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quinta-feira, julho 08, 2010

Sobre consensos e credibilidade dos especialistas climáticos

Vale a pena ler o artigo que saiu hoje na prestigiada revista PNAS da Academia de Ciências dos EUA:

Although preliminary estimates from published literature and expert surveys suggest striking agreement among climate scientists on the tenets of anthropogenic climate change (ACC), the American public expresses substantial doubt about both the anthropogenic cause and the level of scientific agreement underpinning ACC. A broad analysis of the climate scientist community itself, the distribution of credibility of dissenting researchers relative to agreeing researchers, and the level of agreement among top climate experts has not been conducted and would inform future ACC discussions. Here, we use an extensive dataset of 1,372 climate researchers and their publication and citation data to show that (i) 97–98% of the climate researchers most actively publishing in the field surveyed here support the tenets of ACC outlined by the Intergovernmental Panel on Climate Change, and (ii) the relative climate expertise and scientific prominence of the researchers unconvinced of ACC are substantially below that of the convinced researchers.


Ver artigo completo aqui

quarta-feira, junho 09, 2010

Desmontando a argumentação do Lord Monckton

O tempo tem escasseado pelo que não tenho escrito sobre as sequelas do "climategate" mas a verdade é que além da falta de tempo perdi alguma da motivação para escrever sobre o tema. Apesar de tudo folgo a paciência dos que resolvem, de forma pedagógica e educada, desmontar os argumentos falaciosos de alguns profissionais do negacionismo climático. É um trabalho útil na era da desinformação.

Vem isto a propósito do trabalho de John Abraham, professor na Universidade de Minnesota, que, chocado com os disparates de do Visconde Monckton (uma personagem conhecida dos meios negacionistas), resolveu desmontar cada os argumentos repetidos uma e outra vez nas várias palestras de Monckton (o homem vive para isto). O trabalho de desmontagem pode ser visualizado e ouvido aqui e para quem não tiver tempo pode ler um resumo publicado no Guardian assim como a coluna de opinião George Monbiot sobre o mesmo tema.

quarta-feira, abril 21, 2010

E porque não um cluster de cientistas portugueses produzirem um contra-manifesto?

Rui Curado Silva, investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra, identificou um documento difundido por mais de 400 investigadores do clima franceses denunciando a falta de ética científica dos niilistas do clima. Diz ainda que a reacção dos climatólogos franceses vem ao encontro do apelo lançado pelo editorial de Março da revista Nature em que se alerta a comunidade científica de que a estratégia de não resposta aos niilistas para não dar visibilidade a protagonismos individuais pseudo-científicos ter tido como resultado a ocupação do espaço mediático por estes indivíduos [fonte]

Foto: Central de Biomassa de Mortágua

1. para evitar que uma vez mais senhores como Henrique Neto, que na TV vem defender a política energética de Salazar (!!) e o primado das barragens - e Carlos Pimenta desmentiu-o e bem informando que os preços das energias por via hídrica são mais baixos porque não contabilizam o carbono e quanto às tecnologias, Portugal tem neste momento vantagens tecnológicas;

2. para aliviar e não atribuir excessivas responsabilidades às associações ambientalistas;

3. para retirar espaço de mediatização de saudosistas do fascismo, niilistas climáticos nacionais e dos defensores de mais barragens e nuclear;

Pergunto porque não um grupo de 100 ou mais cientistas do clima, energias, da mobilidade e economistas pós-carbono nacionais produzam um manifesto? Uma boa base de partida é a postagem do Henrique Santos ou eventualmente outra que possa surgir.

