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quinta-feira, abril 29, 2010

COMER COM GOSTO

Deve haver poucas pessoas que não gostem de comer, e eu não sou uma delas. Gosto de experimentar receitas das sobremesas mais exóticas, amassar pão à procura do mais genuíno sabor, ficar-me esquecida nas livrarias a apreciar livros de cozinha recheados de resultados impossíveis de obter em casa. Mas não sou de olhar só para o resultado: os meus ingredientes escolho-os com cuidado e atenção porque é a minha família, a saúde e boa disposição de todos, que está em causa. E, neste capítulo, sou muito tradicional: procuro o melhor, sem compromisso. Por exemplo, se olho para a lista de ingredientes de uma embalagem de comida e vejo números além dos nomes... é porque foi feito no laboratório e não no campo. E o que sai do laboratório, pela minha lógica, não pode ser comida.

Mas mesmo eliminando o que inclui números ainda sobra muita coisa que não entra no meu carrinho de compras. Por exemplo, não aprovo ingredientes que, há cem anos apenas, ninguém usaria na cozinha, mesmo se começarem pela palavra Vitamina, ou jurarem que fazem bem aos intestinos. E depois ainda há aquelas comidas que se querem fazer passar por outras – chamo-lhes os travestis. Margarina e bolachas com "sabor" a chocolate são bons exemplos, mas os adoçantes que querem fazer de conta que são açúcar para poupar nas calorias são talvez daqueles a quem mais cuidadosamente barro a porta de casa. Quando tenho dúvidas, aplico uns testes muito simples: pode ser produzido numa quinta, ou pescado no mar? Percebo como passa do estado original para a embalagem final? Se a resposta é não, é porque não é para mim. Isso leva-me a passar ao lado de quase todo o pão dos supermercados e padarias, repleto que está de "melhorantes" e "enzimas", ou ainda da míriade de outros alimentos com espessantes, corantes, estabilizantes ou demais maravilhas da tecnologia alimentar.

Claro, a maneira como a comida é processada também conta, não basta escrutinar os ingredientes. A radioactividade, por exemplo, pode ter muitos fins úteis, mas comida irradiada rima com comida doente... e que nos põe doentes a nós. E a aplicação de radiação electromagnética (vulgo forno de microondas) garantidamente também não foi pensada para nos trazer mais saúde. Quanto ao leite UHT, o tal que ainda está igual a si próprio mesmo após seis meses de esquecimento no fundo do armário, bem, arranjem leite do dia pasteurizado, encham um copo de cada um e façam o teste à família toda, a ver se não distinguem o que ainda sabe a leite daquele que do leite já só tem o aspecto.

Na busca da comida como "nos bons velhos tempos", gosto de reparar também nos ingredientes "invisíveis". Prefiro, tal como a restante população europeia, que as minhas hortaliças sejam sem pesticidas, o meu leite sem antibióticos e a minha carne sem hormonas... mesmo se trouxerem o selo europeu de autorizado. Se for do campo e não de aviário ou de aquacultura, melhor. E sendo colhido e comido na época, melhor ainda.

E que dizer da mais moderna de todas as invenções alimentares, os alimentos geneticamente modificados, ou transgénicos? Já ouvi as sete maravilhas sobre eles: mais nutritivos, mais duradouros, mais limpos de pesticidas, muito estudados e seguros, até a fome no mundo e a crise energética (através de biocombustíveis) eles se preparam para resolver. Mas eu confesso: a primeira vez que comprei óleo de soja e depois verifiquei pelo rótulo que continha soja geneticamente modificada senti um aperto abaixo do estômago que nunca me engana. Esta comida transgénica pode ser apropriada para cobaias de laboratório, mas não é comida de gente. Mas claro, o problema é poder escolher. Para já anda por aí soja e milho transgénico, mas já este ano a Comissão Europeia pretende aprovar arroz transgénico. Arroz! O mais castiço dos cereais que comemos em Portugal!

Fui informar-me e fiquei a saber que os portugueses são os "chineses" da Europa: cada um de nós come em média 17 quilos de arroz por ano, enquanto que os italianos, que estão em segundo lugar atrás de nós, não comem mais que uns míseros sete quilos. Os dinamarqueses, coitados, não sabem o que é arroz doce e não vão além de quilo e meio por ano. E agora, querem abrir a nossa porta ao arroz transgénico?! Isso é, para a gastronomia, o mesmo que deitar abaixo o Mosteiro dos Jerónimos seria para a nossa história e cultura!

Senhor Ministro da Agricultura: espero que goste de arroz de ervilhas, de arroz malandro, de arroz de forno e de arroz de pato. Espero, em suma, que goste de arroz, porque ser português também é isso: durante a última grande guerra devemos em grande parte ao arroz a nossa sobrevivência alimentar. Quando se sentar em Bruxelas e chegar a vez de votar o arroz transgénico, Senhor Ministro, vote por nós.

Margarida Silva, bióloga

domingo, janeiro 24, 2010

U.S. Feeds One Quarter of its Grain to Cars While Hunger is on the Rise

by Earth Policy Institute on January 22, 2010

The 107 million tons of grain that went to U.S. ethanol distilleries in 2009 was enough to feed 330 million people for one year at average world consumption levels. More than a quarter of the total U.S. grain crop was turned into ethanol to fuel cars last year. With 200 ethanol distilleries in the country set up to transform food into fuel, the amount of grain processed has tripled since 2004.

The United States looms large in the world food economy: it is far and away the world’s leading grain exporter, exporting more than Argentina, Australia, Canada, and Russia combined. In a globalized food economy, increased demand for food to fuel American vehicles puts additional pressure on world food supplies.

From an agricultural vantage point, the automotive hunger for crop-based fuels is insatiable. The Earth Policy Institute has noted that even if the entire U.S. grain crop were converted to ethanol (leaving no domestic crop to make bread, rice, pasta, or feed the animals from which we get meat, milk, and eggs), it would satisfy at most 18 percent of U.S. automotive fuel needs.

Ethanol Demand, Rising Food Prices, and Hunger

When the growing demand for corn for ethanol helped to push world grain prices to record highs between late 2006 and 2008, people in low-income grain-importing countries were hit the hardest. The unprecedented spike in food prices drove up the number of hungry people in the world to over 1 billion for the first time in 2009. Though the worst economic crisis since the Great Depression has recently brought food prices down from their peak, they still remain well above their long-term average levels.

The amount of grain needed to fill the tank of an SUV with ethanol just once can feed one person for an entire year. The average income of the owners of the world’s 940 million automobiles is at least ten times larger than that of the world’s 2 billion hungriest people. In the competition between cars and hungry people for the world’s harvest, the car is destined to win.

Continuing to divert more food to fuel, as is now mandated by the U.S. federal government in its Renewable Fuel Standard, will likely only reinforce the disturbing rise in hunger. By subsidizing the production of ethanol, now to the tune of some $6 billion each year, U.S. taxpayers are in effect subsidizing rising food bills at home and around the world.

For more information on the competition between cars and people for grain, see Chapter 2 in Plan B 4.0: Mobilizing to Save Civilization (New York: W.W. Norton & Company, 2009), on-line for free downloading with supporting datasets.