de lince, situação que em Portugal ocorre em muito poucos sítios, fortemente geridos com objectivos cinegéticos).
Nestas circunstâncias confesso que não percebo a preocupação com os matagais mediterrânicos (importantes para refúgio do lince e do coelho, mas incapazes de por si sustentarem elevadas densidades de coelho e, de qualquer maneira, em expansão face ao abandono agrícola) em vez de preocupações com a manutenção das clareiras que sempre foram mantidas pela agricultura e o gado, esses sim, em clara retracção.
Parece evidente, para quem tem consciência do custo de manter paisagens em estados de evolução iniciais, contrariando pois a tendência natural de evolução progressiva para matos e matas, com colmatação de clareiras, que não é com projectos parcelares de apoio temporário suportados em financiamentos elevadíssimos por hectare que se consegue manter o mosaico necessário à elevada densidade de coelhos em áreas muito vastas.
A única solução é encontrar economias que suportem esse trabalho diário de formiguinha que consiste em todos os dias contrariar a natureza. Não é por acaso que as últimas áreas onde encontramos linces na natureza correspondem a habitats particulares onde a rarefacção da vegetação é uma característica que resulta das condições naturais e não da longa interacção do homem com a natureza.
Essas economias podem ser antigas (a complementaridade de áreas agrícolas, pastagens pobres e matagais resultante de mão de obra intensiva, fogo e gado), com podem ser modernas (a actual gestão cinegética), como podem ser para lá de modernas (as economias assentes na criação de valor de mercado a partir da biodiversidade, seja pelo turismo, seja pela valorização de produtos, seja pela caça ao lince, seja pelo mercado das doações, etc.).
Para isso os estados da União Europeia dispõem de instrumentos: os instrumentos de financiamento do mundo rural.
É por isso que a frase mais significativa do artigo do Público me parece ser esta:
""As pessoas não têm nada contra o lince mas contra a falta de coordenação e de informação." Turíbio exemplifica que uma das exigências para a atribuição de subsídios da Política Agrícola Comum é não ter mato com mais de 50 centímetros de altura. "Consideram que está abandonado, por isso tenho que o cortar. Mas isso não ajuda à recuperação do lince"."
É isto, andamos a fazer marouços, pastagens que ninguém pasta, sensibilizações e rodriguinhos tais, ao mesmo tempo que os verdadeiros instrumentos de gestão de paisagem em larga escala trabalham ignorando olimpicamente a gestão da biodiversidade.
henrique pereira dos santos

terça-feira, outubro 13, 2009

Um Nobel muito Verde

Faz agora pouco mais de quinze dias que decorreu com enorme sucesso o Fórum Biodiversidade promovido pela Câmara Municipal de Cascais, inserido no Green Festival 2009 que esta autarquia pretende levar a cabo todos os anos no final de Setembro e que contou com alguns especialistas internacionais. Foi lá que encontrei o meu amigo Sebastian Winkler da IUCN e responsável pelo Countdown 2010.

Foi de facto um prazer encontrarmo-nos para um cafezinho e passar de novo em revista alguns temas que fizeram o meu quotidiano durante alguns anos. Durante a conversa perguntei-lhe quais eram as novas tendências ambientais a nível global que vislumbrava no horizonte. Sem a mínima hesitação respondeu-me: em primeiro lugar “Green Economy”, em segundo e terceiro lugar “Green Economy”. E tal forma assim era, que a IUCN tinha criado um novo departamento sobre esta temática e estava a reestruturar-se internamente para se ajustar a estes novos tempos. Aliás, em parte era essa também a razão porque se iria reduzir substancialmente a delegação em Bruxelas (o acompanhamento e influência junto da Comunidade Europeia começava a ser pouco interessante…) e passar as equipas para Genebra o que lhe faria mudar de local de trabalho já para o ano.

Com alguma admiração referi que eventualmente haveria algum exagero nesta sua afirmação e que só faltava dizer-me que o prémio Nobel seria dado a quem se tivesse debruçado sobre estas matérias. Ao que me retorquiu que não sabia se seria já neste ano ou nos próximos, mas que podia contar com isso para breve tal era o movimento nesta matéria nos fóruns internacionais.

Vem, esta história a propósito do prémio Nobel para a economia deste ano. Um dos vencedores é Elinor Ostrom e o Sebastian tinha razão até mais cedo do que julgava.