segunda-feira, abril 19, 2010

O Zé Pagante

Nos comentários deste blog há com frequência argumentações tipo benfica x sporting que deixam muito pouca margem à racionalidade.
O Zé Pagante, pessoa cuja integridade física e moral corre grave perigo por ter opiniões sobre política energética e que por isso tem de recorrer ao anonimato para se proteger, faz no seu comentário a este post uma boa demonstração do parágrafo acima.
Mas exactamente porque corresponde a um modelo mental muito difundido vale a pena procurar distinguir o que caracteriza este tipo de argumentação, evitando confundi-la com a expressão racional de opiniões divergentes e explicando por que razão é, pelo menos em parte, lixo argumentativo.
Zé Pagante responde ponto por ponto ao post e vou também manter essa estrutura que facilita (embora obrigue as pessoas interessadas a ir ver o post original para compreender os comentários, tem a virtude de reduzir muito a dimensão deste post).
1) À afirmação de reduzir a discussão da política energética à produção de electricidade é absurdo, face ao facto da electricidade representar uma parcela relativamente pequena no consumo energético e haver espaço de manobra para ganhos de eficiência, Zé Pagante responde que sem números o argumento vale zero. É uma típica técnica de desvalorização do argumento contrário que evita a sua discussão. Se Zé Pagante acha o argumento errado, pode dar uma volta na net e ver os números facilmente. Não o faz. Seja por preguiça, seja por malandrice evita uma discussão difícil com o argumento de que como não fiz uma demonstração da lei da gravitação universal não posso dizer que as maçãs caem. O facto é que caem, mesmo antes de Newton ter existido e portanto se quer demonstrar o contrário que trabalhe para isso em vez de desvalorizar um argumento de conhecimento comum (Einstein fez isso para explicar que a menor distância entre dois pontos poderia não ser uma recta, ao contrário do que é a nossa ideia de senso comum).
2) Segunda técnica, divagar. Apesar de serem vários os posts a defender o preço real quer da água quer da electricidade o Zé Pagante acha que se falar agora de água, quando se discute a electricidade, fragiliza o ponto de vista contrário. Não o elimina, apenas o fragiliza face a quem vai acompanhando a discussão sem grande atenção aos pormenores. O que se procura neste tipo de argumentações não é aproximarmo-nos o mais possível da verdade mas apenas dominar o outro.
3) Terceira técnica, fingir que não se percebeu o argumento e responder com um ataque sem qualquer relação com o argumento. Ao argumento de que é mentira que o défice tarifário seja inteiramente devido à produção de renováveis (argumento absolutamente incontestável) responde-se com fantasias sobre o futuro, totalmente impossiveis de verificar neste momento.
4) A mesma técnica anterior, embrulhada em paternalismo simpático. Ao argumento de que o manifesto dos nuclearistas é frágil tecnicamente, responde-se que é preciso não ser fundamentalista e há alternativas. A quê, se não era esse o argumento?
5) Incompreensível comentário face ao argumento de falta de honestidade por parte dos subscritores do manifesto nuclearista. Irrespondível face ao facto de não haver nada no comentário que tenha qualquer semelhança com o argumento em discussão.
6) Irrelevante
7) Concordando com o argumento (nesse caso uma crítica à APREN), usa-se agora a técnica da mistificação, puxando pelo apoio de que um terceiro que supostamente faz aquilo que deveria ser feito. O terceiro pega em situações excepcionais e vende-as como vulgares (caso da entrega de elctricidade a preço zero a Espanha) e pior, muito pior, para demonstrar que as renováveis não diminuem a importação compara valores de mercvado em vez de quantidades físicas, sabendo perfeitamente que está a comparar anos com preços substancialmente diferentes. Mas o Zé Pagante pelos vistos engole contas favoráveis aos seus argumentos com muito mais condescendência que as contas que os contrariam. O double standard no seu esplendor, um dos traços mais evidentes do lixo argumentativo.
O remate final é o do costume: uma rasteirita argumentativa sem nível. No caso, o não caso da falta de acesso de Steve McIntyre aos dados brutos do Phill Jones.
É que existem pelo menos três fontes de dados primários e em qualquer delas mais que 80% dos dados são públicos e mesmo assim o problema da eventual dificuldade de acesso aos 20% restantes de uma das fontes de dados é elevado a uma demonstração de que a razão está com o Sr. McIntyre.
Sobre a matéria (reconstrução paleo climática) o Sr. McIntyre publicou, que eu saiba, um único estudo. O que fez foi pegar nos dados de Phill Jones, fazer uma espécie de auditoria estatística, deitar fora os dados que na sua perspectiva não eram sólidos do ponto de vista estatístico (cerca de 80% dos dados foram desprezados) e fazer ele próprio uma reconstrução com os dados bons. O resultado é confrangedor com o Sr. McIntyre a garantir que estava um frio de rachar no mais que documentado período quente medieval e coisas do género.
O Sr. McIntyre, mas sobretudo a corte de negacionistas que o seguem, parecem não saber que a estatística não estabelece relações de causa e efeito, nem mede realidades, apenas detecta padrões nos dados obtidos pela ciência primária.
Tratar o estudo de realidades para as quais só existem dados inferidos, indirectos, fragmentários, descontínuos e de fiabilidade duvidosa como se houvesse amostras estatísticas consistentes e sólidas é de uma estupidez de tal maneira grande que evidentemente McIntyre não pode incluir-se nos que o fazem estupidamente. Seria preciso ser verdadeiramente estúpido, o que não parece ser o caso.
Infelizmente a alternativa disponível é apenas a de o considerar um escroque.
Como os relatórios que vão saindo (falta o da terceira investigação independente) vêm demonstrar.
Os imensos blogues que durante dias e dias linkaram tudo o que chamasse nomes a Phill Jones, mesmo sem a menor credibilidade, têm-se mantido, quase sem excepção, completamente fechados aos links para estes relatórios.
Como é impossível não saberem que existem, a conclusão possível é também só uma: são escroques também, que se apoiam mutuamente.
Mesmo que se arvorem em defensores dos supostamente pagantes.
henrique pereira dos santos

