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quinta-feira, abril 29, 2010

COMER COM GOSTO

Deve haver poucas pessoas que não gostem de comer, e eu não sou uma delas. Gosto de experimentar receitas das sobremesas mais exóticas, amassar pão à procura do mais genuíno sabor, ficar-me esquecida nas livrarias a apreciar livros de cozinha recheados de resultados impossíveis de obter em casa. Mas não sou de olhar só para o resultado: os meus ingredientes escolho-os com cuidado e atenção porque é a minha família, a saúde e boa disposição de todos, que está em causa. E, neste capítulo, sou muito tradicional: procuro o melhor, sem compromisso. Por exemplo, se olho para a lista de ingredientes de uma embalagem de comida e vejo números além dos nomes... é porque foi feito no laboratório e não no campo. E o que sai do laboratório, pela minha lógica, não pode ser comida.

Mas mesmo eliminando o que inclui números ainda sobra muita coisa que não entra no meu carrinho de compras. Por exemplo, não aprovo ingredientes que, há cem anos apenas, ninguém usaria na cozinha, mesmo se começarem pela palavra Vitamina, ou jurarem que fazem bem aos intestinos. E depois ainda há aquelas comidas que se querem fazer passar por outras – chamo-lhes os travestis. Margarina e bolachas com "sabor" a chocolate são bons exemplos, mas os adoçantes que querem fazer de conta que são açúcar para poupar nas calorias são talvez daqueles a quem mais cuidadosamente barro a porta de casa. Quando tenho dúvidas, aplico uns testes muito simples: pode ser produzido numa quinta, ou pescado no mar? Percebo como passa do estado original para a embalagem final? Se a resposta é não, é porque não é para mim. Isso leva-me a passar ao lado de quase todo o pão dos supermercados e padarias, repleto que está de "melhorantes" e "enzimas", ou ainda da míriade de outros alimentos com espessantes, corantes, estabilizantes ou demais maravilhas da tecnologia alimentar.

Claro, a maneira como a comida é processada também conta, não basta escrutinar os ingredientes. A radioactividade, por exemplo, pode ter muitos fins úteis, mas comida irradiada rima com comida doente... e que nos põe doentes a nós. E a aplicação de radiação electromagnética (vulgo forno de microondas) garantidamente também não foi pensada para nos trazer mais saúde. Quanto ao leite UHT, o tal que ainda está igual a si próprio mesmo após seis meses de esquecimento no fundo do armário, bem, arranjem leite do dia pasteurizado, encham um copo de cada um e façam o teste à família toda, a ver se não distinguem o que ainda sabe a leite daquele que do leite já só tem o aspecto.

Na busca da comida como "nos bons velhos tempos", gosto de reparar também nos ingredientes "invisíveis". Prefiro, tal como a restante população europeia, que as minhas hortaliças sejam sem pesticidas, o meu leite sem antibióticos e a minha carne sem hormonas... mesmo se trouxerem o selo europeu de autorizado. Se for do campo e não de aviário ou de aquacultura, melhor. E sendo colhido e comido na época, melhor ainda.

E que dizer da mais moderna de todas as invenções alimentares, os alimentos geneticamente modificados, ou transgénicos? Já ouvi as sete maravilhas sobre eles: mais nutritivos, mais duradouros, mais limpos de pesticidas, muito estudados e seguros, até a fome no mundo e a crise energética (através de biocombustíveis) eles se preparam para resolver. Mas eu confesso: a primeira vez que comprei óleo de soja e depois verifiquei pelo rótulo que continha soja geneticamente modificada senti um aperto abaixo do estômago que nunca me engana. Esta comida transgénica pode ser apropriada para cobaias de laboratório, mas não é comida de gente. Mas claro, o problema é poder escolher. Para já anda por aí soja e milho transgénico, mas já este ano a Comissão Europeia pretende aprovar arroz transgénico. Arroz! O mais castiço dos cereais que comemos em Portugal!

Fui informar-me e fiquei a saber que os portugueses são os "chineses" da Europa: cada um de nós come em média 17 quilos de arroz por ano, enquanto que os italianos, que estão em segundo lugar atrás de nós, não comem mais que uns míseros sete quilos. Os dinamarqueses, coitados, não sabem o que é arroz doce e não vão além de quilo e meio por ano. E agora, querem abrir a nossa porta ao arroz transgénico?! Isso é, para a gastronomia, o mesmo que deitar abaixo o Mosteiro dos Jerónimos seria para a nossa história e cultura!

Senhor Ministro da Agricultura: espero que goste de arroz de ervilhas, de arroz malandro, de arroz de forno e de arroz de pato. Espero, em suma, que goste de arroz, porque ser português também é isso: durante a última grande guerra devemos em grande parte ao arroz a nossa sobrevivência alimentar. Quando se sentar em Bruxelas e chegar a vez de votar o arroz transgénico, Senhor Ministro, vote por nós.

Margarida Silva, bióloga

sábado, abril 17, 2010

Hoje é dia de comer arroz doce!

