segunda-feira, janeiro 17, 2011
Apitó comboio
sexta-feira, dezembro 10, 2010
Commodities e indústria automóvel
Gráfico com quatro diferentes índices de preços de futuros de commodities, tirado daqui.domingo, outubro 24, 2010
O chícharo
imagem roubada daqui, que gosto deste blogsexta-feira, outubro 15, 2010
Lendo um jornal de hoje
sábado, outubro 09, 2010
Projectos estruturantes
Percebo o que o Miguel diz e nem sequer estou assim tão em desacordo.
Mas tenho mesmo muito medo da facilidade com que se afirma (aliás sempre suportados em estudos de custo/ benefício que concluem sistematicamente o que o dono da obra pretende que se conclua) que um projecto é estruturante.
Vou tentar explicar porquê (as minhas desculpas pela extensão do post, agravada pelas imagens).
Ora aqui temos um projecto estruturante em pleno trabalho de parto.
Sobre este projecto já disse aqui o pensava: um forte candidato à decisão mais estúpida de ordenamento do território que conheço.
Este projecto é por si considerado estruturante, mas integrado num outro mais estruturante, o Portugal Logístico, a que felizmente a crise veio pôr alguma contenção que dá mais alguma esperança de travar a destruição do vale do Coronado com outra plataforma logística.
Ora na realidade existem, do Trancão à Castanheira do Ribatejo, milhares de metros quadrados disponiveis, assentes das ruínas da indústria e logística que faliu, e a versão aprovada do Portugal logístico identifica bem essa potencialidade ao localizar ali a plataforma de Lisboa Norte. .
Na verdade o que vamos fazer é manter as ruínas como ruínas, num sub-aproveitamento das capacidades instaladas, para ocupar áreas produtores de bens e serviços transacionáveis (e no caso português, escassos, como são os bens agrícolas competitivos), destruindo património nacional relevante (os solos agrícolas) e aumentando os riscos pela ocupação do leito de cheia.
Razões? O promotor queria ali. Razões? O Estado não tem dinheiro para dizer que ali não pelas razões evidentes, expropriar os locais adequados e estruturar o território. Ou em alternativa, limitar-se a dizer que não e o mercado que empurre os operadores logísticos para as soluções racionais.
Mas o operador é irracional? Não, de maneira nenhuma, comprou terreno agrícola ao preço da chuva (mesmo que seja uma chuva mais grossa face à qualidade do solo e à expectativa) e vai vender ao preço do solo urbanizado, o que corresponde a um poderosíssimo apoio financeiro atribuído pelo Estado através de decisões administrativas irracionais (e injustas para o proprietário original, diga-se de passagem, bem como para os proprietários dos actuais terrenos entre o trancão e Castanheira do Ribatejo que face à oferta da nova plataforma ficam sem procura de justifique a reconversão dos seus terrenos, que continuarão ao abandono).
O projecto contribui para alterar a economia?
Sim, sem dúvida.
Desse ponto de vista é estruturante.
Mas Portugal tem um problema logístico sério e excedentes agrícolas abundantes que justifiquem o esforço do Estado em reforçar a distribuição, diminuindo a capacidade de produção agrícola?
Acho que nem a brincar alguém admite isso. Só mesmo a sério os estudos sobre logística conseguem justificar que a economia portuguesa, em que a distribuição é um dos sectores mais desenvolvidos e modernizados, que na região conta com inúmeras plataformas (desde do Luís Simões, às empresas mais conhecidas da distribuição, aos terminais de contentores, à antiga fábrica da opel na Azambuja, todos estão fortemente na região), porque os palhaços querem-se sisudos para serem eficazes, como a isso estava contratualmente obrigado o Buster Keaton.
Os projectos estruturantes com forte intervenção do Estado, seja por via do dinheiro real investido pelos contribuintes, seja pela venda de licença, como acontece neste caso, têm a estranha mania de serem contaminados por esta irracionalidade de não se perceber bem como há tanta coisa estratégica e afinal, passados anos, nem as moscas mudaram assim tanto.
A tradição vem de longe e continua: Porto de Sines, Ponte Vasco da Gama (que assinala a viragem recente decisiva para chegarmos onde estamos, ao libertar-se das amarras do dinheiro efectivamente existente, ou do crédito que pesa na dívida presente, para usar a dívida das gerações futuras através do complexo processo de project finance que inaugura as parcerias publico privadas), os célebres PIN, o Conrad Hotel, Alqueva, o aeroporto de Beja (uma coisa extraordinária, um aeroporto que se conclui sem que seja possível receber vôos e que suporta uma estrutura de gestão que custa o que custa ao contribuinte) e muitos e muitos outros exemplos, maiores ou menores, de coisas que por serem consideradas estratégicas pelo Estado nos levaram até aqui.
