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terça-feira, janeiro 18, 2011

SIPNAT

Imagem da notícia publicada no jornal Água e Ambiente (não encontrei on line) com a estrutura do sistema. Administração pública, empresas privadas, investigadores e institutos públicos, é o que se vê no lado direito e em cima, a relacionar-se com o sistema. Os "manuéis e as joaquinas, enfim, gente de todas as cores, e feitios e medidas e perdoem-me as pessoas que ficaram esquecidas", não existem
Esta sigla, SIPNAT, é uma espécie de D. Sebastião da conservação.
Há anos que o ICNB anda às voltas com um Sistema de Informação do Património Natural.
De vez em quando aparecem novas notícias sobre o sistema, geralmente prometendo o paraíso amanhã.
Tentei, quando estive no ICNB, canalizar o potencial de informação existente para um sistema misto, público e privado, com uma gestão aberta , sustentável e ligada ao que de facto acontece todos os dias em matéria de biodiversidade.
Tentei de diversas maneiras.
Nunca consegui.
Espero que estas notícias que surgiram por estes dias não sejam apenas um aviso à navegação para limitar o empenho de terceiros nas iniciativas da sociedade civil, uma espécie de resposta do Estado ao êxito das iniciativas como o dia B, os bio-eventos, o biodiversity4all, a naturdata. Ou seja, o êxito dos que fartos de esperar pelo paraíso, amanhã, fizeram hoje o que lhes pareceu melhor.
Espero que estas novas notícias não sejam iguais às que sempre fui ouvindo, exactamente dos mesmos responsáveis que há anos gerem o SIPNAT, com as virtudes e defeitos que podem ser verificados por quem se dispuser a usar essa ferramenta, prometendo o paraíso para daí a seis meses, razão pela qual nunca valia a pena entregar o ouro ao bandido (leia-se entregar o imenso valor da informação detida pelo icnb, validada cientificamente, à sociedade).
Espero que iniciativas como a Naturdata e o Biodiversity4all venham um dia simplesmente a extinguir-se por falta de objecto, já que tudo estará contido no SIPNAT.
Mas até lá, até esse momento redentor, espero que estas iniciativas que se vão desenvolvendo, muitas vezes contra ventos e marés, sirvam ao menos para ir demonstrando que ou o Estado dá corda aos sapatinhos nesta matéria, ou um dia acorda extinto por haver alternativas funcionalmente equivalentes e muito, muito mais baratas para os contribuintes.
E pelo sim, pelo não, vou buscar uma cadeira para esperar sentado.
henrique pereira dos santos

sábado, janeiro 08, 2011

Pode ser útil...

... dar um salto aqui quando se quer saber qualquer coisa sobre qualquer planta.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Porto

Para a semana tenho duas coisas no Porto que faço com todo o gosto.
Uma, conversar sobre o meu livro, na sede da Campo Aberto, em duas sessões, às seis e às nove e meia da tarde (com os dias tão curtos é mais da noite), no dia 11.
Duas, ver, no dia 12, como se pode ver neste cartaz, a apresentação dos meus alunos deste ano de Projecto de Gestão da Paisagem, uma disciplina que tenho acompanhado todos os anos no mestrado de Arquitectura Paisagista, mas em que este ano tive uma maior intervenção. É só o trabalho académico de um semestre, em que questões pedagógicas se sobrepõem à procura de soluções de gestão reais para um área com interesse natural, mas ainda assim...
Nos dois casos, seja bem vindo, quem vier por bem (e os outros também).
henrique pereira dos santos