A Elinor Ostrom não é uma cientista da ecologia nem da economia verde embora estes temas estejam claramente nas suas preocupações académicas e de vida. Mas sem dúvida que o Comité Nobel quis dar um sinal claro que as temáticas económicas que estão para além do estudo dos Mercados e do Estado fazem sentido e desta forma também se aproximar dos grandes temas ambientais e sócio-políticos globais deste novo século como o estudo económico sobre as “alterações climáticas”, a “biodiversidade”, a “gestão dos oceanos”, a “gestão das florestas” e outros que obrigam a uma lógica de gestão partilhada, multi-temática e colectiva de recursos do planeta.

Elinor Ostrom teve a ousadia, e já há muitas décadas (os seus primeiros trabalhos datam do final dos anos cinquenta) de desafiar o pensamento económico convencional de que a propriedade comum é mal gerida e que os indivíduos têm a tendência de sobre - explorar estes recursos comuns desresponsabilizando-se da sua evolução futura levando ao colapso destes (o que Garrett Hardin chamou "the tragedy of the commons"). As soluções nesta visão tradicional seriam ou uma regulamentação forte pelas autoridades centrais/regionais ou a privatização com o accionar dos mecanismos de mercado.

Fortemente baseada em numerosos estudos realizados por todo o mundo sobre a gestão de activos que são comuns e que são geridos de forma organizada pelas colectividades que os exploram, sejam estes stocks de peixes, lagos e bacias, bosques, florestas, pastagens e mais recentemente informação e conhecimento (é forte defensora da livre circulação de informação na internet) Elinor Ostrom desenvolveu uma metodologia de análise que permite analisar os esforços multidisciplinares para a compreensão de sistemas complexos “sócio – ecológicos” e não só concluiu que estes podem ser bem geridos como a sociedade tem a ganhar com estas acções colectivas, particularmente quando os consumidores desses recursos comuns formam um grupo homogéneo e bem definido, aprenderam a confiar, a comunicar e a controlar-se uns com os outros, esperam partilhar um futuro comum e conjecturam deixar esses recursos de forma sustentável para os seus herdeiros.

Este prémio Nobel ao romper com as abordagens clássicas traz um imenso desafio não só para aqueles que estudam estas matérias, mas fundamentalmente para aqueles que pretendem colocar na agenda sócio – política os temas que inevitavelmente estão associados aos estudos da Elinor Ostrom. Dentro destes, os ambientais estarão na primeira linha e também em Portugal.

