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quinta-feira, outubro 21, 2010

Para quem não tem nada para fazer neste fim de semana

O post tem uns dias, mas diz respeito ao que vai acontecer este fim de semana:
henrique pereira dos santos

sábado, agosto 28, 2010

arbustos, matos e ervas


ovelhas pastando
Imilchil, Alto Atlas
Agosto de 2010

floresta de cedros
Ifrane RN (Azrou), Mèknes, Médio Atlas
Agosto de 2010


oliveira
Tizi-n-Isli, Kasba Tadla, Médio Atlas
Agosto de 2010

 eucalíptal
Guermasse, Marrakech
Agosto de 2010

vale de Todra, Alto Atlas
Agosto de 2010


vale de Todra, Alto Atlas
Agosto de 2010
Há alguns dias atrás, publiquei aqui um pequeno post - agricultura de subsistência - amavelmente comentado por algumas pessoas. O primeiro comentário de Carlos Aguiar aquele texto trouxe-me à memória ideia que fui cimentando, ao longo dos dias da minha última viagem por Marrocos, da quase total ausência de sub-coberto florestal de muitas paisagens marroquinas. Registei-o com enorme estranheza, na minha santíssima ignorância. Talvez o sobrepastoreio e o uso do solo para o cultivo de cereais até a exaustão sejam fortemente responsáveis por estas paisagens. Talvez seja apenas obra da "natureza". Talvez estes e outros fenómenos. E talvez o Carlos possa ajudar a compreender estas imagens :)

Gonçalo Rosa

quarta-feira, agosto 25, 2010

150 000 cabras, 48 milhões de euros

O projecto pelos seus promotores (ou pelo relato da sua apresentação que dele faz o jornal Cinco Quinas, porque no site dos promotores há dificuldade em ter acesso a informação mais detalhada, embora no primeiro jornal do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial, a páginas 8 e 9, se faça uma descrição genérica):
"O Director Geral do AECT Duero-Douro, José Luis Pascual Criado, pormenorizou as características do Projecto Self-Prevention. Segundo as suas palavras, além de actuar activamente para a prevenção de incêndios, o Projecto contribui para um modelo de desenvolvimento socioeconómico para todo o território do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial Duero-Douro.
Disse que o investimento em matéria de prevenção é necessário para terminar com o fogo, mas também é necessário o envolvimento dos habitantes. Defendeu o Self-Prevention como projecto social, territorial, para as pessoas que moram nele, gerando um plano de futuro a longo prazo.
...
Está-se a trabalhar no Projecto Self-Prevention a partir da base, ou seja, a prevenção de incêndios.
Este visa reintroduzir 150.000 cabeças de gado para que sejam os próprios animais os "limpadores naturais" dos campos agrícolas abandonados, matos e valetas, deixando livres de vegetação aquelas zonas de potencial perigo de incêndio.
O projecto irá implantar-se num território fronteiriço de Portugal e Espanha, num total de 9 mil Km2, com 125 mil habitantes, e envolverá 187 entidades públicas dos dois países.
Após o investimento inicial, calculado em perto de 49 milhões de euros, estima-se uma rentabilidade anual do projecto de 30 milhões de euros. Com este projecto estima-se a criação de 558 postos de trabalho especializado, até porque está prevista a criação de 12 queijarias, uma central de comercialização, dois matadouros, 15 lojas de venda de produtos, e uma plataforma logística de transporte e distribuição, para além de se acreditar em novas potencialidades turísticas da região.
Para a concretização do projecto espera-se agora a adesão dos agricultores, onde existe a influência deste projecto. Os agricultores que apostarem nesta iniciativa, por cada cabra que coloque no projecto, recebe uma acção, e os proprietários de terrenos recebem três acções por hectare. Os lucros obtidos serão repartidos, depois, pelos titulares de acções no projecto. Para já, do lado português, estão envolvidos os municípios de Vila Nova de Foz Côa, Figueira de Castelo Rodrigo, Almeida e Sabugal, tendo já sido demonstrada também a intenção do município de Manteigas em aderir ao projecto do AECT.
Este projecto estará articulado em torno duma empresa de participação pública e privada que optimizará a sua sustentabilidade económica na produção e comercialização de leite e derivados caprinos.
Por: Cinco Quinas"

Quem lê o que aqui e noutros lados escrevo sabe que eu não poderia deixar de subscrever as intenções deste projecto e ficar satisfeito de ver quase todos os jornais e sites de jornais de hoje a falar positivamente, e não como uma ideia impossível de operacionalizar, de um projecto que pretende ter 150 000 cabras para ajudar à gestão do fogo e à criação de riqueza e emprego no interior rural.
Mas ao mesmo tempo conheço demasiado bem esta lógica de captação de recursos, por entidades públicas que se juntam para fazer entidades privadas que apresentam projectos de candidaturas a ajudas públicas, que incluem muita infra-estruturação (lojas, queijarias, matadouros) e no fim se espera a adesão dos verdadeiros produtores.
Por mim preferia que fizessem um fundo de capital de risco para entrar no capital das empresas dos produtores até elas atingirem a velocidade de cruzeiro, vender a sua participação e partirem para outra.
48 milhões de euros em capital de risco já era relevante.
Assim, fico satisfeito com a difusão da ideia, espero e desejo que resulte, mas como contribuinte tremo só de olhar para a fotografia de topo deste post, que retrata os membros do Agrupamento Europeu de Cooperação Trans-fronteiriça, e pensar que é esta a base de gestão de um projecto de 48 milhões de euros entregues ao Estado por quem produz riqueza.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, agosto 06, 2010

As economias baseadas na gestão de combustíveis

Num comentário a este post, Luís Lavoura é bastante assertivo:
"A produção de estrumes não tem competitividade quando os adubos são baratos, como agora (há dois anos atrás foram extremamente caros). A produção de pequenos ruminantes não é competitiva quando a carne de vaca é abundante e barata. Hoje em dia ninguém quer comer cabra, a carne de vaca é muito mais fácil. Repare o Henrique: há três decénios não havia tratores e as pessoas criavam vacas para tração (puxar carros de bois). Praticamente não se comia carne de vaca (o bife era um luxo de ricos). Hoje em dia há tratores e adubos para fazer crescer erva. O consumo per capita de carne de vaca cresceu umas seis vezes ou mais. Perante tal realidade, ninguém quer comer ovelha ou cabra. Em muitos talhos já praticamente não se encontra borrego (no Sul ainda se encontra, devido às tradições herdadas dos árabes, mas no Norte não), e cabrito ainda menos. Veja também o Henrique o seguinte: nos EUA usa-se cabras para limpar os terrenos - mas paga-se por esse serviço!!! Há empresa que criam rebanhos de cabras e que os alugam a proprietários que querem limpar os seus terrenos - os proprietários têm que pagar para que lhes ponham cabras nos seus terrenos! A criação de cabras não é rentável, trata-se apenas de um meio menos caro (e ambientalmente menos impactante) de limpar os terrenos."