Se mora na zona de Lisboa ou do Porto, venha daí celebrar o arroz doce com a Plataforma Transgénicos Fora!
Hoje, sábado, às 15h, no Rossio ou nos Aliados, é a altura de lembrar ao Ministro da Agricultura a favor de que interesses deve votar em Bruxelas quando o dossier do arroz transgénico LL62 estiver no rol [leia o comunicado de imprensa da Plataforma de hoje, dia 17.04.10]
Lembre-se que depois da aprovação é tarde de mais para protestar - o momento certo é agora!


Comunicado Arroz Transgénico

segunda-feira, setembro 17, 2007

40

Pelo que diz o Público ontem numa manifestação contra a política europeia em matéria de OGMs, convocada pelo Greenpeace e a Plataforma Transgénicos Fora, estavam quarenta pessoas.

A manifestação era convocada coincidindo com a reunião dos ministros de agricultura no quadro da presidência portuguesa da União Europeia, ou seja, era uma manifestação com data bem escolhida, aproveitando a mediatização deste tipo de reuniões e estava um dia medíocre para a praia. No site do GAIA anuncia-se como uma Grande Acção, não violenta, com música teatro e dança.

Quando se reclama a representação de mais de dois terços dos cidadãos para justificar moralmente acções como as de Silves, quarenta pessoas (ou oitenta, não tenho meio de saber, mas o que conta é a ordem de grandeza) é pouco.

Pode optar-se pela explicação clássica: em Portugal as pessoas não são civicamente maduras. Mas no mesmo dia em Lisboa, numa acção sobre o DARFUR, embora estejamos também a falar de poucas dezenas de pessoas, havia bastante mais gente a manifestar-se contra uma situação indigna mas que não as atinge directamente.

Pode ainda admitir-se que a oposição aos OGMs ficou com má fama depois de Silves, mas não me parece justificação suficiente.

É tempo de pensar por que razão não se conseguem grandes mobilizações (ou médias, ou mesmo pequenas mas não tanto) por uma Europa livre de OGMs.

Talvez seja tempo de redefinir o objectivo: informação e direito de escolha parecem-me, nesta matéria, opções bastante mais abrangentes que a radical opção dos mais conhecidos activistas deste assunto.

henrique pereira dos santos

terça-feira, agosto 28, 2007

Verde-eufémia

Encontrando-me ausente da Internet durante o lastimável acto da auto-denominada verde-eufémia (apropriação ilegítima do apelido de uma mulher, corajosa, que deu a cara e a vida por uma causa) não escrevi sobre assunto. Após o meu regresso verifico que tudo o que tinha de ser dito (e mesmo o que não deveria ter sido dito) foi dito. Desta forma não irei acrescentar mais linhas ao verbo derramado.

Porém, para registo e eventual troca de impressões, deixo aqui dois textos escritos por assinantes da lista ambio e que reflectem opiniões musculadas e dispares sobre o significado da acção da verde-eufémia. O primeiro texto (publicado no jornal Público) foi escrito por António Eloy, figura controversa e incontornável do movimento ecologista Português e veterano em acções de desobediência civil não violenta. O segundo texto é uma resposta de Nuno Quental, Engenheiro do Ambiente e dirigente da jovem associação de defesa do ambiente Campo Aberto, ao artigo de António Eloy.


Confusões, Por Antonio Eloy

Não há palavras suficientes para manifestar o total repúdio pela acção violenta e idiota levada a cabo por um grupo chamado “VerdeEufémia” (sendo o nome desde logo motivo para análise da psique politicamente perturbada dos seus epígonos).

De facto para alem da acto criminal, realizado com a passividade e quiçá conivência da G.N.R. (tão diligente em exercer a autoridade, e bem, noutras circunstâncias!) e a “gloriosa” cobertura mediática (que neste caso é tudo!), para além da vergonha que é vermos encapuçados a agirem (dizem eles) em favor do ambiente, para além de absoluta e total censura que o acto mereceu de quem com racionalidade procura limitar os efeitos dos O.G.M.s, há que levantar algumas questões sobre outra dito nesta acção violenta e selvática.

E essa é, FOI UMA ACÇÃO VIOLENTA E SELVÁTICA!

Claro que foi desobediência civil, isso também é o assalto a bombas de gasolina (que até podem ser feitas por estes bandalhos com o objectivo de reduzir os lucros de multinacionais petrolíferas!), mas desobediência civil não violenta e por objectivos claros e transparentes é que não foi!

Participei em inúmeras acções de desobediência civil não violenta, e fui por elas detido, nalguns casos em circunstâncias de risco (na R.D.A. que os Eufémias emulam...em luta pelas liberdades políticas), em Portugal acompanhei e testemunhei o heroísmo de Serafim Riem e outros quando se amarraram, face a retroescavadoras a carvalhos, para lutar contra a eucaliptação, entrei pacificamente na embaixada e deixei um balde de lixo ao embaixador inglês, em protesto contra os despejos nucleares no Atlântico e com o povo de Barrancos acompanhei a resistência colectiva, a desobediência civil e não violenta a legislação do tempo da ditadura nacional, pelos direitos ambientais, patrimoniais e cívicos.