quinta-feira, dezembro 30, 2010

O movimento ambientalista e o BB

A iniciativa Business and Biodiversity foi muito mal digerida pelo movimento ambientalista em Portugal, com o argumento de que não havia mecanismos de controlo e de sancionamento dos aldrabões.
Isso não impediu algumas ONGs de serem parceiras de projectos concretos de algumas empresas, com implicações nos fluxos financeiros, mas sempre que a iniciativa aparecia as ONGs desapareciam, atrás de umas vagas declarações sobre greenwashing.
Esta atitude é normal em Portugal onde o dinheiro das empresas é sempre objecto de suspeita (ao contrário do dinheiro das empresas que faça um estágio nos cofres do Estado, que é sempre virginal).
Por várias vezes, enquanto estive ligado à iniciativa, tentei fazer com que as ONGs criassem um observatório da iniciativa, sem qualquer sucesso. Teria de ser uma iniciativa voluntária das ONGs e sem dinheiro associado, portanto era de pouco interesse. Como de costume a resposta era de que esse papel cabia ao Estado e o Estado é que tinha de fiscalizar o cumprimento dos compromissos (voluntários) das empresas.
A posição habitual: as empresas fazem, nós entramos no assunto com a nossa capacidade técnica e conhecimento, que naturalmente tem custos, e o Estado é que deve fiscalizar para podermos ter as mãos livres para criticar a fiscalização se alguma coisa correr mal.
Agora envolvimento directo, risco de falhar, hipótese de ser acusado de estar com os interesses económicos, isso não nos peçam que nós estamos aqui para ser a consciência crítica do sistema e não para resolver problemas.
Ora um comentário sobre as audiência do terra alerta feito na caixa de comentários deste post veio lembrar-me de tudo isto.
É que a SIC comprometeu-se, no BB, a produzir conteúdos sobre biodiversidade. E comprometeu-se voluntária e publicamente como testemunho do seu compromisso para com a biodiversidade, e não como área de negócio a desenvolver (as audiências parecem demonstrar que as duas coisas até se podem conjugar).
Acabar com o único programa onde a biodiversidade era tratada de forma sistemática é na verdade uma ruptura dos compromissos assumidos.
Volto a frisar, a SIC é livre de rever os seus compromissos voluntários.
Mas se houvesse o tal observatório sobre a iniciativa BB, sempre teria alguma visibilidade uma posição clara de classificação desta atitude como demonstrativa do pouco empenho da SIC na conservação da biodiversidade.
Claro que pôr as ONGs a criticar um dos seus pilares de sobrevivência, uma televisão, não seria fácil. E claro que há casos mais escandalosos de compromissos BB que são promessas assinadas em papel molhado.
Mas eu gostava tanto que o movimento ambientalista português, deixasse de ser o pãozinho sem sal em que se transformou e de vez em quando desse um ar da sua graça, que teimo em fazer estes posts que só me trazem chatices.
henrique pereira dos santos

terça-feira, dezembro 21, 2010

O terra alerta acabou (outra vez)

Imagem roubada daqui
Há alguns, poucos, programas ambientais, com conteúdos fortes de biodiversidade, na televisão portuguesa, tanto quanto sei (habitualmente não vejo televisão).
Há o Biosfera (que vai dando também nos vídeos dos comboios Alfa, sequências de vídeo que aliás têm repetições frequentes em curtíssmos espaços de tempo, numa clara demonstração de falta de respeito da CP pelos seus clientes), com um carácter mais institucional (mesmo que seja o institucional das ONGs e por aí) e havia o Terra Alerta, mais aberto ao que não é o mainstream ambiental.
Esta última série teve treze programas, se não me engano, sempre com uma estrutura relativamente simples mas eficaz: uma reportagem de fundo sobre um tema (a maior parte, de biodiversidade), uma reportagem sobre acções concretas que estão a ocorrer no país e uma reportagem sobre heróis ambientais mais ou menos anónimos (nem sempre os mais evidentes, o que se saúda). O que fica na net é um excelente material de comunicação.
Se acabou é porque a televisão o acha um programa sem interesse suficiente (isso pode não ter nenhuma relação com o seu interesse intrínseco, pode ser simplesmente a relação de custo/ benefício que não é a desejada pela direcção de programas, suponho eu).
Ora um programa não ter interesse para uma televisão quer dizer que não atrai o suficiente a publicidade de que vive o canal de televisão.
Ou seja, nos casos dos programas de biodiversidade, que, ou são muito caros de realizar ou implicam mais entrevista que imagens de vida selvagem (pelo menos as imagens espectaculares de lobos a atirar-se à jugular de um corço, ou de uma cria de veado a nascer), a biodiversidade ainda não é um factor de mercado suficientemente poderoso para fazer diferença nas vendas, seja na publicidade da televisão, seja nos produtos e serviços que poderiam querer associar-se à biodiversidade.
Sempre tive curiosidade de saber se este tipo de programas são muito ou pouco vistos na televisão.
A resposta é nem muito, nem pouco, têm audiências razoáveis.
No caso do Terra Alerta, tem audiências um pouco acima da média do canal onde é exibido (não esqueçamos que é um canal por cabo).
O que não deixa de nos colocar uma questão: o que fizemos nós em mais de trinta anos de sensibilização ambiental que não criámos sequer um público sólido (e se quisermos, um grupo suficientemente alargado de consumidores que orientem as suas escolhas também em função da percepção do benefício para a biodiversidade) para sustentar a continuidade de programas de produção própria dos canais de televisão portugueses?
Temo que caminhemos como em relação à formação de públicos culturais: em vez de criarmos milhares de pequenos grupos de teatro e de ensinarmos sofriveis executantes de instrumentos musicais, que acabam em espectadores exigentes e conhecedores, distribuímos bilhetes de borla para os espectáculos, que chegam a ter lotação esgotada com a sala meia vazia.
Por isso eu gostava tanto do programa "Florestas em movimento", criado por Branco Vasco, assente na ideia base de que mudar a visão urbana que hoje existe sobre a floresta implica o contacto directo das pessoas com a floresta.
Assim diria eu que deveria ser toda a educação ambiental orientada para a biodiversidade: uma imersão em espaços naturais, que fosse mais que um passeio de autocarro.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Rutger Barendse et alii