quinta-feira, setembro 17, 2009

Renováveis, propaganda e criação de valor

Os comedores de batatas Van Gogh

Tenho vindo a seguir com atenção alguma da discussão política que toca as matérias sobre as quais se debruçam as pessoas que escrevem neste blog. É fácil porque quase não há discussão sobre matérias ambientais, excepção feita à questão das renováveis.
Neste post e neste, por exemplo, do blog de apoio ao actual Governo, aparecem estribilhos frequentes sobre as renováveis que não decorrem da discussão da política energética mas sim da pura propaganda.
Independentemente das implicações partidárias de curto prazo, há um aspecto que me interessa discutir aqui: as implicações para o futuro de uma política energética de base ambiental.
Ao contrário do que poderia parecer, esta defesa cega da produção de energia a partir de fontes renováveis, omitindo os seus custos e deturpando as razões pelas quais faz sentido ter uma política de produção de energia a partir de fontes renováveis, é muito perigosa para a lógica ambiental da política energética.
E é perigosa porque no seu primarismo fragiliza o fundamento das posições ambientais e pode criar um efeito de boomerang indesejável.
Tentemos explicar com exemplos simples.
Não falando do meu serviço de dívida, um dos maiores agregados das minhas desequilibradas finanças é a conta da mercearia.
Ora eu tenho, a meias com os meus vários irmãos, uns bocaditos de terra que são suficientes para produzir batatas para o ano inteiro, mas estão a duzentos quilómetros do sítio onde vivo. Se eu olhar apenas para as despesas, pode parecer boa ideia ir lá cultivar umas batatas, com o que diminuo as tais despesas da mercearia. E aproveito, ponho uns feijões, umas couves e por aí fora, e reduzo significativamente as despesas de mercearia que hoje tenho.
De acordo com alguns posts sobre renováveis, os tais que dizem que a política de produção a partir de renováveis é um poderoso instrumento de resolução do problema do desenvolvimento do país porque nos liberta das despesas com a compra de petróleo, ao fim de um ano eu estaria mais rico porque tinha reduzido a importante fatia da despesa da mercearia.
Só que, e aqui a porca torce o rabo, é que para eu ir tratar das batatas incorri numa série de outras despesas que antes não tinha. Algumas são custos concretos, como o preço de me deslocar com a frequência necessária à boa produção de batatas, outras são despesas de oportunidade, por exemplo, o tempo que gastei a produzir batatas, que têm um determinado retorno expresso na redução da conta da mercearia, deixei de o poder usar noutras actividades de retorno mais elevado.
Posso portanto ter reduzido as despesas e ter ficado mais pobre porque o esforço de redução dessa despesa tem um custo maior que a própria despesa anterior.
Ilustremos agora com um exemplo mais geral, retirado de um dos ditos posts:
"A aposta nas energias renováveis, com os excelentes resultados acima indicados, concretizou-se nos seguintes vectores principais:
...
e) Biomassa: foram licenciadas 28 centrais."
Deixemos o pequeno detalhe de eu não perceber de que forma licenças, que são decisões administrativas, produzem electricidade e concentremo-nos na hipótese, evidentemente teórica, das ditas centrais serem todas construídas.
A tarifa para a compra de electricidade aplicável às centrais de biomassa é muito interessante. E reduzimos o consumo de petróleo, é verdade. Só que convém não esqeucer que para o resto da economia, isto é, para os consumidores de electricidade, criámos uma despesa adicional, já que tinham a energia a um preço e passaram a tê-la a um preço mais elevado.
Dir-se-á que isso não é um problema assim tão grande, visto que estávamos a comprar ao exterior e passamos a comprar internamente, obtendo um efeito multiplicador na criação de riqueza nacional.
Isto é em parte verdade, mas é tanto mais verdade quanto mais fechada for a economia. Porque se a economia for aberta, isto é, se o que produzimos tiver de concorrer lá fora com os produtos de todo o mundo e concorrer cá dentro com os produtos de todo o mundo, os consumidores irão optar por produtos que, por terem um custo mais baixo, decorrente de um preço da energia mais baixo, são mais baratos. O resultado é que os produtores nacionais, consumidores de energia, ou vão à falência, ou têm de compensar noutros factores de custo, por exemplo o trabalho ou as garantias sociais, o custo mais elevado da energia.
Estes são os tais custos mais fáceis de identificar, por analogia, as minhas deslocações para ir cavar batatas.
Olhemos agora para os custos de oportunidade.
Numa discussão anterior usei o valor de quatro jornas por hectare para o rendimento do trabalho de um homem a cortar mato (admitindo que as centrais de biomassa trabalham com mato, que foi a justificação política para a inflação da tarifa mas que é treta: a central de biomassa de Mortágua tinha cerca de 2% de matos no seu mix de combustíveis. Acontece que na maioria dos combustíveis das centrais de biomassa os custos de oportunidade seriam ainda mais elevados que para os matos que vou discutir de seguida).
A razão pela qual a tarifa tem de ser muito alta é exactamente para compensar os elevados custos de corte e transporte do mato para as centrais.
Imaginemos que em vez de estarmos encadeados com a modernidade de sermos fantásticos a produzir electricidade a partir de fontes renováveis à maluca, somos uns tacanhos matarruanos que apenas queremos cuidar da vidinha e, se possível, enriquecer retrogadamente, em vez de empobrecer com modernidade.
O resto são batatas.
Nessa altura o que nos vai preocupar é o que dá mais rendimento, isto é, o que verdadeiramente cria valor.
Partindo dos mesmos matos, em vez de eu subsidiar a electricidade para pagar os custos de cortar mato, repercutindo a elevação do custo no resto da economia e retirando-lhe competitividade, eu compro umas duzentas cabras para dar um uso alternativo aos ditos matos, tendo o custo de um pastor por duzentas cabras, qualquer coisa como anualmente cortar o mato de 50 hectares, em vez de subsidiar um homem para os mesmos 50 hectares (com as produtividades estou a comparar a produtividade de um super-homem com umas cabras manhosas, mas adiante).
Comparemos agora o resultado final da conta de exploração:
Com a central de biomassa, eu passei para a economia custos acrescidos, diminuindo competitividade para obter alguma poupança na compra de petróleo ao exterior.
Com o rebanho, eu mantive a importação de petróleo e em troca tenho cabritos competitivos e queijos competitivos, com o lucro dos quais pago o petróleo que importava e ainda fico com uns trocados para investir na investigação de formas de produção de energia a partir de fontes renováveis e, simultaneamente, competitivas.
Atenção, o preço do petróleo pode disparar e alterar todos estes pressupostos.
É verdade, resta saber qual é o ponto de equilíbrio entre investir agora em tecnologias em rápida mutação (e aumento constante de eficiência), face à alternativa de investir depois em tecnologias já mais eficientes com o dinheiro que entretanto ganhei a vender queijos e cabritos.
A discussão é tudo menos simples, porque é uma discussão sobre o futuro, ou seja, sobre a mais desconhecida das realidades.
Mas exactamente por ser tudo menos simples é que se deveria evitar que fosse simplex.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, setembro 10, 2009