Em Espanha também enfrentei riscos quando nos opusemos de cara descoberta ao avanço de projectos de destruição ambiental do “matoral”.

Em Itália acompanhei lutas do Partido Radical, libertário/liberal e não violento seja pela legalização da interrupção voluntária da gravidez seja pela legalização de drogas e um quadro legal para essas, em acções não violentas de desobediência civil que teve desfecho em tribunal ou em modificação das leis.

Este grupo de energúmenos, pagos sabe-se lá por quem (são os mesmos que andam a destruir propriedade por todo o lado de Seattle, a Tóquio, de Lavos a Porto Alegre) mas devo dizer que suspeito que pela Monsanto, ou Exxon ou outra que tal, esta bando de bandidos agiu claramente com o intuito de prejudicar os que se opõe em nome da lei e do direito a actos ou lógicas sociais que consideramos injustas e favorece objectivamente a causa dos O.G.M.s.

Há que também denunciar os métodos, porque a não violência não se pode confundir com hipocrisia, leviandade e cobardia.Os meios são os fins. Este eco-fascismo esverdeado de Eufémia é o terror sobre as nossas cabeças. Deve o movimento ambientalista ser claro, ser muito mais claro do que foi na sua denúncia.

A não violência não se pode confundir nem em palavras nem actos com a violência.

--
Verde Eufémia: recentrando a questão, por Nuno Quental

O texto que António Eloy assina no Público de hoje (23 de Agosto) levou-me a escrever alguns parágrafos de reflexão sobre a acção que o "Movimento Verde Eufémia" - movimento ad hoc provavelmente sem qualquer sequência futura -protagonizou em Silves. Acho caricato que António Eloy se dê ao trabalho de descrever as diversas iniciativas de não violência em que participou sem ser capaz de explicar em que medida são diferentes da acção anti-OGM. Nem tão pouco cuidou de demonstrar o que tornou esta acção tão violenta, visto que ao que se sabe ninguém foi ameaçado ou ferido. Apesar da falta de argumentos, Eloy não deixou de insultar os protestantes, atalhando com um nada simpático “energúmenos”.

A acção de Silves é inédita em Portugal, pelo menos no que respeita ao seu carácter ambientalista. Aqueles que hoje condenam de forma tão veemente a iniciativa talvez tivessem outra posição se os transgénicos fossem já comprovadamente causa de morte ou de grave dano para a saúde ou se, porventura, a iniciativa visasse a defesa dos direitos humanos. Da mesma forma, imagino que essa vontade tão esmagadora de fazer cumprir a lei e de condenar os criminosos não encontre paralelo noutras situações, como salientou Paulo Varela Gomes num comentário publicado no blogue de Miguel
Portas. De facto, por alguns momentos vestimos a pele do justiceiro e, munidos de uma fúria que teima em explodir, condenamos tudo e todos pela maldade. Já repararam que praticamente ninguém escapou às críticas? Os participantes é o que se sabe, a GNR foi benevolente e irresponsável, o Ministro deixou escapar mais umas gafes, Miguel Portas falou de mais... Nem o pobre IPJ foi poupado, apesar da sua evidente inocência no caso. Não haverá aqui algum exagero?

Não pretendo propriamente desculpabilizar os autores da iniciativa, na qual não me revejo, que critico e considero não dever ser repetida. Mas também não compro as críticas ferozes que foram feitas, nem tão pouco as comparações a “eco-terrorismo” e outras similares, perfeitamente ridículas por abusivas. Realmente acho que este caso não deve ser transformado em algo que ele não é: “um grave precedente”, uma “ofensa séria ao Estado de Direito”. Se assim fosse, então pobre Estado de Direito, que já há muito sucumbiu face a situações incomparavelmente mais graves – como diversos casos famosos de corrupção – a que a justiça nunca foi capaz de responder.

Afinal, o que distingue o Movimento Verde Eufémia de outros agentes que agem de forma ilegal é o facto de o primeiro lutar por uma causa que considero justa – a luta anti-OGM –, sem quaisquer benefícios pessoais, enquanto os segundos normalmente visam interesses próprios à custa de outrem. É lógico que deve ser dado benefício à primeira parte, ainda que os meios usados não sejam legítimos. Encontrar a punição justa deve ser tarefa de um tribunal.

É pena que várias pessoas, nesse ímpeto agressivo de condenação dos protestantes, desvalorizem os riscos dos transgénicos, citando por exemplo as posições da Food and Drug Administration, organismo oficial norte-americano pró-OGM e nada isento na matéria em causa. Seria preferível, no mínimo, que confrontassem essas posições com as de outras instituições credíveis como a Union of Concerned Scientists: “The Union of Concerned Scientists believes that GE food crops engineered for pharmaceutical, industrial, and specialty food purposes pose a sufficient threat to the safety of the U.S. food supply to warrant a federal ban on their outdoor
production
” (ver pdf aqui. Ignoram ainda as provas científicas que já existem contra os transgénicos. Num estudo recente publicado na Archives of Environmental Contamination and Toxicology, sujeito a revisão pelos pares, Séralini et al. advogam que “with the present data it cannot be concluded that GM corn MON863 is a safe product” (ver artigo aqui).