domingo, abril 18, 2010

Afinal os vigaristas são os outros

Porque corremos o risco de deixar esquecer a forma como os vigaristas trataram as pessoas de bem, aqui fica o link.

Adenda,
Não quis usar fontes secundárias, mas como o primeiro link não funciona, aqui fica o link para uma fonte secundária que permite o acesso à fonte primária de informação.
De qualquer maneira penso que já funcionam os dois links e obrigado a quem foi colaborando (começando pelo José M. Sousa, que deu a primeira indicação sobre o relatório).
henrique pereira dos santos

quinta-feira, abril 01, 2010

Negacionismo versus cepticismo

"Denialism is motivated by conviction rather than evidence. It has been applied to a wide range of issues, including evolution and the link between HIV and AIDS. Deniers use strategies that invoke conspiracies, quote fake experts, denigrate genuine experts, deploy evidence selectively and create impossible expectations of what research can deliver. They rely on misrepresentation and flawed logic (P. Diethelm and M. McKee Eur. J. Public Health 19, 2–4; 2009).

By contrast, scepticism starts with an open mind, weighs evidence objectively and demands convincing evidence before accepting any claim. It contributes to the debate and forms the intellectual cornerstone of scientific enquiry."

in Kemp, Milne & Reay (2010) Sceptics and deniers of climate change not to be confused. Nature 464, 673.

quarta-feira, março 31, 2010

Novos desafios

Vieram esta semana a público os relatórios sobre a investigação efectuada pelo parlamento Britânico relativos ao caso dos emails na Climate Research Unit da University of East Anglia.

Apenas três notas breves. Primeiro, a reputação científica de Phil Jones não foi afectada por este caso tendo, embora com algumas dúvidas, sido defendida na comissão de inquérito. A Universidade (e a Unidade de Investigação sobre o Clima) foi fortemente criticada nas suas práticas e relacionamentos organizacionais (“não vale a pena enterrar a cabeça na areia…”).

Segundo, o impacto deste caso, obviamente explorado até à exaustão pelos detractores da posição que as alterações climáticas existem e são maioritariamente resultado da acção humana, foi devastador não só para a questão em si mas também para o movimento ambientalista em geral.

Terceiro, se associarmos estes factos com o desastre da cimeira de Copenhaga em Dezembro último, duas perguntas são óbvias. Face aos enormes interesses já colocados no terreno como e quem irá reiniciar o movimento sobre as alterações climáticas? Que impactos e que novos desafios resultarão para a agenda ambiental?

João Menezes

Depois da poeira assentar (ou que dirão os do costume?)