Eu estou farto de projectos estruturantes que querem resolver os problemas das empresas com o dinheiro que os contribuintes entregam ao Estado e ao mesmo tempo, uma chuvita da treta, desestrutura a vida da capital do país porque não parece haver muita gente a preocupar-se com os pequenos problemas do quotidiano comum, como ter as sarjetas limpas e um sistema de escoamento da água da chuva minimamente eficiente (esquecendo o tempo em que Lisboa tinha esgotos, cem anos antes de Londres ou Paris).
henrique pereira dos santos
quarta-feira, outubro 06, 2010
A crise e o gasto militar em Portugal
Questionar os gastos da defesa nacional é quase um tabu em Portugal. Os comentários que foram feitos aqui e ali deixam antever que existe a percepção de que este é um debate ideológico. Ser de esquerda é ser contra estes gastos e ser de direita é ser a favor. Não podia estar em maior desacordo. Eu considero-me uma pessoa de difícil classificação pois estou no centro do espectro político. Nuns aspectos serei classificável como de esquerda, noutros de direita. Na verdade estas classificações interessam-me pouco pois o mundo de hoje não se compadece com a classificação das pessoas num único eixo de abcissas. O que me interessa é a racionalidade das escolhas. E por isso questiono a opção estratégica deste e de outros governos para situar Portugal à cabeça dos países Europeus em matéria de gasto militar.
Portugal gastou em 2008, 2% do seu produto interno bruto (PIB) em despesas militares. Este valor aumentará no ano em que se pagarem os submarinos. Mas quanto gastam os nossos parceiros Europeus?
Aqui vão os dados retirados da wikipedia: Itália (1.7%); Roménia (1.5%); Dinamarca (1.4%); Alemanha (1.3%), Finlândia (1.3%); Noruega (1.3%); Belgica (1.2%); Espanha (1.2%); Hungria (1.2%); Austria (0.9%); Suiça (0.8%); Luxemburgo (0.7%); Islandia (0.1%).
Gastam mais do que nós, ou o mesmo que nós, a Grécia (3.5%), o Reino Unido (2.5%), a França (2.3%), e a Polónia (2%).
A Grécia pela relação conflituosa que têm com a Turquia (ainda que seja pouco provável que a Turquia ousasse atacar território Europeu, sendo aliás parceira da Grécia na NATO). O Reino Unido e a França pelo importante papel internacional que desempenham, nomeadamente no quadro do Conselho de Segurança da ONU. A Polónia pela idiossincrasia nacional, forjada por invasões recorrentes por parte da Alemanha e Rússia.
A menos que nos queiram convencer que o gasto militar Português se justifica pelo medo da invasão Espanhola (um absurdo nos dias de hoje), não se entende a racionalidade da escolha dos sucessivos governos do bloco central. Não se entende que nos estejamos a hipotecar até às orelhas, ao ponto de comprometermos a sociedade de bem estar que fomos construindo, para manter um nível de gasto militar muito acima da média Europeia (e quase o dobro do gasto Espanhol).
Não entendo que os comentadores e autores deste blogue achem isto normal.
terça-feira, outubro 05, 2010
O dinheiro do público (prioridade e urgência)
"Eu manifesto perplexidade por se deprimir a economia cortando salários, congelando pensões, aumentando impostos, etc, mantendo investimentos, desnecessários, em submarinos" e continua, especificamente para mim: "não percebo a tua complacência com os gastos em submarinos e a tua animosidade a investimentos estruturarais, como é o caso do TGV."
Tudo começou por eu questionar a forma como o Miguel coloca a discussão, exactamente por achar que não se pode discutir alternativamente cortar salários e etc., e pagar ou não um investimento contratado.
Primeiro as questões práticas, depois as de substância.
Que o Estado está falido é uma evidência (e é arrepiante olhar para os compromissos futuros já assumidos e não constam da dívida para já).
Como todos os dias, a todas as horas estamos a consumir 110 quando produzimos 100, naturalmente precisamos que alguém nos empreste dinheiro.
Claro que quem tem dinheiro apenas empresta se tiver ums expectativa razoável de vir a receber o dinheiro mais tarde, sendo que o juro que nos cobra por esse empréstimo está directamente relacionado com o risco que associa à possibilidade de não ser pago.
A situação neste momento é a de uma urgência: temos contas para pagar amanhã e o cofre está vazio. Como continuamos alegremente a gastar 110 e a produzir 100, o emprestador está a cobrar-nos um risco elevado e a diminuir a sua disponibilidade para nos emprestar dinheiro.
Cortar salários, aumentar impostos e etc., tem um efeito recessivo inegável. Com isso diminuímos a nossa capacidade de honrar a dívida. Mas tem como resultado uma diminuição sensível e imediata dos gastos do Estado que, aos olhos de quem nos empresta dinheiro, aumenta a confiança em que venhamos a pagar a dívida.
Imaginemos que em vez de fazer isto, resolvíamos não pagar compromissos jurídicamente claros. Para além de ser duvidoso que não tivessemos de qualquer maneira que pagar, obrigados pelo tribunal, a verdade é que demonstrar que os compromissos titulados internacionalmente (e tanto faz que sejam submarinos ou chupa-chupas) eram letra morta para nós, só faria aumentar a desconfiança, tendo como resultado o fecho da torneira do crédito ou o pagamento de juros exorbitantes (ou um mix das duas coisas). O resultado seria ainda mais desastroso para uma economia completamente viciada no crédito.
Acresce que cortar salários na administração coloca o patamar para a evolução futura mais abaixo, não pagar um submarino tem um efeito pontual nas contas de um ano, mantendo inalteradas todas as condições que nos levam à falência do Estado.
Portanto não se podem discutir as alternativas no termos em que o Miguel as pôs porque uma responde ao problema, a outra não.
Passemos às questões de substância.