Esta é a visão mainstream do problema da economia destas fileiras.
A mim parece-me uma visão errada, porque não discute a criação de valor mas apenas a produção.
Vejamos.
Se estivermos a falar de estrume para substituir os adubos na produção, por exemplo, da lezíria do Ribatejo, admito que a produção de estrumes não seja competitiva (não conheço contas que o demonstrem mas se o mercado não existe é provavelmente porque nenhum empresário o achou interessante por não lhe reconhecer competitividade). Mas como qualquer produção de nicho, a questão não é de preço, é de diferenciação. O estrume produzido em qualquer parte do país pode ser ensacado e vendido para públicos urbanos e a sua ligação à gestão do fogo pode ser explorada em alguns mercados, fazendo aumentar a disponibilidade dos clientes para pagarem mais por essa característica. Por exemplo, o mercado das empresas aderentes ao movimento ECO (Empresas contra os fogos, cujo site não parece estar a funcionar), é um evidente mercado para um estrume um pouco mais caro mas ambientalmente muito mais favorável.
A criação de pequenos ruminantes é competitiva, mais uma vez, explorando a diferenciação e a disponibilidade dos clientes pagarem. O cabrito é caríssimo, é bastante vendável em restaurantes que podem pagar mais pelos produtos, em algumas zonas do país a chanfana é presença obrigatória em cartas de restaurantes e o borrego é vendido sem problemas no Sul (raramente se comeu cordeiro no Norte, havendo até um investigador que ao perceber isso e a má qualidade da lã (diz ele, eu não tenho a certeza porque suportou durante bastante tempo a indústria de lanifícios da serra da Estrela) concluiu que a produção de ovelhas na Beira tinha como objectivo duplicar a produção de centeio com ajuda da giesta).
Neste momento não conheço nenhum produtor de pequenos ruminantes que vá a falência por falta de clientes ou por preços abaixo do custo. Apesar da oposição (ou no mínimo desinteresse) do Estado à pastorícia nos últimos 150 anos, que a tem impedido de se desenvolver e crescer rumo à diferenciação de produtos e à criação de valor. Admito que haja situações particulares, mas não é uma situação generalizada.
O mais extraordinário do que afirma o Luís é desvalorizar o mercado da produção de serviços de limpeza de matos, incomparavelmente mais eficiente e barato com animais que com qualquer outra técnica (tem problemas e dificuldades e há casos particulares, mas em geral esta frase é verdadeira) em vez de considerar que é um novo mercado que viabiliza a produção de pequenos ruminantes. Ou seja, quando se abre uma nova oportunidade de criação de valor, o que em qualquer actividade é saudado como uma nova oportuniodade de negócio, no caso da pastorícia usa-se isso para explicar que essa nova oportunidade de negócio demonstra a falência da actividade.
O meu conselho é simples: esqueça-se tudo o que são preconceitos sobre estas três fileiras económicas (e o Luís não falou dos novos mercados de aquecimento e cozinha mas o que aqui digo também é válido aqui) e olhe-se para elas como qualquer outra actividade económica orientada para a criação de valor.
Isto é, orientada para a procura de clientes que estejam disponiveis para pagar pelos bens e serviços produzidos mais do que eles custam aos seus promotores, mesmo que custem muito. Porque a competividade não está necessariamente nos mais baixos custos, está na diferença entre os custos e o que os clientes estão dispostos a pagar pelos bens e serviços.
Olhem para os pastores como quaisquer outros trabalhadores, dêem-lhes fins de semana, folgas, férias, 13º mês e verão como de repente aparecem os trabalhadores cuja falta hoje se diz que inviabiliza a actividade.
Façam contas ao custo do corte dos relvados de muitas cidades e vilas e comparem com os preços que é possível fazer gerindo animais.
O que não vale a pena é olhar para as actividades como elas sempre foram e pensar que respondem a necessidades de hoje.
Ninguém faz isso quando produz pregos, ciência, almoços, finanças, jornais e por aí fora.
Mas aparentemente toda a gente acha normal discutir a competitividade da pastorícia (e da roça de matos) do século XIX à luz de mercados do século XXI.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, julho 09, 2010

Faça você mesmo

Desempregado? Com gosto pelo trabalho ao ar livre?
Leia com atenção e seja dos primeiros a entrar num negócio do futuro.

About City Grazing
Special thanks to the City of Denver for their great work in the field of raising city goats.
Why use goats in San Francisco?
There have been various approaches to weed control, none fully satisfactory nor efficient. Using goats is an efficient, holistic, environmentally healthy approach to weed control allowing us to restore degraded land in a shorter period of time. This is a novel, common sense approach that puts Denver on the cutting edge.
How do goats help restore natural areas?
Using goats is based on a natural process, like bison grazing the prairie.
Goats eat dried and fresh above- ground plant parts.
They break plants down into digestible pieces by their saliva.
Their hoof action also tramples plants into smaller pieces.
Plants slowly decompose releasing nutrients into the soil.
Goats also work desired seeds into soil with their hooves.
Goats can restore large areas in a shorter time period than people.
Why is using goats environmentally healthy?
Grazing is an alternative to mowing and herbicides.
Goats eat plants, eliminating debris and recycling nutrient elements.
They maintain beneficial soil organisms.
Goats exclude the use of heavy equipment minimizing soil disturbance and compaction.
Goats trample dried brush, create a natural mulch and add organic matter to the soil.
Why use goats instead of other methods?
Goat grazing is not a replacement, but another methods of weed control and land restoration. They can cover large areas in a shorter period of time than most manpower. Fifty goats average 1/2 acre per 8 hour day).
Goats are best used:
a) In sensitive areas near waterways, rivers and lakes where chemicals are prohibited.
b) On steep embankments difficult for people.
c) On ditches, canals, rocky and wooded areas where mowing or spraying are difficult or inadvisable.
d) In large areas where manpower is unavailable and costly.
e) On very degraded land where human efforts would take years.
Goats:
a) Do not bring weed seeds to the surface.
b) Do not disturb the soil organisms.
c) Do not extract soil nutrients.
d) Are not a potential risk to ground water.
Hand weeding:
Disturbs soil bringing more weed seeds to the surface.
Creates plant debris that goes to landfills.
Extracts nutrients from the soil.
Disturbs soil organisms.
Is labor intensive.
Mowing:
Uses heavy equipment that compacts soil.
Creates air pollution.
Leaves stubble, does not eliminate plant.
Herbicides:
May contaminate ground water.
May kill or disturb soil organisms.
Do not allow seeding at same time.
May damage desired vegetation.
May have risk to personnel.
How will using goats work?
We will use a small goat herd, 75 to 100 head of mostly Cashmere bred goats. They are easy to handle and friendly to people. Areas are enclosed by fence panels and protected with an Anatolian shephdeing dog.
In the spring, goats are used to:
1) Remove top growth, eat dried brush from previous year and early cool season weeds that either over wintered or recently emerge.
2) Work in desired seeds with their hooves while they graze.
Once an area is clean, the goats are moved to the next area and the process is repeated. Placing the goats in strategic areas and managing their time in the area are key factors. Babi Yar Park (Yale Street side is an example of how much can be accomplished with goats. There are numerous wildflower species now emerging.
In summer or fall the goats feed on emerging annuals and perennials:
1. Managing their time to feed on the perennials minimizes food reserves in the unwanted plants and prevents plants from going to seed.
2) Continuous grazing stresses the plants.
3) Reseeding at this time allows desired vegetation in late summer to compete.
4) On Cherry Creek we are using goats incombination with small beetles to reduce the invasion of leafy spurge.
Reseeding areas is necessary to:
1) Stabilize disturbed sites.
2) Replant with desired species.
How do we keep goats and people safe?
Safety is critical to the success of this program. The following condition will be put in place
1) The herder remains with the goats at all time.
2) Goats are enclosed panel fences with an Anatolian dog inside the fence and border collie outside the fence.
3) There is direct radio contact with Natural Areas, Parks staff, Animal Control and the goat herder.
4) Communities are kept informed including Parks staff, police and City Council.
5) Goats are not placed in dangerous situations e.g. where chemicals are in use.