Com os agradecimentos ao José M. Sousa pela chamada de atenção, sem comentários e pedindo a quem se interessa pelo assunto que leia o link e siga os links para a informação primária, incluindo o relatório na base da notícia.
Phil Jones portou-se bem.
Poderia uma investigação do mesmo tipo dizer o mesmo dos que o atacaram ao longo destes meses?
henrique pereira dos santos

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Clima e ciência - a perspectiva da Economist sobre o Climate gate

No Economist online, uma boa súmula do que é a tempestade à volta do IPCC (na minha modesta opinião,
claro):

Climate change and the media / Feb 17th 2010, 19:34 by M.S.
LAST week members of the Dutch parliament denounced the Intergovernmental Panel on Climate Change for including in its mammoth 2007 report the scandalous charge that 55% of the Netherlands is below sea level. This outrageous misinformation had been supplied to the IPCC by...the Netherlands Environmental Assessment Agency, the Dutch government's national institute for environmental planning. In fact 26% of the country is below sea level, with another 29% merely "at risk of flooding", according to a correction the Dutch agency has now published. In an article in the Dutch magazine Vrij Nederland, agency official Joop Oude Lohuis does not quite make it clear whether his agency supplied the incorrect figure, or whether he thinks
someone at the IPCC mistakenly added the two numbers.

A few weeks ago it was unearthed, to everyone's great relief, that the IPCC report was wrong to have stated that the Himalayan glaciers might be gone by 2035. Since then the hunt has been on for errors in the report, and a number of accusations have followed. According to the climate scientists at RealClimate, the incorrect Dutch sea-level statistic is the one that comes closest to being an actual error. An assessment that rain-fed crop yields in some African countries "could be reduced by up to 50%" is based on legitimate research, and is followed in the report by the qualifier that some other climate changes may be beneficial. A claim that up to 40% of the Amazonian rainforest could be subject to die-off due to relatively small changes in precipitation is similarly legitimate. A chart showing economic damages from climate change should not have been included in the report's supplementary materials, say the researchers whose work it is based on. But otherwise they say the IPCC has accurately represented their work.

Increasing scrutiny has shown that there is certainly room for improvement and reforms at the IPCC. But what we also see with several of these scandalous "errors", is that the IPCC's claims as reported by the mainstream media were often exaggerated. For example, while I have a general sense of a few of the broad conclusions of the IPCC's 2007 report (like a sea level rise most likely around 30 centimeters by 2100, though more recent research indicates it will probably be much more), I couldn't name many specific details. But I knew the IPCC had estimated the Himalayan glaciers would be gone by 2035 long before that estimate turned out to be false. I knew this because the mainstream media had plucked that claim out and reported it
widely, because it was so sensational. It's also perfectly understandable that elements in the report indicating very high possible levels of crop damage in certain African countries would be reported by the media without
the qualifying considerations. It would be routine and accepted practice for such an assessment to be reported in a wire-service story with the headline: "IPCC predicts 50% crop reductions in Africa".

The media like big numbers. Reporters will naturally take a 3,000-page report like that of the IPCC and skim through it, looking for affected populations over 1 billion, percentages over 50%, and catastrophes occurring within the next 30 years. The resulting picture in the media will exaggerate the results of the scientific research. In some cases, scientists who work on climate-change issues, and those who put together the IPCC report, must be truly exasperated to have watched the media first exaggerate aspects of their report, and then accuse the IPCC of responsibility for the media's exaggerations."

domingo, fevereiro 14, 2010

Phil Jones fala sobre o climategate


Com o passar dos meses o furor sobre o climategate vai passando. Entretanto a vida de uma pessoa foi destruída por um julgamento público sem defesa possível. Mas quem se preocupa com isto quando o que conta são os objectivos que, alegadamente, justificariam os meios? Continua por demonstrar a fraude científica do climategate e quando os resultados da comissão de inquérito forem divulgados será, provavelmente, demasiado tarde para impedir os estragos que entretanto foram feitos na vida deste e de outros cidadãos envolvidos. Entretanto ficam as palavras de Phil Jones na entrevista de ontem à BBC. Vale a pena ler.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Bem vindo, Delgado Domingos

