No meu post anterior já fui suficientemente claro quanto ao que penso sobre a inqualificável acção de um bando de vândalos cobardes em Silves.
Posto isto convém olhar um pouco mais de perto para a questão de fundos dos OGMs, o que me obriga a um post imenso com longas citações no fim, que só lerá quem quer.
O movimento anti-ogm reitera que há centenas de estudos que provam a nocividade dos OGMs para a saúde das pessoas.
Isto é pura e simplesmente mentira. Não há um único estudo que prove que os produtos aprovados para consumo humano provocam qualquer problema de saúde. Com cerca de 100 milhões de hectares de culturas transgénicas no mundo (mais de dez Portugais inteiros) e cultivados há mais de dez anos não há um único estudo credível, com peer review, que tenha identificado problemas sérios para a saúde resultantes de qualquer especificidade da tecnologia.
Quer isto dizer que não há nem haverá problema nenhum com os OGMs? De maneira nenhuma.
O problema com a saúde pode surgir em qualquer momento a partir de qualquer produto OGM, tal como vai acontecendo com os medicamentos, alimentos, brinquedos, pesticidas e etc., que vão sendo aprovados. E tal como acontece com muitos produtos naturais.
O que os OGMs podem trazer é uma maior variedade de oportunidades e uma maior velocidade de expansão aos potenciais benefícios e prejuízos de cada um dos seus produtos.
Qual é a questão nova específica da tecnologia quando sai dos laboratórios para o meio aberto?
É que se torna virtualmente incontrolável a sua expansão por polinização cruzada. Isto é, ao contrário de um medicamento que pode ser imediatamente retirado do mercado uma vez identificados os riscos que desaconselham o seu uso, não é possível retirar completamente o efeito da introdução de um novo produto na cadeia de reprodução de uma espécie, uma vez que esteja inscrito no seu código genético.
Os efeitos podem ser minimizados e o controlo pode ser melhorado, mas os custos sociais de procurar remediar a introdução e expansão de uma qualquer característica geneticamente impressa numa espécie podem ser brutais.
Talvez o paralelismo mais evidente seja com a introdução de espécies exóticas em novos meios, que tem efeitos admiráveis nalguns casos (o caso do milho, feijão e batata neste nosso cantinho, por exemplo) e tem efeitos de devastadores noutros casos, como é o caso da epizootias do coelho (e do próprio coelho na Austrália), virtualmente impossíveis de extirpar.
Do mesmo modo os efeitos na biodiversidade da introdução de novas variedades de espécies com características novas pode implicar uma substituição das variedades existentes por outras mais adaptadas e agressivas (quer sejam OGM, quer sejam híbridos), com perdas significativas para o nosso património biológico.
Ou seja, estamos a falar de uma das questões mais difícieis de enquadrar na gestão social das decisões: a decisão sobre riscos colectivos, neste caso dificilmente reversíveis.
E é aqui que o movimento OGM tem razão em dois pontos: os cidadãos tem todo o direito a ser informado; os programas de monitorização e produção de informação independente têm de ser substancialmente reforçados.
Se é compreensível a radicalidade de quem tem a noção da dimensão dos riscos e da sua irreversibilidade associados ao uso desta tecnologia em campo aberto, já nada justifica quer a permanente e despudorada manipulação da informação e a deriva violenta que claramente caracteriza o movimento anti-ogm.
Na produção da informação o movimento OGM tem posto toda a tónica nos riscos para a saúde e na toxicidade dos produtos OGM por razões de mera oportunidade política e social: a saúde individual mobiliza mais facilmente os cidadãos que riscos gerais de contaminação genética. E nesta sua procura de apoio social e financeiro não hesita em empolar riscos, manipular e mentir com o maior dos descaramentos. Faz até uma coisa interessantíssima que é assumir, em sentido inverso, o que considera o maior embuste da investigação sobre os efeitos dos OGMs: avalia os riscos para a saúde da proteína em causa e depois atribui os efeitos negativos, potenciais ou reais, à tecnologia.
Um dos mais curiosos aspectos da vulgata anti-ogm é o de que a produção científica produzida está inteiramente submetida aos interesses das multinacionais de biotecnologia. Tirando meia dúzia de cientistas e instituições que não são pagas pela indústria (são financiadas por donativos que dependem directamente do medo que cada um de nós sentir da tecnologia) tudo o resto não é fiável.