City Grazing Goat Facts
Here are some interesting facts on goats, grazing, raising feeding and caring for goats!
Special thanks to Jean-Marie Luginbuhl of NCSU.
REPRODUCTIVE ASPECTS
FEMALE
Age of puberty 7-10 months
Breeding weight 60-75% of adult weight
Estrous cycle
Length 18-22 days
Duration 12-36 hours
Signs Tail wagging, mounting, bleating
Ovulation 12 to 36 hrs from onset of standing heat
Gestation length 146-155 days
Breeding season August-January
Seasonal anestrous February-July
Buck effect on estrous Positive
MALE
Age of puberty 4-8 months
Breeding age 8-10 months
Breeding season All year
Breeding ratio 1 buck : 20 to 30 does
PHYSIOLOGICAL DATA
Temperature 101.7-104.5 F
Heart rate 70-80/minute
Respiration rate 12-15/minute
Ruminal movements 1-1.5 /minute
RULES FOR GOAT HEALTH
* Provide proper housing
* Practice good sanitation
* Provide adequate nutrition
* Provide clean water
* Observe how much feed (hay, minerals, concentrate) is left over
* Observe your animals daily
* Observe the feces of your animals
* Clean pastures and exercise lots
* Become familiar with the common diseases
* Investigate the source of strange smells
* Use your veterinarian for diagnosis
A HEALTHY GOAT
* Eats well
* Chews its cud
* Has a shiny coat
* Has strong legs and feet
* Is sociable
* Has bright and clear eyes
SIGNS OF ILLNESS
Off feed, water Diarrhea
No sign of cud chewing Runny eyes
Standing apart from group Limping
Rough hair coat Hair falling out
Abnormal temperature Swelling on any part of body
Heavy mucous in nose and mouth Pale mucosa of eyes and mouth
PURCHASED ANIMALS
Upon arrival on farm,
* Isolate animals for a month
o Vaccinate
o Deworm
o Test for certain diseases
o Coccidiosis control program
o Identification tag
o Other
HERD HEALTH PRACTICES
Vaccination program
If possible always weigh animals prior to vaccination to 1) calculate and inject the correct dosage of the vaccine(s) and 2) assess body condition
Enterotoxemia and tetanus - Clostridium perfringens C, D + T
Adult males
Once a year
Breeding females
Once a year (4 to 6 weeks before kidding) or twice a year: 4 to 6 wk before breeding, then 4 to 6 wk before kidding
Kids
Week 8, then booster on week 12
Deworming program
If possible, always weigh animals prior to deworming to 1) calculate and inject or drench the correct dosage of the dewormer and 2) assess body condition. Underdosing of goats because of failure to weigh the animals or because of underestimating their live weight is a very common but costly mistake because this may lead to parasite resistance to dewormers. Therefore, determine dose according to heaviest animal in the group. On the other hand, overdosing of certain dewormers can cause health problems. If deworming animals before kidding, make sure that dewormer is safe for pregnant does.
Adults
* 2 to 3 weeks prior to breeding
* Avoid early pregnancy (20 to 60 days)
* 2 to 3 weeks prior to kidding or at kidding
* Strategic
Kids
* Day 30
* Day 60
* Strategic
During warm, wet weather it is advisable to take fecal samples 10 days after deworming in order to determine fecal egg counts and effectiveness of dewormer
Coccidiosis control
Coccidiosis usually strikes young animals during periods of stress such as weaning. Level of control depends on the level of infestation
At weaning
* Coccidiostat drench
* Coccidiostat in water tank
At other times (if necessary)
* Mineral with Bovatec
* Decoquinate in feed
KID HEALTH PRACTICE
* At birth
o Dip navel in iodine
o Kids should ingest 10% of their live weight in colostrum during first 24 hours of life. Colostrum should be ingested or bottle-fed (in case of weak kids) as soon as kids have a suckling reflex. In cases of extremely weak kids, they should be tube-fed. The producer must be certain that all newborn kids get colostrum soon after birth (within the first hour after birth, and certainly within the first 6 hours) because the percentage of antibodies found in colostrum decreases rapidly after parturition.
* Castration
o Knife
o Emasculator
o Elastrator
(The question is: why castrate if you will sell your buck kids for meat at 4 to 5 months of age?).
If not castrated, buck kids should be seperateed from doe kids at weaning.
FLUSHING
Feeding strategy to increase ovulation rate
Starting 3-4 weeks before the breeding season, and throughout the breeding season, increase the plane of nutrition of does to be bred
* Switch them to high quality pasture or
* Supplement them with 1/2 lb cracked corn/head/day or 1/2 lb whole cottonseed
AFTER BREEDING
To insure proper embryo development
During the first month of pregnancy
* Keep the plane of nutrition similar to that of flushing period
IMPORTANT PRODUCTION TRAITS
* Adaptability
o Ability to survive in given environment
o Ability to reproduce in given environment
o Is a lowly heritable trait
* Reproduction
o Conception rate
o Kidding or prolificacy rate
o Non-seasonality
* Growth rate
o Pre-weaning gain
o Post-weaning gain
* Carcass characteristics
o Dressing percent
o Lean:fat:bone
o Muscle distribution
BODY CONDITION SCORE
* To monitor and fine tune nutrition program
* To "head off" parasite problem
* Visual evaluation is not adequate, has to touch and feel animal
* Areas to be monitored
o Tail head
o Ribs
o Pins
o Hocks
o Edge of loin
o Shoulder
o Back bone
o Longissimus dorsi
* Scale
o
Thin 1 to 3
o
Moderate 4 to 6
o
Fat 7 to 9
* Recommendations
o
End of pregnancy 5 to 6
o
Start of breeding season 5 to 6
o Animals should never have a body condition score of 1 to 3
o Pregnant does should not have a body condition score of 7 or above toward the end of pregnancy because of the risk of pregnancy toxemia
o A body condition score of 5 to 6 at kidding should not drop off too quickly
FENCING
PERIMETER FENCE
* Smooth electrified wire
o At least 42 inches tall
+ 6 to 8 inches near the ground
+ 8 to 12 inches at the top strands
# Example (inches from the ground): 6 - 14 - 22 - 32 - 42 - (52)
PERIMETER FENCE
* Woven wire (6" X 6")
o Effective
o Costs at least twice as much as 5 strands of smooth electrified wire
o Horned goats can get caught
+ Place an electric wire offset about 9 inches from the woven wire fence and about 12 to 15 inches from the ground
+ Reduces control of forage growth at fence line
* Woven wire (6" X 12")
o Effective
o Cheaper
o Horned goats usually do not get caught
INTERIOR FENCES
* Two to three wires (braided or tape) with tread-in posts
* Electronet
GRAZING MANAGEMENT
In a pasture situation, goats are "top down" grazers. They start to eat seedheads or the top of the canopy and progressively take the forage down. This behavior results in uniform grazing. Goats do not like to graze close to the ground. Grazing goats have been observed to 1) select grass over clover, 2) prefer browse over grazing, 3) graze along fence lines before grazing the center of a pasture, 4) refuse to graze forage that has been trampled and soiled. These observations have been put to use in the grazing management of goats: it is preferable to give them a daily allowance of forage and to move the fence accordingly rather than to let them roam freely in a large pasture. This type of management, called control grazing, was developed in Europe and is implemented very successfully in New Zealand and numerous other parts of the world. Control grazing results in better animal performance, higher stocking rates, and increased pasture productivity.
SO, YOU WANT TO GET IN THE GOAT BUSINESS
Are you really, really ready?
* Are your fences, pens, chutes goat proof
* Is your grazing land adequate
* Do you have sufficient supplemental feed on hand
* Is your predator controller in place
* In your medicine cabinet, do you have
o Dewormers
o Vaccines
o Iodine
o Antibiotic ointment
o Insecticidal powder
o Thermometer
o Stomac tube
o Hoof trimmers
* Have you discussed your new venture with your local veterinarian?
* Have you alerted your next door neighbors to the possibility of excessive noises, exotic odors, sexual activity during the breeding season, animals getting out, and allayed their fears of the spreading of diseases?

henrique pereira dos santos (com os meus agradecimentos a quem me mandou o link)