Esta imagem roubei-a daqui, para onde transbordou parte da discussão que se desenrolou (timidamente) no Expresso mas sobretudo aqui na Ambio
O Público de ontem tem um artigo de opinião de Delgado Domingos sobre alterações climáticas.
É um artigo crítico em relação às opções políticas da União Europeia na matéria.
A crítica assenta na ausência de fundamentação científica para relação quantitativa entre o CO2eq na atmosfera e o aumento da temperatura média global do ar junto à superfície.
Mas o que me pareceu mais notável no artigo é o que me parece (e sublinho o parece, apesar de já ter usado a palavra duas vezes numa frase tão curtinha) que há uma evolução na posição de Delgado Domingos desde a última troca de argumentos que ocorreu no espaço público sobre o assunto, nomeadamente aqui na Ambio.
Delgado Domingos não fala em fraude científica a propósito das alterações climáticas, insurgindo-se apenas contra o alarmismo (bem vindo), não contesta o aquecimento global antropogénico mas a atribuição de todas as alterações apenas ao CO2eq (bem vindo), faz uma referência ligeira ao climagate a propósito da contaminação do debate científico por opções políticas mas sem o associar imeditamente a qualquer fraude (bem vindo), afirma taxativamente que a União Europeia deve estar preocupada com as alterações climáticas de origem humana (bem vindo), e conclui que os outros efeitos que resultam dessas emissões chegam para se fazer opções políticas, não sendo necessário dramatizar o seu efeito no aquecimento global (bem vindo).
Ou seja, o que sobra de discordância é o velho argumento de que é preciso ter certezas para agir e o de que os efeitos do corte de emissões e do mercado do carbono é catastrófico social e economicamente.
Como se vê, nada de ciência, tudo de política com base em argumentos não demonstrados mas a necessitar de discussão séria.
Há tempos concluí, pelo meu próprio exemplo, que o climagate arriscava-se a ser um grande contributo para o consenso social à volta do aquecimento global: não só põe algum travão no alarmismo, o que é bom, como sobretudo muitas pessoas que evitavam a discussão, por demasiado complexa, foram obrigadas a entrar nela, a ler a informação primária e, por isso, reduziram muito as dúvidas sobre a solidez científica que suporta a tomada de decisão política.
Parece-me ser o caso de Delgado Domingos, tal como aliás foi também o meu caso (com a distância de conhecimento científico que nos separa, evidentemente, eu não percebo nem um quarto do que leio sobre a matéria).
Bem vindo ao campo da discussão que se pretende mais racional e menos contaminada por posições pré-definidas por critérios externos ao essencial do que está em causa.
henrique pereira dos santos

domingo, janeiro 31, 2010

Conspiração?

imagem do artigo em causa e criticada aqui.
Olympus Mons sugeriu, há já algum tempo, quando este blog parecia um blog sobre alterações climáticas, que analisasse uma conversa de comadres que eu já tinha lido há algum tempo.
Demorei algumtempo a pegar nisto, não só por ter outras prioridades mas porque realmente já tinha lido a história e francamente não me interessava por aí além.
Mas o prometido é devido e aqui fica.
A alegação é a de que os famosos emails demonstravam uma deturpação do processo de peer review por parte de um "team", como o apelidam as putativas vítimas.
Convém ter em atenção que o artigo científico em causa era uma segunda tentativa de demonstrar o mesmo que já tinha sido dito uns anos antes (embora desta vez de forma mais limitada dada a crítica fundamentada a que tinha sido submetido o primeiro artigo com o mesmo tipo de alegações).
Vejamos os factos essenciais.
Em 5 de Dezembro de 2007 o artigo em causa é publicado on-line e só 11 meses depois é publicado em papel, no mesmo número onde é publicado um outro artigo que pretende rebater o primeiro.
Sobre isto convém dizer que qualquer director de jornal (e as publicações científicas são também publicações com objectivos de comunicação com o seu público) se pela por ter uma polémica a decorrer no seu jornal, portanto até aqui nada de novo.
A 30 de Novembro de 2007 (uma semana antes da publicação on-line) um jornalista manda as provas para alguns cientistas. Também aqui nada de novo: é normal os jornalistas terem informação previamente (muitas vezes com embargos de publicação até uma altura definida) e é normal que procurem suscitar o contraditório.
Alguns dos cientistas envolvidos acham o artigo muito mau e irritam-se com o facto de uma revista importante de climatologia o ter publicado. Independentemente de quem tem razão, este tipo de opiniões não é crime nenhum e acontece todos os dias.
Os cientistas que estão convencidos de que o artigo nunca deveria ter sido publicado por ter opções indefensáveis (esta é a sua opinião, e não discuto se é certa ou errada) procuram definir qual a melhor forma de responder e repôr o que acham que é a verdade. Normal, nada de novo.
Há depois uma troca de mails em que transparece uma certa proximidade entre o editor e os cientistas (inevitável dado serem investigadores de topo da área da revista) e em que os ditos cientistas pretendem criar uma posição mais favorável para o seu paper de resposta. Tenho dúvidas sobre a elegância deste procedimento mas não vejo nenhuma entorse fundamental do processo de peer review (o que existe sim é uma preocupação com prazos para que os dois papers sejam publicados em igualdade de circunstâncias na versão papel da revista. Como digo tenho dúvidas sobre a forma como este objectivo é perseguido, dúvidas no campo da ética, mas tenho poucas dúvidas de que coisas semelhantes se passam todos os dias neste mundo).
Tenho sobretudo dúvidas sobre a actuação do editor em alguns passos, incluindo o facto de não informar os autores do primeiro paper sobre o que está a acontecer, mas é muito forçado transformar estas eventuais falhas do editor da revista num problema de manipulação de dados e do processo de publicação por parte do dito team.
Francamente a maior parte do artigo do American Thinker que Olympus Mons me pede para comentar é uma conversa de comadres sem qualquer relação com a suposta "fabricação" de dados científicos: em nenhum momento esteve em causa a publicação do primeiro artigo (excepto o facto de ter sido rejeitado noutras revistas, mas isso acontece todos os dias e é a vida). Pelo contrário, apesar de rejeitado noutros lados foi possível publicá-lo, demonstrando que o sistema tem escapatórias suficientes.
E em nenhum momento o team foge ao confronto científico, pelo contrário, vai ao encontro dele escrevendo um artigo para rebater o primeiro.
O mais curioso que os mails demonstram é que apesar do team entender que o paper nunca deveria ser publicado ele efectivamente foi publicado.
Se há coisa que fica demonstrada é que não é verdade que o team tenha capacidade para sufocar a divergência.
henrique pereira dos santos