Os contribuintes e o fogo


A propósito da afirmação: "Será que os técnicos ... querem combater os incêndios apenas com rebanho de cabras? Talvez com um Kit de combate a incêndios às costas (perdoe-me a ironia…)?", que já comentei noutro post, pareceu-me útil esclarecer duas coisas:
1) Um dos maiores equívocos da política de gestão do fogo em execução é a ideia de que os sapadores são prioritariamente apagadores de fogos. Tal não é verdade. São sobretudo executores de políticas de silvicultura preventiva, embora também apaguem fogos. São por isso mais versáteis que as cabras que são única e exclusivamente silvicultoras e não bombeiras.
2) O dinheiro envolvido nesta silvicultura preventiva assente em sapadores e não na gestão económica do território é maioritariamente público. Muitas das equipas de sapadores são financiadas pelo Estado central (via Fundo Florestal Permanente, em grande medida) e as percentagens remanescentes são cobertas por dinheiros públicos de outras origens, como Câmaras Municipais, por exemplo. Também existem equipas parcialmente financiadas por dinheiros privados e, acredito, algumas, sobretudo associadas às celuloses, totalmente financiadas pelos privados. Convem por isso explicar aos contribuintes o que significa a diferença entre usar sapadores para gerir combustiveis (eles têm muitas outras funções, mas também têm esta que ocupará grande parte do seu tempo, se de facto os sapadores não forem desviados para outras ocupações, como limpar jardins e outros espaços não florestais).
Fiz umas contas de algibeira que desde já estou disposto a corrigir quando alguém apontar valores que traduzam melhor a realidade, porque estes são assumidamente frágeis, embora me pareça que permitem a discussão da ordem de grandeza das diferenças de custos para os contribuintes.

Tomemos então como bom um custo anual por equipa de sapadores de cerca de 60 000 mil euros (não estou a incluir os custos de investimento em equipamento). Isto significa um custo de cerca de 12 000 euros anuais, por homem. Vamos considerar uma produtividade de trabalho de 4 jornas por hectare na limpeza de matos (uma hipótese muito favorável em relação à realidade, penso eu). Vamos considerar que cada um destes homens faz 200 jornas anuais (eu direi que é uma hipótese que me parece pouco realista por excesso, mas sigamos em frente). Cada um destes homens limpará então 50 hectares, com um custo de 12 000 euros.
Vejamos o que acontece quando passamos dos homens para as cabras.
Consideremos um encabeçamento de 4 cabras por hectare. Para os mesmo 50 hectares, precisamos de um rebanho de 200 cabras. A diferença é que agora o ganho por fêmea aleitante é positivo, e não negativo. Consideremos 30 euros por fêmea, consideremos que por razões várias só metade do rebanho atinge estes valores de produtividade e teremos então não um custo mas um ganho de 3 000 euros. Pode ver-se aqui, por exemplo, como os valores de que falo estão provavelmente distorcidos a favor das equipas de sapadores florestais.
Ou seja, a diferença de custo na tarefa de gestão de combustiveis (e insisto que os sapadores são mas flexiveis e fazem outras tarefas) é de 15 000 euros anuais, por sapador.
Ou para ser mais claro, se cada equipa de sapadores for substituída na tarefa de gestão de combustiveis por cinco rebanhos de 200 cabras (mais flexiveis na gestão territorial de combustiveis), o Estado pouparia 75 000 euros.
Considerando que se poderiam substituir 100 equipas de sapadores por 500 rebanhos, isto significaria uma poupança de 7 500 000 de euros.
Sim, sete milhões e meio de euros anuais.
Isto mesmo não considerando os custos marginais e os benefícios marginais, isto é, o equipamento para as equipas de sapadores (que poderiam bem ser substituídos por equipamentos de controlo dos rebanhos, ainda assim calculo que bem mais baratos que a abundante dotação de equipamento dos sapadores), os custos com combustíveis e desgaste das viaturas (bastante menores nos rebanhos, mesmo que a sua gestão implicasse o seu transporte rodoviário para as áreas onde seriam mais úteis), o transporte de sobrantes a vazadouro, a fertilização feita pelas cabras e toda a dinamização da fileira associada ao leite de cabra, bem mais interessante do ponto de vista do desenvolvimento rural que a criação artificial de emprego totalmente dependente da política de cada Governo e da situação das finanças públicas.
Nunca tinha feito estas contas e verdadeiramente nunca me tinha dado conta da dimensão dos valores em causa.
O que me leva a perguntar: que contas faço eu erradas?
É que a única explicação racional para que as coisas nunca tenham sido postas neste pé só pode ser por eu estar a cometer erros crassos e primários que espero que rapidamente alguém corrija.