terça-feira, dezembro 01, 2009

O sapateiro e o rabecão



Por causa do meu post sobre os lobos e as serras de entre Vouga e Douro, acabei por ter acesso (o documento é público e existe na APA) a um relatório de monitorização do primeiro ano dos parques eólicos da região.
Voltarei, provavelmente, à fantástica (se procurarem no dicionário, fantástico não quer dizer bom, o que não quer dizer que a reportagem não seja boa, quer apenas dizer que o que me fascina na reportagem é ser fantástica, no verdadeiro sentido da palavra) reportagem que o Público fez sobre o assunto mas hoje queria centrar-me num aspecto concreto do dito relatório.
O relatório em causa identifica como principais ameaças às alcateias da zona as seguintes:
1) Os incêndios, porque são um importante factor de degradação do habitat;
2) O aumento da rede viária, porque são um importante factor de fragmentação do habitat, de perturbação e causa directa de morte de lobos;
3) A utilização generalizada de laços.
Todas estas afirmações adequadamente suportadas em referências bibliográficas.
Conheço este elenco de ameaças e reconheço-o como razoavelmente consensual entre os principais investigadores que trabalham em Lobo.
Mas a meu ver estão completamente errados.
Reconheço a arrogância da afirmação, no sentido em que agora aparece um ignorante em matéria de lobos a dizer que os principais investigadores na matéria estão todos errados, como se os outros fossem todos tontos e só ele o inteligente.
Eu sei que a interpretação citada no parágrafo acima é plausível e por isso gostaria de explicar muito bem que o que pretendo fazer é apenas confrontar estas afirmações com duas narrativas paralelas no tempo, feitas pelos investigadores do lobo e que são contraditórias entre si.
O que não é de estranhar visto que uma delas se suporta em matérias nas quais eles não só não são especialistas, como a não estudam: a dinâmica da paisagem.
À primeira narrativa não vou dedicar muito tempo (pese embora a existência de algumas dúvidas que tenha sobre ela e que talvez trate noutro post um dia destes) limitando-me ao essencial: as populações de lobo estão em perda, pelo menos se tomarmos como referencial os últimos 100 a 150 anos, e por isso os lobos destas alcateias estão especialmente ameaçados e fragilizados.
Partindo desta narrativa, procuremos reconstituir as condições em que viviam essas populações de lobo mais ou menos abundantes (pelo menos longe do limiar de extinção em que hoje são colocadas as populações de lobos ao Sul do Douro).
Em vez de adoptarmos a lógica básica que consta da primeira das ameaças descritas (os fogos queimam, logo destroem a vegetação, logo são um factor de degradação do habitat) adoptemos uma posição um bocadinho mais exigente e vamos verificar o que está efectivamente descrito de como seria a região há 150 anos.
"Um dos tractos de terrenos mais extenso, quasi todo inculto e sem arborisação, diz o engenheiro M. C. Corrêa Paes, é a cumiada que separa parte das aguas do Paiva e do Douro...
... onde há notável falta de madeiras, e onde as lenhas se vendem por subido preço, attenta a sua grande falta.
As cumiadas e parte das encostas das serras de Sernancelhe e da Senhora-da-Lapa, completamente calvas em grande parte da sua superfície, cobrem-se de vegetação no seu prolongamento para o lado do NO., de modo que na chã de Leomil, ao descahir para a vertente septentrional da montanha, vê-se o solo não só coberto de mato, mas também de olival.
...Acima das cotas de 600 a 800 metros (serra de Montemuro) sobr o Douro escasseiam a cultura e o arvoredo; n'esta parte mais elevada da serra a vegetação é rasteira, e o granito mostra-se em muitos pontos escalvado. Na cumiada há somentes fetos, giesta, sumagre, carvalheiras, urzes e outras espécies de mato e plantas herbaceas, nas quais todavia milhares de cabeças de gado encontram no estio a sua nutrição.
...A sua arborização (de uma outra área, mais perto de Sever) tem sido tentada por alguns particulares, mas tem-a estorvado a obstinada opposição dos povos, a quem a cultura prejudicaria um pouco, roubando-lhes a regalia do usu-fructo dos matos bravios.
...Se n'este concelho principalmente, e no de Albergaria, não está hoje arborisada toda ou quase toda a superfície de terreno que não vale a pena agricultar-se, ou que o não possa ser, deve attribuir-se tão grande mal a uma prática condemnavel e a um abuso que muito carece de ser reprimido. Refiro-me às queimadas que por este tempo (mez de outubro) se fazem nestes concelhos no matos altos, com o fim de obter e melhorar as pastagens para o gado lanigero que por ali se cria."
Penso que chegam estas citações do relatório àcerca da arborização geral do país, de 1868 (e poderia acrescentar muitas outras) para se ter uma ideia do que era a paisagem e o uso desta zona há cento e cinquenta anos.
Não tenho aqui à mão, mas se se ler "Montemuro, a mais desconhecida serra de Portugal", de 1940, do meu primo Amorim Girão, poderão ter um retrato de como era esta região há quarenta anos, que confirma o essencial do descrito (como o livro não é de fácil acesso, na única vez em que estive com a Presidente da Câmara de Castro Daire ainda lhe sugeri que o reeditasse, fica uma referência para uma tese de doutoramento de fácil acesso, tendo em conta os quase setenta megas, onde se reproduzem fotografias do livro de Amorim Girão que permitem ter ideia do que era aquela paisagem de fragas e vegetação rasteira).
Ora aqui retomamos a narrativa inicial da evolução da população de lobo.
Se a população de lobo era maior, mais contínua e menos ameaçada numa paisagem mais despida, com menos vegetação e com queimadas constantes, como se pode concluir que os actuais fogos são por um lado um factor de degradação do habitat e por outro um facto de ameaça destas populações de lobo? Eu não consigo compreender.
O mesmo poderemos dizer para as vias de comunicação, visto que estas populações já estavam bem ameaçadas antes da construção da A24, pelo que não pode ser este um factor primordial (pode, no máximo, acentuar dificuldades, mas não é a origem das dificuldades). E nem vejo como se possa dizer que estradas de onde os carros saem pouco são um factor indutor de perturbação maior de milhares de cabeças de gado, acompanhadas pelos seus pastores e os seus cães, meses a fio nos sítios mais recônditos da serra (convém lembrar que no Verão não pastavam aqui apenas as ovelhas das povoações da serra, que já de si seriam incomparavelmente mais que as que hoje por lá andam, mas também às dos povos dos vales mais próximos, nomeadamente Douro e Vouga, que eram aos milhares).
Os laços são para mim uma coisa ainda mais estranha: não só ninguém sabe se havia mais laços antigamente que agora, como o mais provável é que houvesse muitos mais antigamente, porque havia muito mais gente por ali, e com um ódio ancestral ao lobo que está mais que documentado.
O que veradeiramente é diferente é a disponibilidade alimentar: não só as milhares de cabeças de gado estão reduzidas a poucas centenas, como a população de coelho será, na melhor das hipóteses, 5 a 10% da que existia, como ainda a perdiz praticamente desapareceu com o abandono do cultivo de cereais de inverno nas cumeadas.
Ou seja, simplesmentes estes lobos têm é fome.
O resto diz mais respeito às histórias do capuchinho vermelho (histórias do centro da europa, passadas na floresta) que à realidade.
henrique pereira dos santos

sábado, setembro 26, 2009

Gente estúpida


J. Paulo Coutinho Jornal de Notícias Cavalo procura pasto após incêndio. Gerês, Agosto de 2006
Do novo código florestal publicado recentemente:

Número 4 do Artigo 22º:

"4 — É proibida a prática da pastorícia nos espaços florestais arborizados percorridos por incêndios ou nos espaços florestais integrados em áreas classificadas cuja recuperação seja negativamente afectada por esta actividade, pelo período de cinco anos a contar da data da
ocorrência."

Para que se perceba bem o alcance, aqui fica a definição de espaços florestais arborizados:

"f) Espaços florestais arborizados — superfície com ávores florestais com uma percentagem de coberto no mínimo de 10 % e altura superior a 5 m (na maturidade), que ocupam uma área mínima de 0,5 ha de largura não inferior a 20 metros. Inclui áreas ocupadas por plantações, sementeiras recentes, áreas temporariamente desarborizadas em resultado da intervenção humana ou causas naturais (corte raso ou incêndios), viveiros, cortinas de abrigo, caminhos e estradas florestais, clareiras,aceiros e arrifes;"

O mesmo Governo que distribui fardos de palha para alimentar o gado privado dos seus pastos em consequência de incêndios extensos, acha razoável proibir liminarmente o pastoreio por cinco anos em consequência desses incêndios, desde que tenha existido num dado local um coberto arbóreo que ocupasse mais de 10%. E mesmo que os fogos resultem exactamente dos erros de gestão dessas áreas e povoamentos florestais. E mesmo que estejamos a falar de aceiros.
Ou seja, a floresta é por definição boa, o pastoreio é por definição uma actvidade subalterna a combater.
E o código, na sua atabalhoada preparação, passou por dezenas de olhos.

Gente estúpida é o que nós somos todos.

henrique pereira dos santos

domingo, agosto 09, 2009

Cabras, fogos e o admirável mundo das plantas

Em 1974, John Phillip Grime, actualmente professor emérito da Universidade de Sheffield, publicou um artigo seminal na revista Nature com o titulo "Vegetation classification by reference to strategies". Grime revelou que as plantas têm estratégias de vida diferenciadas que as permitem sobreviver num mundo de intensa competição por recursos escassos. As plantas foram agrupadas em três grupos, consoante as suas estratégias de vida: as ruderais, tolerantes ao "stress" e as competitivas.

As ruderais seriam as primeiras a colonizar um dado ambiente após uma perturbação como seja o fogo, o sobre-pastoreio, ou a "limpeza" da vegetação para actividades agrícolas ou florestais, etc. São, portanto, plantas que beneficiam de - e nalguns casos promovem - condições que favorecem as perturbações cíclicas no ambiente. Um exemplo conhecido é a esteva (Cistus ladanifer) que coloniza, em regime de quase monocultura, solos excessivamente pastoreados ou queimados do sul do País e que possui estratégias de vida que contribuem para aniquilar espécies competidoras. A esteva consegue este objectivo através da produção de uma substância (a cola nas suas folhas que se chama "labdano") que favorece a ignição do fogo, logo a manutenção de condições de perturbação que a beneficiam e que, quando depositada no solo, inibe o crescimento de outras plantas (um mecanismo semelhante ao do eucalipto).

As plantas tolerantes aos "stress" seriam as que suportam condições ambientais extremas, no limite do que é possível pela maior parte das plantas. São exemplo, os líquenes, as plantas tolerantes a ambientes salinos, de estrema aridez, etc.

As plantas competitivas seriam as que logram vingar em ambientes de intensa competição, característicos de ambientes biológicos complexos como sejam as florestas. Contrariamente às ruderais são plantas que beneficiam de condições de baixa perturbação e, como tal, possuem alguns mecanismos que inibem a propagação de perturbações. É o caso de muitas plantas que "ardem mal" (por exemplo os medronheiros, os lentiscos, as murtas, etc) e que beneficiam das condições criadas por comunidades estruturalmente complexas, como os bosques, que favorecem a existência de predadores de topo que reduzem a incidência de herbívoros e logo o risco de sobre-pastoreio.

Vêm estes considerandos a propósito dos inspirados posts do Henrique Pereira dos Santos sobre as aventuras e desventuras de Thomas. A tese defendida pelo Henrique é que a intensidade dos fogos em Portugal se deve em grande parte ao abandono dos campos e que a solução passaria por revalorizar estas actividades de modo a manter a sua função ecológica (e económica).

Naturalmente, não discordo da tese até porque parte do que o Henrique defende é factual. Porém, o raciocinio está incompleto pois não reconhece que a especial propensão dos campos abandonados para o fogo é resultado de um sistema de exploração da terra que criou condições para uma sobre-abundância de plantas ruderais que possuem estratégias para manter, em regime cíclico, as condições para aparecimento de grandes fogos.