sábado, janeiro 23, 2010

Para quê estar a moer a QUERCUS?


"Para que serve este post?"
José Rui, num comentário ao post, não se conforma com o facto de eu criticar a QUERCUS, quando para dizer mal da QUERCUS há tanta gente.
Eu diria que esta análise da utilidade da crítica em função de uma hierarquia de objectivos é tipicamente leninista. Ou melhor, nunca começando por aí, serve muito bem qualquer totalitarismo.
Para mim a crítica não tem outro objectivo que não seja corrigir um erro, não entro com outro tipo de considerações, como seja o facto de quem faz asneiras ser meu amigo, me dar geito ou ter objectivos semelhantes aos meus.
Portanto o post não serve para realmente mais nada que não seja manifestar a minha discordância em relação ao abuso da utilização dos fenómenos meteorológicos para discussões climáticas.
Digo-o em relação ao Insurgente e digo-o em relação à QUERCUS.
Para moer a QUERCUS?
Não, para que a QUERCUS não moa o esforço de racionalidade na discussão.

henrique pereira dos santos

sexta-feira, janeiro 22, 2010

QUERCUS e Insurgente: a mesma luta, a mesma falta de juízo


Este comunicado da QUERCUS é de fazer chorar as pedras.
Anda para aqui uma pessoa a ver se põe um bocadinho de juízo na cabeça dos negacionistas que confundem meteorologia com clima e a QUERCUS entretem-se a dar-lhes argumentos com parágrafos de antologia como estes:
"Na opinião da Quercus, as últimas semanas em termos meteorológicos em Portugal são sinais ou sintomas de uma alteração climática caracterizada por eventos meteorológicos extremos. O que se passou imediatamente antes do Natal na Região Oeste, o facto de Dezembro ter sido o mês mais chuvoso deste século, o ter-se passado de uma situação de seca meteorológica e de valores relativamente baixos de armazenamento das albufeiras, em comparação com a média, para uma situação de pleno armazenamento em muitos casos, são uma demonstração de uma maior irregularidade do clima.
Soube-se também agora que de acordo com a Direcção Geral de Saúde, no Verão de 2009 - ano em que as ondas de calor tiveram o seu início mais cedo – morreram precocemente mais mil pessoas. Os custos, só para o Estado, parecem ascender a mais de 80 milhões de euros, sem contar com os enormes prejuízos em termos de agricultura, edificações e infra-estruturas."
Francamente.
Amanhã estará bom para surfar de manhã ou as alterações climáticas mudaram o swell para a tarde?
henrique pereira dos santos

terça-feira, janeiro 12, 2010

A estabilização das temperaturas desde 1998

O Lowlander, num comentário a este "post", chama-nos à atenção do interessante "post" no blogue "open mind". Não resisto colocar aqui dois dos quatro gráficos apresentados e que me parecem ilustrativos do que tem vindo a ser discutido neste e noutros blogues sobre o significado da estabilização das temperaturas nos últimos 10 anos.