henrique pereira dos santos

PS Eu sei as dificuldades operacionais e de execução associadas ao uso do gado na gestão de combustíveis. Mas 10 000 euros anuais por rebanho de 200 cabras não removeriam rapidamente essas dificuldades? E ainda sobravam mais 5 000 de poupança para o Estado

quinta-feira, junho 18, 2009

O sector desimportador

"quem quer figos/ quem quer almoçar"

Com frequência vejo análises económicas que, olhando para os desiquilíbrios estruturais da nossa economia, concluem que só há possibilidade de não continuarmos a empobrecer alegremente: exportar mais para ter dinheiro para pagar o que importamos, já que temos um coeficiente de cobertura das importações pelas exportações a rondar os 65%.

Este tipo de análises tem levado a muitos programas de estímulo às exportações, incluindo apoios directos (hoje mais raros que noutras alturas), promoção do país e dos produtos do país fora de Portugal, contratos de investimento muito favoráveis e muitos outras medidas.

Não percebendo eu nada de economia o que para mim é mais estranho é ver o corropio de atenções dadas à anteriormente chamada maior exportadora nacional, Qimonda.

Tanto quanto percebi, o título de maior exportadora nacional, e o consequente desvelo de Governo e economistas para com a empresa, que se traduz em good will e apoios directos, é obtido apenas por uma das colunas do balanço e não pelo saldo, isto é, dado o funcionamento da empresa, a Qimonda deveria também ser uma das grandes importadoras nacionais. O que nunca consegui ver escrito era o saldo global exportações/ importações.

É curioso, mas não tenho ideia de ver nenhuma lista das maiores importadoras nacionais, como se as exportações fossem mérito de empresas concretas que merecem apoio e reconhecimento social mas as importações fossem abstracções estatísticas em sectores cuja responsabilidade já não é de empresas em concreto.

Tanto quanto percebo do que vou lendo importamos sobretudo energia, máquinas e aparelhos, carros e afins e produtos alimentares.

Assim sendo parecer-me-ia normal que os sectores "desimportadores" fossem tratados exactamente com o carinho e atenção dos sectores exportadores e as "empresas desimportadoras", como as empresas exportadoras.

Sendo a energia uma das nossas principais importações, a eficiência energética em primeiro lugar, a produção endógena em segundo, deveriam ser tratados nas palminhas. Se em relação à produção endógena ainda vamos tratando mais ou menos o sector (embora seja para mim incompreensível que muitas decisões sobre energia sejam tomadas pelos gestores do sistema energético como se fossem questões meramente técnicas de gestão da rede ou da produção e não questões de alta política da qual depende a nossa independência), a verdade é que a eficiência energética, um dos nossos sectores desimportadores com maior potencial, é tratado como um berloque chique que é preciso ter ("noblesse oblige") em vez de ser tratado pelo menos como a Qimonda, com visitas de ministros, começando pelo primeiro, reuniões com a AICEP, apoios, créditos e etc., como que mimamos as empresas exportadoras, muitas vezes mal porque o Estado se entretém a gastar os recursos para criar ou manter artificialmente ineficiência.

Um nota ao lado para chamar a atenção de uma observação frequente de João César das Neves: o uso dos recursos públicos é eticamente mais exigente porque se trata também do uso do dinheiro dos pobres.

Mas onde este esquecimento dos sectores desimportadores mais me faz confusão é na produção de alimentos.

Portugal tem naturalmente fragilidades grandes para a produção de alimentos e, dentro destes, de cereais. Isso é certo.
Mas isto não significa que tenhamos de aceitar a fatalidade da importação alimentar, sem olhar com a devida atenção para o seu potencial desimportador.

Suspeito que se fizermos um inquérito aos refeitórios das escolas do país (ou aos quartéis, ou aos hospitais, ou às fábricas) rapidamente chegaremos à conclusão de que se consome demasiada carne nestas refeições e que dentro dessa demasiada carne, a esmagadora maioria será de vaca ou porco. Concomitantemente veremos, em relação ao que era tradicional, uma desvalorização do feijão, do grão, das favas, das ervilhas, dos cozidos, caldeiradas e ensopados onde a carne desempenha uma papel complementar.