Há algum tempo que não ia ver quem eram os observadores com mais espécies observadas no biodiversity4all.
Hoje fiquei surpreendido ao verificar que embora Francisco Barros continue a ser o observador com mais espécies observadas, havia, muito próximo, um segundo observador de que nunca me tinha apercebido: Rutger Barendse.
Curioso fui verificar que observações eram essas.
São cerca de três dias no Algarve, a meio de Março de 1999, e cerca de quinze dias na Madeira na segunda quinzena de Abril e princípio de Maio, onde são feitas a grande maioria das quase mil observações registadas por Rutger Barendse e com certeza nas últimas semanas vertidas para a base de dados holandesa a que está associado o Biodiversity4all.
Curiosamente dois factos completamente independentes chamaram-me a atenção para a produção de conhecimento em biodiversidade feito por estrangeiros em Portugal e que com frequência passam mais despercebidos do que eventualmente deveriam (vou tendo idade suficiente, e contactos transversais suficientes, para ir conhecendo o meio da conservação, embora não profundamente, e alguns destes nomes parecerem-me pouco frequentes nas discussões sobre fontes de informação de biodiversidade em Portugal).
O primeiro facto, no sábado dia 11, nas jornadas da ATN, em Figueira de Castelo Rodrigo. Uma das apresentações, sobre flora, com dezenas de observações de Horst Engels, da associação trilhos d'esplendor (curiosa associação cujos membros da direcção, da assembleia geral e do conselho fiscal são os mesmos, pelo que Horst Engels é simultaneamente o presidente da direcção, da assembleia geral e do conselho fiscal) cujo trabalho eu desconhecia por completo e sobre o qual não tenho a menor informação de solidez ou não. Mas o facto é que existe trabalho, não apenas de dois meses na Faia Brava, o que linkei acima, mas de muito mais tempo na zona de Quiaios (as observações não estão no biodiversity4all).
O segundo facto já este fim de semana: o acesso a mais um artigo de George Estabrook, para cujo trabalho Carlos Aguiar me chamou a atenção, e como os artigos que eu já conhecia, muito, muito interessante. George Estabrook está a preparar a publicação dos seus oito trabalhos sobre agricultura tradicional e vida rural portuguesa para a Arizona University Press e espero que o livro não demore muito a ser publicado. Curiosamente nos agradecimentos deste artigo, Estabrook agradece o apoio de Horst Engles (a grafia não é a mesma, mas suponho que seja a mesma pessoa).
Claro que tal como os portugueses haverá nestas observações, mais ou menos em férias, e nestes trabalhos, uns mais, outros menos estruturadamente científicos, coisas boas e coisas más, gente que presta e gente que não presta e por aí fora.
Mas o que eu queria era dizer que de repente, de dois pequenos períodos de férias de um holandês curioso e com cultura de registo de observações, saltam quase mil observações, a grande maioria para a Madeira. E que sem as plataformas sociais que hoje conhecemos seriam provalvemente observações que nunca veriam a luz do dia em Portugal.
Nada de relevante está nessas observações?
Talvez, mas quantas mais, de gente que por aí passa, em férias ou não, poderiam estar a ser integradas, nenhuma delas particularmente relevante, mas que no conjunto nos permitiriam conhecer melhor a nossa biodiversidade?
Espero que aos poucos, a resistência de académicos e especialistas a estes modelos caóticos de registo da informação, organizados em bases não caóticas, vá esmorecendo e seja dada a devida importância, nem mais (são sempre, e só, dados ad hoc), nem menos (muitos dados ad hoc formam padrões estatísticos provavelmente fiáveis), a este tipo de procedimentos novos (em Portugal) de produzir ciência em domínios para os quais a quantidade de informação é uma condição (não suficiente, é certo) da sua qualidade.
henrique pereira dos santos