O primeiro gráfico mostra as temperaturas globais da base de dados da NASA (Goddar Institute) no período de 1975-2000 (gráficos para outras bases de dados são fornecidos no post original). O autor do blogue colocou na linha vermelha a tendência obtida com uma regressão linear e extrapolou o valor esperado até 2010. É fornecido também o desvio padrão que baliza os valores observados e esperados.

No segundo gráfico, o autor acrescenta os valores observados entre 2001 e 2009. Como é patente do gráfico, as observações enquadram-se nos valores esperados para os últimos 10 anos.


Ou seja, como tenho vindo a argumentar desde que respondi ao texto do Prof. Delgado Domingos, no Expresso, não faz qualquer sentido fazer conclusões apressadas sobre tendências climáticas com base em 10 anos pois a série climática histórica é pródiga em altos e baixos acompanhados por uma tendência generalizado de aumento de temperaturas.

Antevejo comentários de que o autor do blogue escolheu criteriosamente o período do século XX para análise. A verdade é que se escolhesse um período mais amplo, o desvio padrão seria maior pelo que os valores esperados seriam também maiores. Por absurdo, se usássemos uma série temporal de temperaturas desde o inicio do Holoceno, qualquer valor observado entraria dentro dos valores esperados pelo que ao escolher um período de aumento acentuado de temperaturas para comparar com um período de estabilização, o autor está a fornecer uma análise mais conservadora do que se tivesse escolhido um período mais amplo.

Procurando simplicidade no caos


Num comentário ao meu post sobre o alarmismo ambiental (a discussão é muito mais interessante que o post, de maneira que quem quiser pode passar directamente à caixa de comentários), Miguel Araújo fez um comentário que pela sua clareza e força pedagógica resolvi transcrever para um post, editando ligeiramente em questões de forma:
"Vamos com exemplos. Coimbra e Nova York têm a mesma latitude., i.e., 40° norte. As duas cidades têm um clima diferente. Nova York tem um clima temperado, com inverno rigoroso e Coimbra tem um clima temperado de feição mediterrânea com invernos mais suaves. A diferença entre as duas cidades deve-se, em grande medida, às correntes de massas de água que ladeiam os dois continentes. A corrente do Golfo que passa do nosso lado trás água quente dos trópicos e a corrente do labrador que passa do outro lado trás água fria do pólo. A isto eu chamo um mecanismo determinístico do regime climático que se junta a outros como o grau de insolação a que ambas cidades se encontram (e que neste caso é semelhante). Estes mecanismos são estáveis em escalas de tempo razoavelmente longas (do ponto de história da humanidade, entenda-se) mas mudam em escalas geológicas devido a outros mecanismos que também são determinísticos. Os mecanismos que causam variações no clima (não estou a falar de tempo) podem prever-se. Por exemplo e ignorando a óbvia variação orbital da terra em torno do sol, as correntes oceânicas são afectadas pelo nível de salinidade da água nos oceanos que por sinal é afectado pela quantidade de água retida nos continentes, que por sinal é afectado pelas temperaturas globais do planeta. Deslocações na posição dos continentes ("continental drift") podem também afectar as correntes oceânicas e os AOGCM (atmosphere-ocean coupled general circulation model) usados para projectar climas no Terciário e do Cretácico usam estas variações na posição dos continentes para modelar mudanças nas correntes com os consequentes efeitos nas temperaturas (ver trabalho do Paul Valdes e Alan Haywood). Projecções que são feitas, diga-se, com níveis de sucesso razoáveis tendo em conta a verificação independente que é feita usando o registo fóssil. Ora nada disto se deve a dinâmicas caóticas. Não que elas não existam, nisso estamos de acordo. Mas estas operam, "ceteribus paribus", dentro do grau de variabilidade permitido pelos constrangimentos, determinísticos, que forçam os regimes climáticos a serem o que são. Ora é de esperar, tendo em conta a magnitude das mudanças climáticas e o peso dos mecanismos que as determinam, que a influência dos factores caóticos seja tanto menor quanto maior o horizonte temporal (e espacial) considerado. A esta variação, os climatólogos chamam ruído!"
henrique pereira dos santos (citando Miguel Araújo).