Isto é, o movimento anti-ogm entende que o sistema de produção de informação que assenta na elaboração de estudos feitos pelas empresas interessadas a partir de protocolos padronizados e revistos cientificamente, auditados posteriormente pelas administrações públicas de um conjunto de estados democráticos é menos fiável que a produção de informação feita por empenhados activistas e sem revisão independente.
Ora este tipo de argumentação só convence quem está convencido à partida, construindo cenários conspirativos permanentes para justificar toda a informação que não confirme a posição de partida. E conduz directamente à lógica de que os fins justificam os meios, a base seminal da violência sectária.
É pois preciso separar as águas.
Liberto das suas fragilidades e irracionalidades básicas, o movimento anti-ogm faz sentido enquanto movimento de cidadãos com direito a informação e participação na discussão do risco associado à disseminação por via genética de novos produtos mas também na discussão dos eventuais benefícios resultantes da nova tecnologia.
Numa atitude pré-iluminista quase todos os activistas anti-ogm já o eram antes da produção de qualquer informação científica sobre o assunto. Mas vale a pena lembrar nem sempre as intuições pré-iluministas estão erradas.
E neste caso é preciso ouvir o essencial sobre OGMs antes de tomar decisões precipitadas e irracionais. O que não inclui ouvir os vândalos de Silves, nem as companhias de biotecnologia, mas reforçar os mecanismos de informação e auscultação democrática de todos os cidadãos.
henrique pereira dos santos
Cito da Plataforma Transgénicos Fora:
Às três, será de vez?
Diz-se que há uma primeira vez para tudo. No caso dos organismos geneticamente modificados (OGM) a inocência terminou a 16 de Outubro de 1999 com a publicação, na prestigiada revista científica Lancet, do artigo de Ewen e Pusztai intitulado «Effect of diets containing genetically modified potatoes expressing Galanthus nivalis lectin on rat small intestine». Nele se relata a forma brilhante como se detectaram efeitos - inesperados e negativos - que as batatas transgénicas acarretaram aos animais que as comeram... mas não por causa da proteína transgénica presente no tubérculo. Ou seja, o processo de transgénese (independentemente da proteína a introduzir) pode acarretar alterações metabólicas específicas na planta, com consequências visíveis para a saúde, para além do que a proteína transgénica também possa induzir.
Este trabalho deveria ter levado, de imediato, a uma reavalição de todos os OGM em circulação. Isto porque, com base num dogma que só a fé pode explicar, os estudos de segurança alimentar assumem a seguinte equação como inquestionável: OGM = planta original + proteína transgénica. Por isso os ensaios de toxicidade de OGM são feitos, não com o OGM, não com a proteína extraída do OGM, mas sim com a proteína isolada de um microrganismo onde foi clonada. Mas, como Ewen e Pusztai mostraram, tal equação não podia estar mais longe da verdade. O todo é maior que a soma das partes e o produto a estudar tem de ser visto como alterado para além da mera adição proteica.
Mas não houve qualquer reavaliação - nem sequer um sobressalto por parte das autoridades competentes. Falta de tempo? de atenção? de cientistas para explicar?
Também se diz que à segunda só cai quem quer. Para os OGM a segunda veio pela mão de Manuela Malatesta. Esta cientista e a sua equipa da Universidade de Urbino publicaram em 2002 na revista Cell Structure and Function o artigo «Ultrastructural Morphometrical and Immunocytochemical Analyses of Hepatocyte Nuclei from Mice Fed on Genetically Modified Soybean» onde se demonstrava que o OGM mais cultivado do mundo - a soja transgénica 40-30-2 da Monsanto, que ocupa 58,6 milhões de hectares (57% da área global dedicada a transgénicos) - tinha um impacto profundo (embora reversível) no núcleo de hepatócitos. As mudanças incluiam alteração da forma do núcleo e dos nucléolos, maior número de poros na membrana nuclear e concentrações alteradas de numerosas proteínas, num quadro sugestivo de aceleração metabólica.