O que tenho dito sobre os submarinos (para além da questão prática de ser um compromisso juridicamente forte) é que não sei discutir o assunto porque não sei o suficiente de defesa nacional nem das modernas funções de defesa, nem das modernas possibilidades dos submarinos.
Se, como afirma o Miguel, os submarinos forem inúteis, só tenho de lamentar que vários Governos e vários ministros e vários primeiros-ministros tenham sempre mantido e garantido a sua utilidade e imprescindibilidade.
Vamos então à questão dos investimentos estruturantes.
Quando um Estado tem dinheiro, é livre de fazer opções. Quando está falido, faz as opções que quem tem dinheiro lhe permite. Quando é o Estado português governado por um inimputável, toma decisões absurdas e culpa os outros pelos resultados.
Tomemos um exemplo.
As parcerias publico privado foram criadas para as situações em que as melhorias de eficiência de uma gestão privada de um determinado projecto (por exemplo, a operação de um hospital) eram suficientemente grandes para cobrir os sobrecustos decorrentes do financiamento privado ser mais caro (o risco é maior com os privados que com o Estado) e ter de incluir a remuneração do capital.
O Estado português resolveu inovar, usando as parcerias para criar dívida futura sem aumentar o déficit presente, baseando-se em conceitos de economia voodoo. Estes conceitos postulam que os projectos vão gerar uma economia cujos impostos vão servir para pagar a dívida no futuro. Pura roleta, pura economia de casino, porque se as previsões estiverem mal feitas (e em Portugal têm estado sempre) quem fica com os custos operacionais é o Estado (outra das inovações do Estado português, porque nas parceira público privado o risco fica sempre do lado do concessionário, sendo esse o motor da melhoria da eficiência, mas em Portugal o Estado assume o risco em dezenas de situações).
Uma coisa é fazer um ponte (um dos dois exemplos que George Soros dá hoje no Financial Times a propósito dos Estados Unidos) cujos custos de operação são marginais. Outra coisa é operar comboios, cujos custos operacionais existem sempre e são muito relevantes.
Se o Estado português fizesse a linha e concessionasse a operação com o risco do lado do concessionário, a discussão sobre o TGV prender-se-ia apenas com questões de oportunidade (há ou não dinheiro para isso? Hoje não, mas amanhã haverá. Encantado, faz-se amanhã). Só que não é isso que está em cima da mesa (por isso dei o exemplo de outro projecto estruturante, Alqueva, com problemas semelhantes).
O que está em cima da mesa é não só criar dívida para construir (atirando para as gerações futuras o seu pagamento), como ao contrário do que diz o Rui Tavares no seu texto, não é garantido que haja crescimento futuro porque uma exploração deficitária não só não paga a dívida como a agrava.
Daí que o dinheiro do público deva ser muito parcimoniosamente usado, não para deprimir ou estimular a economia (essa é a função das empresas, não do Estado), mas para criar condições para o desenvolvimento da economia (boa e eficaz justiça, segurança de pessoas e bens, defesa nacional proporcionada, diplomacia eficaz, património colectivo bem gerido,etc.), ou para a resolução dos problemas que o mercado não resolve eficazmente (apoio social aos excluídos, resolução de falhas de mercado e por aí fora).
Projectos estruturantes, Miguel, não sei o que são. Só conheço investimentos com retorno positivo (e não é necessariamente económico ou financeiro, pode ser simplesmente a escolha social, como boas áreas protegidas, por exemplo) e investimento sem retorno (na verdade, desperdício), que para além de ser delapidador da riqueza nacional, ainda cria impactos negativos (muitas vezes ambientais, mas não só), apreciáveis em muitos casos.
Se num momento em que o Estado para resolver uma crise económica quiser investir, sabendo que é a fundo perdido, pois que o faça, mas que o faça em coisas que não obriguem a exploração deficitária, mas que tenham utilidade social. Submarinos não é a coisa mais óbvia para mim (embora não exclua a modernização das forças armadas, prefiro, por exemplo, a compra de terrenos com interesse para a conservação e que não necessitem de gestão activa), mas pior que isso são os projectos deficitários que para cumprirem a sua função social precisam de uma gestão activa e uma operação deficitária.
Olhar para o gráfico do último post e ver o peso que estamos a pôr em cima dos nossos filhos, de forma consciente, devia levar-nos a pensar como é possível que seja essa a opção do Governo.
E há três opções: ou somos governado por um indivíduo completamente irresponsável, incompetente e inconsciente; ou somos governados por um indivíduo absolutamente cínico e aldrabão que não hesita em sacrificar o futuro dos outros ao seu poder imediato; ou somos governados por um alienado que vive numa realidade paralela, com vagas ligações com o mundo das pessoas comuns.
Porque independentemente das opções entre submarinos e tgvs, a verdade é que a compromissos anteriores dificilmente suportáveis se foram somando de forma indecorosa mais e mais compromissos, sem outra base que não a contabilidade criativa, até à situação de depressão económica em que estamos a entrar.
E fomos nós que optámos por isso, não foi uma fatalidade inevitável.
henrique pereira dos santos
Predadores de topo
Felizmente, ontem no Público, Rui Tavares deu-me uma ajuda para fazer este post, com um texto que é um bom exemplo do que pretendo contestar.
"isto não teria de tornar-se numa depressão, a não ser pela insistência em fazer a população comum pagar pelos erros dos perdadores no topo da economia".