Como se resolve o problema? Uma solução, implícita nas propostas do Henrique, é emular o sistema tradicional de exploração agro-pastoril do território. Caricaturizando, a ideia é que as cabras reduziriam a biomassa acumulada, logo a magnitude dos fogos. Sabemos, porém, que este é justamente o sistema que, após abandono, criou condições para a propagação de grandes fogos em Portugal. Portanto, é uma solução potencialmente paliativa, ou seja, uma solução que não resolve o problema de fundo (existência de condições que favorecem as plantas ruderais) mas que resolve o sintoma (excesso de ruderais) por via de uma actividade económica, o pastoreio, cuja rentabilidade - logo perenidade - depende de factores variados, alguns dos quais são externos.

Será a melhor solução? Certamente que é mais eficaz do que nada fazer e/ou simplesmente apagar fogos com meios cada vez mais avançados e caros. Mas outra solução seria gerir o território de uma maneira mais integrada e baseada num zonamento, de fina escala, sobre usos potenciais de cada parcela. Num cenário ideal, a gestão do território deveria limitar a pastorícia a áreas concretas, com baixo potencial para o desenvolvimento de florestas. As diferentes espécies de herbívoros (cabras, ovelhas, cavalos, etc) e as densidades dos mesmos deveriam ser cuidadosamente controladas e o objectivo de gestão da paisagem deveria incluir a criação de mosaicos de vegetação onde as plantas com características competitivas (florestais) tivessem um papel importante na limitação da propagação do fogo. Estamos a falar, em particular, de linhas de água, zonas de vale, vertentes suaves expostas a norte, etc.

Será utopia propor modelos de gestão do território baseados num zonamento por objectivos, que não sejam exclusivamente mercantilistas? Talvez este não seja o momento histórico para fazer propostas desta natureza mas não deixa de ser paradigmático que volvidos mais de 30 anos sobre a publicação dos influentes trabalhos de Grime, continuemos a pensar a gestão do território sem procurar entender o comportamento das plantas e sem entender que trabalhando com elas mais do que contra elas alcançaremos uma gestão mais sustentável dos recursos escassos que estão à nossa disposição.

quinta-feira, agosto 06, 2009

Em louvor de Thomas

Título alternativo roubado de Aquilino Ribeiro: "o melhor do país cheira a estábulo".

Thomas saindo com as cabras, vagamente visiveis no corte do caminho perto do canto superior esquerdo

Não sei se Thomas é um cidadão cumpridor, um pai de família exemplar, um homem totalmente íntegro e por aí fora. Não o conheço o suficiente.
Mas o que sei sobre ele e a sua circunstância é suficiente para fazer este post.
Thomas é um alemão que um dia, há mais de 25 anos, comprou trinta e poucos hectares de uma quinta perdida numa meia serra portuguesa, a maior parte de solo pobre e pouco produtivo e uma baixa agrícola com produtividades interessantes mas limitações importantes à mecanização .
Instalou-se e foi trabalhando, criou vários filhos a produzir com base em critérios que ele próprio escolheu: muita autonomia energética, produção biológica, criação extensiva de animais, sem rações industriais e venda local dos seus produtos (o principal dos quais, actualmente, é o queijo de cabra que vende na quinta e na feira de Góis).
Esta opção de independência e liberdade é necessariamente uma opção de trabalho duro e contínuo, de quem sobe todos os dias ao monte com as suas mais de cem cabras.
Mantém a sua preocupação de educar os filhos em escolas portuguesas, entre outras razões para garantir a sua integração e abrir-lhes as opções para o futuro, mantém a sua prática ocasional de músico amador, mantém um sistema de trabalho voluntário na quinta para quem quiser, como forma de ligação com o mundo, protesta com os eólicos que lhe puseram por perto mas reconhece que com isso ganhou uma banda larga bastante boa e um sinal de telemóvel excelente.
Ou seja, Thomas é um freak num dos sentidos originais do termo em inglês: um excêntrico, um não conformista, um homem da contracultura.
Só assim se compreende que tenha resistido tantos anos em Portugal a trabalhar e produzir no sector primário, dependendo sobretudo de si próprio, ou seja a fazer o que grande parte dos portugueses, e em especial as elites, consideram inviável.
Pois bem, Thomas está perto de desistir e voltar à sua Alemanha a que sempre se manteve ligado.
Em 2002 houve umas chuvadas e inundações na sua zona. O sistema de drenagem de uma estrada que passa a montante da linha de água que corta a sua propriedade ficou danificado e durante quatro anos Thomas insistiu com as autoridades locais (e outras) para que compusessem o que era um risco estúpido para a sua propriedade.
Em 2006 o anunciado acontece: o sistema de drenagem da estrada não resiste à chuva, forma uma primeira barragem e depois uma enxurrada que lhe corta a propriedade, levando grande parte dos muros de suporte de terras, atulhando poços, estragando alguns edifícios e equipamentos e etc..
E sobretudo causando uma enorme susto, seguido de uma não menos grande tristeza, aos que viviam na quinta.
E depois a corrosiva descrença no respeito dos poderes públicos em relação aos seus cidadãos.
Até hoje, apesar da evidente documentação sobre a responsabilidade das autoridades públicas, Thomas nunca foi ressarcido dos prejuízos e algumas das terras deixaram de produzir (uma parte porque deixou mesmo de existir como solo agrícola).
Uma das justificações mais curiosas é que o dinheiro da protecção civil já tinha sido todo gasto nos fogos, num concelho cuja psicose é limpar a serra à custa dos contribuintes. A situação não deixa de ser irónica: é que as mais de cem cabras do Thomas são o mais eficaz meio de gestão do fogo que existe nas redondezas, serviço pelo qual não recebe um tostão porque os dinheiros do mundo rural não distinguem cabras estabuladas de cabras em criação extensiva.
Mas a machadada final foi mesmo o fecho das escolas primárias na aldeia vizinha. Com os filhos mais velhos mais ou menos criados, Thomas tem agora mais duas crianças. E confronta-se com uma de duas opções: gastar todos os dias três horas a ir pô-las e buscar a Góis, ou mandá-las para a escola primária na camioneta que passa de manhã pelas seis e meia e regressa à noite por volta das oito e meia, em vez da opção anterior dos miúdos andarem vinte minutos a pé, sozinhos. Friso, para irem à escola primária.
Não é meu costume usar esta linguagem mas francamente um país que apenas deixa aos pais estas duas alternativas para levar os filhos à escola primária é um país de merda.
Não admira pois que pessoas como o Thomas acabem por deixar de conseguir viver por aqui, deixando os montes, os solos e etc., a serem geridos por sapadores florestais pagos com o dinheiro de contribuintes orgulhosos de se terem redimido de atavismos rurais.
No mesmo dia, a alguns quilómetros de distância, no mesmo concelho, a demonstração de como é usado o dinheiro do Fundo Florestal e dos contribuintes para a gestão do fogo. O adro da Igreja ficou um brinco e não arderá com certeza este ano
henrique pereira dos santos

segunda-feira, agosto 03, 2009

Menos floresta, por favor

Imagem roubada à Universidade de Coimbra

“Seis anos depois dos dramáticos incêndios de 2003, a floresta portuguesa continua à mercê do seu principal calcanhar de Aquiles: o minifúndio.”
Assim começa Ricardo Garcia o seu trabalho de 27 de Julho sobre a floresta e os fogos.
Reportagem é boa, mas esta ideia de que o minifúndio é um grande inimigo da floresta, apesar de persistente e generalizada, está errada.
A ideia tem a sua base na opinião de técnicos florestais de que o ganhos de escala nas operações de silvicultura são decisivos na gestão florestal das nossas matas.
No entanto as mais interessantes áreas do país para a produção florestal, excluindo a fileira da cortiça, e aquelas onde é realmente criada uma boa parte da nossa riqueza florestal, que mantêm alguma gestão e com fogos, sim, mas raramente catastróficos, correspondem a uma zona ao longo do litoral, desde Lisboa ao Minho.
Ora a faixa onde realmente a riqueza florestal é produzida é fortemente dominada pelo minifúndio, com destaque para o Minho.
A zona do Pinhal Interior, o centro da reportagem citada, é também de minifúndio, mas o problema de gestão da sua floresta está longe de ser um problema de propriedade.
O problema é mais complicado: o problema é a rentabilidade da floresta.
Ao contrário do que acontece na faixa litoral citada a verdade é que a gestão não existe nem existirá com base nos rendimentos que a floresta pode proporcionar em muitas áreas que se florestaram por razões que ultrapassam a racionalidade económica de cada produtor.
Não por acaso quase todos os intervenientes a que a reportagem dá voz falam dos apoios públicos como essenciais. E repetem que sem esses recursos alocados à floresta, o país arderá sempre, mais tarde ou mais cedo.
Na verdade, pelo país inteiro, nos anos oitenta, esta fragmentação da propriedade não foi obstáculo a que as empresas de celulose florestassem áreas vastas através de acordos com o proprietários.
Há outros factores essenciais para a competitividade da floresta que pesam muito mais que as economias de escala proporcionadas pelas dimensões das propriedades.
Basta ter em atenção que as duas celuloses que existem em Portugal têm vastas áreas do seu património com outros usos que não a floresta de produção porque não compensa gerir áreas com produtividades abaixo de determinados valores.
A ideia de que a floresta é boa em si mesma, sem consideração pelos diferentes benefícios que resultam dos diferentes tipos de floresta, associada à ideia de que o que não é agrícola é florestal tem mantido a ficção da necessidade de encontrar mecanismos para gerir áreas no quadro da política florestal, o que vai acabar sempre na reivindicação de mais e mais recursos públicos afectos quer à gestão florestal quer ao sistema de combate ao fogo.
Talvez seja tempo de parar de florestar sem racionalidade económica, entrar em consideração com outras actividades na ocupação do território, como a pastorícia, rever os critérios de afectação dos dinheiros públicos para o mundo rural e considerar a hipótese de não gestão em áreas a afectar à conservação da natureza.
Os fogos não acabarão, aqui e ali poderão ser mais violentos, mas o balanço global será socialmente mais positivo que continuar a enterrar dinheiro público em áreas onde a actividade não é competitiva, qualquer que seja a dimensão da propriedade.
henrique pereira dos santos"