Os investigadores, reexaminando um estudo da empresa Monsanto - na qual a Comissão Europeia se baseou para aprovar, em 2005, aquela variedade de milho transgénico – descobriram alterações de crescimento e grave prejuízo para a função hepática e renal dos ratinhos que o consumiram. Em Portugal, deve ser salientado o trabalho fundamental que a Plataforma Transgénicos Fora do Prato vem realizando (ver aqui), inclusivamente com recurso aos Tribunais para aceder a informação que o Ministério da Agricultura tenta deliberadamente esconder mas que, segundo a legislação de acesso aos documentos administrativos e legislação específica que regulamenta os OGMs, é pública.

Para terminar, tenho pena que o movimento ambientalista português seja tão pequeno que, em boa verdade, distinções entre “Movimento Verde Eufémia” e a associação GAIA sejam tão ténues que quase não devem ser referidas. Embora esta associação se tenha demarcado publicamente do protesto, ela é efectivamente a sua inspiradora, porquanto as pessoas são basicamente as mesmas. Esse Movimento, criado a partir do encontro Ecotopia, foi a forma encontrada para tentar separar o que não pode nem deve ser separado, sob pena de vivermos na hipocrisia. Não se pode ter sol na eira e chuva no
nabal.

sexta-feira, agosto 24, 2007

A questão ética OGM

Num post anterior referi os riscos de contaminação associados aos OGM.

Sendo assim, parece ter todo o sentido a reivindicação do direito à não exposição ao risco.

Tenho toda a simpatia por esta reivindicação do direito viver num mundo não contaminado.

O problema é que o exercício deste direito de alguns significa que se priva todos os outros (que podem ou não ser uma minoria) dos eventuais benefícios da tecnologia OGM.

Sendo certo que o risco zero não existe em quase nenhuma actividade, todos nós tomamos riscos diariamente, pesando os riscos face aos benefícios expectáveis.

Enquanto esta decisão face ao risco é apenas pessoal, a questão é facilmente resolúvel por cada um de nós. Grande parte da essência da actividade empresarial é exactamente a capacidade de correr e gerir riscos face a objetivos estabelecidos.

O problema é quando o risco de uns (ou de todos) existe face a benefícios de alguns (ou de todos).

Talvez mais um paralelismo possa elucidar o tipo de questões éticas envolvidas.

Imaginemos que o desenvolvimento do uso dos combustíveis fósseis era desencadeado por uma tecnologia que emergia quase de um momento para o outro.

Imaginemos que sabíamos desde o início o longo rol de riscos e prejuízos que daí poderiam advir do uso dos combustíveis, como a poluição, as alergias, as doenças pulmonares, etc., incluindo o risco de aquecimento global.

Imaginemos que alguém reivindicava o direito de viver num mundo mais limpo e com menos riscos ambientias. Em princípio eu teria simpatia por essa reivindacação.

Mas seria justo o privar todo o mundo os benefícios que advieram para todos nós com uso dos combustíveis fósseis?

Esta questão emerge com clareza com os OGM.

Pessoalmente não acredito que os benefícios dos OGM sejam sequer de longe comparáveis aos que resultam da energia barata.

Mas sendo os riscos globais e para todos, em grande medida potencialmente irreversíveis, não me parece admissível estarem a ser tomadas demasiadas decisões sobre a questão sem as fundamentar nos benefícios concretos que resultam de cada decisão.

Uma última nota para vincar que ao contrário de grande parte da vulgata OGM eu não acho que a produção de riqueza, o aumento do rendimento disponível não seja um bem em si mesmo, que deve ser contabilizado na discussão.

Mas que o seja efectivamente, que o seja confrontado com o risco e que nos seja permitido avaliar democraticamente se os benefícios esperados (quais e para quem) justificam os riscos identificados (quais e para quem).

henrique pereira dos santos

quinta-feira, agosto 23, 2007

Separar águas

No meu post anterior já fui suficientemente claro quanto ao que penso sobre a inqualificável acção de um bando de vândalos cobardes em Silves.

Posto isto convém olhar um pouco mais de perto para a questão de fundos dos OGMs, o que me obriga a um post imenso com longas citações no fim, que só lerá quem quer.

O movimento anti-ogm reitera que há centenas de estudos que provam a nocividade dos OGMs para a saúde das pessoas.

Isto é pura e simplesmente mentira. Não há um único estudo que prove que os produtos aprovados para consumo humano provocam qualquer problema de saúde. Com cerca de 100 milhões de hectares de culturas transgénicas no mundo (mais de dez Portugais inteiros) e cultivados há mais de dez anos não há um único estudo credível, com peer review, que tenha identificado problemas sérios para a saúde resultantes de qualquer especificidade da tecnologia.