sábado, dezembro 18, 2010

25 000 observações

O biodiversity4all atingiu hoje as 25 000 observações.
Quando decidi apoiar o projecto fiz alguns posts, como este, por exemplo, em que dizia que ficaria satisfeito se se conseguissem 10 000 observações em cinco anos. No fundo falava de cinco observações diárias.
No último mês a média de observações diárias passou as 40 (em grande parte devido à utilização da plataforma como caderno de campo do Francisco Barros, mas está longe de ter sido apenas isso), em Maio, o tal que incluía do dia B, a média foi de mais de 70 observações diárias, claramente inflacionadas pelo dia 22, com 771 observações num dia só e algum do crescimento do número de observações resultou da integração de listas e bases de dados já existentes (onde reside um potencial de crescimento brutal, assim os investigadores e naturalistas abandonem o "amor táctil, que votamos aos maços de cigarro" para usar uma expressão com que Caetano Veloso caracterizou o amor aos livros e que neste caso se aplica às suas listas de observações).
A integração com outros projectos vai crescendo, por exemplo, estou muito esperançado na articulação com o projecto Naturdata, uma enciclopédia de biodiversidade muito sólida.
Mais uma vez, parece que os portugueses (e alguns estrangeiros que observam e registam biodiversidade em Portugal) são mobilizáveis.
O que me incomoda é ver alguns dos que mais se queixam da incapacidade dos portugueses se mobilizarem em matérias ambientais, e de conservação em particular, não fazerem o esforço mínimo de ceder uma folha excel onde "jaz morto, e arrefece" o seu imenso conhecimento traduzido em observações concretas.
Partilhar dados é apenas uma forma de enriquecer acedendo a mais conhecimento, não é empobrecer cedendo conhecimento.
Com o ritmo deste ano, os 10 000 dados em cinco anos que já me faziam contente em Março, poderiam ser para cima de 125 000 que seria fantástico.
Desvalorizar essa possibilidade num país tão pobre em conhecimento da sua biodiversidade é uma tolice que não entendo.
henrique pereira dos santos

terça-feira, dezembro 14, 2010

O fetiche da reestruturação do ICNB

Esta imagem está desactualizada. Porque lhe faltam algumas áreas protegidas, como o monumento do cabo Mondego, ou várias áreas protegidas locais (esquecidas na resposta que comento), como porque algumas destas áreas estão legalmente extintas, pese embora o facto de provavelmente algumas ressuscitarem com certeza (ilegalmente) daqui a algum tempo
Ontem com o Público vinha uma revista chamada Recicla, da sociedade Ponto Verde (será que faz sentido a sociedade Ponto Verde ter uma revista institucional a distribuir com o Público? É isso uma adequado uso da taxa que todos pagamos para a reciclagem e o tratamento de resíduos?).
Nela há uma entrevista da Luísa Schmidt que se recomenda.
E há uma resposta notável a uma pergunta banal (o facto de ser banal não invalida a razoabilidade da pergunta na entrevista): "Que balanço faz do Ano Internacional da Biodiversidade em Portugal?"
A primeira frase é o que seria expectável de Luísa Scmidt "O balanço é negativo". A fundamentação está ao nível do que é hábito nestas opiniões muito assertivas de Luísa Schmidt: "As efemérides são sempre importantes, blá blá, fizeram-se alguns estudos, blá ,blá.". E depois começa o que realmente me interessa: "No entanto, e na prática, o que aconteceu às áreas protegidas é deprimente (o uso de adjectivos é especialmente interessante, sendo parte integrante da atracção pelo que escreve Luísa Schmidt. A par dos trocadilhos fazem parte do engraçadismo que nas suas opiniões substitui o trabalho e análise ponderada, tornando-os uns textos muito agradáveis de ler e bastante irrelevantes). A última reforma foi absolutamente nefasta. A verdade é que estão mais desprotegidas do que há dois anos: têm menos técnicos no terreno, menos capacidade económica, menos visibilidade e estão mais degradadas".