Publicado no jornal Público de 1 de Agosto de 2009

domingo, novembro 30, 2008

Não deveria Portugal arder mais?

Provavelmente, sim.


Fotografia roubada à UTAD

Um dia destes descobriu-se uma discrepância significativa entre os valores de área ardida registados oficialmente em dois organismos diferentes. A questão está equacionada e resolver-se-á. Não é pois isso que me interessa.
O que me interessa é o facto dessa discrepância resultar de diferentes importâncias atribuídas às queimadas.
Isto é, na perspectiva do combate, ou mesmo da produção florestal, queimadas não são problemas e portanto é legítimo não perder tempo com o registo rigoroso da área ardida que resulta delas.
Mas na perspectiva da evolução dos sistemas, é importante registar tudo o que arde para ser possível interpretar a evolução da vegetação. E desse ponto de vista vale a pena registar todas as áreas ardidas, mesmo as que resultam de queimadas.
Verificar isto conduziu-me à discussão de um aspecto que parece ser um consenso: a área ardida em Portugal tem aumentado ao longo dos anos.
Corresponde este consenso à realidade? Penso que sim se considerarmos os últimos vinte ou trinta anos. Penso que não, se recuarmos mais no tempo.
E a razão prende-se com a importância social do registo das queimadas.
Na realidade em grande parte do país, pelo menos 30% mas seguramente mais há mais tempo, o regime de exploração era o de um pastoreio de percurso com recurso a queimadas de tempos a tempos.
Ora estes 30% (percentagem seguramente por defeito) são cerca de 2 700 mil hectares. Se a frequência de fogo rondasse os cinco anos (o que é uma suposição razoável neste tipo de uso) um quinto destes 2 700 mil hectares arderiam por ano, ou seja 540 mil hectares, mais que o terrível ano de 2003. Mesmo admitindo uma frequência de fogo menor, digamos, de dez em dez anos, estaríamos ainda assim a supor que arderiam 270 mil hectares ano, muito acima da média anual que temos mesmo se usarmos a mais alta das médias rolantes de cinco anos, e só dois anos alguma vez ultrapassaram este valor: 2003 e 2005.
Ou seja, é bem provável que a área ardida anual que existia há cinquenta anos fosse bem maior que a que existe hoje e que consideramos, num consenso muito alargado, excessiva.
Sabendo que a roça de matos, quer para estrume, quer para aquecimento e cozinha, está muito diminuída e também o número de cabeças de gado que temos, fácil é pôr a hipótese de que o equilíbrio entre acumulação e remoção de combustíveis esteja muito longe de estar atingido.
Dir-se-á que esta hipótese é absurda porque com áreas ardidas da dimensão referida o alarme social seria semelhante ao alarme social provocado pelos fogos de 2003.
Não é verdade, o que provocou o alarme social em 2003 foi a natureza do fogo: a sua severidade, a sua concentração geográfica e o facto de ser incontrolável, afectando vidas humanas, casas, povoamentos, infra-estruturas, etc.
Ou seja, do que precisamos, eventualmente, não é de menos área ardida mas de menos área ardida nas condições em que ocorreram os fogos de 2003.
E para isso é bem provável que seja útil ter mais área ardida, mas em condições que não representem riscos para pessoas e bens.
Chamo a atenção para o comentário de Paulo Fernandes (das pessoas que mais sabem sobre a gestão do fogo em Portugal) no meu post intitulado "Portugal sem fogos?" e que transcrevo:
"Não tendo tempo para contribuir para a discussão deixo apenas uma pequena clarificação. A designada política do "deixa arder" era oficialmente designada como "prescribed natural fire" e, mais recentemente, "wildland fire use". Consiste em deixar arder os incêndios, geralmente de origem natural, desde que não ameacem bens/infraestruturas e desde que ardam em condições que satisfaçam os objectivos de gestão do território. Para ter uma ideia da importância deste "deixa arder" nos EUA diga-se que é superior à área de fogo controlado, que por sua vez é a principal actividade do Forest Service.Poderia esta política ser adoptada, aliás adaptada, para a Europa,? Não tenho a menor dúvida de que sim. Aliás, ela já é involuntariamente praticada em Portugal (nas épocas do ano em que a prontidão do dispositivo de combate é menor)...."
henrique pereira dos santos

terça-feira, novembro 18, 2008

A variável tempo



À procura de informação sobre a instabilidade geomorfológica das encostas do vale glaciar do Zêzere a montante de Manteigas encontrei no blog referido na primeira fotografia e num blog antigo sobre a geomorfologia da Estrela estas duas fotografias que me parecem do mesmo troço do vale, separadas por umas décadas mas que por uma coincidência notável foram tiradas de pontos de vista muito próximos.
Para quem acha que o território está num processo de degradação dos ponto de vista dos valores naturais, acho que vale a pena deixar aqui este testemunho.
henrique pereira dos santos

sábado, julho 19, 2008

A gente não lê



Há algum tempo, depois dos fogos de 2003, 2004 e, sobretudo, 2005, falou-se muito de centrais de biomassa como um dos mais importantes contributos para a gestão de combustíveis em Portugal com as grandes vantagens de não sobrecarregar o contribuinte e o déficit e ser um reforço no uso de energias renováveis.

Depois disso o assunto desapareceu dos jornais e confesso que não tenho muita informação sobre a matéria, começando por não saber uma questão central: quais são os mixs de combustíveis que se propõem usar os donos das centrais de biomassa.

Para se ter uma ideia, a central de Biomassa de Mortágua usava apenas 2% de matos por razões facilmente compreensíveis: os matos são essencialmente água e ar, têm uma capacidade calórica baixa, é caro o seu corte e, sobretudo, o transporte e ainda correm o risco de auto-cumbustão quando armazenados ao mesmo tempo que entram em decomposição rapidamente diminuindo o seu já pouco interesse calorífico, dificultando muito o seu armazenamento e criando problemas de logística relacionados com o seu aprovisionamento.

Lembremo-nos que estas centrais são suportadas por um regime de incentivo que consiste no pagamento de tarifas mais elevadas dentro de regime especial de produção de electricidade e desenganem-se os que pensam que há almoço sem pagar: de facto não se onera o contribuinte e a despesa do Estado mas onera-se a economia, as empresas e as pessoas, com preços de electricidade mais altos.

Esta é aliás a base de muitas das críticas às energias renováveis (o seu efeito de absorção de recursos que doutra forma estariam disponíveis para a economia produzir mais riqueza) e apenas se justifica a sua manutenção porque os benefícios sociais gerais (sobretudo a internalização do custo ambiental do uso de energias a partir de combustiveis fósseis) serão maiores que a ineficiência económica assim gerada.

Ora as centrais de biomassa foram sobretudo justificadas com o seu contributo para a defesa do território face aos incêndios.

Vejamos.

Há 10 centrais (acho eu) previstas. Cada uma delas no limite pode ir buscar matos num raio de 30 Km (a partir daí o transporte dos matos é completamente inviável e suponho que esteja a diminuir esta distância de viabilidade face ao aumento dos combustíveis clássicos). Ou seja as dez centrais actuariam sobre 2 900 000 ha. Sobram 6 000 000 do país, ou, para ser mais favorável, sobram 3 500 000 de matos e florestas sem centrais.