Quer isto dizer que não há nem haverá problema nenhum com os OGMs? De maneira nenhuma.

O problema com a saúde pode surgir em qualquer momento a partir de qualquer produto OGM, tal como vai acontecendo com os medicamentos, alimentos, brinquedos, pesticidas e etc., que vão sendo aprovados. E tal como acontece com muitos produtos naturais.

O que os OGMs podem trazer é uma maior variedade de oportunidades e uma maior velocidade de expansão aos potenciais benefícios e prejuízos de cada um dos seus produtos.

Qual é a questão nova específica da tecnologia quando sai dos laboratórios para o meio aberto?

É que se torna virtualmente incontrolável a sua expansão por polinização cruzada. Isto é, ao contrário de um medicamento que pode ser imediatamente retirado do mercado uma vez identificados os riscos que desaconselham o seu uso, não é possível retirar completamente o efeito da introdução de um novo produto na cadeia de reprodução de uma espécie, uma vez que esteja inscrito no seu código genético.

Os efeitos podem ser minimizados e o controlo pode ser melhorado, mas os custos sociais de procurar remediar a introdução e expansão de uma qualquer característica geneticamente impressa numa espécie podem ser brutais.

Talvez o paralelismo mais evidente seja com a introdução de espécies exóticas em novos meios, que tem efeitos admiráveis nalguns casos (o caso do milho, feijão e batata neste nosso cantinho, por exemplo) e tem efeitos de devastadores noutros casos, como é o caso da epizootias do coelho (e do próprio coelho na Austrália), virtualmente impossíveis de extirpar.

Do mesmo modo os efeitos na biodiversidade da introdução de novas variedades de espécies com características novas pode implicar uma substituição das variedades existentes por outras mais adaptadas e agressivas (quer sejam OGM, quer sejam híbridos), com perdas significativas para o nosso património biológico.

Ou seja, estamos a falar de uma das questões mais difícieis de enquadrar na gestão social das decisões: a decisão sobre riscos colectivos, neste caso dificilmente reversíveis.

E é aqui que o movimento OGM tem razão em dois pontos: os cidadãos tem todo o direito a ser informado; os programas de monitorização e produção de informação independente têm de ser substancialmente reforçados.

Se é compreensível a radicalidade de quem tem a noção da dimensão dos riscos e da sua irreversibilidade associados ao uso desta tecnologia em campo aberto, já nada justifica quer a permanente e despudorada manipulação da informação e a deriva violenta que claramente caracteriza o movimento anti-ogm.

Na produção da informação o movimento OGM tem posto toda a tónica nos riscos para a saúde e na toxicidade dos produtos OGM por razões de mera oportunidade política e social: a saúde individual mobiliza mais facilmente os cidadãos que riscos gerais de contaminação genética. E nesta sua procura de apoio social e financeiro não hesita em empolar riscos, manipular e mentir com o maior dos descaramentos. Faz até uma coisa interessantíssima que é assumir, em sentido inverso, o que considera o maior embuste da investigação sobre os efeitos dos OGMs: avalia os riscos para a saúde da proteína em causa e depois atribui os efeitos negativos, potenciais ou reais, à tecnologia.

Um dos mais curiosos aspectos da vulgata anti-ogm é o de que a produção científica produzida está inteiramente submetida aos interesses das multinacionais de biotecnologia. Tirando meia dúzia de cientistas e instituições que não são pagas pela indústria (são financiadas por donativos que dependem directamente do medo que cada um de nós sentir da tecnologia) tudo o resto não é fiável.

Isto é, o movimento anti-ogm entende que o sistema de produção de informação que assenta na elaboração de estudos feitos pelas empresas interessadas a partir de protocolos padronizados e revistos cientificamente, auditados posteriormente pelas administrações públicas de um conjunto de estados democráticos é menos fiável que a produção de informação feita por empenhados activistas e sem revisão independente.

Ora este tipo de argumentação só convence quem está convencido à partida, construindo cenários conspirativos permanentes para justificar toda a informação que não confirme a posição de partida. E conduz directamente à lógica de que os fins justificam os meios, a base seminal da violência sectária.

É pois preciso separar as águas.

Liberto das suas fragilidades e irracionalidades básicas, o movimento anti-ogm faz sentido enquanto movimento de cidadãos com direito a informação e participação na discussão do risco associado à disseminação por via genética de novos produtos mas também na discussão dos eventuais benefícios resultantes da nova tecnologia.

Numa atitude pré-iluminista quase todos os activistas anti-ogm já o eram antes da produção de qualquer informação científica sobre o assunto. Mas vale a pena lembrar nem sempre as intuições pré-iluministas estão erradas.