Deixem-me ser bruto com Luísa Schmidt como ela é com quem lhe apetece: isto é um chorrilho de disparates e uma resposta completamente idiota à pergunta que é feita.
Ao contrário de Luísa Schmidt, que diz de terceiros coisas semelhantes ao que eu agora disse de uma resposta dada por si, mas com mais elegância e piada, é certo, o que disfarça com frequência a violência do que diz, vou tentar fundamentar esta minha opinião em questões objectivas e verificáveis.
Em primeiro lugar, reduzir a prática da conservação da biodiversidade às áreas protegidas não faz o menor sentido. Em segundo lugar, comparar a gestão das áreas protegidas em dois momentos separados por dois anos, atribuindo tudo o que se passa a um facto ocorrido há quatro anos não tem ponta por onde se lhe pegue. Mas estas duas questões, não sendo marginais, têm ainda em si um grau de incerteza que permite interpretações criativas como as de Luísa Schmidt.
O resto é que é de cabo de esquadra.
Vejamos as razões objectivas invocadas por Luísa Schmidt para tirar a conclusão de que a última reforma do ICNB "foi absolutamente nefasta".
"têm menos técnicos no terreno"
O que tem este aspecto com a reforma levada a cabo? Nada, rigorosamente nada. Aliás, se tivesse alguma coisa, seria exactamente no sentido de que haveria mais técnicos no terreno porque alguns anteriores dirigentes passaram a técnicos, melhorando substancialmente o rácio de dirigentes por técnico. Ora isso pode implicar uma gestão pior por sobrecarga dos dirigentes, mas em caso algum tem como consequência a existência de menos técnicos no terreno. Na verdade até podem existir menos técnicos no terreno, mas isso deve-se à política de José Sócrates para a funçao pública em geral (eu sou um exemplo disso, mas há mais, muitos mais técnicos que se cansaram de aturar as tolices nesta matéria e ou se reformaram, ou usaram outros mecanismos de saída da função pública,sem que fossem substituídos). No máximo, e mesmo assim marginalmente, deve-se também à sensação de irrelevância da política de conservação neste governo, mas isso não decorre da reforma do ICNB mas das opções políticas deste Governo.
"menos capacidade económica"
O que tem isto com a reforma do ICNB? Zero. A capacidade económica das áreas protegidas resulta das decisões que todos os anos são tomadas no orçamento do Estado (que como se sabe são influenciadas pela conjuntura económica). Portanto atribuir isto à reforma do ICNB é simplesmente uma tontice.
"menos visibilidade"
Não vou discutir este argumento. Não tenho, nem eu, nem Luísa Schmidt, a menor informação objectiva sobre o assunto, quer de alterações nos últimos dois anos, ou quatro, ou seis ou sessenta. É o único destes argumentos cuja lógica de ligação à reforma do ICNB se pode admitir, argumentando-se que um director em cada área pode ter maior capacidade de comunicação. Claro que avaliar as autonomias que em Espanha têm, com bons resultados, o modelo de gestão de áeas protegidas adoptado para o ICNB está fora de causa, que ainda estragaria o argumento.
"estão mais degradadas"
Estão mais degradadas sob que ponto de vista? E avaliadas com base em que critérios? Claro que ninguém sabe responder. Mas se avaliadas do ponto de vista da recuperação dos sistemas naturais, o mais provável é que as áreas protegidas, não por causa das políticas de conservação, mas porque essas são as tendências sócio-económicas, estejam melhores. Essa é pelo menos a tendência geral do território. Avaliadas sob critérios de gestão da organização, o mais natural é que estejam como estão há muitos e muitos anos: mal, muito mal.
Sem registo, sem monitorização, sem formalização de instrumentos formais de gestão (planeamento e reporte), sem vigilância, sem visitação de qualidade e por aí fora.
Pretender que isso se deve à reforma do ICNB e não que a reforma decorre do reconhecimento dessa situação "é ideia que não cabe cá nas minhas".
henrique pereira dos santos