Em Portugal, importador crónico de cereais, isto é um absurdo, porque a carne de vaca e porco que produzimos é maioritariamente suportada em rações que, mesmo que produzidas em Portugal, o são com cereais importados, com uma eficiência alimentar reduzida (e um efeito cultural importante que depois se refecte na alimentação em casa e no que se pede nos restaurantes).
Pelo contrário, o borrego e o cabrito criam-se nas pastagens pobres de que temos abundância (o porco também mas não é o que é produzido assim que normalmente aparece nos refeitórios). Sim, é certo que o rendimento do trabalho nestas produções pode ser razoavelmente mais baixo que noutras produções, mas a questão está mais uma vez no efeito disto: para pagarmos os bifes temos de exportar mais, não importa como, e portanto desatamos a gastar recursos (muito provavelmente com alguma ineficiência) a apoiar os sectores exportadores.

Eu não sou economista, mas suspeito, intuo, que o saldo global seria bem melhor se olhássemos para os sectores desimportadores com atenção em vez de considerarmos a produtividade primária (com excepção das florestas que conseguimos associar a umas fábricas) como coisa de economias atrasadas.

Mas também suspeito que faço parte duma minoria conotada com o lado errado da história e da economia porque vejo sistematicamente a desvalorização do solo agrícola como recurso que é preciso defender das falhas de mercado que o tornam tão frágil no actual mercado.

henrique pereira dos santos

terça-feira, abril 28, 2009

CRISE MUNDIAL E RESPOSTA ECOLÓGICA (II Parte)

Prosseguindo o resumo da crónica de Hervé Kempf, ele lembra, a seguir, que a crise, ou mesmo o seu momento, era previsível para o caso dos Estados Unidos mas também para o da China.

Ele próprio a previu ao escrever em 2006:

«Entrámos num estado de crise ecológica duradoura e planetária, que se deveria traduzir por um abalo próximo do sistema económico mundial. Os rastilhos possíveis poderiam acender-se na economia ao atingir a saturação e esbarrar contra os limites da biosfera: uma paragem do crescimento da economia americana, minada pelos seus três défices gigantescos (balança comercial, orçamento, dívida interna). Como um toxicodependente que só se mantém de pé à custa de doses repetidas, os Estados Unidos, drogados do sobreconsumo, titubeiam antes do colapso; uma forte travagem do crescimento chinês, já que se sabe que é impossível que tal crescimento mantenha duradouramente um ritmo de crescimento anual muito elevado. Desde 1978, a China conheceu um crescimento anual da sua economia de 9,4 por cento. O Japão é um precedente a não esquecer: vinte anos de crescimento assombroso, e em seguida a estagnação duradoura desde o início dos anos 1990».

Prognósticos e Saídas

O prognóstico do cronista é que a economia não voltará a arrancar como antes e que o crescimento mundial do PIB não voltará aos 5 por cento; teria terminado a expansão rapidíssima da China e da Índia. Temos pois, segundo ele, que conceber um mundo novo, uma outra economia, uma outra sociedade, inspirados pela ecologia, pela justiça e pelo cuidado pelo bem comum. O prognóstico poderá estar errado, mas é evidente que o de 2006 se confirmou em pleno, para já. Sem esquecer que as crises que precederam e preanunciaram a atual (Ásia nos anos 1990, economia internética no início dos anos 2000) foram elas também, de alguma forma, previstas por diversos economistas e analistas não convencionais a que ninguém «sério» obviamente prestou ouvidos.

De facto, estamos sempre a ler e a ouvir que NINGUÉM previu esta crise. Não é verdade, não apenas pela citação que fizemos de Kempf, mas também devido a muitos outros analistas, incluindo economistas, embora minoritários. Seria de referir aqui a New Economics Foundation criada sob inspiração de Fritz Schumacher (cujo celebérrimo Small is Beautiful foi, se apreciado por muitos, largamente ridicularizado pelos próceres da mesma economia que agora se apregoa em grave estrangulamento), autores como James Robertson (veja-se, em tradução portuguesa, o seu Transformar a Economia - um desafio para o terceiro milénio), Richard Douthwaite ou Bernard Litaer, e outros economistas ecologistas como Hazel Henderson e Herman Daly, ou fundações de analistas como o Worldwatch Institute ou o Earth Policy Institute, ambos fundados por Lester Brown, que não se limitam a análises mas propõem caminhos, para além de inúmeras correntes de pensamento e de práticas que, um pouco por todo o mundo, têm procurado seguir inspiração semelhante. Claro que nada disso existe aos olhos do mundo oficial, que é quem dita a regra do que existe ou não existe.