E neste caso é preciso ouvir o essencial sobre OGMs antes de tomar decisões precipitadas e irracionais. O que não inclui ouvir os vândalos de Silves, nem as companhias de biotecnologia, mas reforçar os mecanismos de informação e auscultação democrática de todos os cidadãos.

henrique pereira dos santos

Cito da Plataforma Transgénicos Fora:
Às três, será de vez?
Diz-se que há uma primeira vez para tudo. No caso dos organismos geneticamente modificados (OGM) a inocência terminou a 16 de Outubro de 1999 com a publicação, na prestigiada revista científica Lancet, do artigo de Ewen e Pusztai intitulado «Effect of diets containing genetically modified potatoes expressing Galanthus nivalis lectin on rat small intestine». Nele se relata a forma brilhante como se detectaram efeitos - inesperados e negativos - que as batatas transgénicas acarretaram aos animais que as comeram... mas não por causa da proteína transgénica presente no tubérculo. Ou seja, o processo de transgénese (independentemente da proteína a introduzir) pode acarretar alterações metabólicas específicas na planta, com consequências visíveis para a saúde, para além do que a proteína transgénica também possa induzir.
Este trabalho deveria ter levado, de imediato, a uma reavalição de todos os OGM em circulação. Isto porque, com base num dogma que só a fé pode explicar, os estudos de segurança alimentar assumem a seguinte equação como inquestionável: OGM = planta original + proteína transgénica. Por isso os ensaios de toxicidade de OGM são feitos, não com o OGM, não com a proteína extraída do OGM, mas sim com a proteína isolada de um microrganismo onde foi clonada. Mas, como Ewen e Pusztai mostraram, tal equação não podia estar mais longe da verdade. O todo é maior que a soma das partes e o produto a estudar tem de ser visto como alterado para além da mera adição proteica.
Mas não houve qualquer reavaliação - nem sequer um sobressalto por parte das autoridades competentes. Falta de tempo? de atenção? de cientistas para explicar?
Também se diz que à segunda só cai quem quer. Para os OGM a segunda veio pela mão de Manuela Malatesta. Esta cientista e a sua equipa da Universidade de Urbino publicaram em 2002 na revista Cell Structure and Function o artigo «Ultrastructural Morphometrical and Immunocytochemical Analyses of Hepatocyte Nuclei from Mice Fed on Genetically Modified Soybean» onde se demonstrava que o OGM mais cultivado do mundo - a soja transgénica 40-30-2 da Monsanto, que ocupa 58,6 milhões de hectares (57% da área global dedicada a transgénicos) - tinha um impacto profundo (embora reversível) no núcleo de hepatócitos. As mudanças incluiam alteração da forma do núcleo e dos nucléolos, maior número de poros na membrana nuclear e concentrações alteradas de numerosas proteínas, num quadro sugestivo de aceleração metabólica.
O dogma da Monsanto, de que os transgénicos são tal qual os alimentos convencionais de que derivam, pelo menos do ponto de vista nutricional, cai assim por terra. Além disso o fígado é um dos principais orgãos de depuração do organismo, e qualquer alteração metabólica representa motivo de preocupação a vários níveis. Mas os Estados-Membros da União Europeia, que no âmbito do artigo 20º da Directiva 2001/18 são obrigados a ter em conta novas informações relativas a riscos para a saúde humana por forma a que sejam tomadas medidas comunitárias adequadas, que podem chegar à proibição do OGM...
... não foram por aí. Ninguém foi. Falta de quê, desta vez? de vontade? de força?
Às três, como todos sabem, é de regra ser de vez. E ei-la que chegou agora mesmo: o artigo acabou de ser publicado online na revista Archives of Environmental Contamination and Toxicology e tem por título «New Analysis of a Rat Feeding Study with a Genetically Modified Maize Reveals Signs of Hepatorenal Toxicity». Os estragos, neste caso, referem-se ao milho MON 863, aprovado para consumo na União Europeia desde Janeiro de 2006. E os dados foram obtidos... pela própria Monsanto. Neste artigo é feito o tratamento estatístico dos números que a empresa se viu obrigada, após tribunal, a disponibilizar.
Os resultados? Toxicidade hepatorrenal, com aumento de até 40% dos triglicerídeos do sangue em ratos fêmea e uma redução de até 35% do fósforo e sódio na urina de ratos macho. Também se detectaram alterações no peso dos animais: os machos aumentaram um pouco menos de peso que os animais de controle, e as fêmeas aumentaram um pouco mais. Estes valores são estatisticamente significativos e estão directamente relacionados com o consumo do milho transgénico. O estudo durou apenas 90 dias e não existem dados sobre efeitos de longo prazo.
A questão agora é: vai acontecer alguma coisa ou a ciência afinal não serve para nada? Os Estados-Membros tencionarão cumprir finalmente o seu papel? Ainda é cedo para dizer, e a esperança só morre no fim. Mas a minha perspectiva muito pessoal é de que a saúde das pessoas não é a primeira prioridade, para o nosso e restantes governos. Talvez precisem de um empurrão.
Porto, 19 de Março de 2007
Margarida SilvaBiólogaVice-presidente da QuercusCoordenadora da Plataforma Transgénicos Fora