sábado, janeiro 09, 2010

Pontos de vista sobre o rigor do Inverno


Depois da chamada de atenção do Miguel Araújo, retirei daqui, dedicando a todos os blogues que passam o tempo a confundir meteorologia com clima, retirando conclusões precipitadas do frio que está onde nós estamos.
henrique pereira dos santos

O alarmismo ambiental


Nesta discussão do climategate há um padrão de argumentação que deveria fazer o movimento ambientalista reflectir seriamente: grande parte da argumentação dos negacionistas que tem mais repercussão resulta da contestação de afirmações empoladas, quer pelo movimento ambientalista directamente, quer pelos jornalistas de causas, quer mesmo, aqui e ali, por aspectos da actuação do IPCC (veja-se a carta do Miguel Araújo e outros na Nature ou este post).
O exemplo típico é a tonteria do Greenpeace ter posto os quatro cavaleiros do apocalipse a percorrer as ruas de Copenhaga durante a cimeira do mês passado.
Este alarmismo que está no ADN do movimento ambientalista é compreensível por razões históricas e pela fragilidade intrínseca dos movimentos de cidadãos, que competem por visibilidade no espaço público com outros actores muito mais influentes.
Mas é um erro que se paga muito caro no longo prazo.
Nesse sentido, da mesma forma que não pode haver complacência para com as mistificações dos negacionistas, não deve haver complacência para com os exageros do lado das pessoas que estão preocupadas e pretendem influenciar a decisão política no sentido da crise climática potencial ser gerida eficientemente.
Um bom exemplo de onde pode conduzir este extremar de argumentos é esta entrevista. Não tanto pela fleuma britânica e imensa categoria demonstradas pelo chefe dos serviços meteorológicos britânicas, mas por se admitir que perguntas troglodíticas são normais neste nível de discussão (o óscar vai para "se não sabem prever o tempo a um mês como podem prever a vinte ou cinquenta anos", sendo que o não prever é o facto da previsão ter estado disponível nos EUA a 24 e 25 de Dezembro e no serviços meteorológicos britânicos apenas a 28).
henrique pereira dos santos

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Um gorro quentinho para André Azevedo Alves

O Insurgente tem-se dedicado a tirar partido de um Inverno frio no hemisfério Norte para sugerir que a teoria do aquecimento global está errada.
Não é o único, há vários blogs que se entretêm com isso.
Confesso que é uma lógica que não percebo.
A crítica ao excesso e ligeireza com que se usam as alterações climáticas para tudo e mais alguma coisa (ainda ontem ou anteontem lá vinha o WWF a falar nas alterações climáticas a propósito da conservação dos tigres, que coitados têm outros problemas e bem mais urgentes a resolver para que consigam persistir) é uma crítica justa.
Muito dos que agora falam deste inverno rigoroso (e acho que nem lêem os links que usam, como se pode verificar neste post, em que AAA fala em arrefecimento global quando o texto para que linka diz: "Guo Hu, the head of the Beijing Meteorological Bureau, linked this week’s conditions to unusual atmospheric patterns caused by global warming. Meteorologists were also trying to find a pattern in the heavy rains that have hit equatorial regions and the southern hemisphere in the past week.") criticaram, e bem, a ligação directa feita muitas vezes entre Verões e Invernos quentes anteriores e o aquecimento global.
É claro que agora, ao falar deste Inverno rigoroso no hemisfério Norte como demonstração de que não há aquecimento global, estão a caucionar os futuros abusos do outro lado quando com o calor se começar outra vez a dizer que é do aquecimento global, misturando clima e meteorologia.
Só ao ler um comentário ao post sobre a abertura da caça ao lobo na Suécia percebi o que se está a passar: o frio parece estar a congelar o cérebro de muito negacionista, da mesma forma que o calor frita muito cérebro de alarmista.
henrique pereira dos santos