O dogma da Monsanto, de que os transgénicos são tal qual os alimentos convencionais de que derivam, pelo menos do ponto de vista nutricional, cai assim por terra. Além disso o fígado é um dos principais orgãos de depuração do organismo, e qualquer alteração metabólica representa motivo de preocupação a vários níveis. Mas os Estados-Membros da União Europeia, que no âmbito do artigo 20º da Directiva 2001/18 são obrigados a ter em conta novas informações relativas a riscos para a saúde humana por forma a que sejam tomadas medidas comunitárias adequadas, que podem chegar à proibição do OGM...
... não foram por aí. Ninguém foi. Falta de quê, desta vez? de vontade? de força?
Às três, como todos sabem, é de regra ser de vez. E ei-la que chegou agora mesmo: o artigo acabou de ser publicado online na revista Archives of Environmental Contamination and Toxicology e tem por título «New Analysis of a Rat Feeding Study with a Genetically Modified Maize Reveals Signs of Hepatorenal Toxicity». Os estragos, neste caso, referem-se ao milho MON 863, aprovado para consumo na União Europeia desde Janeiro de 2006. E os dados foram obtidos... pela própria Monsanto. Neste artigo é feito o tratamento estatístico dos números que a empresa se viu obrigada, após tribunal, a disponibilizar.
Os resultados? Toxicidade hepatorrenal, com aumento de até 40% dos triglicerídeos do sangue em ratos fêmea e uma redução de até 35% do fósforo e sódio na urina de ratos macho. Também se detectaram alterações no peso dos animais: os machos aumentaram um pouco menos de peso que os animais de controle, e as fêmeas aumentaram um pouco mais. Estes valores são estatisticamente significativos e estão directamente relacionados com o consumo do milho transgénico. O estudo durou apenas 90 dias e não existem dados sobre efeitos de longo prazo.
A questão agora é: vai acontecer alguma coisa ou a ciência afinal não serve para nada? Os Estados-Membros tencionarão cumprir finalmente o seu papel? Ainda é cedo para dizer, e a esperança só morre no fim. Mas a minha perspectiva muito pessoal é de que a saúde das pessoas não é a primeira prioridade, para o nosso e restantes governos. Talvez precisem de um empurrão.
Porto, 19 de Março de 2007
Margarida SilvaBiólogaVice-presidente da QuercusCoordenadora da Plataforma Transgénicos Fora
Cito da WiKipedia três comentários sobre controvérsias nesta matéria:
Safety disputes
[
edit] Toxic GM-potatoes
In August 1998 widespread concern, especially in Europe, was sparked by remarks by nutrition researcher, Dr
Árpád Pusztai, regarding some of his research into the safety of GM foods.
Pusztai claimed his experiments showed that rats fed on potatoes genetically engineered to express a
lectin from
snowdrop had suffered serious damage to their
immune systems and shown stunted growth. The lectin expressed by the genetically modified potatoes is toxic to insects and nematodes and is allegedly toxic to mammals. He was criticized by leading British politicians, the majority of scientific peers with expertise in the area and by the GM companies because the announcement of his results in a television interview, preceded the scientific publication of his results. When his studies were finally published in The Lancet,
[4] no evidence of stunted growth or damage to immune system was substantiated. The Lancet paper's actual summary was:
Diets containing genetically modified (GM) potatoes expressing the lectin Galanthus nivalis agglutinin (GNA) had variable effects on different parts of the rat gastrointestinal tract. Some effects, such as the proliferation of the gastric mucosa, were mainly due to the expression of the GNA transgene. However, other parts of the construct or the genetic transformation (or both) could also have contributed to the overall biological effects of the GNA-GM potatoes, particularly on the small intestine and caecum.
The paper was accompanied by an editorial explanation for allowing the paper's publication (Genetically modified foods: "absurd" concern or welcome dialogue?
[5]), and an independent critique which had a contrary evaluation of the data: Adequacy of methods for testing the safety of genetically modified foods.
[6] This was followed by a lively follow up debate in several later issues of the journal.
Nonetheless, controversy about Pusztai's assertions still lingers, caused by strongly held but opposing views on his conclusions and data. On the one hand, there are claims of misrepresentation of Pusztai's results by Rowett Research Institute, but on the other hand, there are concerns by scientists about overstatement of the quality of his findings by
non-governmental organizations, and emphasis on matters well removed from the actual laboratory observations which are rarely discussed in public debate, against the context well over one hundred other studies published by 2006 that support the safety of GM foods and feeds,
[7] and commentaries such as that of
Nina Fedoroff[8][9] .