E, no entanto, quem tinha por função prever e antecipar soluções nada previu e nada antecipou. É claro que, sendo esses o mundo «oficial», o único que para eles e para a imprensa realmente existe, tudo o resto não passando de paisagem ou menos ainda, julgam de facto que NINGUÉM (isto é, nenhum deles) nada previu. O que faz supor que as soluções postas em marcha serão segundo as receitas deles mesmos e não segundo as sugestões e pistas fornecidas por quem teve a lucidez de prever. Daí que não possa haver expectativas excessivas sobre se as sociedades e seus líderes teriam aprendido já alguma coisa de fundamental com a crise.

E agora, que fazer?

Na última parte do seu pequeno artigo, Hervé Kempf põe a questão clássica já posta por Tolstoi e Lénine (um, a via não violenta, outro a via revolucionária; só a primeira, a meu ver, pode ajudar a sair do atual impasse), e depois sempre retomada quando a perplexidade se sobrepõe às convenções: que fazer? A resposta de Kempf, quiçá um pouco abrupta: parar de macaquear Keynes e de nos imaginarmos em 1929 quando estamos em 2009: a dependência, o endividamento, a inflação, não são a solução. Consertar o reboco do edifício não poderá reparar alicerces em ruínas. Importa pelo contrário operar uma redistribuição da riqueza coletiva em direção aos pobres; a ferramenta para isso poderia ser o RMA: rendimento máximo admissível. (Diga-se, comento eu, que isso provavelmente transformaria a corrida à riqueza em simples corrida ao RMA - talvez já fosse um progresso perante o que hoje se vê: a transformação da vida económica, social e nacional numa maratona rumo a um ranking que nada de facto de importante significa quanto a objetivos que não se reduzam à dimensão quantitativa; o que põe a questão, complexa, fulcral, mas que aqui não há espaço para abordar, do significado ou absurdo de índices como o PIB e das alternativas que têm sido tentadas).

Ainda segundo Kempf, a redução da desigualdade também ajudará a alterar o modelo cultural de sobreconsumo, e tornará suportáveis as descidas necessárias e inelutáveis do consumo material e de consumo de energia nos países ricos. Outra exigência: orientar a atividade humana para os domínios de fraco impacto ecológico, mas criadores de emprego, e nos quais as necessidades são imensas: saúde, educação, cultura, poupança de energia e sua produção ambientalmente compatível, incluindo a mais importante forma de energia que é a agricultura, transportes coletivos, a conservação e restauração da natureza. Fácil? Não. Mas, segundo ele, mais realista que julgar possível o regresso à antiga ordem, a anterior a 2007.

E por aqui me fico, não sem antes referir um artigo também publicado no mesmo jornal (mas em inglês, num pequeno suplemento do The New York Times), sobre a forma como os japoneses estão a reagir à crise: reforçando a poupança, refreando o consumo, levando um estilo de vida mais simples, para desespero dos «economistas» (seria mais certo chamar-lhes «gastadoristas»), que põem, desaprovadoramente, como parte da explicação, a ancestral cultura oriental que encontramos já compendiada nos grandes mestre chineses, no taoísmo, em Confúcio, etc, e que era também a «cultura» tradicional no Ocidente até há bem pouco tempo. De facto, a generalização da «criação de riqueza» à maneira ocidental moderna em países de outras culturas, embora aparentemente coroada de êxito, só pôde ser feita escorchando vivos os sujeitos dessa «felicidade»; basta acompanhar a evolução desses países para verificar que Dickens e Soljenitsine teriam aí farto material para novos «infernos industriais» e «concentracionários».

José Carlos Marques
jcdcm@sapo.pt

CRISE MUNDIAL E RESPOSTA ECOLÓGICA (1)

Nos meios que dão prioridade à natureza e ao ambiente, estão ser universalmente debatidas as implicações da crise financeira e económica mundial com a maior atenção.

São duas as principais abordagens que o debate revela. De certa perspetiva, a crise financeira (que é também económica e institucional) surge como uma ameaça às políticas de combate às alterações climáticas e a outras políticas de proteção do ambiente. Perante a gravidade da crise, os Estados e as empresas estariam a cortar sem dó nem piedade na afetação de fundos atribuídos ou a atribuir a essas políticas.

Segundo outra vertente, a crise é oportunidade. De facto, a parcial paralisia da máquina económica é vista por outros como uma oportunidade de reorientar toda a economia num sentido mais favorável ao ambiente e uma demonstração de efeitos benéficos de uma paragem em atividades destrutivas.

É essa por exemplo a posição de Hervé Kempf, jornalista do Le Monde, e autor de diversos livros, dois dos quais, os mais recentes, ostentam títulos elucidativos (ver: [1]) : em 2007, «Comment les riches détruisent la planète ? » (Como é que os ricos destroem o planeta) e, em 2009 : «Pour sauver la planète, sortez du capitalisme» (Para salvar o planeta, saiam do capitalismo).