Num assomo liberal que lhe desconhecia (e de que só encontro eco nos liberais mais radicais) Rui Tavares assume que se deveriam deixar falir os bancos e outros operadores financeiros para evitar que fosse o dinheiro dos contribuintes a pagar os seus erros.
Até aqui não tenho discordância de fundo, isto é, é uma alternativa possível, tenho dúvidas sobre a sua exequibilidade e sobre o que faria sofrer mais as pessoas comuns, mas é uma posição clara e passível de discussão.
Mas como o corolário desta posição está nos antípodas do que defende politicamente Rui Tavares, o artigo continua.
Num golpe de rins, Rui Tavares afirma "depois de terem alavancado os seus castelos no ar, reprovaram a construção de infra-estruturas que dariam emprego agora e crescimento no futuro".
Rui Tavares acha o dinheiro uma coisa imaterial, elástica e um bem público, parece-me a mim. Mas mais, acha que os capitalistas (isto é, os que têm dinheiro), são uns predadores de topo quando o emprestam, mas são umas bestas quando não o emprestam.
Repare-se, quando o crédito excessivo andava por aí, os únicos beneficiários foram os predadores de topo da economia, diz Rui Tavares.
Pelos vistos, aqueles a quem foram feitos os empréstimos não beneficiaram nada com isso, não compraram bens e serviços que pretendiam, não investiram, não nada, o que é estranho porque a bolha imobiliária, decorre exactamente de haver pessoas que compram bens e serviços com dinheiro que lhes foi emprestado sem que houvesse garantias reais equivalentes, para o caso da coisa correr mal, como correu. Ou seja, Rui Tavares defende a velha ideia de que o banco é aquele sítio onde os que não precisam conseguem dinheiro emprestado, achando que o esforço da finança (com forte empenho dos Estados) em emprestar a quem realmente precisava (os que não são capazes de dar garantias) é um crime inqualificável.
Que esta tenha sido a opção também dos Estados para dar casa a quem precisava mas não tinha recursos para isso, em detrimento da velha opção de meados do século XX do Estado gastar directamente o dinheiro dos contribuintes em habitação social (obviamente com prejuízo para outras opções onde gastar o dinheiro existente), parece ser uma coisa em que Rui Tavares não acredita.
Mas a frase que citei pressupõe que Rui Tavares ache que os predadores de topo têm obrigação de emprestar o dinheiro aos Estados para fazer as infra-estruturas que o Estado não tem dinheiro para fazer. Rui Tavares aparentemente não acredita que seja obrigação dos Estados convencer quem tem dinheiro de que no futuro consegue pagar as dívidas contraídas, ou então, em alternativa, que os Estados primeiro arrecadem o dinheiro e depois façam as infra-estruturas sem necessitar de ir pedir batatinhas a predadores de topo.
Veja-se este gráfico que retirei de um artigo de opinião de Miguel Frasquilho e que é semelhante a outros, um dos quais publiquei há tempos mas não encontro agora o post.
A gestão eleitoral do pagamento de rendas pelas parcerias público privadas é muito evidente no OE de 2009, sendo inconcebível como foi possível adoptar parcerias em que o Estado recebeu dinheiro à cabeça (melhorando o défice nesse ano e passando a dívida para o sector financeiro, que lhe permite dizer hoje que a dívida do país é essencialmente privada) que irá pagar com língua de palmo depois das eleições de 2013 (ano em que por acaso as rendas diminuem bruscamente, criando espaço para investimento em ano eleitoral).Pretender, como faz Rui Tavares, que os malandros são os que não emprestam dinheiro a quem cria artificialmente este cenário, por puro cálculo eleitoral, é branquear um procedimento político que merece sanção.
Mas há outro aspecto da frase de Rui Tavares, que corresponde ao mainstream deste pensamento anticapitalista soft, que vale um comentário: "infra-estruturas que dariam emprego agora e crescimento no futuro".
Pelo que percebo Rui Tavares pretende que eu (e os capitalistas que emprestam dinheiro para fazer obras que os Estados não têm como pagar) acredite que o TGV para Madrid (e não para a Europa, porque a ligação de Espanha com o resto da Europa não está resolvida) tem um movimento anual de 10 milhões de passageiros.
E mais, que ao contrário de Alqueva, onde a água vai ter de ter um preço político, financiado pelos contribuintes, para que os agricultores a usem, o TGV não vai precisar de ser subsidiado, secando a disponibilidade de dinheiro na economia pelo seu uso pelo Estado num processo cujo retorno económico se aproxima muito mais de um jogo de azar (ou uma economia de casino) que qualquer especulação financeira.
Ou seja, para Rui Tavares não existe um problema real de dinheiro, que é acentuado pela despesa do Estado, existem sim predadores de topo que não o querem disponibilizar (aparentemente porque tiveram perdas colossais na recente crise e ficaram mais cautelosos acerca destes amanhãs risonhos e promissores, exactamente a atitude que Rui Tavares, e os anticapitalistas soft, entendem que poderia ter evitado a crise se tivesse sido adoptada anteriormente pelos predadores de topo).