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Há heróis assim



Quase aos 16 minutos deste video, começa a reportagem que me faz trazê-lo aqui.
Cinco minutos sobre António Frazão (em companhia de Francisco Barrros, o campeão do número de espécies registadas aqui).
Trabalhei com eles (e com vários outros, na melhor equipa de vigilantes do ICNB que conheci) e António Frazão foi em grande parte responsável por desenhar a estratégia de gestão de pedreiras que executei, com o seu apoio e de outros vigilantes.
Tiro o chapéu à Carla Castelo e, eu que quase não vejo televisão, recomendo vivamente o conjunto impressionante de reportagens que tem vindo a criar no seu programa semanal, incluindo os heróis da vida normal que retrata no fim de cada programa.
henrique pereira dos santos

sábado, novembro 20, 2010

Da mentira como técnica de condicionamento de um Estado fraco

Imagem retirada daqui
A discussão gerada pelos meus posts desmontando a suposta oposição das populações residentes às áreas protegidas obedece aos padrões do costume.
Um dos padrões mais consistentes é o do recurso sistemático a mentiras repetidas vezes sem conta.
Para não cansar muito os leitores vou apenas referir uma: a suposta proibição de produção de energia eléctrica de origem fotovoltaica e de biomassa.
Essa mentira vem muitas vezes embrulhada na pergunta "mas qual é o problema de instalar um painelzinho no telhado da minha casa".
Vejamos em concreto o que diz a proposta de plano em discussão.
"Artigo 7.º Actividades interditas ... "d) A instalação de novas infra-estruturas ou equipamentos de produção de energia eléctrica utilizando recursos hídricos ou eólicos, excepto em sistema de microgeração;"
Onde está a proibição da fotovoltaica? Onde está a proibição da biomassa? Onde está a demonstração da afirmação, falsa, de que apenas pode ser instalada micro-geração?
Em lado nenhum.
O que está proibido é a eólica e as mini-hídricas, e mesmo essas com excepção da microgeração ("l) Microgeração – actividade de produção de energia eléctrica em baixa tensão destinada predominantemente a consumo próprio, através de equipamentos autónomos de produção como motores, microturbinas ou pilhas de combustível, que utilizem geradores síncronos ou assíncronos, painéis solares fotovoltaicos e outros equipamentos autónomos de produção de energia eléctrica, cuja potência a entregar à rede pública não exceda os 150 kW;").
Não se pense que se trata de uma mentireta de quem leu mal.
É uma das dezenas de mentiras sobre este plano que gente bem intencionada repete por não ir consultar os documentos, como sejam as proibições ou taxações de apanha de lenha, a proibição de pastoreio e dezenas de outras que têm sido usadas.
A mentira é uma estratégia usada de forma consciente por esta gente cujo objectivo central é condicionar os agentes do Estado nas suas obrigações de controlo da legalidade.
É gente que tem interesse pessoal nas eólicas, nas mini-hídricas e na gestão destemperada dos baldios (ler os posts de Carlos Aguiar sobre a nebulosa das gestão dos baldios aqui, aqui e aqui). Esta gente não defende os interesses dos povos das áreas protegidas, esta gente defende o seu rendimento privado retirado de bens colectivos.
E a mentira e outros argumentos ad terrorem (ou seja, argumentos de apelo ao medo) visam apenas condicionar a actuação do Estado e dos seus agentes.
Devo dizer, com imenso êxito.
Esta gente tem conseguido manter reféns da sua estratégia os agentes do Estado com maior responsabilidade, de que é exemplo o Director do Departamento do Norte que acaba por falar em regras sufocantes para as populações, colocando-se demagogicamente no lado dos que usam a crítica injusta (porque há muita crítica justa a fazer à gestão das áreas protegidas) para minar a autoridade do Estado na reposição e controlo da legalidade.
Esta gente tem conseguido arrebanhar para o campo de discussão que definiu um monte de outra gente bem intencionada, um monte de jornalistas e calar as ONGAs que têm medo de dizer, com toda a clareza e legitimidade, que o rei vai nu, que esta gente não representa ninguém e que os seus argumentos são falsos, na grande maioria das vezes.
Como quiz deixar claro agora com este post.
Se alguém tiver dúvidas posso fazer uma série de posts a desmontar um por um os argumentos usados por esta gente, que não está preocupado com a gente do Gerês, mas sim com o Gerês para a gente.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, novembro 12, 2010

"O recuo da floresta autóctone é um facto"

Do livro sobre fogos florestais de Santos Pereira, José Miguel Cardoso Pereira, Francisco Rego e outros
Um dia destes no comboio vi umas imagens deste programa. Resolvi ouvir em casa.
Achei extraordinária a quantidade de disparates por minuto, sempre com óptimas intenções.
É fantástico como se negam as evidências (diz alguém do Soajo, "daqui nem parece, mas indo lá é que se vê que não há um erva para os animais comerem", como se a câmara não estivesse a filmar ervas e ervas e ervas).
É extraordinário como Miguel Dantas da Gama diz o mesmo há mais de vinte anos, com a realidade a desmenti-lo ano após ano, como quando diz que naquele sítio estava regeneração natural, azevinhos, carvalhos, esquecendo-se de referir que há bem poucos anos também por ali andou o fogo, desmentindo assim as suas teorias sobre o efeito do fogo, sem que isso o afecte ou afecte a credibilidade do que diz sobre fogos.
Nem o facto de andar no monte horas atrás de horas o impede de dizer a frase que uso para título do post, que é factualmente falsa.
José Maria Saraiva acha que é a centralização do poder em Lisboa que provoca o abandono do mundo rural.
Felizmente Pedro Vieira e Rui Rodrigues põem algum senso nos discursos catastrofistas completamente errados e sem a menor demonstração empírica.
Espanta-me que uma pessoa com tantas horas de campo como Miguel Dantas da Gama não veja a realidade, mas isso não me incomoda, sei que a paixão cega.
Mas os jornalistas? Mas os responsáveis pelo programa?



henrique pereira dos santos

sexta-feira, outubro 22, 2010

Biodiversity4all (VIII)