Cito da WiKipedia três comentários sobre controvérsias nesta matéria:

Safety disputes
[edit] Toxic GM-potatoes
In August 1998 widespread concern, especially in Europe, was sparked by remarks by nutrition researcher, Dr Árpád Pusztai, regarding some of his research into the safety of GM foods.
Pusztai claimed his experiments showed that rats fed on potatoes genetically engineered to express a lectin from snowdrop had suffered serious damage to their immune systems and shown stunted growth. The lectin expressed by the genetically modified potatoes is toxic to insects and nematodes and is allegedly toxic to mammals. He was criticized by leading British politicians, the majority of scientific peers with expertise in the area and by the GM companies because the announcement of his results in a television interview, preceded the scientific publication of his results. When his studies were finally published in The Lancet,[4] no evidence of stunted growth or damage to immune system was substantiated. The Lancet paper's actual summary was:
Diets containing genetically modified (GM) potatoes expressing the lectin Galanthus nivalis agglutinin (GNA) had variable effects on different parts of the rat gastrointestinal tract. Some effects, such as the proliferation of the gastric mucosa, were mainly due to the expression of the GNA transgene. However, other parts of the construct or the genetic transformation (or both) could also have contributed to the overall biological effects of the GNA-GM potatoes, particularly on the small intestine and caecum.
The paper was accompanied by an editorial explanation for allowing the paper's publication (Genetically modified foods: "absurd" concern or welcome dialogue?[5]), and an independent critique which had a contrary evaluation of the data: Adequacy of methods for testing the safety of genetically modified foods.[6] This was followed by a lively follow up debate in several later issues of the journal.
Nonetheless, controversy about Pusztai's assertions still lingers, caused by strongly held but opposing views on his conclusions and data. On the one hand, there are claims of misrepresentation of Pusztai's results by Rowett Research Institute, but on the other hand, there are concerns by scientists about overstatement of the quality of his findings by non-governmental organizations, and emphasis on matters well removed from the actual laboratory observations which are rarely discussed in public debate, against the context well over one hundred other studies published by 2006 that support the safety of GM foods and feeds,[7] and commentaries such as that of Nina Fedoroff[8][9] .
Research protocols were sent by Pusztai to 24 independent scientists in different countries (including experts in physiology, medicine, toxic pathology, nutrition, microbiology and biochemistry).[10] These disagree with the conclusions of the review committee and argued that his research was of good quality and justified his conclusions. Among 'casualties' in these events was Dr Andrew Chesson, vice chairman of European Commission scientific committee on animal nutrition and former top scientist at the Rowett Institute who was fired for publicly defending Pusztai's research.
Various reports concerning the politicisation of the peer review process and alleged deliberate misrepresentation of Pusztai's results were voiced by newspapers and some scientists.[11]
[edit] Dangerous corn
Another controversy recently arose around biotech company Monsanto's data on a 90-Day Rat Feeding Study on the MON863 strain of GM corn [12]. In May 2005, critics of GM foods pointed to differences in kidney size and blood composition found in this study, suggesting that the observed differences raises questions about the regulatory concept of substantial equivalence[13]
The raising of this issue prompted the European Food Safety Authority (EFSA) to reexamine the safety data on this strain of corn. The EFSA concluded that the observed small numerical decrease in rat kidney weights were not biologically meaningful, and the weights were well within the normal range of kidney weights for control animals. There were no corresponding microscopic findings in the relevant organ systems, and all blood chemistry and organ weight values fell within the "normal range of historical control values" for rats [14]. In addition the EFSA review found that the statistical methods used by Séralini et al in the analysis of the data were incorrect [15]. The European Committee has approved the ΜΟΝ863 corn for animal and human consumption[16].
Séralini et al have now completed a similar analysis of the NK603 strain of corn and have come to similar conclusions as they did in their previously discredited study[17].
[edit] Allergenicity
A gene for an allergenic trait has been transferred unintentionally from the Brazil nut into genetically engineered soybeans while intending to improve soybean nutritional quality for animal feed use. Brazil nuts were already known to produce food allergies in certain people prior to this study. In 1993 Pioneer Hi-Bred International developed a soybean variety with an added gene from the Brazil nut. This trait increased the levels in the GM soybean of the natural essential amino acid methionine, a protein building block commonly added to poultry feed to improve effective protein quality. Investigation of the GM soybeans revealed that they produced immunological reactions with people suffering from Brazil nut allergy, and the explanation for this is that the methionine rich protein chosen by Pioneer Hi-Bred is the major source of Brazil nut allergy.[18] Pioneer Hi-Bred discontinued further development of the GM soybean and disposed of all material related to the modified soybeans.
While this study indicates the possible risks of GM foods, and indeed any new food source, some point out it establishes the commitment the developmental community has toward consumer safety as well as the competence of current safeguards. Food allergy problems occur with many conventional foods, and Kiwi fruit, for instance, as a relatively new food in many communities, has become widely eaten despite provoking allergies in certain individuals.
Another allergy issue was published in November 2005, when a pest resistant field pea developed by the Australian CSIRO for use as a pasture crop was shown to cause an allergic reaction in mice.
Respected plant scientist Maarten J Chrispeels has made interesting comments about this example that illustrate how foods offer many different types of risks:
The recent Prescott et al paper in JFAC contains a very interesting study on the immunogenicity of amylase [starch digestion enzyme] inhibitor in its native form (isolated from beans) and expressed as a transgene in peas. First of all, amylase inhibitor is a food protein, but also a "toxic" protein because it inhibits our digestive amylases. This is one of the reasons you have to cook your beans! (The other toxic bean protein is phytohemagglutinin and it is much more toxic). This particular amylase inhibitor is found in the common bean (other species have other amylase inhibitors). Even though it is a food protein, it is unlikely ever to be used for genetic engineering of human foods because it inhibits our amylases. What the results show is that the protein, when synthesized in pea cotyledons has a different immunogenicity than when it is isolated from bean cotyledons (the native form). This is somewhat surprising but may be related to the presence of slightly different carbohydrate chains.[19]
The immunologist who tested the pea noted that the episode illustrated the need for each new GM food to be very carefully evaluated for potential health effects.[20]