Research protocols were sent by Pusztai to 24 independent scientists in different countries (including experts in physiology, medicine, toxic pathology, nutrition, microbiology and biochemistry).
[10] These disagree with the conclusions of the review committee and argued that his research was of good quality and justified his conclusions. Among 'casualties' in these events was Dr Andrew Chesson, vice chairman of European Commission scientific committee on animal nutrition and former top scientist at the Rowett Institute who was fired for publicly defending Pusztai's research.
Various reports concerning the politicisation of the peer review process and alleged deliberate misrepresentation of Pusztai's results were voiced by newspapers and some scientists.
[11][
edit] Dangerous corn
Another controversy recently arose around biotech company Monsanto's data on a 90-Day Rat Feeding Study on the MON863 strain of GM corn
[12]. In May 2005, critics of GM foods pointed to differences in kidney size and blood composition found in this study, suggesting that the observed differences raises questions about the regulatory concept of
substantial equivalence[13]The raising of this issue prompted the European Food Safety Authority (EFSA) to reexamine the safety data on this strain of corn. The EFSA concluded that the observed small numerical decrease in rat kidney weights were not biologically meaningful, and the weights were well within the normal range of kidney weights for control animals. There were no corresponding microscopic findings in the relevant organ systems, and all blood chemistry and organ weight values fell within the "normal range of historical control values" for rats
[14]. In addition the EFSA review found that the statistical methods used by Séralini et al in the analysis of the data were incorrect
[15]. The European Committee has approved the ΜΟΝ863 corn for animal and human consumption
[16].
Séralini et al have now completed a similar analysis of the NK603 strain of corn and have come to similar conclusions as they did in their previously discredited study
[17].
[
edit] Allergenicity
A gene for an allergenic trait has been transferred unintentionally from the
Brazil nut into genetically engineered soybeans while intending to improve soybean nutritional quality for animal feed use. Brazil nuts were already known to produce food allergies in certain people prior to this study. In 1993 Pioneer Hi-Bred International developed a soybean variety with an added gene from the
Brazil nut. This trait increased the levels in the GM soybean of the natural essential
amino acid methionine, a protein building block commonly added to poultry feed to improve effective protein quality. Investigation of the GM soybeans revealed that they produced immunological reactions with people suffering from Brazil nut allergy, and the explanation for this is that the methionine rich protein chosen by Pioneer Hi-Bred is the major source of Brazil nut allergy.
[18] Pioneer Hi-Bred discontinued further development of the GM soybean and disposed of all material related to the modified soybeans.
While this study indicates the possible risks of GM foods, and indeed any new food source, some point out it establishes the commitment the developmental community has toward consumer safety as well as the competence of current safeguards. Food allergy problems occur with many conventional foods, and Kiwi fruit, for instance, as a relatively new food in many communities, has become widely eaten despite provoking allergies in certain individuals.
Another allergy issue was published in November 2005, when a pest resistant field pea developed by the Australian
CSIRO for use as a pasture crop was shown to cause an allergic reaction in mice.
Respected plant scientist Maarten J Chrispeels has made interesting comments about this example that illustrate how foods offer many different types of risks:
The recent Prescott et al paper in JFAC contains a very interesting study on the immunogenicity of amylase [starch digestion enzyme] inhibitor in its native form (isolated from beans) and expressed as a transgene in peas. First of all, amylase inhibitor is a food protein, but also a "toxic" protein because it inhibits our digestive amylases. This is one of the reasons you have to cook your beans! (The other toxic bean protein is phytohemagglutinin and it is much more toxic). This particular amylase inhibitor is found in the common bean (other species have other amylase inhibitors). Even though it is a food protein, it is unlikely ever to be used for genetic engineering of human foods because it inhibits our amylases. What the results show is that the protein, when synthesized in pea cotyledons has a different immunogenicity than when it is isolated from bean cotyledons (the native form). This is somewhat surprising but may be related to the presence of slightly different carbohydrate chains.
[19]The immunologist who tested the pea noted that the episode illustrated the need for each new GM food to be very carefully evaluated for potential health effects.
[20]