Mas dentro dos tais 2 900 000 ha que seriam geridos com o contributo das centrais, seria preciso perceber que capacidade de absorção as centrais têm da produtividade primária dos matos. O que implicaria saber quanto produzem anualmente as centrais, qual a percentagem de matos no mix de combustíveis, que produtividades primárias existem na zona e multiplicar por quatro, considerando que para ser efectivo o seu contributo para a redução de combustiveis os matos deveriam ser cortados de quatro em quatro anos. Então teríamos o número de ha com contributo efectivo de gestão por parte das centrais. No fim bastaria calcular a diferença de preço da tarifa em regime especial para a tarifa base e ver quanto nos custa a todos (mesmo que não custe ao Estado) esse contributo para a gestão de combustíveis.

Se alguém tem acesso fácil aos dados que permitem fazer estas contas seria bom que os disponibilizasse aqui.

Arrisco-me a apostar dobrado contra singelo em que o preço por ha de gestão de combustíveis por esta via é pelo menos o dobro do que seria se o mesmo efeito fosse obtido com rebanhos de cabras (com o fringe benefit de deixar no terreno grande parte da matéria orgânica contribuindo para o aumento do fundo de fertilidade do país).

O problema é que com as cabras a prestar este serviço tornava-se mais óbvio que todos nós temos de pagar essa gestão porque nos falta um sistema centralizado, quase monopolístico e opaco que nos permite misturar este custo no meio dos outros e passá-lo ao consumidor de electricidade sem que ele dê por isso e se questione muito.

Quando por estes dias nos questionamos por que razão Portugal tem um desempenho económico pior que muitos outros países (não se trata de questionar a degradação da situação económica que em grande parte decorre de factores externos, trata-se sim de questionar por que razão Portugal, com os mesmos factores externos que outros países, tem um desempenho económico relativo pior) talvez seja bom lembramo-nos de como fazemos estas contas em cima do joelho e de como isso torna mais fácil escamotear a racionalidade das decisões atrás de passes de mágica que transferem os custos para a economia e as pessoas só porque é mais fácil que tornar claras as políticas públicas que as suportam.

"...
De que nos vale esta pureza
Sem ler fica-se pederneira
Agita-se a solidão cá no fundo
Fica-se sentado à soleira
A ouvir os ruídos do mundo
E a entendê-los à nossa maneira
...
Que adianta saber as marés
Os frutos e as sementeiras
Tratar por tu os ofícios
Entender o suão e os animais
Falar o dialecto da terra
Conhecer-lhe o corpo pelos sinais
E do resto entender mal
Soletrar assinar em cruz
Não ver os vultos furtivos
Que nos tramam por trás da luz"

(carlos tê e rui veloso (alterada a ordem de algumas estrofes por mim) que aconselho na versão de Isabel Silvestre)

henrique pereira dos santos

sábado, maio 27, 2006

A cabra e o vento Leste

Finalmente tenho tempo para este tema.

E logo por coincidência no segundo dia de vento Leste. Não vi as notícias de hoje, não sei se há fogos, mas quase que garanto que amanhã, se continuar o vento Leste como previsto, começarão as notícias sobre fogos.

Mesmo em Maio, mesmo tendo havido um ano com chuva até tarde (o que interessa para efeito do fogo não é se o ano é chuvoso ou não, mas quando chove, mesmo que pouco), tenho poucas dúvidas de que três dias de vento Leste, ainda que não seja forte, são suficientes para que bastantes incêndios apareçam.

Não é muito importante por que razão aparecem, o importante é que nestes dias aparecem facilmente e apagam-se dificilmente.

Quer isto dizer que a culpa dos fogos é do vento Leste? Claro que não, quer simplesmente dizer que o vento Leste é um dos factores da equação.

E onde entra a cabra?

No facto de me parecer que não há maneira mais eficiente de reduzir combustíveis.
Como deixámos de estrumar terras (para o que era preciso ir roçar o mato), como deixámos de nos aquecer e cozinhar a lenha e como reduzimos e muito o gado no monte, os matos acumulam-se.

Ora é esta combinação de acumulação de combustível e de condições climatéricas que tornam muito difícil a gestão do fogo entre nós.

Dir-me-ão que a correcta gestão florestal resolve o problema. Resolve, sim (com custos ambientais muito significativos), mas apenas se a exploração florestal pagar as operações de limpeza, o que não acontece em mais de 50% do território.

Tudo isto são disparates?

Talvez sejam, podem começar a verificar amanhã o grau de fiabilidade das previsões (tendo em atenção o facto de o nosso instituto de meteorologia ser avesso à disponibilização de informação regional).

Daqui para a frente, verifiquem no boletim meteorológico a direcção do vento. Sempre que passar de três dias entre Maio e Outubro, vejam o resultado. E sempre que a previsão, para além da direcção Leste indicar vento forte, verifiquem também.

Lembrem-se de descontar os dias em que choveu minimamente nas duas semanas anteriores.

Hoje o Público no texto do boletim meteorológico não diz a direcção do vento. Mas no desenho do mapa, lá está a direcção do vento.

No fim do Verão conversamos sobre os resultados observados por cada um.

henrique pereira dos santos

sexta-feira, abril 14, 2006

A cabra da floresta

Num agradável jantar, ontem, entre os membros deste blog, um dos temas mais quentes foi a floresta... e claro, também os incêndios. Condimentada com comida goesa, várias foram as teses picantes em cima da mesa. O Henrique Pereira dos Santos apresentou a «tese» de que, além da «culpa» dos incêndios serem dos ventos de leste, que a «coisa» alterava-se metendo cabras a ceifarem o mato. A ideia não me parece propriamente um disparate - ou pelo menos, não será tão grande como a ideia de se meterem centrais de biomassa espalhadas pelo país, pensando que somente isso fará com que se faça desmatação. Em todo o caso, recordei-me logo de como as cabras eram vistas no início do século XX, quando se estava em plena fase de arborização do país.
Em baixo coloco um pequeno extracto do livro que estou a escrever sobre a floresta, que aborda esta questão:

"O gado era considerada uma praga, odiada ferozmente. Tomás da Fonseca – um polémico jornalista da primeira metade do século XX, pai do escritor Branquinho da Fonseca –, que andou em acções a favor da plantação de pinhais junto das populações da região centro, comparava mesmo as cabras ao demónio. Porventura por ter sido um antigo padre, Tomás da Fonseca escreveria no seu livro «O Pinheiro» um divertido ataque à cabra: «figura esguia e ágil, de chifres aguçados, dentes cortantes como facas e a pata rachada como a que tem o Diabo figurado na bandeira da paróquia, aos pés do arcanjo São Miguel». Para ele, este «bicho» era «a executora da sentença de morte da nossa floresta (...), mais funesta que o machado», pois mutilava não apenas as pequenas árvores como obrigava que «o pastor lance o fogo com o fim de conseguir novos rebentos para o dente voraz». Tomás da Fonseca vislumbrava mesmo um futuro sombrio para quem insistisse no pastoreio em detrimento da floresta: «Esse bicho, se o não exterminarem ou, pelo menos, reduzirem, deixando apenas o bastante para a caçoilada em dias festivos, dentro em poucos anos esta povoação (...) ou acaba de todo ou terá somente dois ou três casais»".

terça-feira, agosto 30, 2005

Quando as hienas sorriem

Desde que Aquilino Ribeiro publicou "Quando os lobos uivam", o "Plano de Povoamento Florestal 1938-1968" vem sendo tratado pelos ambientalistas e pelos anti-salazaristas como uma obra satânica, criminosa dos pontos de vista ecológico e sócio-político. É um livro constantemente utilizado como arma de arremesso contra os Serviços Florestais. Os anti-salazaristas lêem nele a descrição de como o Estado Novo violentou as populações serranas, arborizando à força as pastagens onde se alimentavam os rebanhos essenciais à sobrevivência dos camponeses. Os ambientalistas fazem uma exegese suplementar, e descobrem nessa narrativa uma denúncia da "pinheirização" do nosso país, criando imensos bosques monótonos e altamente inflamáveis.

Ora, como os grandes admiradores de Aquilino são dados a confundir neo-realismo com realidade, ficção com facto, narrativa literária com descrição histórica, raras vezes se dão ao trabalho de examinar os acontecimentos da época à luz de outros documentos decerto menos eloquentes, porém mais fidedignos. Em 1958 Aquilino atacou os Serviços Florestais com aquele seu romance; em 1961 os Serviços Florestais responderam publicando o relatório "75 Anos de Actividade na Arborização de Serras", escrito pelo silvicultor João da Costa Mendonça. Lê-lo em contraponto à narrativa de Aquilino é uma questão de probidade intelectual. A realidade ecológica e sócio-económica daquele tempo era bem mais complexa do que o ilustre literato nos quis fazer crer.