domingo, agosto 19, 2007

Violência e cobardia

You say you want a revolution
Well, you know
We all want to change the world
You tell me that it's evolution
Well, you know
We all want to change the world
But when you talk about destruction
Don't you know that you can count me out
You say you got a real solution
Well, you know
We'd all love to see the plan
You ask me for a contribution
Well, you know
We're doing what we can
But if you want money for people with minds that hate
All I can tell is brother you have to wait
You say you'll change the constitution
Well, you know
We all want to change your head
You tell me it's the institution
Well, you know
You'd better free your mind instead

Vem a lembrança desta música dos Beatles a propósito de uns vândalos que se intitulam a si próprios Verde Eufémia. John Lennon terá sido tudo menos um homem passivo e alterou mais o mundo que todos estes activistas juntos, por isso é útil citá-lo num momento em que marca uma fronteira de uma forma admirável .

A fronteira que pelos visto foi ignorada. Vejamos como.

Cerca de cem pessoas, pelo que percebi vindas de um encontro internacional que decorria em Aljezur, resolveram que era legítimo, em nome do ambiente, causar danos a terceiros.

Foi uma acção violenta. É preciso ser claro neste ponto. Alguns pretendem usar um eufemismo chamando-lhe acção directa. Mas há acções directas não violentas e acções directas violentas. E eu até acho que a violência pode ser justificada em alguns casos e defensável em último recurso, como por exemplo em legítima defesa.

Conheço o argumento de que é exactamente de legítima defesa que se trata.

Não, até pode ser defesa, mas não é legítima.

É muito triste ver a imagens desta acção e verificar que são os pretensos ambientalistas que estão de cara tapada. É muito triste ver que o agricultor cumpriu a lei em toda a sua extensão, e que os vândalos se esqueceram de discutir a sua aplicação nos locais próprios, de usar todos os meios pacíficos e legais à sua disposição antes de atacarem cobardemente o elo mais fraco da cadeia. É muito triste ver que é o agricultor que chora e pede tolerância e é o suposto movimento ambientalista que usa a violência do número desproporcionado de pessoas para impôr os seus pontos de vista a meia dúzia de pessoas desarmadas.

E como se não bastasse tanta cobardia ainda oferecem sementes biológicas para fingir que são construtivos concluindo que é muito difícil conversar com os agricultores por estarem muito mal informados. Conversaram antes de homem para homem, ou de mulher para mulher ou as misturas de género que queiram? Ou foi só a coberto da superioridade numérica que quiseram conversar calmamente sobre as vantagens da agricultura biológica sobre o uso de transgénicos?

A agenda foi claramente assumida: "O objectivo é restabelecer a ordem ecológica, moral e democrática que tem sido constantemente deteriorada pelas políticas de União Europeia e pelo governo português".

Exactamente: cerca de cem pessoas acham que os seus pontos de vista políticos e morais podem ser impostos aos outros milhões de votantes que vivem em sociedades democráticas sem passaram pela maçada de convencer os outros e fazer aprovar democraticamente as suas propostas.

Enquanto é tempo é bom que o movimento ambientalista se demarque claramente destes cobardes com agendas violentas e anti-democráticas que usam linguagem ambientalista para procurar legitimar as suas acções e obter a vergonhosa complacência com que grande parte da comunicação social tratou este crime.

E que o Estado Democrático tenha o bom senso que não cair na armadilha da contra-violência sem perder um átomo da firmeza democrática que deve ter para punir exemplarmente estes criminosos, com as leis democráticas, que estes vândalos desprezam mas que respeitam o o seu direito de defesa, mesmo que os vândalos não tenham reconhecido o mesmo direito de defesa ao agricultor João Menezes.

henrique pereira dos santos