Quem acompanha este blog sabe que tenho um carinho grande por este projecto que vou apoiando (menos talvez do que gostaria, ou pelo menos com menos resultados do que gostaria).
No segundo post que fiz sobre o site dizia-me satisfeito com a possibilidade de se acumularem dez mil registos em cinco anos.
A base de dados foi disponibilizada ao público em Março deste ano, pelo que passaram pouco mais de seis meses e o número de observações registadas está quase nas vinte mil.
O projecto é em parte vítima do seu próprio sucesso, porque inteiramente dependente do trabalho de três ou quatro pessoas em regime totalmente voluntário, não estava preparado (admito eu, não tenho certezas) para uma tão grande adesão. Mas ainda assim funciona magnificamente.
Claro que o registo de observações tem sido irregular, mas são raros os dias sem observações e alguns dias têm mesmo muitas observações.
Aparentemente reduziu-se o leque de observadores regulares, mas os observadores fiéis vão fazendo um jogo inocente que se traduz por competirem pela posição de observador mais activo em cada grupo.
Apenas nas aves se mantêm no topo os observadores holandeses que dominavam todos os grupos inicialmente. De resto, quase sempre (há outra excepção nas plantas, mas não tão notória como nas aves) os observadores portugueses dominam e, bastante interessante, alguns em posições intermédias são instituições, como o CISE da serra da Estrela e uma ou outra escola.
Recentemente o observador com mais espécies observadas (não é o mesmo que maior número de observações) de todos os grupos mudou para Francisco Barros. Durante estes meses quase todos foi Paulo Eduardo Cardoso até ontem ou anteontem. Fernando Romão, da Faia Brava (um dos locais com mais observadores e observações e com observações mais relevantes do ponto de vista de conservação) também parece entrar na competição, de forma mais discreta.
Não conheço o Paulo Eduardo, mas conheço os outros dois e posso assegurar que são dos melhores naturalistas que se encontram em Portugal. Suponho que encontraram no site uma forma de organizar os seus cadernos de campo de forma fácil e útil, para eles e para todos.
É um site engraçado, que qualquer pessoa pode usar, como observador ou utilisador de informação e que permite alguma exploração lúdica e de saudável competição sem prémio.
Mas é um site que está a fazer um trabalho muito sério de democratização da informação sobre biodiversidade.
Não posso deixar de notar a relativa ausência de grande parte dos académicos que trabalham em biodiversidade. Alguns será por andarem pouco no campo, outros simplesmente porque não calha, alguns outros porque não dão muita relevância à necessidade de democratizar a informação sobre biodiversidade.
O que hoje queria era uma coisa simples: agradecer aos observadores que têm a generosidade de partilhar o que vêem com toda a gente.
Adenda: tanto quanto me parece, não há uma única espécie de cogumelo registado. É estranho, mas também é a boa altura para alterar isto.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, outubro 18, 2010

Boas notícias (viva a Assírio e Alvim)


Sim, eu sei, deveria dar os parabéns aos autores e dou-os com certeza, mas sem editores a pôr dinheiro nas publicações de biodiversidade não vamos longe.
Por isso, parabéns aos autores, e viva a Assírio.
henrique pereira dos santos

"Aves de Portugal—Ornitologia do território continental pretende constituir-se como uma referência incontornável na ornitologia portuguesa. Este trabalho, que é simultaneamente o mais abrangente e o mais exaustivo alguma vez feito sobre a avifauna de Portugal Continental, é o resultado de décadas de experiência de campo dos autores e de uma pesquisa dirigida demais de 10 anos. Essa pesquisa permitiu recolher informação sobre a ocorrência de mais de 450 espécies de aves. A situação passada e presente de cada uma delas é descrita em pormenor ao longo das 943 páginas que compõem a obra, que é suportada por mais de 1500 referências bibliográficas.O livro contém ainda uma descrição dos principais habitats do país, bem como uma resenha histórica da ornitologia nacional que apresenta grande quantidade de dados inéditos e que constitui a primeira abordagem global a este assunto alguma vez escrita. Disponibiliza também a primeira compilação exaustiva de aves anilhadas recapturadas em Portugal, com um total de mais de 9000 registos.Para ilustrar a obra foram elaboradas 50 ilustrações, na sua maioria inéditas, de grande qualidade estética. Foram incluídas também 154 imagens da autoria de diversos fotógrafos portugueses, tendo ainda sido elaborados vários gráficos que permitem sintetizar informação relevante sobre algumas espécies."

sábado, outubro 16, 2010

Fogos e biodiversidade

Dois eventos, mais ou menos filhos da iniciativa Business and Biodiversity e do ano internacional da biodiversidade, tocam o assunto dos fogos e biodiversidade.
Já na quarta feira 27 de Outubro que o assunto é trazido pelas conferências do BES, onde uma especialista em ecologia do fogo, do Kruger Park, fará uma conferência comentada por Francisco Rego.
Depois em 5 de Novembro a Portucel organiza o seu seminário internacional 2010 com o tema "Biodiversidade, um valor com futuro", em que falarei de fogos e biodiversidade.
henrique pereira dos santos