Infelizmente estas sessões lúdicas de construções de mundos alternativos, onde o dinheiro é um bem inesgotável e controlado por Governos que são grandes empresários justos e competentes, têm mais influência do que parece: a quantidade de gente que vocifera contra os predadores de topo em vez de pura e simplesmente votar em conformidade com a responsabilidade dos Governos incumbentes é suficiente para manter no poder quem sempre se caracterizou por predar o Estado a favor dos amigos, usando o crescimento futuro como desculpa para tudo.
henrique pereira dos santos
domingo, outubro 03, 2010
Finanças
segunda-feira, setembro 27, 2010
Pontos de vista
Não, não é um panfleto de uma organização ecologista, é a capa desta semana da Economist.14 páginas sobre florestas.
A manchete do Financial Times do fim de semana era sobre a eventual fusão de dois gigantes da distribuição alimentar, um francês e um de Singapura.
A razão para ser manchete é o facto do Financial Times achar que esta eventual fusão decorre da revolução do negócio alimentar que está a ocorrer, à medida que os mercados africano e sobretudo asiático substituem o arroz com vegetais por carne e produtos lácteos.
As questões ambientais nunca são apenas ou sobretudo ambientais, são filhas da economia. Aparentemente as filhas estão a ganhar idade e estatuto para serem tratadas como adultas.
henrique pereira dos santos
quarta-feira, agosto 25, 2010
150 000 cabras, 48 milhões de euros
sexta-feira, abril 30, 2010
Uns gananciosos, estes trabalhadores - crónica de Daniel Oliveira

in Expreso, 13 de Abril de 2010
A Galp propôs aos seus funcionários um aumento de 1,5 por cento. Os trabalhadores vão fazer uma greve. O presidente do conselho de Administração, Ferreira de Oliveira, acusou os trabalhadores de "falta de solidariedade para com o futuro da empresa".
Alguns dados:
1 - Ferreira de Oliveira recebeu, em 2009 , quase 1,6 milhões de euros, dos quais mais de um milhão em salários, 267 mil em PPR, quase 237 mil euros de prémios de desempenho (mais de 600 mil em 2008) e 62 mil para as suas despesas de deslocação e renda de casa. É um dos gestores mais bem pagos deste país.
2 - Os sete administradores da empresa (ex-ministros Fernando Gomes e Murteira Nabo incluídos) receberam 4,148 milhões de euros. Mais subsídio de renda de casa ou de deslocação, no valor de três mil euros mensais. Os 13 administradores não executivos receberam 2,148 milhões de euros. Entre os administradores não executivos está José António Marques Gonçalves, antigo CEO da petrolífera, que levou para casa uma remuneração total de 626 mil euros, incluindo 106 mil de PPR e 94 mil de bónus. No total, os 20 gestores embolsaram 6,2 milhões de euros, 2,9% dos lucros da companhia.
3 - Os trabalhadores pedem um aumento de 2,8 por cento no mínimo de 55 euros. Perante estas exigências de aumento, a administração que recebe estes salários diz que, tendo sido estes dois últimos dois anos "de crise", elas são "impossíveis de satisfazer".
4 - A Galp não está em dificuldades. Os lucros ascenderam, no ano passado, a 213 milhões de euros. No ano anterior foram de 478 milhões de euros. A empresa vai distribuir dividendos pelos accionistas. Mas ao contrário do que tem acontecido nos últimos cinco anos os trabalhadores ficam de fora. "Não é possível distribuir resultados que não alcançámos", diz Ferreira de Oliveira, que, tal como o resto da administração, não deixou de receber o seu prémio pelos resultados que não alcançou.
Os factos comentam-se a si mesmos. Por isso, ficam apenas umas notas:
A administração que suga (com uma grande contribuição do seu CEO) quase três por cento dos lucros de uma das maiores empresas nacionais acusa os trabalhadores de falta de solidariedade por quererem um aumento de 2,8 por cento. E que a greve "não defende os interesses nem de curto nem de longo prazo dos que trabalham e muito menos dos que aspiram a vir a trabalhar" na Galp.
De facto, ex-ministros pensarão duas vezes em escolher aquela empresa para dar conforto à sua reforma se os trabalhadores receberem 2,8 por cento de aumento. De facto, um futuro CEO que precise de receber mais de sessenta mil euros para pagar a sua renda de casa e deslocações (que um milhão nem dá para as despesas) pensará duas vezes antes de aceitar o cargo se os funcionários que menos recebem tiverem um aumento de 55 euros mensais. De facto, gestores que recebem prémios por "resultados não alcançados" não aceitarão dirigir uma empresa que distribui dividendos quando os lucros baixam.
A ganância destes trabalhadores desmoraliza qualquer homem de negócios mais empenhado. Assim este País não vai para a frente. A ver se os trabalhadores da Galp percebem: todos temos de fazer sacrifícios.
sexta-feira, abril 23, 2010
Tretas

domingo, outubro 25, 2009
A conservação do lince ibérico
terça-feira, outubro 13, 2009
Um Nobel muito Verde
Foi de facto um prazer encontrarmo-nos para um cafezinho e passar de novo em revista alguns temas que fizeram o meu quotidiano durante alguns anos. Durante a conversa perguntei-lhe quais eram as novas tendências ambientais a nível global que vislumbrava no horizonte. Sem a mínima hesitação respondeu-me: em primeiro lugar “Green Economy”, em segundo e terceiro lugar “Green Economy”. E tal forma assim era, que a IUCN tinha criado um novo departamento sobre esta temática e estava a reestruturar-se internamente para se ajustar a estes novos tempos. Aliás, em parte era essa também a razão porque se iria reduzir substancialmente a delegação em Bruxelas (o acompanhamento e influência junto da Comunidade Europeia começava a ser pouco interessante…) e passar as equipas para Genebra o que lhe faria mudar de local de trabalho já para o ano.
Com alguma admiração referi que eventualmente haveria algum exagero nesta sua afirmação e que só faltava dizer-me que o prémio Nobel seria dado a quem se tivesse debruçado sobre estas matérias. Ao que me retorquiu que não sabia se seria já neste ano ou nos próximos, mas que podia contar com isso para breve tal era o movimento nesta matéria nos fóruns internacionais.
Vem, esta história a propósito do prémio Nobel para a economia deste ano. Um dos vencedores é Elinor Ostrom e o Sebastian tinha razão até mais cedo do que julgava.
A Elinor Ostrom não é uma cientista da ecologia nem da economia verde embora estes temas estejam claramente nas suas preocupações académicas e de vida. Mas sem dúvida que o Comité Nobel quis dar um sinal claro que as temáticas económicas que estão para além do estudo dos Mercados e do Estado fazem sentido e desta forma também se aproximar dos grandes temas ambientais e sócio-políticos globais deste novo século como o estudo económico sobre as “alterações climáticas”, a “biodiversidade”, a “gestão dos oceanos”, a “gestão das florestas” e outros que obrigam a uma lógica de gestão partilhada, multi-temática e colectiva de recursos do planeta.
Elinor Ostrom teve a ousadia, e já há muitas décadas (os seus primeiros trabalhos datam do final dos anos cinquenta) de desafiar o pensamento económico convencional de que a propriedade comum é mal gerida e que os indivíduos têm a tendência de sobre - explorar estes recursos comuns desresponsabilizando-se da sua evolução futura levando ao colapso destes (o que Garrett Hardin chamou "the tragedy of the commons"). As soluções nesta visão tradicional seriam ou uma regulamentação forte pelas autoridades centrais/regionais ou a privatização com o accionar dos mecanismos de mercado.
Fortemente baseada em numerosos estudos realizados por todo o mundo sobre a gestão de activos que são comuns e que são geridos de forma organizada pelas colectividades que os exploram, sejam estes stocks de peixes, lagos e bacias, bosques, florestas, pastagens e mais recentemente informação e conhecimento (é forte defensora da livre circulação de informação na internet) Elinor Ostrom desenvolveu uma metodologia de análise que permite analisar os esforços multidisciplinares para a compreensão de sistemas complexos “sócio – ecológicos” e não só concluiu que estes podem ser bem geridos como a sociedade tem a ganhar com estas acções colectivas, particularmente quando os consumidores desses recursos comuns formam um grupo homogéneo e bem definido, aprenderam a confiar, a comunicar e a controlar-se uns com os outros, esperam partilhar um futuro comum e conjecturam deixar esses recursos de forma sustentável para os seus herdeiros.
Este prémio Nobel ao romper com as abordagens clássicas traz um imenso desafio não só para aqueles que estudam estas matérias, mas fundamentalmente para aqueles que pretendem colocar na agenda sócio – política os temas que inevitavelmente estão associados aos estudos da Elinor Ostrom. Dentro destes, os ambientais estarão na primeira linha e também em Portugal.
quinta-feira, setembro 17, 2009
Renováveis, propaganda e criação de valor
Os comedores de batatas Van Goghquinta-feira, setembro 10, 2009
Os contribuintes e o fogo

quinta-feira, junho 18, 2009
O sector desimportador
terça-feira, abril 28, 2009
CRISE MUNDIAL E RESPOSTA ECOLÓGICA (II Parte)
Ele próprio a previu ao escrever em 2006:
«Entrámos num estado de crise ecológica duradoura e planetária, que se deveria traduzir por um abalo próximo do sistema económico mundial. Os rastilhos possíveis poderiam acender-se na economia ao atingir a saturação e esbarrar contra os limites da biosfera: uma paragem do crescimento da economia americana, minada pelos seus três défices gigantescos (balança comercial, orçamento, dívida interna). Como um toxicodependente que só se mantém de pé à custa de doses repetidas, os Estados Unidos, drogados do sobreconsumo, titubeiam antes do colapso; uma forte travagem do crescimento chinês, já que se sabe que é impossível que tal crescimento mantenha duradouramente um ritmo de crescimento anual muito elevado. Desde 1978, a China conheceu um crescimento anual da sua economia de 9,4 por cento. O Japão é um precedente a não esquecer: vinte anos de crescimento assombroso, e em seguida a estagnação duradoura desde o início dos anos 1990».
Prognósticos e Saídas
O prognóstico do cronista é que a economia não voltará a arrancar como antes e que o crescimento mundial do PIB não voltará aos 5 por cento; teria terminado a expansão rapidíssima da China e da Índia. Temos pois, segundo ele, que conceber um mundo novo, uma outra economia, uma outra sociedade, inspirados pela ecologia, pela justiça e pelo cuidado pelo bem comum. O prognóstico poderá estar errado, mas é evidente que o de 2006 se confirmou em pleno, para já. Sem esquecer que as crises que precederam e preanunciaram a atual (Ásia nos anos 1990, economia internética no início dos anos 2000) foram elas também, de alguma forma, previstas por diversos economistas e analistas não convencionais a que ninguém «sério» obviamente prestou ouvidos.
De facto, estamos sempre a ler e a ouvir que NINGUÉM previu esta crise. Não é verdade, não apenas pela citação que fizemos de Kempf, mas também devido a muitos outros analistas, incluindo economistas, embora minoritários. Seria de referir aqui a New Economics Foundation criada sob inspiração de Fritz Schumacher (cujo celebérrimo Small is Beautiful foi, se apreciado por muitos, largamente ridicularizado pelos próceres da mesma economia que agora se apregoa em grave estrangulamento), autores como James Robertson (veja-se, em tradução portuguesa, o seu Transformar a Economia - um desafio para o terceiro milénio), Richard Douthwaite ou Bernard Litaer, e outros economistas ecologistas como Hazel Henderson e Herman Daly, ou fundações de analistas como o Worldwatch Institute ou o Earth Policy Institute, ambos fundados por Lester Brown, que não se limitam a análises mas propõem caminhos, para além de inúmeras correntes de pensamento e de práticas que, um pouco por todo o mundo, têm procurado seguir inspiração semelhante. Claro que nada disso existe aos olhos do mundo oficial, que é quem dita a regra do que existe ou não existe.
E, no entanto, quem tinha por função prever e antecipar soluções nada previu e nada antecipou. É claro que, sendo esses o mundo «oficial», o único que para eles e para a imprensa realmente existe, tudo o resto não passando de paisagem ou menos ainda, julgam de facto que NINGUÉM (isto é, nenhum deles) nada previu. O que faz supor que as soluções postas em marcha serão segundo as receitas deles mesmos e não segundo as sugestões e pistas fornecidas por quem teve a lucidez de prever. Daí que não possa haver expectativas excessivas sobre se as sociedades e seus líderes teriam aprendido já alguma coisa de fundamental com a crise.
E agora, que fazer?
Na última parte do seu pequeno artigo, Hervé Kempf põe a questão clássica já posta por Tolstoi e Lénine (um, a via não violenta, outro a via revolucionária; só a primeira, a meu ver, pode ajudar a sair do atual impasse), e depois sempre retomada quando a perplexidade se sobrepõe às convenções: que fazer? A resposta de Kempf, quiçá um pouco abrupta: parar de macaquear Keynes e de nos imaginarmos em 1929 quando estamos em 2009: a dependência, o endividamento, a inflação, não são a solução. Consertar o reboco do edifício não poderá reparar alicerces em ruínas. Importa pelo contrário operar uma redistribuição da riqueza coletiva em direção aos pobres; a ferramenta para isso poderia ser o RMA: rendimento máximo admissível. (Diga-se, comento eu, que isso provavelmente transformaria a corrida à riqueza em simples corrida ao RMA - talvez já fosse um progresso perante o que hoje se vê: a transformação da vida económica, social e nacional numa maratona rumo a um ranking que nada de facto de importante significa quanto a objetivos que não se reduzam à dimensão quantitativa; o que põe a questão, complexa, fulcral, mas que aqui não há espaço para abordar, do significado ou absurdo de índices como o PIB e das alternativas que têm sido tentadas).
Ainda segundo Kempf, a redução da desigualdade também ajudará a alterar o modelo cultural de sobreconsumo, e tornará suportáveis as descidas necessárias e inelutáveis do consumo material e de consumo de energia nos países ricos. Outra exigência: orientar a atividade humana para os domínios de fraco impacto ecológico, mas criadores de emprego, e nos quais as necessidades são imensas: saúde, educação, cultura, poupança de energia e sua produção ambientalmente compatível, incluindo a mais importante forma de energia que é a agricultura, transportes coletivos, a conservação e restauração da natureza. Fácil? Não. Mas, segundo ele, mais realista que julgar possível o regresso à antiga ordem, a anterior a 2007.
E por aqui me fico, não sem antes referir um artigo também publicado no mesmo jornal (mas em inglês, num pequeno suplemento do The New York Times), sobre a forma como os japoneses estão a reagir à crise: reforçando a poupança, refreando o consumo, levando um estilo de vida mais simples, para desespero dos «economistas» (seria mais certo chamar-lhes «gastadoristas»), que põem, desaprovadoramente, como parte da explicação, a ancestral cultura oriental que encontramos já compendiada nos grandes mestre chineses, no taoísmo, em Confúcio, etc, e que era também a «cultura» tradicional no Ocidente até há bem pouco tempo. De facto, a generalização da «criação de riqueza» à maneira ocidental moderna em países de outras culturas, embora aparentemente coroada de êxito, só pôde ser feita escorchando vivos os sujeitos dessa «felicidade»; basta acompanhar a evolução desses países para verificar que Dickens e Soljenitsine teriam aí farto material para novos «infernos industriais» e «concentracionários».
José Carlos Marques
jcdcm@sapo.pt
CRISE MUNDIAL E RESPOSTA ECOLÓGICA (1)
São duas as principais abordagens que o debate revela. De certa perspetiva, a crise financeira (que é também económica e institucional) surge como uma ameaça às políticas de combate às alterações climáticas e a outras políticas de proteção do ambiente. Perante a gravidade da crise, os Estados e as empresas estariam a cortar sem dó nem piedade na afetação de fundos atribuídos ou a atribuir a essas políticas.