Um seu pequeno artigo, uma crónica curta na verdade, na edição do Le Monde de 15-16 de fevereiro de 2009, apresenta um resumo dessa posição.

Nesta primeira parte refiro o primeiro dos três pontos em que Hervé Kempf divide o seu texto.

Começando por advertir num parágrafo de introdução geral que o que se vai ler é radicalmente contrário ao discurso dominante, o primeiro ponto passa então a proclamar que a crise económica é uma boa notícia. E convida-nos a imaginar o que aconteceria se o produto interno bruto (PIB) da China tivesse continuado a crescer 10 por cento ao ano, o dos Estados Unidos 5 por cento e o da Europa 2,5 por cento. As emissões de gases de efeito de estufa daí resultantes teriam rapidamente atingido o limiar que faria bascular no irreparável as alterações climáticas. O colapso da biodiversidade ter-se-ia acelerado, precipitando a sociedade humana num caos indescritível. Ao deter este crescimento louco do PIB mundial, a «crise económica» permite atenuar os assaltos da humanidade sobre a biosfera, ganhar tempo e refletir na nossa reorientação.

Seguem-se outros dois pontos, que referirei noutras partes subsequentes.

É claro que Kempf não ignora os enormes dramas causados pelos despedimentos na sequência da crise. Mas, como é evidente, não se pode acusar a sua posição de ter provocado esses despedimentos! Há muito que os que pensam assim (pois muitos o pensaram por antecipação de décadas e até mais do que isso, embora sem referência a um momento tão concreto da história) propõem precisamente a tal reorientação PARA EVITAR os dramas que se estão a passar! Simplesmente, a máquina social continuou (e continua) a rolar em direção ao muro. Se alguns passageiros procuram saltar em andamento, a maioria foi conduzida, e está a ser conduzida, de encontro ao muro.

O desafio que a crise ambiental (clara para as instituições internacionais pelo menos desde 1972, data da Conferência de Estocolmo da ONU sobre o ambiente) sempre colocou foi o de mudar a direção da máquina de forma a ela não ir embater contra o muro. Isso decerto implicaria que outras prioridades tinham que ser dadas ao funcionamento social (económico e portanto político), outras atividades teriam que substituir as atividades ambientalmente destrutivas e deveriam ser remuneradas – inclusive não-atividades aparentes –, o que evitaria os despedimentos massiços a que se assiste e se continuará a assistir provavelmente. O próprio conceito de «desenvolvimento» teria tido que ser orientado para outros fins: não medido pelo crescimento económico ou do PIB, mas pela satisfação do humano fundamental, a começar pela não-fome, pela instrução, a saúde preventiva, a proteção da natureza. Ora, como foi demonstrado desde há muito, grande parte daquilo que é rotulado de desenvolvimento é precisamente o que leva largos setores da população à fome, à falta de instrução, à doença, à exposição aos efeitos da destruição ambiental, incluindo as vagas enormes de refugiados e migrantes ambientais ainda por vezes confundidos com simples migrantes económicos.

Ao surto de consciência ecológica nos anos 1960-70, que se baseava nessa perspetiva, seguiu-se, nos anos 1980, uma doutrina da conciliação espontânea da economia, tal como existia, com a proteção ambiental. Doutrina falsa ou equivocada, que é parte do problema atual, e não da solução. Sem dúvida, a economia e o «desenvolvimento» não só são compatíveis com a proteção e regeneração do ambiente e da natureza como só são possíveis com estes últimos (e vice-versa). Mas é então uma economia e um «desenvolvimento» profundamente diferente do que tem sido tomado por esses nomes, com outras prioridades e outras práticas, e exigindo outras estruturas sociais e produtivas e outros modos de funcionamento. E passar a essas outras formas de funcionamento (o que obviamente não pode ser feito com uma varinha mágica e levará sempre um tempo prolongado de transições graduais) é a solução que restaria à crise. Seria para isso necessário que as sociedades, de forma consciente e coletiva, optassem por essas soluções e revissem portanto as suas prioridades.

Nada garante que tal aconteça, os sinais dominantes são mesmo inversos desses. As transformações, se vierem a existir, em vez de assumirem a forma gradual capaz de adoçar o impacto doloroso da transição, serão talvez provocadas aos sacões, como o está em parte a ser esta crise atual e poderão ser as futuras. Sacões porém com um cortejo enorme de sofrimentos atrás de si.

[1] http://mneaquitaine.wordpress.com/2009/01/20/kempf-pour-sauver-la-planete-sortez-du-capitalisme/

José Carlos Marques
jcdcm@sapo.pt