Várias têm sido as personalidades a postular que a causa do aumento do número de incêndios florestais nos últimos anos reside no aumento excessivo da área dedicada ao pinheiro e ao eucalipto, fazendo questão de notar expansão do primeiro já havia sido denunciada no romance "Quando os Lobos Uivam" - como se bastasse essa obra literária para provar semelhante tese. Ora, os factos não corroboram essa correlação entre a variação de área cultivada dessas espécies e variação da ocorrência de incêndios. O aumento exponencial da área ardida nos últimos dez anos foi precedido nas últimas três décadas por um declínio da área de pinheiro-bravo, ao passo que o eucalipto praticamente interrompeu a sua expansão em meados de 90. Em contrapartida, a área de matos, incultos, pousios e matas abandonadas aumentou exponencialmente desde os anos 80: hoje mais de 30% do país está coberto por densas formações arbustivas de giesta, urze, torga, carrascal ou esteva (as etapas intermédias da sucessão ecológica). De entre todas as possíveis variáveis causais dos incêndios, as que aumentaram mais dramaticamente nos anos 90 não foram as temperaturas médias, nem tão-pouco as áreas de pinhal e de eucaliptal, mas sim as áreas rústicas invadidas por matos.

Sucede que o comportamento dos incêndios é determinado sobretudo pelo calibre do material lenhoso, e nesse aspecto as formações arbustivas se destacam. Quanto mais finas as ramagens e mais abundante a folhada no solo ou próxima do solo, mais elevada é a inflamabilidade e a rapidez de propagação dos incêndios. Os arbustos são pois, comparativamente às árvores e às plantas herbáceas, as verdadeiras acendalhas dos incêndios. Por isso, é normalmente nestas formações que eclodem os fogos florestais, é por meio delas que se propagam no espaço, e é graças a elas que logram atingir o copado das florestas próximas. Quando o fogo atinge o copado inicia-se uma catástrofe de violência irresistível, independentemente de as florestas serem compostas por eucalipto, pinheiro ou carvalho.

Contrariamente ao que clama a "vox populi", está provado que o castanheiro, o carvalho e restantes folhosas têm tanta inflamabilidade quanto o eucalipto e o pinheiro. Por "inflamabilidade" entende-se a faculdade de iniciar a combustão ou, por outras palavras, a facilidade de ignição. As espécies cultivadas no nosso país com menores índices de inflamabilidade são o zambujeiro, o cipreste e o cedro-do-Atlas). Já a combustibilidade das formações florestais (entendida como a facilidade de propagação do fogo sobre um dado coberto vegetal) é, no sentido decrescente:

Matagais desenvolvidos (acima de 50 cm de altura) > Pinhal jovem > Eucaliptal sem remoção de arbustivas > Matagal medianamente desenvolvido (entre 30 e 50 cm) > Pinhal sem remoção de arbustivas > Pinhal com remoção de arbustivas > Eucaliptais com remoção de arbustivas > Carvalhais > Montados > Prados.

Os matagais desenvolvidos ocupam, no nosso país, uma área superior aos eucaliptais. A maioria dos eucaliptais são regularmente limpos de espécies arbustivas. A maioria dos pinhais, por sua vez, não recebem quaisquer cuidados de limpeza e, uma vez cortados, nem sequer são devidamente replantados. Conclusão: as "bombas incendiárias" no nosso país encontram-se nos campos agrícolas abandonados (entretanto ocupados por matagais) e nos pinhais abandonados. Quase todos estes últimos são propriedade privada (o Estado detém menos de 2,5% das áreas florestais), o que traz sérias consequências políticas e éticas. Os proprietários de um terreno cujo amanho negligente resulte num maior risco de incêndio estão a pôr em risco vidas e bens de terceiros: qual a responsabilidade civil de um proprietário cujas matas ardem por manifesta negligência, e com isso causam mortes entre os vizinhos e a destruição dos lares de outrem?

Isto conduz-nos indirectamente à questão da propriedade florestal. A título de exemplo, a Serra da Lousã encontra-se retalhada por mais de 200 mil proprietários. A generalidade desses proprietários paga apenas cerca de 2 cêntimos por hectare por ano de imposto sobre o património rústico, ou seja, fica tecnicamente isento de tributação. A Lei não lhes atribui quaisquer responsabilidades, civis ou simplesmente ambientais, de cultivar as suas florestas de forma silvícola e ecologicamente válidas. Por fim, o Estado -caso único no Ocidente- concede a esses terratenentes a dispensa dos deveres de pagar imposto relevante sobre o património ou de sobre ele exercer um cultivo responsável. Por fim, esse mesmo Estado recompensa a posse negligente e gratuita de florestas com subsídios, tenças, côngruas e sinecuras aos terratenentes. Dir-se-ia que regressámos ao feudalismo, quando o monarca cobrava impostos aos trabalhadores braçais para com esse mesmo dinheiro recompensar os senhores feudais que, pelo mero facto de possuírem terrenos, se tornavam merecedores de um estipêndio anual, independentemente dos seus méritos ou esforços...

Claro que a inércia dos proprietários também se justifica pelo perigo de insolvência dos empreendimentos florestais. Para ser rentável, uma empresa florestal necessita de dispor de pelo menos 500 hectares (pouco menos, se tiver a sorte de herdar um sobral em plena maturidade). Ora, mais de 90% dos nossos proprietários florestais possuem menos de 5 hectares. Nenhum empreendimento florestal é economicamente viável com tão poucos terrenos disponíveis. A solução estaria, pois, no associativismo, no cooperativismo ou no emparcelamento. Para solucionar o problema, a União Europeia tem gasto fortunas na criação e sustento de Associações de Produtores Florestais. Para ver o seu troço de floresta limpo e cultivado, o proprietário na prática não precisa de fazer nada mais do que inscrever-se na associação e autorizar a intervenção dos técnicos associativos nos seus terrenos. Quem paga a factura são os contribuintes europeus. Ainda assim, os proprietários de 1/3 dos terrenos florestais abstém-se de se juntar à associação de produtores florestais da sua região (este panorama varia de região para região; estou a falar em termos médios)... Coloca-se, pois, a magna questão de como chamar esses proprietários às suas responsabilidades. É sobretudo a partir dos seus imóveis que deflagram os incêndios. A isenção técnica de impostos já os favorece de um modo inédito no Ocidente; os subsídios permitem-lhes cuidar da floresta a custo zero; a Lei não lhes impõe quaisquer deveres de bons usos económicos e ecológicos do solo; e ainda assim, para prejuízo de todos, não cuidam do que é seu! E, para cúmulo da imoralidade, só se assumem como proprietários na altura de reclamar subsídios ou de pedir alvarás de loteamento!

Nos outros países Ocidentais o ordenamento agro-florestal tem um enquadramento jurídico completamente distinto. Um exemplo extremo e draconiano é a Dinamarca. Merece a pena analizarmos a política de solos deste país pelo que no ensina acerca da gestão de espaços agro-florestais, mesmo que por motivos climáticos o seu risco de incêndio seja naturalmente menor.
O agricultor/silvicultor dinamarquês goza de muitos direitos idênticos ao do português, nomeadamente os subsídios comunitários. A diferença reside nos deveres de um e de outro - abundantes para o primeiro, irrisórios para o segundo. Para ser proprietário de terrenos agro-florestais, o terratenente dinamarquês está obrigado a:

-Possuir um bacharelato ou título superior em Agricultura ou Silvicultura. O período de formação é financiado a 100%;

-Deve residir no terreno que cultiva, ou na aldeia/vila mais próxima. O absentismo é proibido;

-Deve pagar um imposto anual substancial pelo terreno, ao qual podem ser deduzidas despesas de manutenção das culturas. Isto não penaliza os terratenentes empreendedores, apenas os negligentes e sem iniciativa económica;

-Deve praticar as culturas preconizadas nos Planos de Ordenamento do Território, que estipulam quais os leques de espécies autorizadas para cada parcela;

-É responsável pela manutenção da camada arável do solo e pela qualidade das águas.

-Sob pretexto algum é permitido ao proprietário lotear ou urbanizar os seus terrenos - tais acções são prerrogativa exclusiva do Estado e exercidas sobre terrenos públicos;

-Só é permitida a residência em habitações isoladas no espaço agro-florestal a pessoas que pratiquem a agricultura ou a silvicultura. Para a restante população criaram-se "aldeias de vilegiatura" - pequenos aglomerados residenciais recuperados ou novos, em cenário rural, para quem desejar uma 2ª habitação.


Os resultados do sistema jurídico dinamarquês estão à vista de todos: um território bem ordenado e amanhado a 100%, expansões urbanas modestas porém confortáveis e baratas, um sector agro-florestal competitivo. O resultado do nosso sistema jurídico também está à vista de todos: um território caótico, carcomido pela especulação imobiliária, consumido pelos incêndios, e inculto a mais de 30%.