Segundo outra vertente, a crise é oportunidade. De facto, a parcial paralisia da máquina económica é vista por outros como uma oportunidade de reorientar toda a economia num sentido mais favorável ao ambiente e uma demonstração de efeitos benéficos de uma paragem em atividades destrutivas.
É essa por exemplo a posição de Hervé Kempf, jornalista do Le Monde, e autor de diversos livros, dois dos quais, os mais recentes, ostentam títulos elucidativos (ver: [1]) : em 2007, «Comment les riches détruisent la planète ? » (Como é que os ricos destroem o planeta) e, em 2009 : «Pour sauver la planète, sortez du capitalisme» (Para salvar o planeta, saiam do capitalismo).
Um seu pequeno artigo, uma crónica curta na verdade, na edição do Le Monde de 15-16 de fevereiro de 2009, apresenta um resumo dessa posição.
Nesta primeira parte refiro o primeiro dos três pontos em que Hervé Kempf divide o seu texto.
Começando por advertir num parágrafo de introdução geral que o que se vai ler é radicalmente contrário ao discurso dominante, o primeiro ponto passa então a proclamar que a crise económica é uma boa notícia. E convida-nos a imaginar o que aconteceria se o produto interno bruto (PIB) da China tivesse continuado a crescer 10 por cento ao ano, o dos Estados Unidos 5 por cento e o da Europa 2,5 por cento. As emissões de gases de efeito de estufa daí resultantes teriam rapidamente atingido o limiar que faria bascular no irreparável as alterações climáticas. O colapso da biodiversidade ter-se-ia acelerado, precipitando a sociedade humana num caos indescritível. Ao deter este crescimento louco do PIB mundial, a «crise económica» permite atenuar os assaltos da humanidade sobre a biosfera, ganhar tempo e refletir na nossa reorientação.
Seguem-se outros dois pontos, que referirei noutras partes subsequentes.
É claro que Kempf não ignora os enormes dramas causados pelos despedimentos na sequência da crise. Mas, como é evidente, não se pode acusar a sua posição de ter provocado esses despedimentos! Há muito que os que pensam assim (pois muitos o pensaram por antecipação de décadas e até mais do que isso, embora sem referência a um momento tão concreto da história) propõem precisamente a tal reorientação PARA EVITAR os dramas que se estão a passar! Simplesmente, a máquina social continuou (e continua) a rolar em direção ao muro. Se alguns passageiros procuram saltar em andamento, a maioria foi conduzida, e está a ser conduzida, de encontro ao muro.
O desafio que a crise ambiental (clara para as instituições internacionais pelo menos desde 1972, data da Conferência de Estocolmo da ONU sobre o ambiente) sempre colocou foi o de mudar a direção da máquina de forma a ela não ir embater contra o muro. Isso decerto implicaria que outras prioridades tinham que ser dadas ao funcionamento social (económico e portanto político), outras atividades teriam que substituir as atividades ambientalmente destrutivas e deveriam ser remuneradas – inclusive não-atividades aparentes –, o que evitaria os despedimentos massiços a que se assiste e se continuará a assistir provavelmente. O próprio conceito de «desenvolvimento» teria tido que ser orientado para outros fins: não medido pelo crescimento económico ou do PIB, mas pela satisfação do humano fundamental, a começar pela não-fome, pela instrução, a saúde preventiva, a proteção da natureza. Ora, como foi demonstrado desde há muito, grande parte daquilo que é rotulado de desenvolvimento é precisamente o que leva largos setores da população à fome, à falta de instrução, à doença, à exposição aos efeitos da destruição ambiental, incluindo as vagas enormes de refugiados e migrantes ambientais ainda por vezes confundidos com simples migrantes económicos.
Ao surto de consciência ecológica nos anos 1960-70, que se baseava nessa perspetiva, seguiu-se, nos anos 1980, uma doutrina da conciliação espontânea da economia, tal como existia, com a proteção ambiental. Doutrina falsa ou equivocada, que é parte do problema atual, e não da solução. Sem dúvida, a economia e o «desenvolvimento» não só são compatíveis com a proteção e regeneração do ambiente e da natureza como só são possíveis com estes últimos (e vice-versa). Mas é então uma economia e um «desenvolvimento» profundamente diferente do que tem sido tomado por esses nomes, com outras prioridades e outras práticas, e exigindo outras estruturas sociais e produtivas e outros modos de funcionamento. E passar a essas outras formas de funcionamento (o que obviamente não pode ser feito com uma varinha mágica e levará sempre um tempo prolongado de transições graduais) é a solução que restaria à crise. Seria para isso necessário que as sociedades, de forma consciente e coletiva, optassem por essas soluções e revissem portanto as suas prioridades.
Nada garante que tal aconteça, os sinais dominantes são mesmo inversos desses. As transformações, se vierem a existir, em vez de assumirem a forma gradual capaz de adoçar o impacto doloroso da transição, serão talvez provocadas aos sacões, como o está em parte a ser esta crise atual e poderão ser as futuras. Sacões porém com um cortejo enorme de sofrimentos atrás de si.
[1] http://mneaquitaine.wordpress.com/2009/01/20/kempf-pour-sauver-la-planete-sortez-du-capitalisme/
José Carlos Marques
jcdcm@sapo.pt