terça-feira, outubro 12, 2010

Terra alerta III


Mais um programa Terra Alerta (eu apareço por lá fugazmente, no contexto discussão sobre a proposta delirante da LPN em classificar o Sudoeste Alentejano como parque nacional, com argumentos absurdos como sejam os que dizem respeito à maior visibilidade que o estatuto traria à área protegida, argumentos cuja seriedade política e de gestão está ao nível do "vote Tiririca, pior que está não fica").
Não sei que audiências tem o programa, que tem uma estrutura engraçada, tanto quanto percebo, com uma reportagem sobre um problema de actualidade, outra sobre intervenções directas em temas que muitas vezes ligam economia e biodiversidade ou ciência e biodiversidade, e uma terceira sobre uma personalidade ambiental.
Gostaria de saber das audiências porque isso nos ajudaria a perceber se o problema da escassez de informação televisiva em matérias ambientais (e especificamente de biodiversidade) está nos decisores de conteúdos das televisões ou se no público que não quer saber destes assuntos.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, outubro 01, 2010

Uma discussão que deve ser feita


Via Blasfémias cheguei a este video e à polémica associada.

Não gosto do filme como de maneira geral não gosto da publicidade de choque.

A minha interpretação é a de que o filme é bastante irónico em relação ao movimento ambientalista mais radical, mas seguramente de mau gosto.

Vale a pena discutir os caminhos da comunicação no movimento ambientalista.

Adenda: verifico que o video foi retirado do site da campanha. Aparentemente o bom senso impôs-se.

henrique pereira dos santos

domingo, setembro 12, 2010

Terra alerta II

É aqui que se pode ver o programa completo, com a reportagem de que falei em posts anteriores, sobre a Faia Brava, mas também com duas excelentes reportagens sobre um projecto de conservação da QUERCUS e outra sobre Luis Quinta.
A SIC (e a Carla Castelo) merecem que os conservacionistas lhe tirem o chapéu.

henrique pereira dos santos

terça-feira, setembro 07, 2010

Terra alerta

Terra alerta era o nome de um programa de televisão feito pela jornalista Carla Castelo.
Primeiro um programa mais virado para a sustentabilidade clássica (energia, resíduos, água e por aí fora) mas com a adesão da SIC à iniciativa Business and Biodiversity a biodiversidade ganhou peso.
Depois o programa, tanto quanto sei um dos poucos das televisões generalistas em Portugal que falam de biodiversidade sem corresponder a agendas militantes, desapareceu.
Talvez hoje à noite, no jornal da noite da sic notícias (espero não me enganar no nome porque não vejo televisão habitualmente e para mim todos jornais em televisão são telejornais, como penso que acontece com a maioria das pessoas), reapareça um reportagem sobre biodiversidade, neste caso penso que sobre a Reserva da Faia Brava.
Mas se não aparecer, podem vê-la na estreia da nova série Terra Alerta, que será no Sábado às 16 e 30 na SIC Notícias, tanto quanto sei.
Conheci a Carla Castelo quando iniciei uma discussão por email sobre a gestão do ICNB respondendo-lhe (sem a conhecer de lado nenhum) a um artigo de opinião que não me pareceu justo.
Desde aí tenho-me cruzado várias vezes com esta jornalista (nomeadamente em duas reportagens para esta nova série de programas, uma, por puro acaso, porque estava em Figueira de Castelo Rodrigo ao mesmo tempo que a equipa de reportagem estava na Faia Brava e noutra porque me pediram opinião sobre um assunto concreto) e sem ter de concordar com tudo o que publica reconheço-a entre os poucos jornalistas de ambiente portugueses que procuram de facto informar-se, fazendo reportagem digna desse nome.
Fico satisfeito de saber que este programa vai para o ar outra vez, mesmo que a minha infidelidade à televisão provavelmente não me faça vê-lo muitas vezes (na série anterior havia o bom hábito de ter videos na internet com várias reportagens, espero que se mantenha essa possibilidade e com certeza farei aqui alguns links).
henrique pereira dos santos

sexta-feira, agosto 20, 2010

Boa propaganda anti-touradas, de 1938



Na discussão da lista ambio sobre touradas, ao ver a agressividade e falta de nível da argumentação anti-touradas lembrei-me de resgatar este filme e fazer um pedido: não podem voltar a este nível de argumentação? Era bem melhor para todos.
henrique pereira dos santos

terça-feira, abril 27, 2010

Serviço público

Da lista de discussão surge o pedido de colaboração num projecto de investigação.
"Está a decorrer um projecto de investigação na Universidade Nova de Lisboa que visa investigar a comunicação de mensagens ambientais via video - videoart. Se quiser participar siga o link http://www.dcea.fct.unl.pt/cense/projects/standby/ . veja o video (2 min) e depois responda ao inquérito (2 min). Obrigada"
Sofia Vaz
O video é este: